sábado, março 05, 2011

Um poema de Breton

Um homem e uma mulher absolutamente brancos

Tradução do poeta português António Ramos Rosa

Lá no fundo do guarda-sol vejo as prostitutas maravilhosas
Com trajes um pouco antiquados do lado da lanterna cor dos bosques
Levam a passear consigo um grande pedaço de papel estampado
Esse papel que não se pode ver sem que o coração se nos aperte nos andares altos de uma casa em demolição
Ou uma concha de mármore branco caída no caminho
Ou um colar dessas argolas que se confundem atrás delas nos espelhos
O grande instinto da combustão conquista as ruas onde elas caminham
Direitas como flores queimadas
Com os olhos na distância levantando um vento de pedra
Enquanto imóveis se abismam no centro da voragem
Nada se iguala para mim ao sentido do seu pensamento desligado
A frescura do regato onde os sapatinhos delas banham a sombra dos seus bicos
A realidade daqueles molhos de feno cortado onde desaparecem
Vejo os seus seios que abrem uma nesga de sol na noite profunda
E que se abaixam e se elevam a um ritmo que é a única exacta medida da vida
Vejo os seus seios que são estrelas sobre as ondas
Seios onde chove para sempre o invisível leite azul

quarta-feira, março 02, 2011

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Ferreira Gullar

O que eu penso sobre ele é: o poeta é maior do que o homem.

Disse uma bela frase: " A Arte existe porque a vida não basta".

Mas a mim nao convence, porque eu entendo que a vida não é separada da Arte. Talvez não tenha entendido bem, mas é o que posso oferecer.

domingo, fevereiro 27, 2011

Vasco Oscar Nunes

Tinha mais de 70, conheci quando eu tinha 19 e era uma estagiária num jornal de noticias policiais(!). Ficamos para sempre amigos, vi sua filha nascer, travamos grandes batalhas na área sindical dos jornalistas. Sempre otimista, sempre íntegro, um homem de princípios, coisa rara, coerente, até o fim acreditando na mesma causa da justiça social e da liberdade.
Operário, jornalista, diretor de teatro em Santos, da geração de Plinio Marcos, seu amigo.
Sentirei sua falta.

Reproduzo aqui um depoimento que divulgou em 2007 por meio de sua filha,Bartira. Essa historia, ele já havia me contado, há alguns anos, na casa do querido, saudoso Tide Hellmeister, perto da redação citada.



"DELEGACIA CAMUFLADA"

Quando começou a queima de carros da "Folha de São Paulo" como reação ao apoio à repressão policial em São Paulo, a "Empresa" criou, junto à portaria na Alameda Barão de Limeira, uma Delegacia policial "camuflada", é claro, e com o aval dos donos da Empresa, porque, ao contrário, isso não ocorreria. A Delegacia era integrada por policiais civis lotados na Secretaria de Segurança Pública e comandada pelo delegado Bin, um ex-delegado aposentado do DEOPS, que morava no prédio ao lado das "Folhas". Assim, ficava sempre à disposição dos seus superiores na Empresa...

A Delegacia era bem disfarçada e seus policiais não se envoviam em questões de rotina. Os funcionários da Portaria também não se envolviam nas quesstões policiais e não se misturavam ou se ajudavam... Por determinação superior, eram dois trabalhos diferentes e que nada tinham em comum. Os empregados da Portaria não gostavam de ser confundidos com os policiais. Tinham muito medo que pudesse acontecer alguma coisa com eles por causa da sua proximidade com os policiais durante o trabalho, pois ficavam todos na bem espaçosa Portaria-Delegacia. Sempre um mínimo de três policiais trabalhavam noite e dia. Tinham muito trabalho vigiando, igualmente, funcionários e não funcionários para impedir qualquer ação contra a Empresa. Mas tudo era feito com muito cuidado, discrição e "sem dar bandeira"...

Quem não fosse da Empresa não percebia a presença dos policiais. Com o passar dos anos e pelo fato de nada de mais grave ter acontecido, os funcionários acabaram se acostumando com os policiais e passaram a encará-los como normais e naturais. Essa Delegacia existiu, pelo menos, até depois da Greve dos Jornalistas de 1979, quando esses policiais tiveram grande atividade fiscalizando os grevistas e os entregando aos seus chefes. Várias demissões em todos os jornais aconteceram. Esses policiais estavam diretamente ligados aos órgãos de repressão. A Delegacia tinha a ficha de todos os funcionários e vigiava, discretamente, à distância, todos os que eram suspeitos de serem de "esquerda". Os funcionários daqueles dias, sabiam da existência da Delegacia, da presença dos policiais e os temiam, daí, talvez, as poucas ocorrências que se têm notícia. Era considerada uma Delegacia "preventiva" e tinha o aval oficial da Secretaria de Segurança Pública. Sempre se fez muito silencio sobre essa Delegacia, mas os mais antigos sabem que de fato isso ocorreu e as maiores testemunhas são os próprios jornalistas que cobriam a área policial.

Filha! É claro que os atuais responsáveis pela Empresa não vão confirmar a minha narrativa e muito menos os detalhes... Possivelmente, terão desculpas e explicações para cada fato por mim narrado. Mas, tenho a consciência tranqüila de que tudo é a mais pura verdade, podendo, é claro, ter me enganado num ou noutro detalhe, mas, em linhas gerais e no seu todo, é tudo verdade, mesmo...

Filha, é isso aí!

Fui demitido da Folha da Tarde, como secretário-gráfico, porque fiz a greve de 1979. Também, ao mesmo tempo, de "A Gazeta", onde editava a pagina de "Internacional". Além da Greve, eu era muito visado por ser anistiado político, por ter sido no SJPESP delegado à FENAJ na gestão Audálio Dantas e por ter sido o criador e fundador em 1974 do MFS - Movimento de Fortalecimento do Sindicato.

Vivi e sou testemunha do que narro acima...

sábado, fevereiro 26, 2011

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

terça-feira, fevereiro 22, 2011

Cartola

Minha casa é meu sapato

Por Rui Daher
No Blog do Nassif

Destaque do excelente documentário "O Samba que Mora em Mim" (Geórgia Guerra-Peixe, 2010), em cartaz em São Paulo, o morador do Morro da Mangueira, Cosme, quando perguntado, afirma morar em seus sapatos.

Sem residência fixa, resposta desconfortável se oferecida a autoridades, Cosme desliza com sua "casa" no sobe e desce do morro, sorrindo e acenando para a comunidade que o reconhece e responde.

Não parece ser diferente a situação de grande parte dos cortadores de cana-de-açúcar do estado de São Paulo.

Vindos do Vale do Jequitinhonha (norte de Minas Gerais) ou de várias regiões do Nordeste, esses trabalhadores são contratados por tempo determinado, retornam aos seus locais de origem logo após a safra, e voltam aos canaviais paulistas na nova colheita.

É a esse vaivém incessante que a professora Maria Aparecida de Moraes Silva, das UNESP e UFSCar, em artigo para a "Folha de São Paulo", de 20/02/2011, dá o nome de "migração permanentemente temporária". Algo assim como morar em sapatos. Alpercatas, talvez.

O que faz um brasileiro sair de pequenas cidades nordestinas para procurar trabalho em Guariba, Pradópolis, Ribeirão Preto, e outras ricas cidades da Mogiana paulista?

A explicação histórica não é novidade e pode ser encontrada na persistência de um modelo de desenvolvimento que nunca priorizou a distribuição de renda ou dignificou o trabalho agrário familiar, causa para um século de migração selvagem no sentido norte-sul.

A explicação do cotidiano é mais simples: apesar do trabalho duro, um salário mensal de mil reais, inatingível em seus rincões de partida.

As repercussões da chegada de milhares de migrantes, todos os anos, para o corte da cana são incômodas para as cidades importadoras de mão de obra. Postos de saúde repletos, falta de infraestrutura para suportar aumentos de até 50% no número de habitantes, ausência de vagas em creches municipais, ocupação de moradias precárias em áreas urbanas.

A região do Brasil já considerada uma Califórnia por sua riqueza, nessas ocasiões, sofre como se a sua matriz norte-americana estivesse lidando com uma invasão mexicana. Ou como sofrem hoje as elites urbanas descontentes com o afluxo da "nova classe média" aos aeroportos.

Mas tudo o que é ruim pode piorar, certo? Ainda que isso dependa do lado em que estamos do balcão.

Muito em breve, moradores do Piauí, do Maranhão, e de outros estados nordestinos, ou do norte de Minas Gerais, terão muita dificuldade para conseguir seus mil reais por mês cortando cana. Para o bem do ambiente, prevê-se para 2014 a extinção das queimadas da palha da cana.

Com isso - processo que já vem ocorrendo - aumentará a mecanização em detrimento do número de vagas de trabalho. Segundo produtores da região, na proporção de quase 100 empregos para cada máquina.

De outro lado, a Califórnia brasileira estará refeita e em paz.

Em 25 de junho de 2009, foi assinado o "Compromisso Nacional para aperfeiçoar as condições de trabalho na cana-de-açúcar". Sete ministros presentes. Entre eles, a ex-ministra da Casa Civil e atual presidente da República, Dilma Rousseff. Também lá, os presidentes da FERAESP (Federação dos Empregados Rurais Assalariados do Estado de São Paulo), da CONTAG (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura), e da UNICA (União da Agroindústria Canavieira).

Entre as várias cláusulas do Compromisso, uma pequena pérola sobressai: "adotar, orientar e difundir a prática da ginástica laboral nas atividades manuais de plantio e corte da cana-de-açúcar".

Paro por aqui. E faço dos meus sapatos a minha casa.