terça-feira, maio 16, 2006

PCC,Estado e emergências fascistas


Leoonardo Wen/Folha Imagem


Boletim eletrônico mensal
do Nu-Sol - Núcleo de Sociabilidade Libertária
do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP
no. extra, maio de 2006
www.nu-sol.org

Não foi somente mais uma rebelião nos presídios. Há algum tempo já não se trata mais disso. No dia 11 de maio, quinta-feira, três dias antes do dias das mães, começou uma rebelião em favor de benesses à elite do PCC (Primeiro Comando da Capital ou Partido do Crime), e acertos de contas com o governo paulista e sua polícia, terminando na segunda-feira, 15 de maio, após mortes, incêndios, paralisações forçadas de escolas a empresas, boatos e mais boatos, e negociações concluídas com ordem passada pelo PCC a todas as prisões rebeladas para voltarem à normalidade.
Tudo começou em São Paulo e rapidamente se espalhou para outros estados (Mato Grosso, Espírito Santo, Paraná). Desta vez a rebelião não se restringiu às prisões de adultos na capital ou no interior. Ela vazou. Atingiu a Febem-SP e atravessou as cidades realizando execuções de policiais, incendiando ônibus, demonstrando força amedrontadora aos cidadãos apavorados.
A metrópole parou na tarde de 15 de maio. As pessoas corriam para suas casas e punham-se diante dos televisores ouvindo representantes governamentais, intelectuais, coordenadores de ONGs, anchor-men esbaforidos, todos querendo mais punições, mais reformas penais e medidas enérgicas contra o crime organizado. Eles quase pediram pena de morte quando exigiram prisão perpétua para encarcerar bandidos perigosos para sempre.
Com tamanho autoritarismo, muitas vezes travestido de defesa do bom cidadão, eles fortalecem a emergente configuração atual em que presos organizam-se numa estrutura análoga à do Estado, mas ilegalmente. Como velhos ressentidos estes paladinos da justiça não se cansam, também, de acusar os defensores dos direitos humanos como responsáveis pelo atual estado de ilegalismos, confundindo, propositalmente, a atuação destas organizações que combatem pocilgas com proteção ilegal a criminosos.
Aproveitam-se da situação para apavorarem mais ainda os espectadores e os navegadores de internet, identificando uma força a ser abatida, e pretendendo limpar o terreno para a continuidade dos fascismos. Eles pedem que o totalitarismo do PCC seja enfrentado pelo fascismo de Estado. Entretanto, no meio disso tudo aparecem as vozes equilibradas, os perfis democráticos, os planejadores de uma novo sistema em nome da justiça e da democracia. Reabre-se, então, o banquete de ONGs e institutos que vivem das desgraças da prisão propondo novidades por meio de propostas justas, na justa medida em que consagram o controle unificado, a coordenação institucional ou a fiscalização mútua.
Noutras ocasiões o PCC fazia rebeliões para afirmar seu poder diante dos prisioneiros buscando acabar com a luta pela hegemonia entre as diversas facções organizadas. Mostrava força internamente numa guerra objetiva, ao mesmo tempo em que iniciava tentativas de gestões diplomáticas com o Estado. Agora, controlando as prisões  a grande massa encarcerada cuja maioria se encontra em São Paulo , já estabelecido na Febem e articulado com os cidadãos livres (ex-prisioneiros, parentes de encarcerados, novos militantes) ele quer mais. O PCC busca legitimidade deflagrando uma iminente guerra e a suspendendo mediante negociações. Ele diz, à sua maneira, quantas organizações legais precisam de seu ilegalismos para continuar lucrando.
O PCC não pratica terrorismo. Ele procura uma via institucional para estruturar a representação ou o comando militar sobre a população encarcerada (seja ela composta exclusivamente de prisioneiros ou ampliada, com funcionários e técnicos, pois não há prisão em que prisioneiros e seus controladores não estabeleçam relações ilegais com ou sem telefones celulares). Não há crime sem legalidade e empregos úteis, sabemos há muito tempo! Mas a quem interessa a revelação dos legalistas que atuam neste fluxo de ilegalismos?
No início da noite de segunda-feira, depois de encerradas as negociações, as autoridades governamentais diziam que tudo estava sob controle. As autoridades intelectuais, pela televisão e imprensa, falavam de mais reformas no sistema penal, sobre a necessidade de ações enérgicas, como foram usadas as comunicações para propagar boatos, e mais uma outra vez de tolerância zero. O PCC avisou que faria uma ação em mais de um estado da federação e fez. Exigiu negociações com governos e as obteve. Comprometeu-se a encerrar as rebeliões e cumpriu. E ainda chamam o PCC de integrante do crime organizado? E ainda acham que é em nome do combate ao PCC que se deve investir mais em segurança?
O PCC mostrou que já é um Estado que governa sua população em diversos territórios de aprisionamentos chamados prisões, febems, favelas e periferias, nos bairros, cidades e estados, independentemente de continuidades fronteiriças. O PCC está organizado de maneira centralizada como um partido único e governa determinando ações descentralizadas visando a garantia de sua elite governamental e de seus súditos encarcerados. O PCC funciona por meio de pagamento de impostos, recrutamento de homens-bomba (não similares aos terroristas mas devedores que saldam dívidas atuando como sicários), articulação de milícias, tráfico de drogas, incluindo suas imediatas conexões legalizadas, retemperando as ilegalidades e escravizando seus devedores.
O Estado totalitário PCC assenta-se em dispositivos estratégicos bélico-diplomáticos, estruturados em um discurso familiar cujo ápice de sua consecução e execução está nas cabeças cortadas exibidas como troféus. Este é o expediente reservado aos traidores do partido. As degolas escancaram definitivamente a rigidez hierárquica combinada com afetuosas familiaridades que agregam irmãos e primos, circunscrevendo a obediência diante da autoridade superior para obter proteção e propagar assujeitamentos.
O PCC como Estado, que já pacificou as prisões com muita guerra, com seu estatuto e estrutura militarizada, exige paz no exterior, mostrando sua força com atos de violência que ensaiam uma guerra. O Estado legal e legítimo só têm uma maneira de lidar com este Estado totalitário: fazer negociações circunstanciais ou simplesmente dizimá-lo. A guerra e os novos tratados de paz já ultrapassaram os muros das prisões, avançaram sobre as periferias das grandes cidades e encontraram fluxos ilegais em ramos respeitosos da economia.
Não se acaba com o tráfico com mais repressão. Já constatamos isso nos últimos 20 anos, desde que se tentou justificar a ação internacional contra o narcoterrorismo e o narcotráfico na América Latina, Ásia e Oriente Médio. Muito menos com tolerância zero ou penas alternativas. Estas somente propiciaram o crescimento estatístico dos indivíduos penalizados, das ações criminalizáveis e da burocracia penal. Hoje em dia, quando nem o Exército controla o seu monopólio legal de armas, a indústria do controle do crime cresce e com ela os lavadores de dinheiro, as conexões ilegais, idem. Idem, idem, idem.
O fluxo moralista-repressor aumenta de velocidade e de densidade. Não se fala mais em liberar as drogas, este golpe mortal nos ilegalismos atuais que passam pelas prisões para adultos e jovens definitivamente conectadas, pelos vínculos ilegais reconhecidos como inevitáveis e pelas propostas fascistas constatadas no cotidiano das mídias. No horizonte só mais guerras em cujos percursos encontraremos emboscadas, ciladas, silenciosos extermínios e prováveis reaparições de esquadrões da morte.
Na era da globalização transita quem manda e pode, como sempre foi no capitalismo, sob o Estado-nação ou o vigente consórcio de Estados. As mães continuarão chorando lado a lado, num soturno velório. Uma sobre o esquife do filho policial; a outra sobre o do seu filho bandido. Ambos vindos do mesmo lugar: um tido como sangue bom; outro como sangue ruim. A dor aumenta, o sangue quente escorre, encharca nossos pés. Isto não se sente pela televisão ou rádio. É a vida nos campos de concentração que precisa continuar para que os ilegalismos dos bacanas não cessem. Nunca houve capitalismo sem ilegalismos e o PCC é somente um parceiro ilegal no capitalismo no Brasil. Será que só no Brasil?

sexta-feira, maio 12, 2006

Finisterra



Blog português sobre navegação, muito lindo. O link está ao lado, coluna da esquerda.

segunda-feira, maio 08, 2006

Sabedoria do grafite

Inesquecivel, que, parece, existia na Avenida Rebouças
"20 trilhões de moscas não podem estar erradas: merda é bom!"

domingo, maio 07, 2006

Estrela Solitária



O astro de cinema decadente larga a filmagem e sai pelo árido interior norte-americano.Volta para casa, encontra a mãe, que não vê há 30 anos. Vai em busca de um possivel filho, que deve ter a mesma idade e nunca conheceu.
É coisa de Wim Wenders e de Sam Shepard, coisa fina. De chorar, de pensar.
"Nada mudou", diz um empoado agente de seguros, que parte em busca do ator decadente e que precisa voltar às filmagens, proque empenharam muita grana nele e romper contrato lá é coisa séria. Algema o ator e na viagem comenta: "guerra do Peloponeso, Inquisição, conquista do México....." desfia uma série de merdas em que a raça humana tem se metido ao longo dos séculos para concluir isso: somos a mesma coisa, não aprendemos, não mudamos.
Anos atrás li uma noticia de jornal com o titulo do mais recente filme de Wenders "Der Himmel über Berlin". Escrevi na hora um poema com o mesmo título, sem saber do que se tratava, um poema que ninguém gosta, só eu, uma especie de soneto que nunca havia feito (http://www.secrel.com.br/jpoesia/elorenzotti.html)
Quando a obra de arte bate com a gente, parece que temos almas semelhantes, o criador e nós, espectadores. É esse o caso.Os alemães são incriveis, me diz uma amiga, eles foram os primeiros a traduzir a filosofia oriental( veja-se o I Ching com prefácio de Jung e tradução de Richard Wilhelm).
Asas do Desejo, o céu de Berlim, é sobre dois anjos que ficam escutando nosso pensamentos, sabendo de nossas tragédias e alegrias, mas nada podem fazer. Um deles quer ser humano e acaba concretizando o desejo. Quer sentir. A segunda parte é Tão longe, tão perto. Outro anjo cai na Terra.
De anjos e de homens, de estrelas solitárias, road moveis pelo árido, somos nós ali.
Na Estrela, uma menina joga as cinzas da mãe morta sobre a cidade em meio ao deserto. A imagem é linda e comovente. No fim, todos vamos procurar a origem, não é?
Nosso criador, nossos criadores. A família, para uns imprescindível, para outros não.
Um belo filme.

quinta-feira, abril 27, 2006

Por que as pessoas escrevem?

Trecho de matéria publicada no Caderno 2 de OESP dia 29 de março de 1999
O País dos escritores do cotidiano
Elizabeth Lorenzotti

Por que as pessoas escrevem? "Elas escrevem para criar um mundo no qual possam viver", disse Anais Nin (1903-1977). Para a escritora francesa, trata-se de uma atividade absolutamente vital. "Escrever deve ser uma necessidade, como o mar precisa das tempestades - é a isso que eu chamo respirar."
E que necessidade é essa, que se impõe não apenas aos (oficialmente) eleitos pelas musas, mas a tantas pessoas comuns? Por que, em um País considerado iletrado, onde a tradição oral é maior que a escrita - e esta tem barreiras muitas vezes intransponíveis -, as pessoas tanto escrevem? Não a escritura obrigatória do trabalho, do estudo, mas aquela que quer voar, transcender. E quer seja boa ou má literatura, é uma viva expressão da individualidade. E quer seja pretensão, exorcismo, orgulho vão ou pura arte deseja chegar ao outro.
Tanta necessidade de criar por meio da palavra escrita resultou em concursos promovidos pelos mais variados setores, em editoras especializadas no autor que não tem espaço no restrito cânone da literatura oficial, em oficinas de literatura e até mesmo em escola de escritores.
Na Bienal Nestlé de Literatura, em seis concursos, de 1981 até 1997, inscreveram-se 49.342 mil pessoas. O volume de obras era de tal forma inadministrável que os organizadores, a partir do penúltimo evento, em 1994 (com 15 mil inscrições), mudaram o regulamento e o nome do evento para Prêmio Nestlé de Literatura, limitando as inscrições a obras já editadas. Em 1997, foram julgados 800 livros.
De cada concurso da Casa do Novo Autor, estabelecida há 11 anos no eixo Rio-São Paulo, participam cerca de 2 mil pessoas (e já foram realizados 110, que publicam cerca de 200 autores por edição). E há tantos outros concursos espalhados pelo País. Herança do grave e fundo sentimento português pelo ato de escrever?
"Também escrevemos para aprofundar o nosso conhecimento da vida", dizia Anais Nin, consagrada especialmente pela exploração do mundo interior feminino em seus sete volumes de diários. "Escrevemos para aprender a falar com os outros, para testemunhar nossa viagem no labirinto; para abrir, expandir nosso mundo quando nos sentimos sufocados, oprimidos ou abandonados."
Escrita cotidiana - Abandonado, Raimundo Arruda Sobrinho, de 60 anos, mora no canteiro central da Rua Pedroso de Morais, esquina com a Praça Hernâni Braga, no Alto de Pinheiros, em São Paulo. Sentado em um banco, Raimundo fica ali, escrevendo, a maior parte do dia, todos os dias, há seis anos. Escravizado psiquicamente, como se define, diz que escreve o que precisa. "Não quero ser lido nem quero ler ninguém", proclama, fechando rapidamente a capa que cobre seus escritos.
Para quem escreve? "Escrevo para mim." E o que faz com a produção de todos esses anos? "Não interessa", rebate, ríspido. Quer saber por que tantas perguntas, é informado que se trata de uma pesquisa com pessoas que, como ele, gostam de escrever. " Vou processar todos, então tem gente me imitando?", esbraveja.
Quando se acalma, classifica a escrita em três tipos: a vulgar ( aquela do dia-a-dia), a profissional (de jornalistas, tabeliães, etc.) e a artística (dos poetas, dos escritores). "A minha é a escrita vulgar", diz Raimundo. Vai abrindo a capa que cobre os escritos - sim, ele quer que alguém leia - e surge uma minúscula brochura artesanal, sob o título O Condicionado. O texto, em boa caligrafia, bem construído, é o início de um ensaio sobre quanto as pessoas desconhecem a mente.
"Tudo conspira contra mim", queixa-se Raimundo. "Para escrever, tenho de enfrentar a sonolência, a caneta que falha e a chuva."

Borges

Na verdade, o escritor escreve sempre o mesmo livro, sob outro ângulo ou em outro tempo, em outra idade. Ulisses é uma continuação dos livros anteriores de Joyce, na mesma técnica de neologismos, mas seus contos são melhores, pois neste caso se percebe o escritor, não o filólogo. Com a passagem do tempo, um escritor descobre que as idéias devem ter uma expressão clara e precisa. Só assim criará emoções e atmosferas que ele deseja passar ao leitor. Se escrever uma palavra arcaica ou estranha no seu livro, esse termo só servirá para distrair a atenção do leitor. O ideal é uma frase em que todas as palavras tenham o mesmo valor. O leitor deve ler fluentemente, independente de assunto, seja filosofia ou metafísica.
Borges a Alberto Beutenmuller

segunda-feira, abril 24, 2006

Caio Fernando Abreu- 1

Acabo de ver na TV Cultura uma linda pequena matéria sobre ele, no programa Entrelinhas. Todos os que gostávamos de literatura e vivemos na ditadura conhecemos Caio Fernando Abreu. Principalmente pelo livro de contos Morangos Mofados, de 1982, que marcou a nossa geração.Eu o vejo, bem magro, em Porto Alegre (era gaúcho) onde foi morar, no fim, e onde morreu aos 47 anos. Diz que, se não fosse escritor, gostaria de ser jardineiro. E que plantou no seu jardim duas roseiras, uma de rosas vermelhas, Odete, em homenagem a Odete Lara, e outra, brancas, a Ligia Fagundes Telles. Amava as mulheres, especialmente as que faziam arte. Me ocorre, também, que os homossexuais, esse paradoxo, em geral amam muito as mulheres, tudo o que eles queriam ser...

Caio Fernando Abreu-2

O programa também reprisou um Roda Viva de 1991, com Rachel de Queiroz. Caio é um dos entrevistadores e diz algo que nunca se viu qualquer entrevistador fazer nesse programa, em geral laudatório. Ele diz: "Eu me sinto constrangido de estar aqui, e não quero ser constrangedor. Sinto-me constrangido por estar aqui para louvar uma pessoa da qual eu absolutamente discordo e que representa coisas que eu não prezo". Mais ou menos isso. Rachel foi comunista na juventude, tempos de " O Quinze", e mais tarde apoiou a ditadura. Foi interrompido abruptamente pelo mediador, o jornalista Jorge Escosteguy, que falou algo do tipo: você está aqui para fazer perguntas. E Caio: " Não vou fazer pergunta". Rachel, então, respondeu que vivemos em uma democracia e ela esperava que ele respeitasse suas posições. Caio falou que respeitava, sim. Então, ficou gravada para sempre a coerência desse homem, desse escritor corajoso -- porque ninguém da confraria intelectual cabocla jamais agiria assim. Ficou gravada a censura do jornalista, interrompendo a fala democrática de um participante do programa. Quanto à resposta da escritora, não tenho reparos a fazer.
Todos os três já estão mortos.

Caio e as pequenas epifanias


Esta crônica publicada no Estadão em 22 de abril de 1986 foi copiada, xerocada, passada de mão em mão. Hoje habita a internet. É uma das mais belas, delicadas e singelas da crônica brasileira, esse estilo tão nosso, tão singular deste país. Uma pérola.

Pequenas epifanias

"Dois ou três almoços, uns silêncios.Fragmentos disso que chamamos de “minha vida”. Há alguns dias, Deus – ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus –, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer – eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal – não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de “minha vida”. Outros fragmentos, daquela “outra vida”. De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector – Tentação – na cabeça estonteada de encanto: “Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível”. Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou – descuidado, também – em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.Era isso – aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

domingo, abril 09, 2006

When I'm 64!

Do Bebeto, o maior fã deles:

"Falar dos Beatles é falar de nossa história pessoal. Cada detalhe, cada gesto, música, ou fato desses então rapazes na década de 60 ficaram marcados em nossas vidas e memórias, para sempre.Feliz daqueles que viveram sob a influência da música dos Beatles e de todas as demais bandas da geração British Invasion. Não vou fazer nenhuma apologia e nem comparações com outros ídolos. É impossível comparar.
Esta crônica da Beth parece tão espontânea e tão natural, digna de quem vive todos os dias com Paul como ainda vivemos. Tomar chá com Paul que é exatamente como aí está. Dos Fab Four, Paul sempre foi o mais apaixonado pelo que faz e continua um cara simples e ainda apaixonado pelo “old and good rock´n roll”.
Yes, vamos tomar um chá com Paul McCartney, principalmente no dia 18 de junho deste ano, pois será uma data mais especial que nos outros anos, para todos nós. Paul completará 64 anos e poderemos relembrar Vera, Chuck and Dave.SIM, he got older, mas não perdeu o cabelo.
Se tenho um sonho de beatlemanáico ? Claro que tenho dentre muitos é o de comemorar os meus 64 anos com Paul . Ainda está um pouco longe este dia , mas será um Magical Mystery Tour . Vida longa, Paul. "