sexta-feira, dezembro 02, 2011

"Ele sabe passar, eu não sei"

Willer sobre Rimbaud

http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2011/11/21/rimbaud-revolucao-rebeliao-417310.asp


Rimbaud exerceu especial influência através da fase final de sua obra: é como se, do impecável verso parnasiano dos poemas escritos aos 16 anos até as prosas poéticas, tivesse percorrido cinquenta anos de história da literatura em cinco de produção. “Uma estadia no inferno” e “Iluminações” são escrita do século XX no final do século XIX, justificando ver-se como o novo Prometeu: “O poeta é realmente o ladrão do fogo”. Por isso, tornou-se leitura de cabeceira dos “horríveis trabalhadores” que o sucederiam. Dois belos parágrafos do recente “Só garotos” de Patty Smith documentam esse impacto: “Rimbaud tinha as chaves para uma linguagem mística que devorei mesmo sem ainda ser capaz de decifrar”. Antes, Henry Miller escrevera “O tempo dos assassinos” detalhando essa experiência. Foi autor de cabeceira de Jack Kerouac e Allen Ginsberg no período da formação da Geração Beat. Paul Claudel teve uma crise ao descobri-lo. André Breton relatou que, ao retornar aos lugares onde lera suas prosas poéticas pela primeira vez, tinha alucinações. Roberto Piva declarou: “Foi com Rimbaud e Nietzsche que aprendi meus toques de inferno”. Em um livro deste ano, Afonso Henriques Neto vê que “os jovens já escolhiam o novo hino/ entre rimbauds de altíssima voltagem”. Tantos outros já deram testemunhos semelhantes.

“Espero tornar-me um louco muito mau”: essa frase de “Uma estadia no inferno” poderia ser a epígrafe geral da sua obra. Foi rebelde total: execrou qualquer símbolo de autoridade; detestou o mundanismo literário; apoiou a Comuna de Paris de 1871, que lhe inspirou poemas em favor das incendiárias; abominou a burguesia e a burocracia. Criou o monólogo do exilado — “Por ora sou maldito, tenho horror à pátria” — que tem o “sangue mau” e pertence a uma “raça inferior”. Identificou-se aos marginais, ao “forçado intratável contra quem se encerram as grades da prisão”; e aos negros: “sou um bicho, um negro”; verberou os “falsos negros”. Situou-se fora do cristianismo: “Nunca me vejo nos conselhos de Cristo”. Insultou os devotos e os sacramentos em “As Primeiras Comunhões”.

Anunciou as viagens em “Uma estadia no inferno”, com o “Adeus” do final, e em “Iluminações”: “Partir para afetos e amores novos!”. Abandonaria o Ocidente: “Minha jornada chega ao fim; deixarei a Europa”. E o mundo: “A verdadeira vida está ausente. Não estamos neste mundo”. Mas primeiro desceria aos subterrâneos em busca dos “segredos para mudar a vida”; da vidência: “é oráculo o que digo”. A partir de “O barco ébrio” e “Vogais”, passou a criar poesia onírica. O deslocamento é sua lei: tudo pode ser outra coisa, em uma combinatória infinita. Em lugar de “Alquimia do verbo”, poderia ter utilizado este título: “Autonomia do verbo”.

É importante interpretar seus poemas alquímicos; e, pelas conseqüências que teve, examinar sua poética, pela qual levou a extremos a crença romântica no poder criador da imaginação: “Acabei achando sagrada a desordem do meu espírito [...] Escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens”. Insistindo que “é preciso ser vidente, tornar-se vidente”, declarou: “O poeta torna-se vidente através de um longo, imenso e estudado desregramento de todos os sentidos”. Não se trata apenas dos sentidos da percepção, mas de todos os sentidos: o bom senso (em francês sentido e senso, sens, são a mesma palavra); a razão; a relação de significação, substituída pela liberdade de significar.

Rimbaud aspirava à síntese de rebelião e revolução; queria a liberdade total, intransitiva. Suas visões não deveriam realizar-se na esfera supracelestial, mas na terra: “Quando iremos afinal, além das praias e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo, da nova sabedoria, a fuga dos tiranos e demônios, o fim da superstição, para adorar — os primeiros! o Natal na terra!” É pensamento utópico e celebração da vida: “Oh! um novo corpo amoroso reveste os nossos ossos”. Mas quem se expressa assim é, ao mesmo tempo, um descrente “Farto de ver. [...] Farto de ter. [...] Farto de saber”; por isso, quer “Partir para afetos e amores novos”. Seu silêncio e saída de cena podem ter indicado uma derrota política: preferiu não dizer mais nada a expressar o desencanto diante de um mundo que se fechava à utopia. Mas seus poemas e prosas poéticas continuarão a despertar talentos, mostrando os modos de manifestação da inquietação.



Todas as citações de poemas e prosas poéticas de Rimbaud utilizam a tradução de Ivo Barroso, nos dois volumes, “Prosa poética” e “Poesia completa”, publicados pela Topbooks



CLAUDIO WILLER é doutor em Letras na USP. Poeta, ensaísta e tradutor. Autor, entre outros, dos livros “Geração Beat”, “Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e a poesia moderna” e vários ensaios na coletânea “O Surrealismo”

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Siboney

Demais

Nicanor Parra ganha o Prêmio Cervantes

SOLO DE PIANO

Ya que la vida del hombre no es sino una acción a distancia,
Un poco de espuma que brilla en el interior de un vaso;
Ya que los árboles no son sino muebles que se agitan:
No son sino sillas y mesas en movimiento perpetuo;
Ya que nosotros mismos no somos más que seres
(Como el dios mismo no es otra cosa que dios)
Ya que no hablamos para ser escuchados
Sino que para que los demás hablen
Y el eco es anterior a las voces que lo producen,
Ya que ni siquiera tenemos el consuelo de un caos
En el jardín que bosteza y que se llena de aire,
Un rompecabezas que es preciso resolver antes de morir
Para poder resucitar después tranquilamente
Cuando se ha usado en exceso de la mujer;
Ya que también existe un cielo en el infierno,
Dejad que yo también haga algunas cosas:

Yo quiero hacer un ruido con los pies
Y quiero que mi alma encuentre su cuerpo.

quarta-feira, novembro 30, 2011

terça-feira, novembro 22, 2011

segunda-feira, novembro 21, 2011

Ginger e Fred

Juo Bananère

Uvi strella

Juó Bananère


Che scuitá strella, nê meia strella!
Vucê stá maluco e io ti diró intanto,
Chi p'ra iscuitalas moltas veiz livanto,
I vô dá una spiada na gianella.

I passo as notte acunversando c'o ela.
Inguante che as outra lá d'un canto
Stó mi spiano. I o sol come un briglianto
Nasce. Oglio p'ru ceu: — Cadê strella!?

Direis intó: Ó migno inlustre amigo!
O chi é chi as strellas ti dizia
Quando illas viero acunversá cuntigo?

E io ti diró: - Studi p'ra intendela,
Pois só chi giá studô Astrolomia,
É capaiz di intendê istras strella.


Juó Bananère
(Alexandre Marcondes Machado), paulista que se tornou popularíssimo no Brasil pela irreverência de suas paródias a sonetos de Camões e de Olavo Bilac, a poesias de Casimiro de Abreu e de Guerra Junqueiro, como pelas sátiras políticas contra o marechal Hermes da Fonseca e outros figurões da velha República. Parodiou também La Fontaine e Machado de Assis, escrevendo em dialeto macarrônico, numa imitação dos habitantes de origem italiana do Abaixo-Piques, bairro de São Paulo. Deixou um livro, apenas, "La divina Increnca", cujo êxito foi sensacional, e que é nos dias de hoje uma raridade bibliográfica. Otto Maria Carpeaux, em interessante estudo, considerou Juó Bananere um premodernista, principalmente pelo fato de ter começado a tratar de forma irreverente as produções do romantismo e do parnasianismo, até então levadas muito a sério.


Extraído de "Antologia de Humorismo e Sátira", Editora Civilização Brasileira - Rio de Janeiro, 1957, pág. 305, seleção de R. Magalhães Júnior.