terça-feira, fevereiro 05, 2008

Crítica na Folha de S. Paulo




São Paulo, domingo, 20 de janeiro de 2008
+ livrosPara gostar de ler
Livro sobre o "Suplemento Literário", do "Estado de S. Paulo" expõe atual elitização da leitura

CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA
ESPECIAL PARA A FOLHA
M eio século e um ano atrás, "O Estado de S. Paulo" resolveu pagar bem a um grupo de intelectuais de primeira linha para produzir uma "apensa" ao jornal: seis páginas semanais dedicadas à literatura, sob o título de "Suplemento Literário". Basta mencionar os nomes dos editores e colaboradores para ter certeza da qualidade do produto: Antonio Candido, Décio de Almeida Prado, Paulo Emílio Salles Gomes, Lourival Gomes Machado, Leyla Perrone-Moisés, Nilo Scalzo, entre diversos outros. Quem ilustrava os textos dessa gente eram artistas como Aldemir Martins, Clóvis Graciano, Marcelo Grassman, Di Cavalcanti, Maria Bonomi, Hilde Weber, Renina Katz, Wesley Duke Lee, Livio Abramo.

A história deste marco da cultura brasileira, que viveu de 1956 a 1974, está relatada em "Que Falta Ele Faz!", de Elizabeth Lorenzotti. Trata-se de documento inestimável para a história do jornalismo e da vida intelectual do país. Dentre os registros que ele traz, de incalculável valor para os profissionais e estudiosos da comunicação atuais, está a reprodução fac-similada do projeto que Antonio Candido apresentou a Júlio de Mesquita Neto e Ruy Mesquita para o suplemento e foi integralmente aceito pelos diretores do jornal. Em toda a sua existência, o "Suplemento Literário" não sofreu censura nem pressões. O plano original foi cumprido à risca, independentemente das tensões ideológicas e econômicas que o país viveu, como relatam seus sobreviventes.

Mas a sociedade mudou, o jornalismo também e o suplemento acabou. Lorenzotti diz que ele faz falta. Mas o fato é que aqueles seus objetivos de "servir como instrumento de trabalho e pesquisa aos profissionais da inteligência" e "nunca transigir com a preguiça mental, com a incapacidade de pensar" talvez tenham deixado de fazer sentido no mundo contemporâneo. Sem pessimismo saudosista, é difícil fugir à realidade de que hoje em dia lê-se cada vez menos. Não só aqui no Brasil; no mundo todo. Sete minutos por dia O National Endowment for the Arts (entidade pública independente nos EUA) divulgou no ano passado pesquisa segundo a qual os jovens americanos entre 15 e 24 anos gastam em média sete minutos por dia de semana em leitura voluntária (ou seja, não como tarefa escolar obrigatória). A venda de livros nos EUA caiu de 8,21 por habitante/ano em 2001 para 7,93 em 2006. A despesa com livros por domicílio americano em 2007 foi a mais baixa em 20 anos, e o preço médio cresceu substancialmente -ou seja, as pessoas estão consumindo menos livros. No Brasil, embora as livrarias estejam comemorando um crescimento de 15% em seu faturamento em 2007 em relação ao ano anterior no bojo da onda do aumento generalizado do consumo, não há nenhum sinal de que o número de leitores ou que o tempo gasto em leitura estejam também subindo. Neste cenário, será que o "Suplemento Literário" ou algo do seu gênero teria como existir? Provavelmente não se o jornalismo se mantiver no mesmo rumo que tem seguido nas últimas décadas. No último quarto do século 20, o jornalismo impresso resolveu enfrentar o avanço dos meios eletrônicos sobre o consumidor de informação mimetizando os adversários. A fórmula mais apurada desse processo foi o diário "USA Today", que tentava aparentar-se a uma TV no papel. A estratégia deu certo por uns tempos. Mas, depois de cerca de 20 anos, o próprio "USA Today" resolveu editar textos mais longos e aprofundados, aparentemente convencido de que o público dos veículos impressos nunca mais irá crescer e exige material de qualidade superior. Na edição de 24 de dezembro da revista "The New Yorker", o escritor Caleb Crain especula sobre a possibilidade de que "a leitura de livros por prazer um dia se tornará o domínio de uma "classe de leitores" especial, à semelhança da que existiu até a segunda metade do século 19, quando chegou a leitura de massa". Ler ficção poderá se tornar um hábito arcano de uns poucos, que poderão desfrutar de prestígio social ou não. Se e quando isso acontecer, talvez os jornais impressos venham a ser o veículo preferencial dessa casta, e aí, então, produtos como o "Suplemento Literário" realmente farão falta e poderão voltar a existir.

CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA é livre-docente e doutor em comunicação pela USP e diretor de relações institucionais da Patri Políticas Públicas.

SUPLEMENTO LITERÁRIO - QUE FALTA ELE FAZ!
Autora: Elizabeth Lorenzotti
Editora: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (tel. 0/xx/11/ 6099-9800)
Quanto: R$ 40 (208 págs.)

John Edwards abandona a corrida


Do blog do professor Idelber Avelar, mineiro radicado em Tulane (EUA) , onde leciona no Departamento de Espanhol e Português da Universidade do mesmo nome, em New Orleans- postado dia 31 de janeiro( clique ao lado em Biscoito Fino)



Foi simbólica a despedida de John Edwards da campanha presidencial norte-americana. Ele viajou até aqui, New Orleans, onde havia começado a caminhada. Foi até o Lower Ninth Ward, bairro de Fats Domino, completamente devastado pela enchente que se seguiu ao furacão Katrina. Ali ele fez seu discurso .Além de emblemática musical e culinariamente, New Orleans é hoje o melhor retrato do fracasso do governo Bush, de seu descaso com os pobres, da falência do modelo entregue ao mercado que ele resolve. A cidade é também a mais eloqüente metonímia das dezenas de milhões de pobres que a América não consegue mais varrer para debaixo do tapete.
Edwards foi sua grande voz nestas eleições. Ele foi o único dos grandes candidatos a falar sistematicamente da pobreza e do colapso do sistema de saúde americano. Foi o único a enfatizar o simples fato de que o abismo entre os ricos e os pobres não diminui nos Estados Unidos, só aumenta. Não há como medir a importância que teve Edwards na campanha. Foi graças a ele que tanto Clinton como Obama se comprometeram com a proposta de um sistema genuinamente universal de assistência médica. Ele também foi o único dos grandes a encarar de frente a máquina de distorções da extrema-direita midiática americana. Em toda a base do Partido Democrata, pipocaram os agradecimentos ao longo do dia de ontem. Nas últimas cinco eleições presidenciais americanas que acompanhei diretamente, ele foi o único candidato que conseguiu empurrar o debate minimamente para a esquerda. Aqui em New Orleans, ele conquistou o respeito de todos ao mobilizar centenas de estudantes universitários e trazê-los à cidade no verão de 2006, para ajudar na reconstrução. A foto que ilustra o post (Fox News) é daquela época.
É óbvio que o apoio de Edwards a um dos candidatos pode ser decisivo. Imediatamente depois do anúncio da sua saída, tanto Clinton como Obama atualizaram seus websites com fotos de Edwards na página principal e agradecimentos a ele. Veículos de mídia que ignoraram e marginalizaram a mensagem de Edwards passaram a destacá-lo. Os funerais sempre foram ocasiões para elogios hipócritas.
São 6 da manhã na Costa Leste e a expectativa no campo de Obama é grande. Depois do discurso em New Orleans, Edwards falou com os dois candidatos restantes e arrancou deles a promessa de que o combate à pobreza seria central em suas campanhas e em seus eventuais mandatos. Edwards telefonou para Obama, mas a conversa com Clinton foi iniciativa desta última. Significará algo?