segunda-feira, setembro 06, 2010

Som e fúria





"Life's but a walking shadow, a poor player


That struts and frets his hour upon the stage


And then is heard no more. It is a tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing".






Shakespeare, Macbeth

domingo, setembro 05, 2010

Lima Barreto e a loucura alheia


















À direita, ultima foto no hospício.

"Diário do Hospício e O Cemitério dos Vivos" [Cosac Naify, 352 págs., R$ 55], reúne um diário e um romance inacabado, narrando as duas internações manicomiais por alcoolismo de Lima Barreto entre 1914 e 1920. Foram reeditados no mesmo volume, com fotos e crítica.
Ele morreu em novembro de 1922, aos 41 anos, e era internado durante durante as crises severas de depressão - à época um dos sintomas pertencentes ao diagnóstico de "neurastenia".
Sempre gostei dele, desde o colegial:O homem que sabia javanês, Triste fim de Policarpo Quaresma, Recordações do escrivão Isaías Caminha. Todos contra a hipocrisia desta sociedade que mantém, ainda, muitos dos traços ressaltados pelo escritor mulato e pobre. Quando o jornalista Sérgio Augusto foi trabalhar, na década de 1960, no Correio da Manhã, descobriu que até aquele ano o nome de Lima Barreto era probido de ser impresso lá. Confirmou a história em abril, quando o entrevistei no Rio.
Quatro décadas de censura.
Isto porque as Recordações são um roman à clef, exatamente sobre o Correio da Manhã.
Como Van Gogh e Fernando Pessoa, Lima Barreto morreu cedo. Assim como Vincent, louco. A "loucura" desses gênios sempre me pareceu uma profunda inadaptação à sociedade.
Amigo de Machado de Assis, que escondia sua mulatice, Barreto foi com ele, certa vez, a um enterro. Chegando lá, Machado disse que era sua mãe. Barreto ficou chocado, porque o amigo nunca tinha mencionado a mãe.
Desde menina, talvez por influência de mãe e avó materna, tão cheias de compaixão, sempre me atraíram os gauches na vida. Os fracassados? Não, os campeões do fracasso, como definiu um amigo meu uma vez.
Não são fracassados, a sociedade é que é. Como sempre se comprova décadas ou séculos depois que eles se vão.Simplesmente são muito frágeis para carregar tão descomunal peso.
Aqui, um trecho do terceiro capítulo do livro.

A minha bebedeira e a minha loucura

Eu sou dado ao maravilhoso, ao fantástico, ao hipersensível; nunca, por mais que quisesse, pude ter uma concepção mecânica, rígida, do Universo e de nós mesmos. No último,no fim do homem e do mundo, há mistérios e eu creio neles.
Todas as prosápias sabichonas, todas as sentenças formais dos materialistas, e mesmo dos que não são, sobre as certezas da ciência, me fazem sorrir e creio que este meu sorriso não é falso, nem precipitado, ele me vem de longas meditações e de lanceantes dúvidas.
Cheio de mistério e cercado de mistério, talvez as alucinações que tive as pessoas conspícuas e sem tara possam atribuí-las à herança, ao álcool, a outro qualquer fator ao alcance damão. Prefiro ir mais longe...
Certo dia a minha alucinação foi tão forte que resolveram levar-me para a casa de um parente, para ver se melhorava; foi pior. Mandaram-me para o Hospício. No mesmo dia que lá cheguei, no pavilhão, nada sofri. Assim não foi no Hospital Central, nem na Santa Casa, de Ouro Fino, onde as visões continuaram, no Hospital por mais de vinte e quatro horas e, em
Ouro Fino, unicamente na noite da entrada.
Agora, que creio ser a última ou a penúltima, porque daqui não sairei vivo, se entrar outra vez, penetrei no pavilhão calmo, tranquilo, sem nenhum sintoma de loucura, embora toda a noite tivesse andado pelos subúrbios sem dinheiro, a procurar uma delegacia, a fim de queixar-me ao delegado das coisas mais fantásticas dessa vida, vendo as coisas mais fantásticas que se possam imaginar.
No começo, eu gritava, gesticulava, insultava, descompunha; dessa forma, vi-as familiarmente, como a coisa mais natural deste mundo. Só a minha agitação, uma frase ou outra desconexa,um gesto sem explicação denunciavam que eu não estava na minha razão.
O que há em mim, meu Deus? Loucura? Quem sabe lá?

Tom Waits para Kathleen

sábado, setembro 04, 2010

Leonard Cohen para Janis Joplin

Música para ninar dinossauros





"Ninguém ampara o cavaleiro do mundo delirante"
Murilo Mendes

A cidade, a cidade cinzenta está cálida. O metrô deságua numa alameda com árvores que dá no Centro Cultural São Paulo, arquitetado por Eurico Prado Lopes, que dá nome à alameda. É bonito e faz tempo não entro lá, a não ser dia desses na homenagem para Massao Ohno (que ano de tantas partidas).
Mas há tempo não percorro com vagar.E não foi hoje.

São três amigos: Mário Bortolotto(Igor), Paulo de Tharso(Treta) e Lourenço Mutarelli (Zed). Três amigos da geração dos 80, em duas fases da vida, naquela década e hoje. Eles “não conseguem estabelecer relações normais com as mulheres e por isso convivem apenas com garotas de programa”.
As putas, que eles chamam toda hora de putas, e de burras também, dão palmadas e batem neles algumas vezes, como as mães fazem com os meninos. Ou faziam.
Meninos “de uma geração que chegou atrasada”, diz o personagem Igor. E outro, não me lembro qual, quando jovem,diz que ama todas as mulheres do mundo, e cita o grande Domingos de Oliveira.
A geração chegou atrasada, nasceu em meio à ditadura e quando ela caiu tinha uns 20 anos. Depois, no impeachment de Collor, diz, estavam já velhos para ser caras-pintadas.
Dinossauros, sabe o que aconteceu com eles? Foram extintos, responde a puta. Encanta-se o homem com o conhecimento da moça. E outro, quando ela diz que conhece Leonard Cohen.
Solitude.

Georgia on my mind. Uma trilha sonora dos backstages de nossas vidas.
Solitude de homens e de mulheres.
Elas, mulheres que “não são de verdade”.Elas, sentadas aos pés deles, os três no sofá. Fumo e cocaína da juventude são substituídos por drogas pesadas para dormir. Mais o álcool de sempre.
Homens e sua amizade fiel.
Uma comédia dramática, leio em alguns textos. Não parece comédia,mas se não tivesse umas pitadas, o que seria de nós naquele teatro? E o que seria de nossas vidas se as levássemos muito a sério?
Homens que precisam de mulheres de verdade, de mulheres que os amem, diz a puta ao piano.
Mulheres também precisam de homens que as amem, dizemos nós.
É um final triste e belo desta primeira peça de Bortolotto após sua volta.

Quem?
Mas quem vai amparar cavaleiros e amazonas deste mundo delirante, na fita das gerações?









V Mostra Cemitério de Automóveis
3 de setembro a 17 de outubro
Música para ninar dinossauros
3, 4 e 5 de setembro.
Texto, direção e sonoplastia:Mário Bortolotto
Iluminação e operação ténica:Rodrigo Cordeiro
Elenco: Mário Bortolotto, Lourenço Mutarelli, Paulo de Tharso, Dani Dezan, Flávia Tápias, Wanessa Rudmer, Francisco Eldo Mendes, Marcelo Selingardi, Carlos Carah, Paul Haiban, Carolina Manica e Fernanda Sanches.
Uma trupe das boas.

quinta-feira, setembro 02, 2010

Paranóias

O menino Roberto Piva, na Fazenda Santa Terezinha, em Analândia, interior de São Paulo - (1950/1951)

Em Paranóia, de 1963, reeditado pelo IMS, o poeta Roberto Piva andarilha por São Paulo. A fotografia é do grande artista plástico Wesley Duke Lee.
"Ninguém ampara o cavaleiro do mundo delirante", é o verso de Murilo Mendes que Piva colocou como epígrafe ao Poema de ninar para mim e Brueghel (aliás, pintor da Torre de Babel, reproduzida no cabeçalho deste blog)."Eu abro os braços para as cinzentas alamedas de São Paulo".
"Na rua São Luis, meu coração mastiga um trecho da minha vida", diz em Visão de São Paulo à noite-Poema antropófago sob narcótico.
Depois de Mário de Andrade, Piva refaz os roteiros da cidade, outra cidade, novas lisergias.
Na década de 1960 já era outra a metrópole, muito diferente dos tempos de Mário meditando sobre o Tietê.
No ano 2010, então... Nesta tarde, ecoam os versos- porradas de Piva dentro de mim, que leio Paranóia, e ando pela cidade.
Na avenida Paulista dos ex-barões do café, hoje do capital financeiro,resta o muro da casa do Matarazzo, que virou estacionamento há décadas. Se me lembro, detonaram a casa da noite para o dia quando a então prefeita Luiza Erundina mencionou um possível tombamento. Não entendi por que ainda não virou prédio, e fiquei pensando que o estacionamento naquele ponto estratégico talvez renda mais.

No Belas Artes, assisti a Cinco vezes favela, uma reedição do clássico do Cinema Novo, desta vez com o olhar dos proprios favelados. Alguma coisa mudá para melhor, às vezes.
Já o cinema, desde 1952 na cidade, cenário de tantas gerações fazendo História ou não, pede socorro, desde que o banqueiro retirou o patrocínio. Banqueiro quer lucro em tudo, e não pensa na imagem que um patrocínio cultural desses pode possibilitar.
Cinemas vão fechando as portas, e tomara que as campanhas pelo Belas Artes tenham sucesso.
Nós, seus assiduos cinéfilos, temos o dever de ajudar.
Assim como algum ex-frequentador rico do mais que tradicional Riviera, o bar em frente, onde todo mundo ia discutir o filme e etc, poderia resgatá-lo. Está pra alugar ou vender. Ninguém, a não ser as tantas gerações que iam lá, sabe o que era esse bar, onde Angeli criou a Rê-Bordosa e o garçon virou personagem.
A cidade não tem memória.
Paranóia, paranóias. Quem vai amparar tantos cavaleiros e amazonas delirantes? Que cidade? Que metrópole esta onde nossos corações mastigam tantos trechos de nossas vidas?

quarta-feira, setembro 01, 2010

terça-feira, agosto 31, 2010

O mais novo bairro privativo de SP?


Alguem poderia desenhar pra me explicar?

Eu amei Victoria Blue


Dia 14 de setembro, lançamento da estréia do Estevao Romane pela Geração Editorial, "Eu amei Victoria Blue- minha história de amor com uma garota de programa em Nova York." A partir das 19 hs, na Fnac Pinheiros.

O garoto promete.


Aqui, uma degustação

segunda-feira, agosto 30, 2010

Blogs europeus denunciam xenofobia inglesa contra Teatro da Curva

No dia 21 de agosto postei aqui a expulsão do grupo brasileiro Teatro da Curva do aeroporto de Londres, onde foram convidados para participar de um festival. Meu amigo Arkan, que mora na França, publicou no blog dele.
Hoje Arkan me escreveu dizendo que um amigo que mora em Londres descobriu a carta do grupo que o Arkan traduziu neste outro blog, e que tambem está rolando em Londres