terça-feira, março 30, 2010

A culpa é dos movimentos sociais?

Folha de São Paulo sobre o 1 de Maio de 1980

Greve de metalúrgicos de São Bernardo, década de 80 ( nao tenho certeza, mas a foto deve ser de Juca Martins)

Foto Carlos Caetano- Passeata de professores dia 26 de março de 2010: gás lacrimogêneo


Reproduzo aqui o comentário trazido por Dina, do Blog do Nassif, e respondo.

Dina disse...
9/03/2010 - 22:52

A fácil propaganda negativa de passeatas

Por Jotavê
Muitos irão interpretar o gesto de Serra como “autoritário”. Concordo com a interpretação. É um gesto autoritário, mesmo. Essa interpretação, porém, apesar de correta, é pobre. O gesto de Serra não é apenas “autoritário”. É calculado.

Serra está investindo numa polarização com os setores mais radicais do PT, pois aposta que essa polarização irá render-lhe dividendos políticos.

Dará a ele um inimigo diferente de Lula, mas identificado ao partido de Mercadante, ou de quem quer que venha a ser seu adversário em São Paulo.

Um inimigo que, ao contrário de Lula, é odiado pela imensa maioria dos brasileiros: o extremista político, personificado neste episódio pela diretora da Apeoesp.

É nesse extremista que Serra buscará fixar seu alvo, reservando palavras muitíssimo mais doces para o presidente Lula e para o legado de seu governo.

Bebel não será a única. Logo em seguida, haverá um confronto previsível com os extremistas que invadiram o Coseas, na Universidade de São Paulo. Será fácil induzi-los à violência – eles se instalaram nela desde o primeiro momento.

Será fácil espalhar boatos de que existem até traficantes envolvidos na invasão. Policiais à paisana, a esta altura, já devem ter identificado os melhores alvos para as câmeras da polícia. Será fácil exibir vidros e portas arrebentados – elas formarão um belo conjunto ao lado das fotos dos livros queimados pelos manifestantes do sindicato dos professores.

Estão enganadíssimos os que pensam que movimentos como o dos professores ou dos estudantes da USP irão desgastar o governo Serra. Não estou entrando aqui no mérito das reivindicações, mas apenas fazendo um comentário sobre a oportunidade e a forma como elas vêm sendo feitas.

Vocês, que ficam fascinados com o trânsito da Paulista interrompido por manifestantes na hora do rush e com os prédios públicos ocupados e invadidos por estudantes ensandecidos; vocês que admiram Lula, mas não são capazes de aprender com ele a lição que seu governo nos tem dado desde o primeiro dia; vocês que sonham com uma ruptura induzida por movimentos sociais cada vez mais aguerridos, cada vez mais radicais, cada vez mais intratáveis nos quadros institucionais; vocês, do alto de sua empáfia e das produndezas de sua incapacidade de compreender o eleitor brasileiro, estão dando uma contribuição decisiva para que José Serra seja o próximo presidente do Brasil.

1:37 AM

Elizabeth disse...
Dina, havia lido o comentário de Jotavê no Nassif.Não entendi o que ele quer dizer com:
"Vocês, que ficam fascinados com o trânsito da Paulista interrompido por manifestantes na hora do rush e com os prédios públicos ocupados e invadidos por estudantes ensandecidos; vocês que admiram Lula, mas não são capazes de aprender com ele a lição que seu governo nos tem dado desde o primeiro dia; vocês que sonham com uma ruptura induzida por movimentos sociais cada vez mais aguerridos, cada vez mais radicais, cada vez mais intratáveis nos quadros institucionais; vocês, do alto de sua empáfia e das profundezas de sua incapacidade de compreender o eleitor brasileiro, estão dando uma contribuição decisiva para que José Serra seja o próximo presidente do Brasil."
E o que ele quer dizer com "extremista político"?

É interessante como desde sempre se escuta críticas aos movimentos sociais, como esta que Jotavê faz: que interrompem o trânsito;que ocupam prédios públicos, etc..Que são "radicais".Mas que gente ensandecida, não?
Nunca se aprofunda a discussão, não se é radical, no sentido de ir à raiz, e se pergunta: por que as coisas chegam a este ponto?
As pessoas gostam de sair em passeata, de reivindicar, expostas a sanhas policiais como as que se vê nas fotos acima? Gostam de andar pela Paulista interrompendo o trânsito? Acham um programinha legal invadir prédios públicos, como o MST faz, por exemplo? Gostam de fazer greve e levar bordoadas, como os metalúrgicos na década de 80 aí em cima, e tantos outros na História do Brasil e do mundo? E queriam morrer também, como tantos?
Os metalúrgicos do ABC revigoraram o movimento sindical brasileiro, ao lado de outras tantas categorias, e de lá saiu a grande liderança que - ninguém imaginaria na época --, chegou à presidência da República.
Eu participei de muitas passeatas e de enfrentamentos com policiais , desde tenra estudante com 13, 14 anos, até a idade adulta, atravessando a ditadura. Nunca me senti feliz fugindo de bombas de gás lacrimogêneo,PMs a cavalo, pauladas e cassetadas, correndo o risco de ser presa e de ir parar sabe-se lá onde. Mas eu tinha de participar, ser coerente com minhas ideias, assim como meus companheiros. Queríamos transformar, e isso não se faz sentado dentro de casa.
"Viver é perigoso".
Em maio de 1980, no ato de Primeiro de Maio em São Bernardo, soldados em helicópteros do Exército apontavam metralhadoras para nossas cabeças, tão baixo que os nossos cabelos voavam.O poder não permitia o ato, a ida até o estádio de Vila Euclides. Negociando com a polícia, dentro da igreja, estavam o senador Teotônio Vilela, alguns autênticos do MDB, o bispo de Santo André Dom Cláudio Hummes e o prefeito de São Bernardo, Tito Costa/MDB - todos devidamente pressionados por militantes de partidos "radicais" de esquerda como Ala Vermelha, MEP, AP e outras estruturas apoiadas pelo Comando de Greve e pela peãozada. Porque Lula estava preso no Deops e o Sindicato dos Metalúrgicos sob intervenção.
Estava lá também, se bem me lembro, o bravo presidente do Sindicato dos Jornalistas,David de Moraes.
Fora, todos nós e mais as corajosas mulheres de metalúrgicos à frente, rodeando a Igreja Matriz. Até hoje quando passo por lá me arrepio.Pensei que não sairíamos vivos, e esta não foi a única vez. Estavámos felizes e contentes nesse programinha legal? E em tantos outros dos quais participamos, por exemplo em 1975, na missa ecumênica da Sé por Wladimir Herzog, conduzida pelo grande D. Paulo Evaristo Arns, cercados pela Operação Gutemberg do coronel Erasmo Dias?
Mas foi por enfretamentos como estes que chegamos à democracia de hoje.
Que infelizmente não é democracia, já que manifestações de movimentos sociais neste Estado, e em outros, ainda são reprimidas violentamente, como a dos professores, taxadas de " radicais" e sempre culpadas de tudo.
Jotavês , com suas brilhantes análises, agora culpam os movimentos sociais pela possível, para ele, vitória de Serra.

Se fossemos atrás de papos como este, análises de classes médias bem instalados no conforto de seus escritórios ditando regras, sem nunca terem vivido essas experiências "radicais", ainda estaríamos na ditadura. Pergunto ao Jotavê: onde ele estava no Primeiro de Maio de 1980? Não tinha nascido? Ou estava no conforto de seu lar, de seu escritório, ou na escola, criticando os "radicais"?
Análise semelhante fez o cão de guarda Dimenstein, na Folha, a serviço de Serra, escandalizando-se com o fato de a diretoria da Apeopesp ser composta por membros do PT, PSOL, PSTU. Horror! Como comentou o amigo Alípio Freire, companheiro de tantas lutas, agora as diretorias de Sindicatos todas devem ser apenas formadas por pessoas de direita, assim sim, Dimensteins, Jotavês e quetais ficarão felizes. Nada de "radicalismos".
Classe Média Way of Life é o blog ideal para esses "pensadores". Recomendo.
E deixo claro que não sou filiada a partido algum. Tenho dito.

Obrigada por sua participação, Dina, é bem-vinda ao debate.

5 comentários:

Dodó Macedo disse...

Há sempre aquele idiota iluminado que sustenta, por exemplo, que as famílias cujas casas foram (ou até hoje estão) alagadas devem ficar impassíveis, resignadas.
Pelo que tenho lido, visto e ouvido, os professores paulistas estão atolados até o pescoço, e o pior são os idiotas iluminados fazendo pregações que não passam de marolas.

Anônimo disse...

“Quando surgiram os primeiros focos de guerrilha, o Estado colombiano vacilou em tomar decisões duras. O resultado são mais de 40 anos de guerra civil, quase 50 mil mortos, quase 200 vezes mais do que aqui”.

Dito por General Augusto Heleno

Elizabeth disse...

Não entendi.Quem é o general Heleno? Quem é você? Por acaso insinua que o movimento dos professores é um prenuncio de guerrilha? Chegou quando,anônimo?
Ô gente atrasada que não entende de democracia ,só de milicos no poder, tem dó.

Liu disse...

Guardei um texto (ou uma entrevista), e nem sei quem disse ou escreveu. Mas bem apropriado...

"Ao tirar o time de campo, a grande maioria dos ex-defensores do socialismo deixa que a elite ocupe todos os espaços e faça de sua interpretação dos acontecimentos a única explicação racional das mudanças em curso. Economistas, sociólogos e intelectuais a serviço dos poderosos tem assim todo o espaço possível para mostrar que a derrota do ‘socialismo real’ é a prova cabal de que só no sistema capitalista podemos ter o melhor dos mundos possíveis e que, portanto, no lugar de ficar criticando o sistema, trata-se de aproveitar plenamente as possibilidades que este oferece".

Portanto, não tirar o time de campo, dona Beth, nem da torre.,

Elizabeth disse...

Liu, quem vai tirar time de campo? Ótimo texto este, aliás, responde aquele falecido japa antigo que falou no tal fim da Historia...