quinta-feira, abril 30, 2009

Dia do Trabalhador


Operários, Tarsila do Amaral, 1933



1 de Maio, Pedro Martinelli, 1971



Tenho esta foto do Pedrão guardada há anos. E também tenho a certeza de que, naquela época, Pedrão não conhecia o quadro da Tarsila. A chaminé é da antiga Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, no Parque da Água Branca.
Abaixo, texto dele próprio no seu blog, linkado aí embaixo à direita.


"Esta fotografia foi feita no dia primeiro de maio de 1971 no jogo Palmeiras X Guarani no Parque Antártica, segundos depois que o juiz colocou a bola na marca branca do meio do campo. Eu estava com o visor grudado na cara esperando o quadro ficar limpo. As bandeiras da torcida serem baixadas e os sorveteiros sairem do enquadramento.

O momento mágico foi entre o juiz olhar no relógio e fazer com a mão o sinal de positivo para os dois lados do campo, e o apito, dando o início do jogo. O estádio parou silencioso.

Esta foto foi a vencedora do Concurso de Fotografia da Revista Realidade e o prêmio foi uma viagem para a Fotokina em Colônia, na Alemanha, onde conheci meus queridos amigos e mestres Thomaz Farkas e Sergio Jorge."



Meu amigo, o escritor e tradutor Liu Sai Yam, me deu a alegria de escrever um texto sobre o Dia do Trabalhador, para a Babel. Obrigada Liu.


Primeiro de Maio



Chicago - 1885
Aos finais de 1885, a AFL (Federação Americana de Trabalho), em consonância com a AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores), programa para 1º de Maio de 1886 uma paralisação geral dos trabalhadores de Chicago, como manifestação a favor da jornada diária de 8 horas, em lugar das costumeiras 13, e até 17 horas, impostas pelas indústrias e o comércio.

Chicago – Zona Quente
Chicago, capital do Estado de Illinois, era polo central da crescente industrialização norte-americana, zona quente que concentrava fábricas, lojas, bancos, jornais, os maiores sindicatos patronais e operários, centro nervoso do crime organizado, território livre da Máfia, organizações socialistas, comunistas e agitadores anarquistas.

Chicago – 1º de Maio de 1886
O movimento tem adesão maciça em conseqüência da intensa convocação pelas lideranças sindicais. A polícia está também com os nervos à flor da pele. A imprensa conservadora de um lado e a agitação anarquista de outro insuflam as tensões. As primeiras passeatas ocorrem de modo pacífico, com participação de mulheres e crianças.

Chicago – 3 de Maio de 1886
No terceiro dia de paralisações, ânimos se acirrados. Guerras ideológicas se travam entre órgãos de imprensa, oradores de rua, lideranças sindicais e políticas. A polícia investe contra uma concentração em frente à MacCormick. Atira para matar. Saldo de 6 mortos, mais de 50 feridos e centenas de prisões.

Chicago – 4 de Maio de 1886
Nervos em ponto de bala. Líderes sindicais, ativistas socialistas e anarquistas lutam pela continuação da greve. A polícia ataca os comícios, começa a haver reação. Disparos e explosões a bomba por toda a cidade. O pau come solto (com participação ativa do crime organizado, no ataque aos operários) dando oportunidade ao governo decretar Estado de Sítio e encarcerar ativistas e sindicalistas, inclusive os que tentavam acalmar a população.

7 prisões para quebrar a espinha do movimento
O Estado manda prender 7, tidos “cabeças” do movimento: August Spies e Michel Shwab, editores de jornais operários; Sam Fieldem, Oscar Neeb, Adolph Fischer, Louis Lingg e Georg Engel, sindicalistas e ativistas de esquerda. Em 9 de outubro de 1886, Parsons, Fischer, Spies, Lingg e Engel são condenados à forca; Schwab e Fieldem à prisão perpétua; Neeb recebe 15 anos.

4 enforcamentos e 1 suicídio
Aos 11 de Novembro de 1886, Parsons, Fischer, Spies e Engel são executados. Lingg se antecipara, matando-se na prisão.

Sentenças anuladas
Em 1891, a Corte de Illinois, pressionada pelas fartas evidências de irregularidades, falsos testemunhos e intimidações havidos no julgamento de 1886, anula as penas dadas aos sete, reabilitando-os e libertando os sobreviventes.

Paris – 14 de Julho de 1889
No centenário da Revolução Francesa, ocorre em Paris gigantesca assembléia geral operária representando mais de 3 milhões de trabalhadores, o que daria início à 2ª Internacional Socialista, de 1890; e entre diversas resoluções cruciais ao futuro do movimento operário –
Marx, por exemplo, neutraliza de vez a figura polêmica de Bakunin, expurgando os anarquistas da cena política": errado, que os camaradas socialistas-libertários podem ter perdido a parada na 2ª Internacional, mas jamais na cena política.Fizeram e aconteceram em todos os momentos cruciais da história do Trabalho urbano e rural no século 20, proporcionando contrapontos ora autofágicos ora salutares nas lutas e polêmicas teóricas.
Resultados

1º de Maio de 1886 e Chicago foram adotados como símbolos, marcos de um longo processo de lutas dos trabalhadores contra condições desumanas, tratamentos crueis e ausência total de direitos. As conquistas foram lentas, extraídas a fórceps: a jornada de 8 horas, descanso remunerado, férias, assistência médica, previdência, tudo o que o trabalhador hoje considera normal e natural, foram duramente extraídos de encarniçados confrontos, debates políticos, polêmicas teóricas, prisões e sangue derramado.

Hoje em dia, as celebrações de 1º de Maio tomam forma de festivos convescotes, com sorteio de brindes ao som de axé, sambão e pagode; o que de resto se sucede com todas as celebrações clássicas, como Natal, Páscoa, Confraternização Universal...

Mas não custa lembrar o porquê de estarmos pulando ao som de Ivete Sangalo.

6 comentários:

Liu disse...

Poxa,
Muito honrado por poder dar uma "grafitada" na parede da Torre, sabia que um dia conseguiria estar ao lado de Borges e Cortázar.
Aí, na pressa e descuido, a frase malfeita no destaque do item Paris - 14 de Julho de 1889:

"Marx, por exemplo, neutraliza de vez a figura polêmica de Bakunin, expurgando os anarquistas da cena política": errado, que os camaradas socialistas-libertários podem ter perdido a parada na 2ª Internacional, mas jamais na cena política.

Fizeram e aconteceram em todos os momentos cruciais da história do Trabalho urbano e rural no século 20, proporcionando contrapontos ora autofágicos ora salutares nas lutas e polêmicas teóricas.

Jo Fevereiro disse...

Bela postagem, Beth! Por lembrar muito bem o porquê da comemoração e, indiretamente, o nome de Sergio Jorge, grande profissional e grande pessoa, com quem tive a satisfação de trabalhar em muitas ocasiões.

Edu Reina disse...

Algumas dssas condições de "trabalho" persistem ainda hoje. Mas tem coleguinha que por assinar o nome dele no alto de página no jornal acha que já está bem pago e descanso é coisa de velho.

fausto disse...

Parabéns pela lembrança

silvanete disse...

Valeu Beth! É sempre bom relembrar a história desta data tão importante para os trabalhadores consciente do árdua luta para chegar no lugar que estamos. Ainda há muito a conquistar. Quem sabe um dia chegaremos lá...

Silvanete disse...

Esqueci de elogiar o belo casamento do quadro "Os Operários", da Tarsila do Amaral, com a tocante foto do Pedro Martinelli e o texto enxuto do Liu. Simplesmente tocante a simbiose...