sábado, janeiro 29, 2011

Lá se foi Oderfla

Recebi esse texto do meu amigo Victor Passos, lá dos altos de Santa Tereza (RJ), sobre um amigo dele que se foi, nao conheci, mas ele sempre citava esse inesquecivel nome Oderfla- Alfredo ao contrário. Evoé Oderfla!
Ah, nada como a palavra pra ser nosso escudo. Mas pena que o Victor nunca apostou na escrita literária -- cronica, poesia, etc,-- que ele faz muito bem e fica só coçando a vasta barriga sentado nos bares de Santa, aposentado de tantos decadas de jornalismo," um carrapato a serviço do fato". Toma tento, garoto!



Lá se foi o Fla-Fla, meu maestro, meu guru nos altos de Santa Teresa, meu conselheiro. Aquele moreno-mulato! Baixinho, cabelo e barba cerrada. Aquele mouro! Falava rente ao meu nariz e em voz alta, exacerbando seus conceitos, suas verdades...
Lá se foi meu velho, meu mestre de cerimônias. Aquele gaiato! Foi ele que escancarou as portas de sua casa numa festa de fim de ano, onde conheci minha segunda mulher. E onde ouvia a sua música, aos goles de suas “confusões de laranja”. Ou de pera, uva, maracujá, de não sei que lá...
Aquele curandeiro! Misto de coleguinha e músico, tocava seus tantãs, seus atabaques, tumbadoras, bongôs, toda sua percussão. Aquele batuqueiro!Comparava as mulheres, seu grau de beleza, pelo tamanho das igrejas. Havia as capelinhas, as catedrais e as basílicas!!!
Meu efêmero companheiro de trabalho, das noitadas saudosas no Pardelas, ou do “Bar delas”, como preferia. Ou ainda no Adolfo, dividindo o exíguo espaço com os bondes e com os biriteiros, que imploravam cerveja ou cachaça e o velho lá dentro, nem aí: “Aqui todo mundo tem que esperar”...
Então chegava aquela figura tonitruante. E comandava pra dentro do balcão: Adolfo, abre isso aqui! E logo depois a porta se abria. Entrava e ficava um tempo ajudando o velho a atender a sua distinta freguesia, enquanto tomava uma birita e pegava um maço de cigarros. Depois saía para expandir sua verborragia...
Aquele periodista! Quanta história pra contar. Era como na música do Chico: “um pouco jogado fora, um pouco sábio demais”. Vasco doente, se não me traem os buracos da memória. Solidário com os desvalidos, com os desgarrados, com os desempregados, com os bêbados, os mendigos, as damas da noite...
Pois é. Lá se foi meu camarada. Há muito não o via, ignorava o seu paradeiro. Sumiu de Santa. Deixou o Curvelo.“Tudo na vida é passageiro menos o condutor e motorneiro”. Perguntava por onde andava, se por aqui ainda estava, agora sei, partiu desta e levou consigo seu aforismo recorrente...
“Quem não morre não vê Deus”.
Saravá!
Evoé!

ST, 28-29/01/11
victor passos

Oderfla Silva Almeida, Alfredo ao contrário, jornalista e músico, 75 anos.Morreu sábado, 22/01/11, depois de sofrer as sequelas de um AVC. A mão de Deus levou. Vai ter furdúncio no céu.

sexta-feira, janeiro 28, 2011

Marcelo Mirisola

Entrevista ao Portal Cronopios
O que pensa sobre a classe média alta que discute filosofia nas academias de ideias?

Alguma coisa está muito errada quando madame, em vez de gastar suas tardes num shopping comprando sapatos, perde seu tempo ouvindo um viadinho falando de Schopenhauer na Casa do Saber. Eu acredito, inclusive, que essa é a explicação para a onda de terremotos, tsunamis e enchentes que temos sofrido nos últimos dias. A natureza tem de reagir de alguma maneira, você não acha?

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Lambe Sujo x Caboclinhos


Do blog do Nassif, por Demarchi

Integrante mirim da manifestação cultural Lambe-Sujo x Caboclinhos, Laranjeiras-SE
A brincadeira representa as perseguições e batalhas entre negros escravos e índios domesticados pelos senhores de engenhos no período do Brasil colonial. O "Lambe-Sujo x Caboclinhos" acontece todos os anos no 2º domingo de outubro.
Ela conta a história dos escravos africanos e como suas fugas e artifícios confundiam os capitães-do-mato. O próprio termo "Lambe Sujo" vem da camuflagem que os escravos aplicavam sobre o corpo para facilitar sua fuga. A luta entre estes e os índios, devido à instalação dos quilombos em territórios dos "caboclinhos", e o conflito são encenados durante as festividades.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Ainda sobre o Belas Artes

Um artigo de Anna Lucia Marcondes em Cultura e Mercado

Meu primeiro beijo na boca foi no Cine Iguatemi. Meu primeiro debate, na saída do cine Belas Artes ainda Gaumont Belas Artes, com amigos a caminho do café de mesmo nome virando na Paulista.

Ficávamos entre livros e revistas, conversando e fugindo do vento com garoa normal da cidade. Usávamos cachecóis e chapéus ou boinas. Carregávamos além de livros, inquietações, vontades e uma ânsia de fazer história. Artistas de primeira bagagem e pensadores sedentos de idade e conhecimento saíamos das sessões de fim de noite alguns dias atravessando pela galeria subterrânea e, dependendo do saldo financeiro, indo ao Riviera, ao Baguette ou desciamos ao lado oposto, indo ao Frevinho e algumas vezes até o Pirandello. As calçadas da Paulista com Consolação assistiam risos e frases de efeito e muita criatividade. Como vários jovens desde os anos 50, fomos criados assim, saindo de madrugada, na garoa, discutindo sonhos que criaram a consciência crítica, a ética e a postura inerente ao povo desta cidade.

Existe hoje o pensamento contemporâneo da história móvel, onde várias referências estabelecem o real conteúdo do momento ou fato histórico, não mais uma só escrita, um só olhar. Isso trouxe uma maneira diferente há pelo menos três décadas, de contar nossa vida. Filósofos e historiadores sociais no mundo vêm despertando pensares e atitudes vitais para nossa atualidade, para nossas sociedades. É fato que, uma construção de vida é fundamentada na memória (e no conhecimento), construindo um presente consciente e participativo para se alcançar a realização de um futuro possível e feliz.

Acredito que devamos lançar um olhar antropológico e cultural a esta situação do Belas Artes.

Qualquer que seja a definição adotada para a Antropologia é possível entende-la como uma forma de conhecimento sobre a diversidade cultural, ou seja, a busca de respostas para entendermos o que somos a partir do espelho fornecido pelo “Outro ou pelo externo”; uma maneira de se situar na fronteira de vários mundos sociais e culturais, abrindo janelas entre eles, através das quais possamos alargar nossas possibilidades de sentir, agir e refletir sobre o que nos faz ser seres humanos.

Para pensar nossas sociedades, a Antropologia preocupa-se em detalhar os seres humanos que as compõem e com elas se relacionam, seja nos seus aspectos físicos, na sua relação com a natureza (ou meio ambiente urbano no nosso caso), seja na sua especificidade cultural. Para o saber antropológico o conceito de cultura abarca diversas dimensões: o universo psíquico, os mitos, os costumes e rituais, suas histórias peculiares, a linguagem, valores, crenças, leis, relações de parentesco, e outros.

Hoje que respeitamos o traçado da Memória e entendemos a Historia de formação de nossa cidade, sua capacidade de renovação, emergência, superação e inquietude intelectual, abraçando pessoas vindas de todo país e estrangeiros de linguagem e dialetos distintos, não podemos nos aquietar e retirar o olhar antropológico do tema, deixando um ponto cultural de formação vivencial e formativa da personagem da paulistanidade ser retirado ou realocado.

O Cine Belas Artes, no endereço que o acomoda, além de local de encontro e ponto de referência pela importância de sua trajetória e filmografia exibida, é memória viva da cidade. É, não só a referência de um grupo, como o nosso, mas acompanhou a história de gerações de brasileiros, não apenas paulistanos. É um dos mais tradicionais cinemas da capital paulista e seu fechamento, ocasionaria uma perda real em valor histórico-cultural. Esquina de Cultura, é marco histórico do cinema brasileiro, carregando um traço antropológico da cidade. Este cinema marcou uma época nos apresentando o Cinema Novo, o Nouvelle Vague e o Neo Realismo Italiano, reuniu cinéfilos, proporcionou debates sobre Visconti, Fellini, Godard, Glauber, Eric Rohmer, Truffaut, fez projeções de filmes raros, festivais de cinema. Ponto de convergência de lazer, intelectualidade, vanguarda, política, projetava fitas emblemáticas e hoje clássicas. Nos tempos da ditadura, reuniu pessoas que lutavam contra o sistema da época. Pessoas de todas as idades tem se manifestado por sua preservação. Estamos acordados e de olhos abertos. Queremos preservar esta parte da nossa trajetória e permitir a conciliação do cinema de rua com a nova cidade que
estamos construindo.

sábado, janeiro 22, 2011

Horácio, aquele do Carpe Diem

Odes I,11

tu ne quaesieris, scire nefas,quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quicquid erit, pati,
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum: sapias, uina liques, et spatio breui
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit inuida
aetas: carpe diem, quam minimum credula postero.

Odes I,11
Tradução Paulo Herniques Britto


Não me perguntes, pois é proibido,
que fim darão, Leocono, a ti e a mim
os deuses: nem em adiv inhações
ao modo babilônico confies.
Enfrenta o que cruzar o teu caminho
Quer tenhas pela frente ainda muitos
invernos, quer fustigue já a costa
do mar Tirreno o último que Júpiter
há de te dar, sê sábio, bebe vinho,
e espera pouco.Neste mesmo instante
em que falamos, o invejoso tempo
de nós já foge.Aproveita o dia
confia no amanhã somente o mínimo

sexta-feira, janeiro 21, 2011

SOS Chuvas

Para ajudar

http://www.facebook.com/pages/SOS-Chuvas/100511803360142

Bukowski e a vocação literária

Roll the dice

if you’re going to try, go all theway.otherwise, don’t even start.
if you’re going to try, go all theway.this could mean losing girlfriends,wives, relatives, jobs andmaybe your mind.
go all the way.it could mean not eating for 3 or 4 days.it could mean freezing on apark bench.it could mean jail,it could mean derision,mockery,isolation.isolation is the gift,all the others are a test of yourendurance, ofhow much you really want todo it.and you’ll do itdespite rejection and the worst oddsand it will be better thananything elseyou can imagine.
if you’re going to try,go all the way.there is no other feeling likethat.you will be alone with the godsand the nights will flame withfire.
do it, do it, do it.do it.
all the wayall the way.
you will ride life straight toperfect laughter, itsthe only good fightthere is.

Tradução de Leda Beck

Role os dados

se vai tentar, vá até o fim.
caso contrário, nem comece.
se vai tentar, vá até o fim.
pode perder namoradas, esposas, parentes, empregos e talvez até a cabeça.
vá até o fim.
pode ficar sem comer por três ou quatro dias.
pode congelar no banco do parque.
pode ser preso.
pode receber escárnio, gozações, isolamento.
isolamento é um presente, todo o resto é um teste da sua resistência, de quão forte é a sua vontade.
e você fará a despeito da rejeição e dos piores azares e será melhor do que qualquer coisa que possa imaginar.
se vai tentar, vá até o fim.
não há outra emoção como essa.
você estará sozinho com os deuses e as noites queimarão como fogo.
faça, faça, faça. faça.
até o fim até o fim.
você cavalgará a vida diretamente para o riso perfeito.
essa é a única boa luta que existe.

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Maria da Penha: "Sempre tem alguém querendo passar a mão na cabeça do agressor"

Da Rede Brasila Atual
São Paulo – A farmacêutica Maria da Penha Maia Fernandes, que dá nome à Lei Maria da Penha, disse nesta quarta-feira (19) que considera um retrocesso a decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) de suspender alguns casos envolvendo a lei.

Com a decisão tomada em dezembro e só divulgada na última terça-feira (18), o agressor pode ter a pena suspensa em período de dois a quatro anos.

"Sempre tem alguém querendo passar a mão na cabeça do agressor", disse a biofarmacêutica, que defendeu a causa contra violência doméstica até que a lei fosse sancionada pelo então presidente Lula. "Nós já temos Estatuto da Criança, Estatuto do Idoso, mas sempre quando se trata da defesa à mulher, alguém defende quem faz o crime", completou.

Questionada sobre as causas da suposta proteção do STJ aos agressores, Maria da Penha atribui a questão a uma "raiz machista" na cultura do Poder Judiciário.

O caso de agressão sofrida por Maria da Penha – e a demora do sistema judiciário em sua solução – foi apresentado à Organização dos Estados Americanos (OEA) por ela e outras entidades, como o Centro de Justiça pelo Direito Internacional (Cejil) e o Comitê Latino-americanos de Defesa dos Direitos da Mulher (Cladem). Na ocasião, o Brasil foi condenado por negligência e omissão em relação à violência doméstica.

A respeito dos caminhos que podem ser tomados para que o retrocesso em relação ao vigor da lei não aconteça de fato, Maria da Penha espera que entidades que defendem os direitos da mulher firmem unidade, apesar de não estar mais ativa na causa. "Assim como aconteceu para que a lei fosse aprovada, é preciso que essas decisões sejam encaminhadas para a OEA pelas entidades que lutaram para que a impunidade deixasse de existir", afirmou.

domingo, janeiro 16, 2011

Novidades 2011 na telinha

Mais manipulado. Fui só eu que notei ? Não, amigos também notaram. O "jornalismo" da globo executa novas instruções: agora, nas tragédias ( em algumas? em determinadas? ) o repórter pode se comover, chorar e abraçar a vítima que está sendo "entrevistada".
A reporter sonia bridi abraçou uma senhora antes mesmo de ela cair em prantos. Outra, a que substitui fatima bernardes, e me esqueço o nome, faz o tradicional jogo de tentar levar às lagrimas uma entrevistada. Uma garota de 15 anos, que a mesma globo deu a sorte de encontrar em meio a destroços e levar à maternidade. Lá nasceu o bebê, bem e com saúde, e lá estava atenta a representante global para a indefectivel pergunta: "O que você espera para o futuro dele?" A mãe responde: "Que ele seja feliz, claro". A representante global insiste: " Mas como pensar em futuro?"
Coisas que enjoam o estômago . Como outro repórter, enfiando suas bem fornidas botas no lamaçal, atras da história do pedreiro que perdeu a familia toda e imediatamente tornou-se um voluntário do resgate. Emocionante, sem dúvida, mas não havia clima para choro no que o homem falou na ultima tomada. Mesmo assim, o representante global agarrou o homem e abraçou e nao vi se chorou tambem.

Terão adicionais por choro incluídos nos olerites? Quer dizer, os que têm olerites?

Que passa, minha gente? Exemplos de não objetividade assim são vistos sempre no programa de Caco Barcelos, Profissão Reporter, com os jovens jornalistas se comovendo diante das misérias que retratam. Ali, conduzidos por um cara que sempre me pareceu honesto e competente,achei válido. Afinal, jornalista não é uma coisa amorfa, e jornalista tem lado, é isso o que sempre pensei.

Mas o que estão pretendendo agora no noticiário da tragédia serrana?É permitido solidarizar-se, imaginem! Continuarão se banhando em lágrimas e dando falsos abraços - eu hein, que Medo!-- conforme ordena a pauta, para manipular mais ainda os ingênuos espectadores? Era o que faltava. Novidades na telinha em 2011. Quousque tandem?