sábado, setembro 23, 2006

O que amas de verdade

O artigo abaixo eu escrevi para os meninos do século 21, no site do Cedom, Colégio Estadual Doutor Octávio Mendes, onde estudei no século 20.
http://www.cedom.net/.


Brilho nos olhos. Sabe como? Quando você quer muito algo, quando você conquista isso, quando você sente o coração batendo de felicidade, pura felicidade.
E por que muitas vezes os nossos olhos brilham, mas aquilo está muito longe, distante, impossível mesmo? E a gente pensa: não dá! A gente acha que não dá, porque tudo que está em volta parece que existe pra dizer que não dá.
Pois eu li uma vez um lindo livro de um grande professor de mitologia chamado Joseph Campbell. Ele participou da criação do roteiro de “Guerra nas Estrelas”, que todos nós conhecemos e adoramos, dirigido por George Lucas, e o ajudou na trilha do mito do herói. Lembra de Luke Skywalker, do mestre Jedi, em luta contra o lado da sombra, o Darth Vader?
Pois então, é ele, Joseph Campbell, também autor do livro “O Poder do Mito”, que conta a seguinte historinha:
“Antes de me casar, eu costumava sair para comer em restaurantes da cidade, tanto no almoço como no jantar. Quinta-feira à noite era folga das empregadas em Bronville, de modo que muitas famílias saíam para comer fora. Uma bela noite, eu estava em meu restaurante favorito e, na mesa ao lado havia um pai, uma mãe e um menino magrinho de uns 12 anos de idade. O pai disse ao menino:” Tome o seu suco de tomate”. E o menino respondeu: “Não quero”. O pai insistiu, com voz mais alta: “Tome o seu suco de tomate”. A mãe interveio: “Não o obrigue a fazer o que ele não quer”. O pai olhou para a mulher e disse: “Ele não pode levar a vida fazendo o que quer... eu nunca fiz nada do que quis, em toda a minha vida”. Esse é o homem que nunca perseguiu a sua bem-aventurança.(...) Eu sempre recomendo aos meus alunos: vão aonde o seu corpo e a sua alma desejam. Quando você sentir que é por aí, mantenha-se firme no caminho, e não deixe ninguém desviá-lo dele”.
Esse livro e essa história, entre as muitas que há no livro, foram muito importantes na minha vida. Pois eu sempre acreditei e acredito que nós nascemos para a felicidade, e para conquistá-la, devemos proceder de maneira a fazer o que é bom não apenas para nós, mas para a nossa comunidade. Não nascemos para consumir coisas, não nascemos para seguir uma profissão que nos torne ricos e/ou famosos, não estamos estudando apenas e tão somente para fazer um vestibular. Estudamos para conhecer coisas novas e importantes para a nossa vida, para o nosso dia-a-dia, para as coisas pequenas do cotidiano, muito mais especiais que as grandes, pois delas é feita a nossa vida.
E a vida é muito maior do que consumo, celebridade, televisão, embora tudo isso faça parte dela, e a gente precisa ter conhecimento e discernimento para poder escolher. Embora, é claro, principalmente precisamos sobreviver, os tempos estão muito difíceis, não temos idéia de qual será nosso futuro. Tantas interrogações...
Mas o que fazer, então? Negar a felicidade em prol da sobrevivência, e transformar-se naquele pai da historinha acima, que nunca fez o que queria na vida? Ou fazer só o que você quer, sem ligar para os outros, para o próximo?
Não é assim, existe uma saída.Você não pode sair do sistema da sociedade em que vive, tem de seguir uma profissão com a qual possa se sustentar, e à sua futura família. Mas por isso vai negar os seus desejos mais íntimos?Aquela voz que, se você apurar bem o ouvido, vai ouvir lá dentro, dizendo qual é a sua vocação, para que é que você está neste mundo?
É esta, como diz o professor Campbell, a sua bem-aventurança, o caminho que você deve seguir para tornar-se o que verdadeiramente você é.
Então, quando conseguir o silêncio suficiente para ouvir a sua própria voz interior, você saberá. Não o seu professor, não seus pais, amigos, irmãos, namorados (as), não a TV, não a internet, nem eu! Só você.
Eu digo porque já comprovei isso. Desde os 12, 13 anos de idade queria ser jornalista. Vinda de família pobre, a universidade era um sonho meio distante, e a profissão parecia ser algo inalcançável para uma menina da periferia da zona norte de São Paulo. Meu pai queria que eu fosse secretária, ele trabalhava em um escritório e me levou lá, certa vez, para fazer um estágio, eu já tinha uns 17 anos. Foi a pior semana da minha vida até então, na maquininha de cálculos, dentro de uma sala. Acho que meu pai começou a entender.
Eu não desisti, e graças ao excelente ensino que tive no Cedom, entrei na USP em dois cursos: Jornalismo e História.Fui a primeira universitária da família. Comecei logo a fazer estágio em jornais, e tive de largar o segundo curso. Não foi nada fácil, porque naquela época jornalismo era uma profissão masculina. Então, uma mulher tinha de provar que era uma excelente profissional, e a gente passava mesmo por provas de fogo: aos 19 anos trabalhei na reportagem policial, via gente morta, tinha de entrevistar as famílias, a polícia etc. Uma barra pesada, com se dizia na época! Mas consegui, e fui passando para outras áreas da reportagem: educação, saúde, cidades, etc.
Fui aprovada em um teste no jornal “O Estado de S. Paulo”, mas o editor veio me dizer que, infelizmente, ainda não admitiam mulheres. Era 1972 e começavam a sair das universidades as primeiras turmas de jornalistas. Alguns meses depois - eu já trabalhava no jornal O Globo- o editor me chamou, dizendo que agora sim, já se admitiam mulheres na redação do maior jornal do país. Mas eu preferi ficar onde estava.
Durante minha carreira, ainda algumas vezes enfrentei, eu e outras profissionais, esse preconceito. Hoje, na classe de pós-graduação em jornalismo da PUC na qual dou aulas, dos 40 alunos, 38 são mulheres...
Não posso imaginar outra profissão para mim a não ser esta, de escrever, de contar histórias, de ouvir o outro. De, às vezes, contribuir para melhorar a sociedade em que vivo.
Não foi fácil e continua não sendo fácil: o mercado na imprensa escrita, na TV, no rádio, se estreita cada vez mais. Entretanto, há outras mídias, como por exemplo, e cito apenas uma, os blogs. Nos Estados Unidos vários jornalistas independentes foram contratados por grandes jornais a partir de sua performance nos blogs. Uma outra comunicação é possível, e a imprensa comunitária também está aí para provar.
Bem, mas sobre jornalismo eu escreveria uma enciclopédia. Eu vim mesmo aqui só para dizer que é verdade essa história de perseguir sua bem-aventurança. E ter valores, projetos, objetivos que não são medidos por dinheiro, por posse de coisas, por celebridade, pelo poder. Tudo isso é passageiro. Só fica a sua verdade, aquela de dentro de você. Aliás, diz o poeta Ezra Pound – e a poesia serve, e muito, para a nossa vida : “O que amas de verdade permanece, o resto é escória
O que amas de verdade não te será arrancado”.
Então, persiga a sua bem-aventurança e não tenha medo porque, como diz Joseph Campbell, e como estou aqui para comprovar, “as portas se abrirão, lá onde você não sabia que havia portas”.
Boa sorte!

2 comentários:

Bartira disse...

que foto mais legal. belos tempos aqueles...queria ter participado...

Elizabeth disse...

eram bons, sim, Bá, mas também muito barra pesada. No entanto, as redações eram unidas e tinhamos ideais...