domingo, junho 17, 2007

Pra machucar os corações

Eu estava pesquisando e encontreí uma das pérolas do Caio Fernando Abreu, esta do primeiro numero do Caderno 2, em 6 de abril de 1986.
Numa simples crônica, uma crítica de disco, ele consegui retratar uma geração. De perdedores? Sim, diria o status quo atual do "laissez faire laissez voler".
Mas quem perdeu, cara pálida? Não o Caio, que já nos deixou há tempos, e que sofreu muito. Não ele, que deixou testamento escrito, essa marca no mundo.
Não ele. Não a nossa geração.

Leiam. Até uma pedra se emocionaria.

Pra machucar os corações
Para quem tem mais de 30, 35 anos, este disco pode ser uma tortura. Não, não que seja um mau disco. Eu explico. Ou tento.
É que fatalmente eu/tu/ele/nós vamos lembrar. E não estou certo se essas lembranças serão boas. Ou se seriam boas, lembradas hoje, você me entende? Porque o tempo passado, filtrado pela memória e refletido no tempo presente- agora- parece sempre melhor. E teria mesmo sido?

Apenas, quem sabe, porque não havia fadiga lá. Aquela fadiga que se insinua, persistente, entre o ruído das buzinas e das descargas, abertas no engarrafamentos de transito, todo dia. Ou essa, de atravessar mais uma vez qualquer avenida às seis da tarde para, de repente, olhar uma multidão também fatigada e perguntar: mas que cidade, afinal, é esta. E que vida/ A quase amável, paciente fadiga de contemplar o grande relógio das repartições e escritórios quase imóvel na sua lentidão, a partir das cinco e a caminho das seis da tarde. Para nos despejar, novamente, nas ruas entupidas de fumaça e desejos bandidos nas esquinas, dentro de carros apertados entre outros carros ou de ônibus apinhados – até o interior dos apartamentos, com seus fantasmas emboscados, uns mortos, outros vivos. E então o acúmulo das contas atrasadas, telefonemas ansiosos, telenovelas chatas, quem sabe algum plano, certas fantasias. Outra cidade, outro país, outro planeta, outra vida que não esta- uma memória de flores no cabelo e pés descalços, pouco antes do ruído do despertador e do m coração serem os únicos audíveis dentro da escuridão onde afundamos na lama de nossos sonhos mortos.Mas eu falava- tentava- de um disco. De John Lennon
Ele foi gravado ao vivo, no Madison Square Garden, a 30 de agosto de 1972. Há quase, portanto, 14 anos. Você tinha quantos- 15,20,25? E provavelmente também imaginava que, um dia, pudesse não haver mais guerras, nem países, nem ódio entre as pessoas. Um mundo novo, não é isso? Depois houve cinco tiros nas costas, e pouco antes, durante ou depois, os muros das cidades pichados com frases como “flower power is dead”. E entoa uma invasão de cabelos muito curtos, quase raspados, roupas negras, couro justo a ridicularizarão de tudo em que você acreditou durante tanto tempo- e largou faculdade, largou família, caiu em bandos pelas estradas para sonhar com essa coisa que não aconteceu: um mundo novo.
O deboche das suas antigas- e perdidas- ilusões. Patrício Bisso só sobe no palco para cnatar qualquer coisa como "bosla peruana? sandália indiana?hippie! mata!" Eu rio, você ri, ele ri- nós rimos todos juntos.
E temos um sutil cuidado em evitar, no vocabulário, no vestuário, qualquer detalhe capaz de nos identificar com sobreviventes daquele tempo. Agora somos mais do que modernos: demi-darks. Não temos fé, nem esperança, nem caridade. Bebemos vodka pura, cheiramos umas. Nunca mais compramos uma caixinha de incenso. E a bad trip pinta sem química.
Tudo isso dó tanto. Eu nunca mais tinha ouvido John Lennon.
O tempo corre, a gente vai descobrindo jeitos de se proteger. Ellis? Nem pensar: põe aí Paula Toller. Marc ( quem lembra) Bolan? De jeito nenhum: melhor um Boy George, cara. Let’s roller. It’s only rock and roll. Só que eu nem sempre sei se gosto. Mas, por trás das defesas, esse vinco no canto esquerdo da boca continua avançando, cada vez mais fundo, cada vez mais longo. Você tenta reagir, sem dizer claramente não, pelo amor de Deus, não me dá esse disco pra ouvir, eu não entendo nada de música, eu não conheço John Lennon e nunca ouvi falar em Yoko Ono.Eu não tenho tempo.Não posso parar, nem pensar, nem sentir. Nem lembrar. Eu preciso ganhar dinheiro. Tenho pressa neste passo alucinado em direção ao buraco-negro do futuro.
Mas você acaba aceitando. Agora somos profissionais. Coloca no toca-discos. Como quem não quer nada. Liga a TV, ao mesmo tempo. E no meio dos sons que vêm também da rua e dos outros apartamentos, de repente aquela voz tão antiga e conhecida grita:
-Mother!
Aumente o volume. Ou desligue para sempre, você me entende?

4 comentários:

jo fevereiro disse...

Mais uma vez obrigado, Beth...
estava mesmo precisado de ler esse texto!
Já separei alguns LPs para ouvir.
B
Jo!

pauladip disse...

Beth,
Belíssimo texto do Caio que eu não conhecia, embora tenha lido quase tudo dele. Acabo de escrever um livro sobre ele, com a nossa correspondência comentada e mais mil e um depoimentos, recados, fotos, bilhetes, bobagens. Fomos muito amigos. E este texto que vc postou me surpreendeu de forma muito feliz. Obrigada à linda Cecília Thompson que me fez a gentileza de enviar.
Touché.

Lucia Freitas disse...

Beth, cheguei pela Paula Plank. Encheste meus olhos de água e a vida de poesia. Agradeço, agradeço, agradeço.

Tania Mendes disse...

amiga, só hoje tive tempo ( ai meu deus, este tive tempo)prá aceitar seu convite/recado/alerta. gosto de fazer estas coisa com tempo e paz. acabo de ler o texto, emocionante é pouco. tudo a ver. que coisa. e ainda por cima eu tinha acabo de reler aquele lindo texto sobre delicadeza e cortesia. não reconheço o mundo exterior hoje em dia. melhor olhar prá dentro e prá antes. pelo menos somos felizes lá atrás. que coisa bela. enfim, quem há de.obrigada por mais este respiro em meio ao resto.T