domingo, novembro 08, 2009

Acredite sempre nos seus companheiros




Ken Loach é um grande diretor do cinema inglês, fez o inesquecível “Terra e Liberdade”, sobre a guerra civil espanhola. Há tempos não via seus trabalhos. Este “À procura de Eric” é imperdível. Nesses tempos, sempre procuramos por esperança. E Loach, um cineasta de temas pesados, resolveu enveredar por ela. Não a toa faz uma crítica engraçadíssima aos livros de auto-ajuda, quando um grupo de carteiros – profissão do personagem principal- se reúne para relaxar.
Quando pensamos que a tragédia se espalhará pelo filme, há uma saída bem humorada, emocionante e cheia de esperança.
Eu não sabia quem é Eric Cantona, eu que não tenho a menor idéia sobre futebol. Depois soube que é um francês e foi camisa 7 do Manchester nos anos 90, um grande jogador e meio rebelde.
Cantona aparece para o carteiro, num momento desesperado da vida do xará, e vira seu conselheiro. Quando o carteiro pede para que ele diga qual o maior momento da sua vida profissional, e imagina que tenha um sido um gol, lembrando tim-tim-por-tim-tim cada jogada -- essa incrível capacidade que têm os homens de reproduzir jogadas, nem que sejam do século passado – Cantona diz que não foi um gol, mas um passe.
Uma deixa para Loach passar sua mensagem de fé na solidariedade. Parece que isso é verdade mesmo, um passe que resultou num gol de um tal Giggs. Quando o carteiro pergunta se o jogador não teve medo de que o companheiro não fizesse o gol, Cantona diz: “precisamos acreditar nos nossos companheiros. Acredite sempre nos seus companheiros”.
E é por aí que o carteiro se salva.
É bom ver isso, mesmo na ficção. Que acreditar nos amigos, nos companheiros, ainda é o caminho. Torço por isso.






Manifestações a favor da minissaia

Do blog É tudo política

Alunos da Uniban preparam uma manifestação pró minisaia na unidade de São Bernardo, a mesma que Geisy Arruda viveu momentos de terror ao ser hostilizada por mais de 700 pessoas quando chegou à aula trajando um minivestido pink. O fato levou à sua expulsão da instituição de ensino. O manifesto, que pode ocorrer também em outras unidades da Uniban, é previsto para a próxima sexta-feira, dia 13.

A magnífica criatura que preside a Uniban


Leio na internet que o magnífico reitor da Uniban, Heitor Pinto e Silva casou-se em dezembro de 2007, com direito a matéria na revista Caras. Trajando um modernoso smoking de comprimento acima do habitual, um redingote- designação tradicional para vestido feminino- e sapatos Manolo Blanik de “prepúcio de baleia branca”.

sábado, novembro 07, 2009

Aluna da Uniban é expulsa: outro tijolo no muro

estadao.com.br

SÃO PAULO - A Universidade Bandeirante informou em anúncio publicado em jornais paulistas neste domingo, 8, que decidiu expulsar a aluna Geisy Arruda de seu quadro discente. A estudante do curso de Turismo sofreu assédio coletivo no último dia 22 de outubro por ir ao campus de São Bernardo do Campo da faculdade com um vestido curto. O episódio ganhou repercussão na internet após vídeos do tumulto serem postados no 'You Tube'.

No anúncio publicitário, intitulado ' A educação se faz com atitude e não com complacência' a universidade diz que tomou a decisão após uma sindicância interna constatar que a aluna teve uma postura incompatível com o ambiente da universidade, frequentando as dependências da unidade em trajes inadequados. Para a Uniban, Geisy provocou os colegas ao fazer um percurso maior que o habitual, desrespeitando princípios éticos, a dignidade acadêmica e a moralidade.A universidade afirma ainda que foi constatado que "a atitude provocativa da aluna resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar". Ainda assim, o conselho superior declarou na nota que suspendeu temporariamente os alunos envolvidos e identificados no incidente. A Uniban também criticou o comportamento da imprensa na cobertura do caso. Segundo a universidade, a mídia perdeu a oportunidade de contribuir para um debate 'sério e equilibrado' sobra ética, juventude e universidade.





Heitor Pinto é o magnifico reitor, que começou com um cursinho nos anos 70 na zona norte, comprou colégio, fundou faculdade e virou universidade. A trajetória do crescimento do ensino privado, que veio a dar nisso que vemos hoje.

Na avenida Braz Leme, a Uniban funciona no mesmo prédio de uma revendedora de carros.

Em São Bernardo, no ex- centro de pesquisas da Ford.

O homem gosta de carro e acha que é a mesma coisa que gente.

Com disse o amigo

Henrique Marques Porto

"As inscrições para o vestibular da Uniban estão abertas.Meninas e meninos! Não se inscrevam!Quase ia escrevendo “unibando” pensando no reitor e em quem mais decidiu pela expulsão da moça. Inacreditável que isso ocorra em nossos dias.A propósito, o reitor da Uniban é o Prof. Dr. Heitor Pinto Filho. Mensagens à magnífica criatura podem ser enviadas para o e-mail reitoria@uniban.br

Como disse o Zé Eduardo:

"Para mim o que está em jogo nesse caso não tem nada a ver com o comprimento do vestido. É, de novo, a liberdade da mulher. Até agora por um bando de arruaceiros de opção sexual duvidosa. Mas agora é muito mais grave. Por uma instituição que se diz dedicada a formar jovens. Ela os forma ou elas os castra?"

Ele também acha que as mulheres deveriam se recusar a entrar na Uniban, e perguntou se nenhum movimento feminista encabeçaria?

Não sei se existe organização para isso, como nos anos 70, em plena ditadura, e quando não se tentava estuprar alunas de minissaia.

Não sei.

sexta-feira, novembro 06, 2009

Lévi-Strauss e o budismo

Durante três anos frequentei um curso de budismo no templo Higashi Honganji, na avenida do Cursino, em Sampa, com aulas de ilustrissimos monges, entre eles o professor Ricardo Gonçalves.
Que bela e delicada filosofia a da Verdadeira Escola da Terra Pura.
Leio em uma lista do Budismo Shin a referência a um trecho interessantisismo de Lévi-Strauss sobre o budismo:


"Caríssimos Irmãos no Dharma

A República Acadêmica Mundial está de luto: o implacável vento da impermanência arrebatou de seu convívio, na noite de sábado para domingo, um de seus menbros mais ilustres, o antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908-2009). Além de ter sido o pai da Antropologia e Estrutural, um importante precursor do pensamento ecológico e ambientalista contemporâneo e um grande amigo do Brasil, onde iniciou sua carreira de pesquisador e professor lecionando Sociologia na Universidade de São Paulo entre 1935 e 1938, ele foi também, o que poucos sabem, um dos mais lúcidos intérpretes ocidentais do budismo Ele entendeu o budismo muito melhor do que muitos orientalistas profissionais. Ele valorizava o budismo por ser uma religião eoológica que não estabelece uma dicotomia radical entre Homem e Natureza.

No último capítulo de seu livro "Tristes Trópicos" (1955) desenvolve ele importantes considerações sobre o budismo. Apresento abaixo um breve trecho, à guisa de ilustração:

"Os homens fizeram três grandes tentativas religiosas para se libertarem da perseguição dos mortos, da maleficência do Além e das angústias da magia. Separados pelo intervalo de aproximadamente meio milênio, conceberam sucessivamente o budismo, o cristianismo e o islamismo; e é impressionante que cada etapa, longe de marcar um progresso em relação à precedente, antes testemunha um retrocesso.

Não há vida futura para o budismo; nele tudo se reduz a uma crítica radical de que a humanidade nunca mais deveria mostrar-se capaz, à qual o sábio acede, numa recusa do sentido das coisas e dos seres: disciplina que anula o universo e se anula a si própria como religião. Cedendo novamente ao medo, o cristianismo restabelece o outro mundo, as suas esperanças, ameaças e o seu juízo final. Ao islamismo só resta encadeá-lo a esse mundo: o mundo temporal e o mundo espiritual acham-se reunidos...
Com efeito, que outra coisa aprendi dos mestres que escutei, dos filósofos que li, das sociedades que visitei e desta própria ciência de que o Ocidente extrai o seu orgulho senão fragmentos de lições que, unidos uns aos outros, reconstituem a meditação do Buda junto da árvore? Todo o esforço para compreender destrói o objeto pelo qual nos tínhamos interessado, em proveito de um objeto de natureza diversa; exige de nossa parte um novo esforço que o elimina, em proveito de um terceiro, e assim por diante até que tenhamos acesso à única presença duradoura, que é aquela em que se desvanece a distinção entre o sentido e a ausência de sentido; a mesma de onde partíramos.

Eis que já são decorridos 2.500 anos desde que os homens descobriram e formularam essas verdades. Desde então, nada descobrimos, a não ser - experimentando, umas após outras, todas as portas de saída - outras tantas demonstrações suplementares da conclusão à qual teríamos querido escapar.
(Claude Lévi-Strauss - "Tristes Trópicos", Lisboa, Edições 70, pags. 387-390)

Que o Buda Amida acolha o Velho Mestre na Luz Serena de sua Terra Pura Ocidental!
NAMU AMIDA BUTSU
Gasshô,Shaku Riman

Luar de 25 de janeiro




Ô grande leão

solto no vale debaixo do Viaduto
sacode a juba mansa bafejada por Deus
e derrama nas pessoas sobre o asfalto seco
o mel da harmonia
como se leão não fora
mas floripôndio da praça de Andradina
E nos cem mil corações o mel se instala
e ficamos tão doces, tão bons e tão belos
quanto sempre poderíamos ser

Essa perspectiva nos ilumina

A lua despe a cidade dos maus humores
de tudo quanto é estúpido, cruel, triste, desurbano

Ô grande leão
floripôndio
luar de janeiro
transcidadão

Nós velamos por você nestas noites brasileiras

quinta-feira, novembro 05, 2009

Os imigrantes que voltam e o sonho brasileiro

Deu no jonal português Público:

Brasileiros são três quartos do total
Triplicaram os pedidos dos imigrantes que querem regressar ao país de origem
05.11.2009 – 07:36 Por António Marujo
Aumenta de dia para dia o número de imigrantes brasileiros que querem regressar ao seu país. Este ano, só até final de Outubro, a Organização Internacional para as Migrações (OIM) recebeu, no escritório de Lisboa, um total de 854 pedidos de retorno ao país de origem – mais do triplo dos que se registavam em 2006. Desses, 653 são de brasileiros.


Conversei em junho no avião de volta de Madri para Sampa com um brasileiro que há 5 anos trabalha como garçon em Londres. Chegou a tirar R$ 5 mil por mês, mas com a crise mundial, tinha de trabalhar em dois empregos e não chegava à metade do salário.
Diz que vivia das gorjetas, pagava até aluguel com elas, mas agora...
Voltava paa visitar a familia no interior do Paraná, ainda ia pegar um ônibus e viajar mais 12 horas, além das benditas 12 horas sacolejantes no avião.
Ficou felicissimo quando Obama elogiou Lula e saiu na imprensa mundial. Não imaginamos aqui o que significa isso para um imigrante no primeiro mundão.
Agora pensa em abrir um bar ou lanchonete na sua cidade, que esqueci o nome. Também casou por lá, não por amor, mas para tirar o visto. Precisam morar ambos, mesmo separados, no mesmo lugar por três anos e nosso compatriota está quase conseguindo.
Ele falava naturalmente no negócio dos casamentos entre imigrantes do mesmo país: "O pessoal vai passando, fulana quer casar, e daí se faz o negócio". E quando soube da minha dupla cidadania, não entendeu por que eu não me animava com um negócio assim, de cerca de 7 mil libras....
Não me lembro o nome do brasileirinho jovem e bonito. Mas com essa notícia, vejo que outros tantos estão pensando como ele, mais em voltar do que em ficar. Sabe lá como vão se virar por aqui, mas já mandaram um bom dinheirinho pra família e muitos podem abrir seu negócio, o sonho brasileiro de viver sem patrão.
Anos antes- decada de 1990- também conheci numa viagem a Cuba alguns brasileirinhos mineiros- garçons, pedreiros, operarios. Calados.Voltaram no mesmo avião, 10 dias depois e disseram que na verdade, queriam fugir pros EUA via Cuba, vejam só que idéia. Não conseguiram e , por nao entender uma palavra de espanhol, também quase nem comeram nada, só pizza.

O aivão tinha uma parada na Venezuela, onde ficamos horas. Nunca mais vi os mineirinhos, que mostravam o dinheiro que tinham pra quem quisesse ver, e talvez algum malandro venezuelano tivesse visto. O que teria acontecido aos rapazes, tão humildes?
Eta mundo onde as mercadorias têm trânsito livre ( free market, para a ativista e grande jornalista Naomi Klein é uma conspiração entre governos e corporações) mas não os homens.
Tsc.

quarta-feira, novembro 04, 2009

Vida e escritura

Caetano Veloso escevendo sobre Lévi-Strauss diz que sentia uma certa tranquilidade por saber que, mesmo distante o antropólogo estava por aí, como Niemeyer e sua mãe, Canô, ambos com mais de 100 anos.
Os longevos nos dão esperança, assim como minha tia Judith, 96 anos , especialmente se são pessoas legais.
Bob Lester, ex-integrante do bando da Lua, que acompanhava Carmem Miranda, apresentou-se na TV ontem tocando castanholas e sapateando, uma figura também aos 96 anos.

Mas eu queria dizer é que sinto essa certa tranquilidade quando passo semanalmente na Pedroso de Moraes e vejo seu Raimundo Arruda Sobrinho, que vive debaixo dos seus plásticos, no canteiro, escrevendo sob sol e chuva.
Ele é um dos escritores de Sampa, certamente o que mais leva a sério a missão.

terça-feira, novembro 03, 2009

Viva Lévi-Strauss

Morreu mais um mestre. Ano passado ele fez 100 anos. Esta é uma matéria minha publicada pelo caderno Eu & do Valor Econômico.Olhem só o que ele dizia, há mais de 20 anos:
Constatando que não vivemos em uma época brilhante em termos intelectuais declarou, há mais de vinte anos, que “existem períodos particularmente notáveis, do ponto de vista da produção intelectual, e períodos de vazio, e acredito que a atual fase é do segundo tipo”.

Os 100 anos de um mestre

O antropólogo que ajudou a desvendar mitos da América recebe homenagens na sua travessia do século

Por Elizabeth Lorenzotti
28, 29 e 30 de novembro de 2008

Até o ano passado o mestre ainda usava o metrô para suas atividades, entre elas participar das reuniões da Academia Francesa, da qual é membro desde 1973. Nesta sexta-feira, 28, mais recolhido (após uma queda locomove-se em cadeira de rodas), porém lúcido como sempre, o “arqueólogo do espaço”, como ele se definiu em Tristes Trópicos (1955) -- a clássica narrativa de sua viagem de estudos entre os índios no Brasil -- o viajante que detestava viagens completa 100 anos de prodigiosa travessia no breve século 20.
O grande pensador recebe, hoje, mais homenagens em Paris: um dia inteiro dedicado a Claude Lévi-Strauss no Museu du Quai Branly. E recentemente obteve mais uma consagração: foi incluído na Biblioteca da Pléiade, a coleção mais prestigiosa da França, que publica grandes obras de referencia do patrimônio literário e filosófico mundial.
Belga, filho de pais franceses, iniciou sua carreira universitária, aos 26 anos, no Brasil, nomeado professor da recém-criada Universidade de São Paulo (1935-1938).
Ele mesmo declarou que, durante aquele período “o que mais me interessava não era dar aulas, mas fazer pesquisas de campo. Então, aproveitava minhas férias para viajar. Na primeira vez, conheci pequenas populações de língua tupi na região Sul, Paraná e Santa Catarina. Depois aproveitei três meses de férias e passei uma temporada maior com os caduvéus, na fronteira com o Paraguai, e outra com os bororos, no centro de Mato Grosso. Por fim, a terceira missão, que preparei durante todo um ano, me levou às terras dos nhambiquaras e outras populações que vivem no norte de Mato Grosso”. As expedições foram patrocinadas pelo Departamento de Cultura de São Paulo, dirigido por Mário de Andrade.
Há uma versão de que Lévi-Strauss teria sido demitido da USP -- onde mais tarde recebeu o título de doutor honoris causa -- por ser comunista. O professor Antonio Candido de Mello e Souza, que estudou nas primeiras turmas da Filosofia da Universidade, nega: “A direção da faculdade achava que ele devia dar aulas, e não fazer suas pesquisas viajando. Ouvi de alguém que Julio Mesquita pensava o mesmo. Strauss era amigo do Paul Rivet, etnólogo francês que também estava no Brasil, um socialista, aliás amigo de Mesquita.Ele foi simpático ao socialismo, mas não era comunista”.
De volta à Europa convulsionada, em 1941 suas pesquisas renderam um convite para dar aulas na New School for Social Research de Nova York, onde também escapou à perseguição nazista. Lá conheceu a lingüística estrutural de Roman Jakobson, sua mais importante influência teórica. Em 1948 defendeu tese de doutorado, publicada em 1949: As estruturas elementares do parentesco, marco fundador da antropologia estrutural.
Segundo o antropólogo, o estruturalismo “é um esforço para aplicar, na medida do possível, o pensamento científico àquelas áreas que chamamos, impropriamente, de ciências sociais, ou ciências humanas. Digo impropriamente porque elas não são, nem nunca serão, ciências. Um etnólogo, por exemplo, está envolvido demais com o objeto de seu estudo para abandonar os preconceitos e as formas de pensamento que herdou. Isso se explica, no fundo, pelo fato de que as chamadas ciências sociais e ciências humanas não são coisas que se possam isolar do mundo real. Podemos progredir um pouco em seu conhecimento, mas isso é tudo”.
Na década de 1960 o estruturalismo virou moda, segundo Lévi-Strauss, “graças a uma série de mal-entendidos. As pessoas imaginavam que se tratava de uma nova filosofia para a era industrial e tecnocrática, e poderia resolver todas as questões do mundo...”.
Desvendador do Outro por excelência dos europeus, os ameríndios, Lévi-Strauss concluiu que as sociedades estudadas pela etnologia seriam “frias” em relação às modernas. “São sociedades que produzem extremamente pouca desordem, isso que os físicos chamam de “entropia”, e têm uma tendência a se manter indefinidamente no seu estado inicial, o que aliás explica que para nós elas se pareçam como sociedades sem história e sem progresso”. Mas observou que as sociedades modernas precisariam incorporar algumas lições das primitivas, para o bem de ambas.
Hoje, especialistas apontam que o desenvolvimento de sua obra se dá, na realidade, no Brasil, principalmente no trabalho do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, professor do Museu Nacional, no Rio de Janeiro.
Para Beatriz Perrone-Moisés, professora do Departamento de Antropologia da USP, “as idéias de Lévi-Strauss continuam bem vivas, gerando conhecimento e sugerem múltiplas possibilidades a serem ainda exploradas”.
Ela tem traduzido, com os cumprimentos do mestre, desde 2004, pela Cosac Naify, a edição integral da tetralogia Mitológicas, começando por O cru e o cozido. Ponto culminante de sua obra, Mitológicas analisa um conjunto de 813 mitos de diferentes povos indígenas do continente americano. Em 2005 foi lançado o segundo volume, Do mel às cinzas, e em 2006, A origem dos modos à mesa. Para 2009 está previsto o lançamento do último volume, O homem nu, estes três traduzidos no Brasil pela primeira vez.
No dia 11 de dezembro, no fim do ciclo Os sentidos de Lévi-Strauss, promovido pela USP, será lançada nova tradução de Antropologia estrutural, publicado originalmente em 1958. Nos textos, escritos entre 1944 e 1956, Lévi-Strauss faz relações da antropologia com a lingüística, a psicanálise e a arte, e analisa o ensino da disciplina. Também no dia 11, no Instituto de Estudos Brasileiros, a ex-aluna de Lévi-Strauss, Manuela Carneiro da Cunha, do Departamento de Antropologia da Universidade de Chicago falará sobre O efeito Lévi-Strauss nos EUA e no Brasil, encerrando o ciclo iniciado dia 9 de outubro.

Observador atento em todos os sentidos, é dele a única apreciação contrária que se tem notícia de um acidente geográfico cantado e decantado: a Baía de Guanabara pareceu-lhe uma boca banguela.
Em entrevista a Perrone-Moisés em 1998, aos 90 anos, o etnólogo lembrava-se do perfume dos abacaxis no rio Madeira e de vários cheiros do Brasil: de fumo de rolo, da pinga, da rapadura. Na segunda e última viagem ao país, em 1985, evocou a qualidade muito especial do ar paulistano, ao mesmo tempo combinando altitude e clima tropical. No belo livro Saudades do Brasil (1995), ele conta, em um pé de página, que seus ouvintes gargalharam: “Mergulhados cotidianamente no inferno paulista da poluição, não o identificavam mais como tal”.
Constatando que não vivemos em uma época brilhante em termos intelectuais declarou, há mais de vinte anos, que “existem períodos particularmente notáveis, do ponto de vista da produção intelectual, e períodos de vazio, e acredito que a atual fase é do segundo tipo”.
Que não lhe perguntem, porém, como sair dela, advertiu o mestre. ”Eu não sei”.

Asas do Desejo



"Asas do Desejo", do original alemão "Der Himmel über Berlin", de 1987, dirigido por Wim Wenders.Marion (Solveig Dommartin) e Damiel (Bruno Ganz), o anjo que quis se tornar humano.