terça-feira, outubro 26, 2010

Música e a experiência do silêncio: John Cage

No Facebook, Alberto Marsicano fez um post demais. O músico que toca cítara, discípulo de Ravi Shankar e Krishna Chakravarty, na Banaras Hindu University(bhu), lembrou Stravinki:
A música estabelece a relaçao entre o homem e tempo
( Igor Stravinski)

"Mas" , diz Marsicano, "a experimentação do silêncio foi inaugurada na música ocidental por Satie em seus acordes da Gymnopedie pontuados pelo silêncio. Cage radicalizou compondo a peça onde o silêncio é protagonista.Nao há pausa no barroco, nas igrejas nao tem espaço vazio, e Bach é um motor blessed. Mas na pintura oriental, manchas de nanquim flutuam entre espaços brancos.Na música indiana, o silencio é afinado ( eles inventaram o 0)".


Uma vez li um artista plástico oriental falando sobre a nossa arte: "vocês pintam o cheio, nós o Vazio."

Sintam a experiência do silêncio. No Youtube há 4'33" de várias formas, e também no ukelelê...






Ah, o silêncio, nunca o ouvimos, é uma civilização do ruído exterior e interior.
Silêncio a gente até teme.
Enquanto isso, nas ruas, última moda é carro caro, de ventanas abertas, espalhando pra quem nao quer nem merece ouvir, os ruídos tenebrosos de seu som.

O gênio da multidão




Trecho do documentário Born into this, de John Dullaghan , sobre a vida de Charles Bukowski, o Hank.Impressionante este homem, que responde "O amor é um cão dos infernos", ao entrevistador que afirma que, em seus livros, amor é sinonimo de sexo.Diz que ele nao entendeu nada. Este é o titulo de um de seus livros de poemas.

Impressionante sua primeira mulher, ao lado da filha, impressionantes lembranças.

Hank lembra das chibatadas do pai, desde os 6 anos de idade. Fotos de Hank com mulheres que o amaram e não o amaram. E uma "pesquisa" que fez para o livro Mulheres. Ficou famoso em vida, apareceram muitas mulheres. Na infância e juventude, tinha o rosto marcado por uma terrível acne.

Mulheres à beira do seu leito de morte, conta uma delas, parece que o amou muito.

Publicado pela L&PM desde 1979, tem milhares de leitores em todo o Brasil, diz o editor Ivan Pinheiro Machado. As novas gerações devoram os livros de Bukowski com a mesma avidez que aqueles que hoje são cinquentões consumiam na década de 70.


Neste poema, um retrato do ser mediano.Sempre atual.

Cuidado com o homem mediano, com a mulher mediana

(...)
Incapazes de criar arte
eles não entenderão arte

domingo, outubro 24, 2010

Van Gogh nos Sonhos de Kurosawa


Gênio do Oriente homenageia gênio do Ocidente.
Tanta beleza.
De arrepiar.
O mundo é belo.

Gaudi de Paraisópolis



Estevão Silva da Conceição

sábado, outubro 23, 2010

Satie e





Essa quimera, essa gárgula vigiando os altos da catedral gótica de Paris, Le Penseur de Notre Dame: acho que Rodin se inspirou nela.

sexta-feira, outubro 22, 2010

Diane di Prima:"O poeta é a última pessoa que ainda diz a verdade quando ninguém mais ousa"




“I think the poet is the last person who is still speaking the truth when no one else dares to. I think the poet is the first person to begin the shaping and visioning of the new forms and the new consciousness when no one else has begun to sense it; I think these are two of the most essential human functions”
— Diane di Prima

Uma entrevista interessantissima com a poeta aqui

quinta-feira, outubro 21, 2010

Mulheres beats, sim, existiram

Havia mulheres na beat generation, nos early 50's. Eu não sabia, você sabia? Uma delas, Diane di Prima, ainda está viva e atuante: poeta e mística, tem 43 livros de poesia e prosa.


No poema Uivo, de Allen Ginsberg --


que falaram 72 horas sem parar do parque ao apê ao bar ao Hospital Bellevue ao Museu à Ponte de Brooklyn


-- o tradutor Claudio Willer explica em uma nota tratar-se de Ruth Goldemberg, amiga do grupo, a mais quieta e tímida de um grupo de moças apelidadas de "as três graças". Certo dia, em 1953, começou a falar sem parar na WashingtonSquare, Village, até 72 horas depois ser internada. Levada pela familia, nunca mais se teve notícias dela.


Não sei se era poeta, mas era uma das mulheres, poucas, que andavam com eles. E por que havia poucas mulheres? Certamente porque nos anos 50 era muito dificil uma mulher participar de um grupo tão iconoclasta, libertário, chegado nas drogas, na bebida e no sexo livre. Além disso....


Lawrence Ferlinghetti, poeta e editor entrevistado por Amy Goodman


Amy Goodman: E as mulheres? E as mulheres naquela época, as mulheres na Geração Beat, as poetisas, as escritoras?



Lawrence Ferlinghetti: Bem, quer dizer, pelo menos a metade da Geração Beat era gay. E Allen realmente temia as mulheres, pensava eu, e tendia a vê-las como se não estivessem presentes. Tenho uma amiga que foi em uma viagem com ele pelo Sudeste, e um ano depois encontrou-se com ele. Eles tinham viajados juntos neste carro com outros por vários meses e um ano mais tarde, em outra ocasião, ele olhou para ela como se não a conhecesse. É como se elas não estivessem ali para ele.
Mas havia umas poucas escritoras que conseguiram ser publicadas com os Beats, como Diane di Prima, por exemplo, e um pouco depois, Anne Waldman, que agora se impõe como chefe do Instituto Naropa, a parte do Instituto Naropa que é o instituto de poesia. Mas, geralmente, se poderia dizer que talvez –
Amy Goodman: Lembro que a entrevistei logo depois da morte de Allen Ginsberg em Nova York.
Lawrence Ferlinghetti: Oh, sim. Poderíamos dizer que, em geral, apesar de as mulheres serem ignoradas, aquelas com quem eles saíam eram ignoradas, sobretudo pelos Beats, mas, como na tragédia grega, freqüentemente eram as mulheres que determinavam o destino dos homens.


Disse Claudio Willer no excelente curso da Letras/USP que estou assiitndo sobre geração beat que um deles, não sei se Gregory Corso, ao ser perguntado, respondeu que as mulheres beats eram logo internadas pelas famílias. (Aliás, vários dos homens também.)


Imaginem o que não era rebelar-se contra aquele mundo convencional e de moral retrógrada e política mais ainda. (Aliás, parece que retrocedemos a muito antes disso, pelo que se vive atualmente.) E penso em tantas mulheres valentes e talentosas internadas: Camile Claudel, Zelda Fitzgerald, quantas ...


Loucas? Por que teriam ficado loucas? Talvez esculpisse, uma, e escrevesse, outra, até melhor que os respectivos maridos?


Diane di Prima escapou. Sorte dela e nossa.


Aqui um poema de Diane di Prima, que encontrei por acaso no site http://www.subcultura.org/, e fiquei sabendo que foi criado por Iosif Landau, que morreu ano passado com quase 90 anos, um imigrante romeno que se tornou escritor no Brasil após se aposentar e...era um beatnik.


O site tem muitas poesias beats de lá e de cá.


Um poema de Diane, traduzido por ele:


Neves. Kerhonkson - para Alan



Esse, então, é o presente que o mundo nos deu


(você me deu)


de mansinho a neve


escondeu-se nos vazios


deitada na superfície do laguinhos


e parece com minhas esguias brancas velas


que estão na janela


e que queimarão na madrugada enquanto a neve


enche o nosso vale


nesse vazio nenhum amigo nele se perderá


ninguém de pele morena virá do México


dos campos ensolarados da Califórnia, trazendo maconha


todos perdidos agora, mortos ou silenciosos


ou destruídos pela loucura


do uivo resplandescente da nossa visão de então


e esse seu presente


-silêncio envolvendo o contorno de minha existência.


---


Creio haver referências a Kerouac ( alguém vem do México trazendo maconha) e a Ginsberg ( o uivo) e o fim deles


todos perdidos agora, mortos ou silenciosos
ou destruídos pela loucura

quarta-feira, outubro 20, 2010

Dois poemas de Roberto Piva

Objeto de minha pesquisa, o poeta roça na minha pele o tempo todo. Ontem houve um tributo a Piva no Centro Cultural São Paulo, com leituras pelos poetas Celso de Alencar e Luiz Roberto Guedes e a atriz Lizette Negreiros. Coisa fina.
Reunir gente para ouvir poesia, na metrópole-necrópole ( como dizia Piva) até que a torna mais civilizada.


À deriva no rio da existência

Abandonar tudo. conhecer praias. amores novos.
poesia em cascatas floridas com aranhas
azuladas nas samambaias.todo trabalhador é escravo. toda autoridade
é cômica. fazer da anarquia um
método & modo de vida. estradas.
bocas perfumadas. cervejas tomadas
nos acampamentos. Sonhar Alto.


Mestre Murilo Mendes

tua poesia são os sapatos de abóboras que eu calço
nestes dias de verão.
negócio de bruxas ,
o sol caía na marmita do
adolescente da lavanderia.
você veria isto com seu olhar silvestre.

um murro bem dado no vitral
que eu mais adoro.

terça-feira, outubro 19, 2010

Geraldino Brasil (1926-1996)

Olha só, eu nem sabia, quarta-feira é dia do poeta. Mas o Fernando Monteiro, grande poeta e escritor pernambucano, me mandou esse convite. Fernando escreveu recentemente o belissimo poema-longo-pauleira em homenagem a Roberto Piva "E para que ser poeta em tempos de penúria?"

O convite é o lançamento de um livro póstumo de poesia.É hoje, que pena, queria estar lá.
E me disse o poeta:
"Será como se você aqui estivesse, Beth, pisando -- com os pés tão bonitos -- sobre o tecido da noite rumorosa do rio Capibaribe."

Delicadeza, num mundo da delicadeza perdida é tão bom.


Às 19 horas, a Companhia Editora de Pernambuco estará promovendo, na Livraria Cultura (Paço Alfândega), o lançamento de A Intocável beleza do fogo, livro inédito do inesquecível Geraldino Brasil.

Fernando vai apresentar o livro, que prefacia. Você conhecia Geraldino Brasil? Eu também não, porque ninguém conhece nada de poesia do Nordeste por aqui. Parece uma cortina de ferro.
Também vao debater a situação atual da Poesia (o que será, segundo ele, "sem dúvida, uma das melhores formas de homenagearmos a memória do Autor de "A Intocável Beleza do Fogo". E o dia do poeta, na quarta).

Dois poemas de Geraldino

A derrota

A cidade não saberá do poeta no seu quarto, seu coração, sua cabeça, a tentativa do poema.
A cidade não saberá
da expressão de beleza
de que flor,
de que amor,
gerou nele.
A cidade não saberá do momento
de pesada carga de dor do homem e de Deus.

Problema de família

A família ia bem,
mas o filho mais novo.
A família ia bem,
quebra a casca do ovo.
A família ia bem,
vê a rua, olha o povo.
Um problema, surgiu
um poeta na família.

Pedras rolando em 72