segunda-feira, março 16, 2009

Os sonhos mais lindos

(Atualizado em 17/3)

Desde sábado ouço Elis. Ontem 16, coloquei essa lindíssima interpretação. Só hoje lembrei/soube que é data de seu aniversário.
Soube também da morte de Clodovil, no mesmo dia do nascimento de sua musa.
Minha mãe gostava muito dele. Eu também. Ríamos demais com ele.
À parte suas opiniões iconoclastas sobre tudo, era um esteta: na agulha, na cozinha, nos arranjos de flores que fazia nas tardes, nas artes em geral, que promovia. E levava artistas brasileiros para se apesentarem ao vivo, coisa rara.
Minha mãe dizia assim:"Tomara que ele não fale mal de ninguém agora, nesse novo programa, pra não ser demitido".
ahahahahahah
Mas ele falava, e dançava sempre.
E a Rede TV e a Bandeirantes que me lembre - ele sempre repetia - deviam $$ a ele. Agora não precisarão pagar.
Não tinha medo de nada, eu o ouvi falar um dia, não tinha medo da morte.
E também disse que a única pessoa que amou na vida foi sua mãe.
Filho adotivo.
Deus guarde Clodovil e Elis.





sexta-feira, março 13, 2009

Trinta anos esta noite



Reproduções Sindicato dos Bancários de São Paulo- Fotos Jesus Carlos


Foto arquivo pessoal da Tita

Fulvio Abramo e Tita Dias, quando ela ganhou a primeira eleição para vereadora pelo PT, em 1988.
Fulvio ( irmão de Cláudio, tio de Perseu) : grande jornalista, bravo lutador, homem de bem



Trinta anos esta noite

A Historia do Sindicato dos Bancários mudou a partir de 12 de março de 1979

A festa foi no belíssimo prédio Martinelli, onde funciona o Sindicato dos Bancários de São Paulo. Há 30 anos, quando foi eleita a primeira diretoria que tirou a entidade das mãos dos pelegos -- dentro da histórica construção do novo movimento sindical, que desembocou em grandes lutas na década de 80, e já vinha de um processo iniciado em meados da década de 1970 – o endereço era Rua São Bento, 356, décimo nono andar.

Foi lá que os conheci: Rui, Tita, Luizinho, Gush, Augusto, Gilmar, Edson, Ademar, Washington, Vitor, Acy e quantos mais da nova diretoria. Genésio, Terezinha e dezenas, centenas de militantes de bancos particulares e estatais.Jesus Carlos fotógrafo,Valdeci jornalista, Mila e Alice secretárias, Silvia socióloga, Antonio, diagramador- poeta de Belém, apaixonado pelos concretistas, depois substituído pelo garoto Arnaldo, que aprendeu a profissão lá, Eton ilustrador, Douglas, advogado, dr. Sady, advogado que já partiu,Serginho, do Dieese.

E os meninos do teatro de rua, maravilhosa atividade cultural: Cachoeira,Renato, e mais o Jorginho Odara, o mais talentoso, na minha opinião, que também já partiu.

Quantos! Muitas vezes encontro com bancários daquela época fervilhante pela cidade, eles me reconhecem, eu lembro de seus rostos, mas não dos nomes: como lembrar de tanta gente?

Foi a experiência mais forte e importante que tive, ao longo da minha vida jornalística. O Suplemento Diário da Folha Bancária, que completará 30 anos em 2010, era uma folhinha tamanho ofício, frente e verso. Na frente, reproduções de notícias do jornal relativas ao setor bancário, atrás, denúncias sobre condições de trabalho dos bancários. Datilografadas, diagramadas de manhã cedinho, rodavam numa pequena impressora pilotada pelo seu Jairo. Coisa quase manual.

Eram imediatamente distribuídas por diretores e militantes nas agências. Tinham retorno imediato: bancários ligavam, mandavam denúncias, e o Bradesco era o campeão delas.

Interação quase tão rápida como hoje proporciona esta internet.

Começou com menos de mil exemplares, foi aumentando a tiragem, aumentando, 2 mil, 3 mil, 10 mil!! E chegou acreditem, a 100 mil, na época da intervenção, quando o bravo sindicato continuou, paralelamente, publicando, como aconteceu com os metalúrgicos de São Bernardo, em situação idêntica.

Ontem peguei nas mãos um exemplar, bonito, bem impresso, colorido: edição de 12, 13 e 16 de março: número 5.187!!!!!

Nunca briguei tanto, com tantos militantes de tantas correntes: nossa missão era preservar o equilíbrio das tendências no boletim e no jornal principal, a Folha Bancária, tradicional órgão do Sindicato, mensal.

Cada grupo de banco fazia seu jornal, e eram tantos. Estes, nós apenas revisávamos, editávamos e imprimíamos.

Assembléias rumorosas,(eu já estava acostumada com as dos jornalistas, igualmente exaltadas, mas mais comportadinhas) logo que cheguei fui cobrir uma e não acreditei: dois diretores tinham subido em cima da mesa, aos berros, e eu pensei: "Mas onde é que eu fui amarrar minha égua?"

rsrsrsrs

Libelu, Partidão, Convergência, sei lá mais que tendência, e independentes.

Ontem, no simpático Café dos Bancários, depois de discursos emocionados, bem humorados, tristes, contundentes, eu os reencontrei pra conversar e tomar cerveja. A trilha ideal seria a de Renato Teixeira:

Sentimental eu fico

Quando pouso na mesa de um bar

Eu sou

Um lobo cansado, carente

De cerveja, e velhos amigos.

Na costura da minha vida
Mais um ponto
No arremate do sorriso mais um nó

Encontrar velhos amigos é bom, encontrar velhos companheiros não tem preço.

Um dia eu conto mais. Um grande beijo para todos os que estavam e os que não estavam lá – mas só para aqueles que continuam do nosso lado.

E um beijo intergaláctico para Julinho de Grammont, o maior jornalista que nossa imprensa sindical já teve.



As matérias a seguir foram retiradas do site do Sindicato


http://www.spbancarios.com.br/index.asp


30 anos da retomada: "O Sindicato ganhou vida"



A retomada do Sindicato dos Bancários pela categoria em plena ditadura militar completa 30 anos, mas o bancário Genésio dos Santos Ferreira não se esquece da emoção que tomou conta dos trabalhadores nos dias que se seguiram à histórica eleição de 1979. "Foi uma grande festa, pela primeira vez eu vi o nosso Sindicato cheio de bancários. O clima de otimismo tomou conta da categoria, que não estava acostumada a encontrar dirigentes sindicais na porta do banco, com megafone na mão, lutando por melhores condições de trabalho. O sindicalista passou a ser de carne e osso e os bancários finalmente puderam se sentir representados. O Sindicato ganhou vida, uma novidade para todos, inclusive para os novos diretores", recorda.

Genésio era funcionário do Banco do Brasil desde 1974, mas só decidiu se sindicalizar seis meses antes das eleições de 79 para poder votar. "Era o prazo máximo. Eu não me sindicalizei nem um minuto antes para não dar um tostão para aquela diretoria que não me representava. Só me filiei para poder votar", conta o bancário, com orgulho.

Naqueles difíceis anos de ditadura, qualquer manifestação era rapidamente reprimida com violência pela polícia militar. A censura e todos os outros instrumentos de coerção do governo, entretanto, só serviam para estimular a luta dos brasileiros pela redemocratização do país, segundo Genésio. "Muitos de nós, bancários, já participávamos do movimento estudantil. Entrar para a luta no Sindicato era mais um passo contra a ditadura. Todo esse caldo servia como estimulante para trabalharmos sempre em coletivo. Antes mesmo da retomada do Sindicato, invadíamos a entidade para nos reunir, seja para discutir questões do trabalho ou organizar a luta política. Depois que retomamos o Sindicato, fazíamos reuniões no domingo à tarde que juntava mais de duzentos bancários”, lembra, destacando que o número de filiados ao Sindicato cresceu rapidamente após as eleições de 79.

Mesmo com essa vontade toda de lutar pela liberdade, organizar as greves de 1978, 79 e 80 não foi fácil. Os bancos privados demitiam quem participasse do movimento e o governo reprimia os grevistas com violência. "Fazer greve significava certamente apanhar da polícia. Não tinha erro", garante.

Preso por acaso – Em 1980, os trabalhadores do ABC, liderados por um jovem metalúrgico chamado Luiz Inácio Lula da Silva, construíram uma grande greve, que estimulou uma série de paralisações em todo o país. Sindicatos, igreja e outras entidades ou pessoas que queriam o fim da ditadura criaram um fundo para ajudar os grevistas, principalmente com alimentação.

O Sindicato dos Bancários de São Paulo entrou nesta corrente de solidariedade e organizou uma manifestação em frente ao prédio do Banco do Brasil na avenida São João, onde Genésio trabalhava. Além de apoiar a greve do ABC, os bancários de São Paulo também coletavam fundos. A grande atração da manifestação foi a disputa de partidas de xadrez, com o campeão Herbert Carvalho. Genésio saiu do banco já no final da mobilização e desafiou o campeão para uma partida.

"Estava entretido com o jogo quando a polícia chegou e me levou preso, juntamente com o enxadrista e com o diretor do Sindicato, Luiz Gushiken. Ficamos detidos por cinco dias por causa do movimento de solidariedade dos bancários. O problema é que o único movimento que eu estava fazendo naquela hora era com as pedras do xadrez. No fim, acabei na cadeia, mas posso dizer que não perdi aquela partida do enxadrista campeão, até porque a polícia me levou antes que acabássemos", recorda.


30 anos da retomada: o início da grande virada


No final dos anos de 1970, a ditadura militar não conseguia mais segurar a luta pela liberdade que tomava conta do Brasil. As greves que explodiam principalmente no ABC paulista criavam um novo sindicalismo, que lutava pela redemocratização do país e contra a estrutura sindical autoritária imposta pela ditadura. Foi neste contexto que os bancários de São Paulo fizeram história há exatos 30 anos, quando, em 2 de fevereiro de 1979, um grupo de jovens funcionários dos bancos – entre eles Augusto Campos, Luiz Gushiken, Gilmar Carneiro e João Vaccari Neto, que assumiriam a presidência do Sindicato posteriormente – conseguiu o que parecia impossível: vencer uma eleição que recolocou o Sindicato na luta pelos direitos da categoria e por uma sociedade mais justa e democrática. A posse foi no dia 12 de março daquele ano.

A eleição acabou sendo um marco na história dos trabalhadores brasileiros e foi fundamental, por exemplo, para a criação da Central Única dos Trabalhadores, a CUT, quatro anos mais tarde. As muitas vitórias conquistadas pela categoria de lá para cá não apagam aquele difícil começo, por conta da forte repressão dos militares e da falta de estrutura de mobilização do Sindicato, que contava apenas com uma máquina offset pequena para rodar boletins e um megafone.

Nesses trinta anos, o Sindicato cresceu e se estruturou. Criou subsedes regionais que se espalharam pela cidade e aproximaram ainda mais a entidade dos bancários. A pequena e arcaica máquina offset deu lugar a uma das mais modernas e importantes gráficas do país, a Bangraf. Já em seu primeiro mandato, o número de sindicalizados saltou de 26 mil, em 1979, para 46 mil em 1981. Os bancários também ganharam um centro de formação que investe na educação dos profissionais. Além disso, a partir de 79, o Sindicato passou a atuar mais voltado para a sociedade, investindo em políticas públicas que favorecem todo o Brasil.

Repressão e recessão – “Não havia liberdade nenhuma, a repressão era extremamente violenta”, lembra o diretor do Sindicato à época, Gilmar Carneiro, que foi preso por quinze vezes e alvo de dossiês com mais de mil páginas no Arquivo Nacional e na Delegacia Especializada de Ordem Política e Social de São Paulo, a Deops. “A falta de liberdade era grave, mas nem acho que seja o maior dos problemas. O país passava por uma grave crise econômica, havia um forte arrocho salarial, o desemprego era alto e a inflação descontrolada. Essa combinação era pior que a falta de liberdade e dos direitos humanos do ponto de vista da mobilização. A economia era o maior empecilho”, conta.

Mas a conjuntura política era extremamente favorável, afirma Deli Soares que, em 79, trabalhava no Banco do Brasil. “A categoria estava repleta de pessoas que também integravam o movimento estudantil e que queria uma direção que enfrentasse a ditadura e os banqueiros, que brigasse pela anistia, pela volta das eleições diretas”, diz.

O início e a consolidação – A primeira greve comandada pela nova diretoria, em 1979, consolidou a nova proposta de sindicalismo, mas também acirrou as perseguições por parte do governo, resultando no afastamento de quatro dirigentes e no enquadramento de outros dezesseis na Lei de Greve e um na Lei de Segurança Nacional. O novo sindicalismo pautava a luta da categoria por melhores salários e condições dignas de trabalho, aliada ao movimento constante de reivindicações gerais da sociedade: anistia, eleições diretas, constituinte. Um ano antes, em 1978, os bancários já haviam encampado uma greve, que permitiu a vitória nas eleições da entidade. Essas duas greves serviram de aprendizado para consolidar uma organização no local de trabalho que permitiu a histórica greve nacional de 1985 – movimento de massa que foi resgatado na greve da categoria do ano passado.

A relação com os bancos – “A ditadura estimula as pessoas a serem grosseiras. E os bancos, aliados do Estado e dos militares, endureciam nas relações com os bancários e com o Sindicato. O Itaú contratava espiões profissionais para infiltrá-los em nossas reuniões. O banco chegou a contratar funcionários da polícia de repressão portuguesa. O Bradesco fazia o que queria com as leis. Era muito complicado, mas o fato de os bancários serem uma grande categoria, mais de 1 milhão na época, a mobilização era mais fácil. Hoje temos 600 mil bancários a menos, 600 mil empregos que foram precarizados pelos bancos”, comenta Gilmar.

Muita coisa mudou, outras nem tanto – Para Gilmar, muita coisa mudou de lá para cá. Outras nem tanto. “Por exemplo, em 1979 formamos uma comissão para pedir o apoio do presidente do Senado. Quem era? José Sarney, que também era presidente da Arena, o partido da ditadura. Engraçado como muita coisa não muda. Mas as próprias pessoas mudam, hoje o Sarney transita tranqüilamente pela esquerda.

Outras pessoas, como o atual vice-governador de São Paulo, Alberto Goldman, foram para a direita. Ele lutou lado a lado com os bancários na época, inclusive o comitê eleitoral da nossa chapa de oposição ficava no prédio de propriedade dele”, conta.

A vitória da oposição nas eleições que ocorreram entre 29 de janeiro e 2 de fevereiro de 1979 e as primeiras greves que os bancários encamparam em plena ditadura militar foram os embriões que formaram o que o Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região é hoje, uma das maiores e mais fortes entidades representativas dos trabalhadores do mundo. Todas as conquistas que a categoria garantiu nas últimas décadas só foram possíveis graças à luta daqueles que, em plena ditadura, decidiram desafiar os militares e construir um novo país.




quarta-feira, março 11, 2009

Um minuto para as

Sociais do ato contra a “ditabranda”

Ou


Repórter fotográfico sofre


Atualizada em 17 de março


O bravo e belo Pictura Pixel, lá de Barcelona, também republicou hoje

Profissão perigo ou profissão em extinção?




A vida do repórter fotográfico não está mole não, conta o amigo Jesus Carlos, de larga estrada no fotojornalismo.

Jesus Carlos é um grande e persistente retratista das manifestações, embates, movimentos sociais desde a década de 1970, e do povo invisível, os excluídos deste nosso país.

Pois o Jesus estava fotografando o ato na frente da Folha no sábado, e pensou em vender seu trabalho para o jornal Unidade, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, onde tanto militamos, durante tantos anos.

Afinal, o Jesus vive disso.

Do outro lado da linha responderam:

“Não, dois diretores nossos já fotografaram, então a gente não precisa”.

As fotos foram feitas pelos diretores Martim Vieira, da diretoria regional de Piracicaba, e André Freire, da diretoria regional do Vale do Paraíba.

Mesmo que eles sejam fotógrafos, o que não se sabe, não poderiam tirar o lugar remunerado de um fotógrafo profissional em um jornal do próprio Sindicato, que deveria existir - como já aconteceu, há muitos anos atrás, mas esta é uma longínqua lembrança, infelizmente - para defender o exercício da profissão, a dignidade profissional.

Se o próprio jornal do Sindicato dos Jornalistas age assim, imaginem o que rola por aí.


Reproduzo aqui o que o Jesus Carlos escreveu dia desses no seu blog


http://jesuscarlos-fotografias.blogspot.com


“Com os baixos salários, desemprego, a existência da pessoa jurídica nos departamentos de fotografia e a total banalização no uso da imagem na imprensa (até mesmo na imprensa sindical), só nos restar fazer fotos de risco de vida para garantir o dia-a-dia. Fotografar assalto a banco, subir o morro na hora do tiroteio e por aí vai. Só assim teremos a certeza que não haverá perigo de ter alguém com uma câmara digital qualquer ou com um celular fazendo fotos, porque aí o bicho pega. É tiro para todos os lados.

Ontem estava dando uma espiada no blog PicturaPixel, olha a informação que encontrei: CRISE GANHA FOTO DO ANO - Anthony Suau, vencedor do prêmio de Melhor Fotografia na 52ª edição do World Press Photo com um trabalho publicado ne revista Time, em março, está "há dois meses sem trabalho", revelou em declaração ao DN o fotógrafo norte-americano.”

Histórias das redações- 8


Manda esta história o querido Mouzar Benedito, mineiro, jornalista, geógrafo e escritor, o melhor contador de causos que já conheci e ainda por cima, fundador da Sosaci, a associação em defesa do Saci Pererê – brava entidade que aliás tem uma campanha para torná-lo o mascote da próxima Copa do Mundo de 2014, que será no Brasil.


Mamprim e Bete


Uma das figuras gloriosas do fotojornalismo brasileiro é (ou foi, “não está mais entre nós”, como diz o eufemismo para “morreu”) o italiano Luigi Mamprim. Na juventude, foi guerrilheiro, partisan, na Itália, lutando contra o fascismo durante a Segunda Guerra. Acho que lá pelo início da década de 1950 veio para o Brasil.

Trabalhou em várias revistas, entre elas a Realidade. Eu o conheci na redação do Guia Rural Abril, uma bela experiência que por fim foi derrotada por alguns jornalistas que resolveram fazer do Guia uma revista para grandes fazendeiros. Grande fazendeiro tem agrônomo e veterinário próprio, não precisa comprar revista sobre esses assuntos. E se precisassem, são poucos, não sustentariam uma edição de mais de cem mil exemplares.

Bom, lá estava o Mamprim, além de grande fotógrafo, grande companheiro, comunista histórico. Uns quatro ou cinco de nós almoçávamos sempre juntos num restaurante com cara de popular numa praça perto da avenida Luís Carlos Berrini. O Mamprim sempre comia um filezão quase cru, escorrendo sangue.

Mas quando viajava, o Mamprim mudava. Virava italiano de novo, principalmente quando estava em regiões nada italianas, como o Nordeste. Aí, queria comer macarrão ao pesto com pão italiano. E era uma encrenca.

Eis que veio a Bete Costa trabalhar no Guia Rural também. Uma ótima repórter. Com um detalhe: vegetariana total. Só comia vegetais e preferia uns que quase só existiam em São Paulo, como a rúcula, por exemplo.

Um dia foi mandada uma dupla fazer uma matéria na região de Irecê, oeste da Bahia, grande produtora de feijão. Hoje, Irecê produz muitas verduras, mas na época era daqueles lugares em que, se você pedia num restaurante alguma coisa com verdura, a tal coisa vinha acompanhada de tomate e batata, nada verde. Verdura lá era isso. A dupla era formada pelo Mamprim e pela Bete.

Fiquei imaginando que bicho ia dar essa viagem, a convivência entre um fotógrafo querendo comer macarrão ao pesto com pão italiano e no fim – dada a inexistência disso por lá – fazendo concessão a um filé sangrando, e uma repórter que comia rúcula e outras coisas exóticas (para a região), sem querer fazer concessões. E era uma viagem de mais de uma semana!

Esperávamos quase ansiosos a volta dos dois, para saber como se viraram. No dia do reinício do trabalho deles na redação, o Mamprim chegou primeiro. Estava sentado a uma mesa, de costas para a porta, antes de contar sobre a viagem, quando entrou a Bete bufando. Foi direto a uma mesa, pegou uma máquina de escrever e caminhou com ela erguida para largá-la na cabeça do Mamprim. Foi segurada a tempo. Mas até hoje não sei detalhes da viagem. Não contaram. Só sei que trouxeram matérias e fotos muito boas.

terça-feira, março 10, 2009


Dois poemas: Orides Fontela


Sempre volto a ela. Filha de operário e dona de casa, nascida em São João da Boa Vista (SP), formou-se em Filosofia pela USP. Trabalhou toda a vida como bibliotecária de um colégio estadual na Vila Aricanduva. Uma das nossas maiores poetas, li um dia a notícia de que havia sido despejada. A última entrevista que vi dela pela TV foi em seu apartamento, num dos prédios que ladeiam o Minhocão.


Errância

Só porque
erro
encontro
o que não se
procura

só porque
erro
invento
o labirinto

a busca
a coisa
a causa da
procura

só porque
erro
acerto: me
construo.

Margem de
erro: margem
de liberdade.


Kant (relido)

Duas coisas admiro: a dura lei
cobrindo-me
e o estrelado céu
dentro de mim.


Toshio Kawamura emocionou

segunda-feira, março 09, 2009

Ato contra a "ditabranda" tem repercussão internacional


http://www.elmundo.es/elmundo/2009/03/08/comunicacion/1236540191.html

Los lectores obligan a un diario brasileño a reconocer su error en un editorial

El diario 'Folha de Sao Paulo', el de mayor circulación en Brasil, reconoció su error en un editorial del 17 de febrero en el que llamó a la dictadura militar (1964-1985) "dictablanda", tras una protesta el último sábado de más de 300 personas ante la sede del periódico.

En un comunicado, el director de redacción del diario, Otavio Frías Filho, admitió que "el uso de la expresión 'ditabranda' (dictablanda) fue un error. El término tiene una connotación que choca y que no representa la gravedad del asunto. Todas las dictaduras son igualmente abominables".

Frías Filho, sin embargo, señaló que "desde el punto de vista histórico", la dictadura brasileña, "con toda su truculencia, fue menos represiva que sus congéneres argentina, uruguaya y chilena o que la dictadura cubana, de izquierda, con la cual simpatizan (los manifestantes)".

Varios lectores enviaron cartas de protesta, que fueron publicadas, y 'Folha' emitió una contrarrespuesta pidiendo igual actitud en la crítica a las dictaduras de izquierda.

Las protestas del sábado pedían que los responsables del artículo se retractaran "de rodillas" en una plaza pública y contaron con un memorando de repudio al editorial firmado por 7.000 personas, entre ellos intelectuales como el centenario arquitecto Oscar Niemeyer y el compositor y escritor Chico Buarque.

domingo, março 08, 2009


Como foi o ato contra a "ditabranda"


Foi muito bom e emocionante o ato ontem, na Barão de Limeira, na frente do pédio da FSP. Havia cerca de 400 pessoas, a FSP, na materia que colo abaixo, contabilizou 300.
Começou com a fala de Eduardo Guimarães, do Movimento dos Sem Midia, que convocou o ato.
(http://edu.guim.blog.uol.com.br)

Continuou com a palavra aberta a vários ex-presos políticos, que, cada um, contou as tristes e aterradoras histórias daquelas trevas.

Para ler e ver mais

http://emerluis.wordpress.com

Os professores insultados pela Folha, motivo do abaixo-assinado que corre na internet, e hoje chega a 7.643 assinaturas, não compareceram e nem enviaram representantes e /ou uma carta para ser lida. A professora Benevides havia confirmado sua participação.

A matéria da Folha desculpa-se, mas reafirma suas posições, assinadas pelo dono do jornal

Manifestação contra Folha reúne 300 pessoas em frente ao jornal
Militantes fazem desagravo a professores, que não comparecem a evento


DA REPORTAGEM LOCAL

Cerca de 300 pessoas participaram ontem pela manhã de manifestação contra a Folha em frente à sede do jornal, na região central de São Paulo.
O ato público tinha o duplo objetivo de protestar contra editorial publicado pelo jornal no dia 17 de fevereiro, que usou a expressão "ditabranda" para caracterizar o regime militar brasileiro (1964-1985), e prestar solidariedade aos professores Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato. Nenhum dos dois estava presente.
A Folha publicou no "Painel do Leitor" 21 cartas sobre o assunto, 18 delas críticas aos termos do editorial, entre as quais as assinadas por Benevides e Comparato. Segundo escreveu este último, o autor do editorial e o diretor de Redação que o aprovou "deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro".
Em resposta, o jornal classificou a indignação dos professores de "cínica e mentirosa", argumentando que, sendo figuras públicas, não manifestavam o mesmo repúdio a ditaduras de esquerda, como a cubana.
Desde então, além de cartas, o jornal vem publicando artigos a respeito da polêmica, alguns dos quais com críticas ou reparos à própria Folha.
O protesto de ontem foi organizado pelo Movimento dos Sem-Mídia, idealizado pelo blogueiro Eduardo Guimarães. O público era composto na sua maioria por familiares de vítimas da ditadura, estudantes e sindicalistas ligados à CUT.

Abaixo-assinado
Um abaixo-assinado de repúdio ao editorial da Folha e solidariedade a Benevides e Comparato circulou pela internet nas últimas semanas. Entre seus signatários estão o arquiteto Oscar Niemeyer, o compositor e escritor Chico Buarque, o crítico literário Antonio Candido e o jurista Goffredo da Silva Telles Jr.
Niemeyer disse que "o convite para assinar veio de um amigo muito querido, que foi preso e torturado. Fiquei muito chateado, porque gosto do pessoal da Folha. Fiquei constrangido, mas não podia dizer que não". O arquiteto disse não ter lido o editorial. Na sua versão eletrônica, o abaixo-assinado contava com mais de 7.000 adesões, cuja autenticidade, porém, não há como comprovar.
Segue a íntegra do texto:
"Ante a viva lembrança da dura e permanente violência desencadeada pelo regime militar de 1964, os abaixo-assinados manifestam seu mais firme e veemente repúdio à arbitrária e inverídica revisão histórica contida no editorial da Folha de S.Paulo do dia 17 de fevereiro de 2009.
Ao denominar ditabranda o regime político vigente no Brasil de 1964 a 1985, a direção editorial do jornal insulta e avilta a memória dos muitos brasileiros e brasileiras que lutaram pela redemocratização do país. Perseguições, prisões iníquas, torturas, assassinatos, suicídios forjados e execuções sumárias foram crimes corriqueiramente praticados pela ditadura militar no período mais longo e sombrio da história política brasileira. O estelionato semântico manifesto pelo neologismo ditabranda é, a rigor, uma fraudulenta revisão histórica forjada por uma minoria que se beneficiou da suspensão das liberdades e direitos democráticos no pós-1964.
Repudiamos, de forma igualmente firme e contundente, a Nota da Redação, publicada pelo jornal em 20 de fevereiro em resposta às cartas enviadas ao "Painel do Leitor" pelos professores Maria Victoria de Mesquita Benevides e Fábio Konder Comparato. Sem razões ou argumentos, a Folha de S.Paulo perpetrou ataques ignominiosos, arbitrários e irresponsáveis à atuação desses dois combativos acadêmicos e intelectuais brasileiros. Assim, vimos manifestar-lhes nosso irrestrito apoio e solidariedade ante as insólitas críticas pessoais e políticas contidas na infamante nota da direção editorial do jornal.
Pela luta pertinaz e consequente em defesa dos direitos humanos, Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato merecem o reconhecimento e o respeito de todo o povo brasileiro."


Folha avalia que errou, mas reitera críticas

DA REDAÇÃO

O diretor de Redação da Folha, Otavio Frias Filho, divulgou ontem as seguintes declarações:
"O uso da expressão "ditabranda" em editorial de 17 de fevereiro passado foi um erro. O termo tem uma conotação leviana que não se presta à gravidade do assunto. Todas as ditaduras são igualmente abomináveis.
Do ponto de vista histórico, porém, é um fato que a ditadura militar brasileira, com toda a sua truculência, foi menos repressiva que as congêneres argentina, uruguaia e chilena -ou que a ditadura cubana, de esquerda.
A nota publicada juntamente com as mensagens dos professores Comparato e Benevides na edição de 20 de fevereiro reagiu com rispidez a uma imprecação ríspida: que os responsáveis pelo editorial fossem forçados, "de joelhos", a uma autocrítica em praça pública.
Para se arvorar em tutores do comportamento democrático alheio, falta a esses democratas de fachada mostrar que repudiam, com o mesmo furor inquisitorial, os métodos das ditaduras de esquerda com as quais simpatizam."
Otavio Frias Filho

sexta-feira, março 06, 2009

Histórias das redações -7

Do Rogério Furtado, repórter de muita e muita estrada nas quebradas do jornalismo, e que hoje vive nos sertões das Minas Gerais. Labutou na Folha por um bom tempo.:

“Na Barão de Limeira acontecia de tudo. O jornal, por exemplo, "matou" um jogador de futebol "por constricção da vulva, algo dificilmente recuperável".
Um sujeito morou durante bom tempo (talvez anos, não sei) no banheiro da redação, até que fosse descoberto pelo Boris Casoy; um fotógrafo morreu dentro da Agência Folhas em consequência de um disparo acidental de revólver; um contínuo foi esmagado pelo velho elevador pantográfico que ficava perto da entrada da Agência Folhas... E por aí afora... Tudo isso passou despercebido para a maioria, em um contexto que me parece típico das redações: todo mundo fica acompanhando o que vai pelo mundo e não tem tempo (ou interesse) de olhar o que se passa "dentro de casa".”

É mesmo, Rogério.
Contam que nos Diários Associados, um senhor, durante anos, diariamente chegava, sentava, abria a mesa com aquela máquina de escrever dentro e se punha a trabalhar. Também recebia pessoas.
Todo o mundo achava que era um jornalista.
Mas não.
Descobriu-se, um dia, que ele apenas encontrara um escritório gratuito pra despachar.
Imagino quantas dessas histórias rolaram pelas varias redações, cadê o pessoal pra contar aqui?

quinta-feira, março 05, 2009

Histórias das redações 6
Reveillon 2000 no Estadão
e o bug do milênio







Alguém pode imaginar a delícia de passar o reveillon num plantão de redação? Especialmente aquele reveillon, ímpar, o da passagem do milênio, que na verdade seria em 2001, mas foi mundialmente acordado para 2000.
Então, imaginem a alegria da redação do Estadão, comandada por nada menos que o futuro assassino da namorada, (meses mais tarde), o elemento Pimenta Neves. Buñuel teria prato cheio, Fellini então...Mas as chanchadas da Atlândida seriam ideais.
A redação estava toda convocada- e mesmo os que fizeram plantão no Natal ficariam de sobreaviso, para qualqer tragédia, porque pintaria o tal bug do milênio, que segundo as previsões mais catastróficas, iria desregular todos os computadores do mundo.
Caos planetário!
Nosso karma foi bem pesado. Primeiro, tivemos de participar de um jantar, lá no restaurante do prédio da Marginal, ao lado do próprio elemento Pimenta. Não só os jornalistas, mas também os trabalhadores da gráfica foram convidados para o restaurante classe A.
Disse o elemento: “Eu que convidei. Sou um déspota esclarecido!”
Depois dessa indigestão, seguiu-se, mais tarde, na redação, um malfadado sorteio. A redação, munida de copos de plástico, se me lembro, preenchidos por um duvidosíssimo champanhe, teve de formar um círculo em torno do elemento para aguardar o sorteio de umas passagens, acho que para Paris.E só eram sorteados fotógrafos.
O elemento diretor ficava cada vez mais fulo, naturalmente porque não considerava fotógrafos como jornalistas.
“Não paro enquanto não sortear um jornalista”, bradava. “E se não sair, pago do meu bolso”.
Até que saiu, e nos livramos daquela segunda cena dantesca. Daí o jornal ia fechando, o bug não houve, mas o plantão ainda não havia se encerrado, tem mais.
Na editoria de Geral, uma repórter bonitinha acabava seu plantão e se arrumou toda para - sortuda- ir pro reveillon dela. Postados numa linha diagonal,o elemento diretor, o subeditor de Geral, Antonio Gaspar, e a garota. O elemento de frente para o Gaspar, e este de costas para a menina, todos de pé.
Quando o elemento viu a repórter, seus olhos brilharam, cúpidos - como diria a literatura pornô-erótica bem adequada ao seu nível. Ele abriu os braços e foi de encontro a ela, mas o Gaspar estava no meio, e achou, não entendendo nada, que a confraternização era com ele. Abraçaram-se, e a menina foi embora, na boa.
Alguns minutos depois que o elemento saiu de cena, a editoria toda gargalhou sem parar.

Assim se encerrou o milênio no Estadão.

Jamais imaginaríamos o que o próximo nos reservava.

A manchete feita pelo elemento era bem ruim, tinhas umas três linhas das quais não me lembro e se encerrava assim: “E bug foi um fiasco”.