sábado, agosto 14, 2010

Bilhete para Bivar, de Roberto Piva



hoje é o dia que os

anjos descem nas

catacumbas de cimento

sem o aviso das

máquinas de empacotar

sem saltar sobre

caramanchões de poluição

disseminando comportamento

de Lacaio

é o momento do

último homem

e que dura mais

tempo

é o tempo do crime

& sua prova

a caveira que ri

na noite vermelha

a explosão demográfica

& a fome a galope

é o Sol mudo a

Lua paralítica

Drácula janta na

Esquina

E para que ser poeta

em tempos de penúria? Exclama

Hölderlin adoidado

assassinos travestidos em folhagens

hordas de psicopatas

atirados nas praças

enquanto os últimos

poetas

perambulam na noite

acolchoada

sexta-feira, agosto 13, 2010

Eclipse

"Para que servem poetas em tempo de indigência?"

"E para que ser poeta em tempos de penúria", é a citação de Roberto Piva ao grande Hölderlin, base do poema longo que cito na postagem mais abaixo, de Fernando Monteiro, lançado dia 12.

Brot und Wein, Hölderlin, sétima estrofe

Tradução Maria Teresa Dias Furtado, em Elegias, da Assírio e Alvim

Mas nós, amigo, chegamos demasiado tarde. Certo é que os deuses vivem,
Mas acima de nós, lá em cima, noutro mundo.
Aí o seu domínio é infinito e parecem não se importar
Se estamos vivos, tanto nos querem poupar.
Pois nem sempre pode um frágil vaso contê-los,
O homem apenas algum tempo suporta a plenitude divina.
Depois toda a nossa vida é sonhar com eles. Mas os erros,
Tal como o sono, ajudam, e a necessidade e a noite fortalecem,
Até que haja suficientes heróis, criados em berço de bronze,
De coração corajoso, como dantes, semelhantes aos Celestiais.
Depois eles chegam, trovejantes. Entretanto penso por vezes
Que é melhor dormir do que estar assim sem companheiros,
Nem sei perseverar assim, nem que fazer entretanto,
Nem que dizer, pois para que servem poetas em tempo de indigência?
Mas eles são, dizes, como sacerdotes santos do deus do vinho
Que em noite santa vagueavam de terra em terra.

quinta-feira, agosto 12, 2010

Lá como cá

Li no blog português Outra Margem, que por sua vez achou em outro citado aí abaixo.

Josefa, 21 anos, a viver com a mãe. Estudante de Engenharia Biomédica, trabalhadora de supermercado em part-time e bombeira voluntária. Acumulava trabalhos e não cargos - e essa pode ser uma primeira explicação para a não conhecermos. Afinal, um jovem daqueles que frequentamos nas revistas de consultório, arranja forma de chamar os holofotes. Se é futebolista, pinta o cabelo de cores impossíveis; se é cantora, mostra o futebolista com quem namora; e se quer ser mesmo importante, é mandatário de juventude. Não entra é na cabeça de uma jovem dispersar-se em ninharias acumuladas: um curso no Porto, caixeirinha em Santa Maria da Feira e bombeira de Verão. Daí não a conhecermos, à Josefa. Chegava-lhe, talvez, que um colega mais experiente dissesse dela: "Ela era das poucas pessoas com que um gajo sabia que podia contar nas piores alturas." Enfim, 15 minutos de fama só se ocorresse um azar... Aconteceu: anteontem, Josefa morreu em Monte Mêda, Gondomar, cercada das chamas dos outros que foi apagar de graça. A morte de uma jovem é sempre uma coisa tão enorme para os seus que, evidentemente, nem trato aqui. Interessa-me, na Josefa, relevar o que ela nos disse: que há miúdos de 21 anos que são estudantes e trabalhadores e bombeiros, sem nós sabermos. Como é possível, nos dias comuns e não de tragédia, não ouvirmos falar das Josefas que são o sal da nossa terra?

Ferreira Fernandes, DN, 12.08.10.
Cheguei lá via
bombeirosparasempre

quarta-feira, agosto 11, 2010

"E para que ser poeta em tempos de penúria?"

O simpático Substantivo Plural, lá do Rio Grande do Norte, vai publicar amanhã, dia 12 de agosto de 2010, às 14:56 , o poema longo “E PARA QUE SER POETA EM TEMPOS DE PENÚRIA?”, do escritor pernambucano Fernando Monteiro.
O título é um verso retirado de poema de Roberto Piva, que faleceu recentemente. O poema homenageia Piva e ao mesmo tempo reage com vigor à atual cena cultural/literária brasileira.
Também homenageia o editor Massao Ohno.

No sábado, 14, às 15h, o poema será lido durante a Flash Mob, na Bienal do Livro de São Paulo.

Um trecho


A pergunta de Piva – essa fissura –
revela meramente o que ela revela,
pois o cão do derradeiro livro
não produziria um ganido,
ao latir para tímpanos blindados
pela incultura.

É claro que faltavam conforto, vinhos
e rosas,
sendo parcas as rendas do herdeiro
de antigas terras sumidas
com roseirais na bruma.
E poucos os meios (mais do que os fins)
para os longos fins de semana,
o garoto da banca de revistas,
a importada edição dos inéditos
de Pier Paolo Pasolini.

Tudo tão verdadeiro quanto distante
da essência de outras penúrias
entre esquinas de garoas
e galerias de arte em vernissages
cujo rumor de cálices noturnos
chega aos guardadores de carros
como a música do paraíso
de inalcançáveis perdizes.

Para que ser poeta em tempos assim?

terça-feira, agosto 10, 2010

domingo, agosto 08, 2010

A mercantilização do jornalismo cultural

Escrevi sobre esse tema a pedido do professor José Salvador Faro, da PUC e da Metodista.

Pra quem se interessa sobre o assunto, vão os links

http://www.jsfaro.net/2010/08/elizabeth-lorenzotti-ve-o-jornalismo.html

http://linkjsfaro.blogspot.com/2010/08/elizabeth-lorenzotti-industria-cultural.html

sábado, agosto 07, 2010

Atrás dos olhos das meninas sérias


De Manuel Bandeira

Mas poderei dizer-vos que eles ousam? Ou vão
por injunções muito mais sérias, lustrar pecados
que jamais repousam?

sexta-feira, agosto 06, 2010

Adoniran


AE - Agência Estado
O centenário de Adoniran Barbosa é comemorado hoje com diversos eventos espalhados pela cidade de São Paulo. Mas as gafes e injustiças envolvendo o compositor nascido em Valinhos, no interior de São Paulo, no dia 6 de agosto de 1910, já deram o ar de sua graça este ano. O sambódromo paulistano, no Anhembi, leva o nome de Adoniran, mas, no desfile carnavalesco, em fevereiro, nenhuma das 14 escolas do grupo especial rendeu homenagens ao maior sambista de sua terra.
Em entrevista em fevereiro, o jornalista e historiador Celso de Campos Jr., biógrafo de Adoniran, e Maria Helena Barbosa, filha do compositor, falaram da falta de patrocínio e incentivo para criar o museu Casa Adoniran Barbosa. Seis meses depois, a situação felizmente começa a evoluir. O material relativo ao compositor - como documentos pessoais, a famosa aliança feita com a corda do cavaquinho, de "Prova de Carinho", de fotografias, discos, partituras, roteiros raros de programas de rádio -, recuperado do Museu da Imagem e do Som (MIS), no fim de 2009, recebeu pela primeira vez tratamento de preservação feito por profissionais.
"Não adiantava apresentar o projeto de uma Casa Adoniran sem esse cuidado. Profissionais da Associação dos Arquivistas de São Paulo fizeram um trabalho que durou cerca de cinco meses, catalogando, organizando, separando por suportes adequados e acondicionando de forma correta todo o material. É uma espécie de inventário do que tem no acervo, um primeiro passo para a criação do museu", explica Campos Jr.
A curadoria do acervo não poderia estar em melhores mãos, ficando sob os cuidados do próprio Celso Campos Jr., que relançou este ano "Adoniran, Uma Biografia", trabalho mais completo já feito sobre vida e obra do sambista. O autor participa de um dos eventos mais interessantes em relação ao centenário daquele que por meio de seus sambas se tornou um dos maiores cronistas dos tipos, personagens e costumes da Pauliceia. Amanhã, na Feira de Artes da Praça Benedito Calixto, em Pinheiros, o jornalista e historiador participa do Autor na Praça, autografando a biografia no encontro que contará também com Sérgio Rubinato, sobrinho que entoará alguns dos clássicos do tio Adoniran. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

quinta-feira, agosto 05, 2010

Índio Juruna

Fotos Pedro Martinelli


Peguei do blog do Pedrão Martinelli, ser humano que fotografa e resgata historias com sensibilidade ímpar. Esse lugar me parece a ex-redação da sucursal de O Globo aqui. Mas o figura aí em cima ainda nao tinha relógio de pulso, nem essa camiseta chique quando pintou na redação da rádio Tupi, no século passado, falando o que não dava pra entender metade e fazendo denúncia.(Foi o primeiro lugar onde chegou, daí pra frente , mídia a todo o vapor.)
Espichou o olho no gravador, pediu, nao pude dar. Ficou famoso por gravar as promessas de políticos, antes de se tornar um. Nao tinha onde ficar, arrumamos pousada, fiquei com medo de entrar com um índio onde morava, no apê da Vila Buarque.
País doido esse.