quarta-feira, março 11, 2009

Histórias das redações- 8


Manda esta história o querido Mouzar Benedito, mineiro, jornalista, geógrafo e escritor, o melhor contador de causos que já conheci e ainda por cima, fundador da Sosaci, a associação em defesa do Saci Pererê – brava entidade que aliás tem uma campanha para torná-lo o mascote da próxima Copa do Mundo de 2014, que será no Brasil.


Mamprim e Bete


Uma das figuras gloriosas do fotojornalismo brasileiro é (ou foi, “não está mais entre nós”, como diz o eufemismo para “morreu”) o italiano Luigi Mamprim. Na juventude, foi guerrilheiro, partisan, na Itália, lutando contra o fascismo durante a Segunda Guerra. Acho que lá pelo início da década de 1950 veio para o Brasil.

Trabalhou em várias revistas, entre elas a Realidade. Eu o conheci na redação do Guia Rural Abril, uma bela experiência que por fim foi derrotada por alguns jornalistas que resolveram fazer do Guia uma revista para grandes fazendeiros. Grande fazendeiro tem agrônomo e veterinário próprio, não precisa comprar revista sobre esses assuntos. E se precisassem, são poucos, não sustentariam uma edição de mais de cem mil exemplares.

Bom, lá estava o Mamprim, além de grande fotógrafo, grande companheiro, comunista histórico. Uns quatro ou cinco de nós almoçávamos sempre juntos num restaurante com cara de popular numa praça perto da avenida Luís Carlos Berrini. O Mamprim sempre comia um filezão quase cru, escorrendo sangue.

Mas quando viajava, o Mamprim mudava. Virava italiano de novo, principalmente quando estava em regiões nada italianas, como o Nordeste. Aí, queria comer macarrão ao pesto com pão italiano. E era uma encrenca.

Eis que veio a Bete Costa trabalhar no Guia Rural também. Uma ótima repórter. Com um detalhe: vegetariana total. Só comia vegetais e preferia uns que quase só existiam em São Paulo, como a rúcula, por exemplo.

Um dia foi mandada uma dupla fazer uma matéria na região de Irecê, oeste da Bahia, grande produtora de feijão. Hoje, Irecê produz muitas verduras, mas na época era daqueles lugares em que, se você pedia num restaurante alguma coisa com verdura, a tal coisa vinha acompanhada de tomate e batata, nada verde. Verdura lá era isso. A dupla era formada pelo Mamprim e pela Bete.

Fiquei imaginando que bicho ia dar essa viagem, a convivência entre um fotógrafo querendo comer macarrão ao pesto com pão italiano e no fim – dada a inexistência disso por lá – fazendo concessão a um filé sangrando, e uma repórter que comia rúcula e outras coisas exóticas (para a região), sem querer fazer concessões. E era uma viagem de mais de uma semana!

Esperávamos quase ansiosos a volta dos dois, para saber como se viraram. No dia do reinício do trabalho deles na redação, o Mamprim chegou primeiro. Estava sentado a uma mesa, de costas para a porta, antes de contar sobre a viagem, quando entrou a Bete bufando. Foi direto a uma mesa, pegou uma máquina de escrever e caminhou com ela erguida para largá-la na cabeça do Mamprim. Foi segurada a tempo. Mas até hoje não sei detalhes da viagem. Não contaram. Só sei que trouxeram matérias e fotos muito boas.

terça-feira, março 10, 2009


Dois poemas: Orides Fontela


Sempre volto a ela. Filha de operário e dona de casa, nascida em São João da Boa Vista (SP), formou-se em Filosofia pela USP. Trabalhou toda a vida como bibliotecária de um colégio estadual na Vila Aricanduva. Uma das nossas maiores poetas, li um dia a notícia de que havia sido despejada. A última entrevista que vi dela pela TV foi em seu apartamento, num dos prédios que ladeiam o Minhocão.


Errância

Só porque
erro
encontro
o que não se
procura

só porque
erro
invento
o labirinto

a busca
a coisa
a causa da
procura

só porque
erro
acerto: me
construo.

Margem de
erro: margem
de liberdade.


Kant (relido)

Duas coisas admiro: a dura lei
cobrindo-me
e o estrelado céu
dentro de mim.


Toshio Kawamura emocionou

segunda-feira, março 09, 2009

Ato contra a "ditabranda" tem repercussão internacional


http://www.elmundo.es/elmundo/2009/03/08/comunicacion/1236540191.html

Los lectores obligan a un diario brasileño a reconocer su error en un editorial

El diario 'Folha de Sao Paulo', el de mayor circulación en Brasil, reconoció su error en un editorial del 17 de febrero en el que llamó a la dictadura militar (1964-1985) "dictablanda", tras una protesta el último sábado de más de 300 personas ante la sede del periódico.

En un comunicado, el director de redacción del diario, Otavio Frías Filho, admitió que "el uso de la expresión 'ditabranda' (dictablanda) fue un error. El término tiene una connotación que choca y que no representa la gravedad del asunto. Todas las dictaduras son igualmente abominables".

Frías Filho, sin embargo, señaló que "desde el punto de vista histórico", la dictadura brasileña, "con toda su truculencia, fue menos represiva que sus congéneres argentina, uruguaya y chilena o que la dictadura cubana, de izquierda, con la cual simpatizan (los manifestantes)".

Varios lectores enviaron cartas de protesta, que fueron publicadas, y 'Folha' emitió una contrarrespuesta pidiendo igual actitud en la crítica a las dictaduras de izquierda.

Las protestas del sábado pedían que los responsables del artículo se retractaran "de rodillas" en una plaza pública y contaron con un memorando de repudio al editorial firmado por 7.000 personas, entre ellos intelectuales como el centenario arquitecto Oscar Niemeyer y el compositor y escritor Chico Buarque.

domingo, março 08, 2009


Como foi o ato contra a "ditabranda"


Foi muito bom e emocionante o ato ontem, na Barão de Limeira, na frente do pédio da FSP. Havia cerca de 400 pessoas, a FSP, na materia que colo abaixo, contabilizou 300.
Começou com a fala de Eduardo Guimarães, do Movimento dos Sem Midia, que convocou o ato.
(http://edu.guim.blog.uol.com.br)

Continuou com a palavra aberta a vários ex-presos políticos, que, cada um, contou as tristes e aterradoras histórias daquelas trevas.

Para ler e ver mais

http://emerluis.wordpress.com

Os professores insultados pela Folha, motivo do abaixo-assinado que corre na internet, e hoje chega a 7.643 assinaturas, não compareceram e nem enviaram representantes e /ou uma carta para ser lida. A professora Benevides havia confirmado sua participação.

A matéria da Folha desculpa-se, mas reafirma suas posições, assinadas pelo dono do jornal

Manifestação contra Folha reúne 300 pessoas em frente ao jornal
Militantes fazem desagravo a professores, que não comparecem a evento


DA REPORTAGEM LOCAL

Cerca de 300 pessoas participaram ontem pela manhã de manifestação contra a Folha em frente à sede do jornal, na região central de São Paulo.
O ato público tinha o duplo objetivo de protestar contra editorial publicado pelo jornal no dia 17 de fevereiro, que usou a expressão "ditabranda" para caracterizar o regime militar brasileiro (1964-1985), e prestar solidariedade aos professores Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato. Nenhum dos dois estava presente.
A Folha publicou no "Painel do Leitor" 21 cartas sobre o assunto, 18 delas críticas aos termos do editorial, entre as quais as assinadas por Benevides e Comparato. Segundo escreveu este último, o autor do editorial e o diretor de Redação que o aprovou "deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro".
Em resposta, o jornal classificou a indignação dos professores de "cínica e mentirosa", argumentando que, sendo figuras públicas, não manifestavam o mesmo repúdio a ditaduras de esquerda, como a cubana.
Desde então, além de cartas, o jornal vem publicando artigos a respeito da polêmica, alguns dos quais com críticas ou reparos à própria Folha.
O protesto de ontem foi organizado pelo Movimento dos Sem-Mídia, idealizado pelo blogueiro Eduardo Guimarães. O público era composto na sua maioria por familiares de vítimas da ditadura, estudantes e sindicalistas ligados à CUT.

Abaixo-assinado
Um abaixo-assinado de repúdio ao editorial da Folha e solidariedade a Benevides e Comparato circulou pela internet nas últimas semanas. Entre seus signatários estão o arquiteto Oscar Niemeyer, o compositor e escritor Chico Buarque, o crítico literário Antonio Candido e o jurista Goffredo da Silva Telles Jr.
Niemeyer disse que "o convite para assinar veio de um amigo muito querido, que foi preso e torturado. Fiquei muito chateado, porque gosto do pessoal da Folha. Fiquei constrangido, mas não podia dizer que não". O arquiteto disse não ter lido o editorial. Na sua versão eletrônica, o abaixo-assinado contava com mais de 7.000 adesões, cuja autenticidade, porém, não há como comprovar.
Segue a íntegra do texto:
"Ante a viva lembrança da dura e permanente violência desencadeada pelo regime militar de 1964, os abaixo-assinados manifestam seu mais firme e veemente repúdio à arbitrária e inverídica revisão histórica contida no editorial da Folha de S.Paulo do dia 17 de fevereiro de 2009.
Ao denominar ditabranda o regime político vigente no Brasil de 1964 a 1985, a direção editorial do jornal insulta e avilta a memória dos muitos brasileiros e brasileiras que lutaram pela redemocratização do país. Perseguições, prisões iníquas, torturas, assassinatos, suicídios forjados e execuções sumárias foram crimes corriqueiramente praticados pela ditadura militar no período mais longo e sombrio da história política brasileira. O estelionato semântico manifesto pelo neologismo ditabranda é, a rigor, uma fraudulenta revisão histórica forjada por uma minoria que se beneficiou da suspensão das liberdades e direitos democráticos no pós-1964.
Repudiamos, de forma igualmente firme e contundente, a Nota da Redação, publicada pelo jornal em 20 de fevereiro em resposta às cartas enviadas ao "Painel do Leitor" pelos professores Maria Victoria de Mesquita Benevides e Fábio Konder Comparato. Sem razões ou argumentos, a Folha de S.Paulo perpetrou ataques ignominiosos, arbitrários e irresponsáveis à atuação desses dois combativos acadêmicos e intelectuais brasileiros. Assim, vimos manifestar-lhes nosso irrestrito apoio e solidariedade ante as insólitas críticas pessoais e políticas contidas na infamante nota da direção editorial do jornal.
Pela luta pertinaz e consequente em defesa dos direitos humanos, Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato merecem o reconhecimento e o respeito de todo o povo brasileiro."


Folha avalia que errou, mas reitera críticas

DA REDAÇÃO

O diretor de Redação da Folha, Otavio Frias Filho, divulgou ontem as seguintes declarações:
"O uso da expressão "ditabranda" em editorial de 17 de fevereiro passado foi um erro. O termo tem uma conotação leviana que não se presta à gravidade do assunto. Todas as ditaduras são igualmente abomináveis.
Do ponto de vista histórico, porém, é um fato que a ditadura militar brasileira, com toda a sua truculência, foi menos repressiva que as congêneres argentina, uruguaia e chilena -ou que a ditadura cubana, de esquerda.
A nota publicada juntamente com as mensagens dos professores Comparato e Benevides na edição de 20 de fevereiro reagiu com rispidez a uma imprecação ríspida: que os responsáveis pelo editorial fossem forçados, "de joelhos", a uma autocrítica em praça pública.
Para se arvorar em tutores do comportamento democrático alheio, falta a esses democratas de fachada mostrar que repudiam, com o mesmo furor inquisitorial, os métodos das ditaduras de esquerda com as quais simpatizam."
Otavio Frias Filho

sexta-feira, março 06, 2009

Histórias das redações -7

Do Rogério Furtado, repórter de muita e muita estrada nas quebradas do jornalismo, e que hoje vive nos sertões das Minas Gerais. Labutou na Folha por um bom tempo.:

“Na Barão de Limeira acontecia de tudo. O jornal, por exemplo, "matou" um jogador de futebol "por constricção da vulva, algo dificilmente recuperável".
Um sujeito morou durante bom tempo (talvez anos, não sei) no banheiro da redação, até que fosse descoberto pelo Boris Casoy; um fotógrafo morreu dentro da Agência Folhas em consequência de um disparo acidental de revólver; um contínuo foi esmagado pelo velho elevador pantográfico que ficava perto da entrada da Agência Folhas... E por aí afora... Tudo isso passou despercebido para a maioria, em um contexto que me parece típico das redações: todo mundo fica acompanhando o que vai pelo mundo e não tem tempo (ou interesse) de olhar o que se passa "dentro de casa".”

É mesmo, Rogério.
Contam que nos Diários Associados, um senhor, durante anos, diariamente chegava, sentava, abria a mesa com aquela máquina de escrever dentro e se punha a trabalhar. Também recebia pessoas.
Todo o mundo achava que era um jornalista.
Mas não.
Descobriu-se, um dia, que ele apenas encontrara um escritório gratuito pra despachar.
Imagino quantas dessas histórias rolaram pelas varias redações, cadê o pessoal pra contar aqui?

quinta-feira, março 05, 2009

Histórias das redações 6
Reveillon 2000 no Estadão
e o bug do milênio







Alguém pode imaginar a delícia de passar o reveillon num plantão de redação? Especialmente aquele reveillon, ímpar, o da passagem do milênio, que na verdade seria em 2001, mas foi mundialmente acordado para 2000.
Então, imaginem a alegria da redação do Estadão, comandada por nada menos que o futuro assassino da namorada, (meses mais tarde), o elemento Pimenta Neves. Buñuel teria prato cheio, Fellini então...Mas as chanchadas da Atlândida seriam ideais.
A redação estava toda convocada- e mesmo os que fizeram plantão no Natal ficariam de sobreaviso, para qualqer tragédia, porque pintaria o tal bug do milênio, que segundo as previsões mais catastróficas, iria desregular todos os computadores do mundo.
Caos planetário!
Nosso karma foi bem pesado. Primeiro, tivemos de participar de um jantar, lá no restaurante do prédio da Marginal, ao lado do próprio elemento Pimenta. Não só os jornalistas, mas também os trabalhadores da gráfica foram convidados para o restaurante classe A.
Disse o elemento: “Eu que convidei. Sou um déspota esclarecido!”
Depois dessa indigestão, seguiu-se, mais tarde, na redação, um malfadado sorteio. A redação, munida de copos de plástico, se me lembro, preenchidos por um duvidosíssimo champanhe, teve de formar um círculo em torno do elemento para aguardar o sorteio de umas passagens, acho que para Paris.E só eram sorteados fotógrafos.
O elemento diretor ficava cada vez mais fulo, naturalmente porque não considerava fotógrafos como jornalistas.
“Não paro enquanto não sortear um jornalista”, bradava. “E se não sair, pago do meu bolso”.
Até que saiu, e nos livramos daquela segunda cena dantesca. Daí o jornal ia fechando, o bug não houve, mas o plantão ainda não havia se encerrado, tem mais.
Na editoria de Geral, uma repórter bonitinha acabava seu plantão e se arrumou toda para - sortuda- ir pro reveillon dela. Postados numa linha diagonal,o elemento diretor, o subeditor de Geral, Antonio Gaspar, e a garota. O elemento de frente para o Gaspar, e este de costas para a menina, todos de pé.
Quando o elemento viu a repórter, seus olhos brilharam, cúpidos - como diria a literatura pornô-erótica bem adequada ao seu nível. Ele abriu os braços e foi de encontro a ela, mas o Gaspar estava no meio, e achou, não entendendo nada, que a confraternização era com ele. Abraçaram-se, e a menina foi embora, na boa.
Alguns minutos depois que o elemento saiu de cena, a editoria toda gargalhou sem parar.

Assim se encerrou o milênio no Estadão.

Jamais imaginaríamos o que o próximo nos reservava.

A manchete feita pelo elemento era bem ruim, tinhas umas três linhas das quais não me lembro e se encerrava assim: “E bug foi um fiasco”.

segunda-feira, março 02, 2009

La vida es sueño

Sou notívaga, a vida inteira saí das redações tarde da noite e não conseguia dormir, arrastando correntes, até me acalmar e pegar no sono.

Gosto de escrever à noite, gosto da calma. E sempre me sinto na companhia de vários amigos que conheço, mesmo longe, além dos inúmeros que desconheço, mas se estão na sintonia da arte e da poesia, estão na minha sintonia.

Pensando em alguns desses angelus escrevi:


La vida es sueño


Quantos de nós

noite alta

A desfolhar fibra por fibra

estes nossos corações

Mundo em erupção e nós

(Abençoada teimosia)

A desvendar:


A poesia


Observando um antúrio



Alípio Freire



Para Elizabeth Lorenzotti


Inflorescência

– o antúrio

o copo-de-leite

o filodendro


Infrutescência

– o caju


Inhumanescência

– a essência humana.


Ainda bem que só acredito

em estágios e processos

Mutantes.


PS

Tudo muda

nem sempre para melhor

(Mas que custa um grão de sal de esperança?)



A música



Cyro Bittencourt

http://profile.myspace.com/index.cfm?fuseaction=user.viewProfile&friendID=209739822




A fotografia



Pedro Martinelli



“Nas minhas contas, percebo que meus sonhos nascem no arquivo de todos os momentos únicos que não consegui fotografar. O sonho é a foto que não pode ser mostrada, que não foi feita mas foi enxergada pelo fotógrafo.

O pé na estrada é como esperar a próxima dobrada da curva de um rio, é virar uma esquina e perder o fôlego com uma cena simples do cotidiano, um nada, tão nada que parece sonho.”

www.pedromartinelli.com.br/blog



A colagem


Tide Hellmeister


“Tudo é imagem, tudo é colagem"
repetiu, a última vez

na exposição de Natal.
Notívago maior,nunca dormia à noite:a trabalhar
incessantemente
"A arte salva", eu concordava
Este angelus noturno não está mais lá -

Barão de Campinas, de onde se ouvia o apito da Folha

("Fui ali e já volto")

Olho para o céu

aqui, lá,

a mão do Tide?

sua tesourinha

sua cola, seu pincel

seu mágico olho e sua compaixão por todos nós Filhos de Deus
a próxima exposição

que faria, que fará, que faremos.

domingo, março 01, 2009

Por quem os sinos dobram?

Wesley Duke Lee
Egipciana
Óleo sobre fotografia de Otto Stupakoff, com aplicação de buril


Para Roberto Piva
e
Wesley Duke Lee

O poeta rebelde hoje esquenta ao sol das 11 horas

No Parque da Água Branca


O poeta da cidade - ácido, lírico, transverso


Livro numa mão, firme

A outra, trêmula



Mas ainda aprecia os rapazes

E acha que as moças, cada vez mais, estão parecidas com eles

Por isso, até começa a gostar delas


(Teu olhar maluco atravessa os relógios as fontes a tarde
de São Paulo como um desejo espetacular tão
dopado de coragem
marfim de teu sorriso nascosto fra orizzonti perduti
assim te quero: anjo ardente no abraço da Paisagem)


Seu amigo, o artista plástico do primeiro hapenning desta cidade

Não reconhece mais o mundo


Quando o visitei, anos atrás


Figura de brilhos e fulgores


Mostrou uma mesa cheia de coisas empoeiradas

Não permitia que a limpassem:

“Para marcar a passagem do tempo”


Mostrou também um mural repleto de fotos da sua vida:

“Para não me esquecer”


“Ele dói e brilha”, escrevi, emprestado verso de Veloso sobre o homem velho


Na parede a frase, quase no teto:


“Entusiasmo-Pleno de Deus”


Só hoje fui atrás da etmologia


Do Grego:entu: DEUS,

iasmo: Cheio


Pleno de entusiasmo, então, aquele velho homem belo


Uma enfermeira o acompanha, ele sorri


São Paulo, 28 de fevereiro, noite alta




sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Os revisores : Histórias das redações- 5

Tide Hellmeister


Bons tempos em que os jornais tinham revisores. Jamais sairia uma chamada de capa de grande jornal escrita assim:

EXCESSÃO, como vi algumas vezes, e recentemente.

E tantas barbaridades, incontáveis, cotidianas.

Graciliano Ramos foi revisor do Correio da Manhã na década de 40.

Mas no fim do século passado, com a informatização e a economia, dançaram os revisores.

O amigo Gabriel Arcanjo, que começou e durante muito tempo exerceu a revisão em vários jornais e revistas, conta umas histórinhas exemplares:



“Uma vez saiu publicado, na lista de promovidos das Forças Armadas, na Folha, em corpinho pequeno, ´almirantes de esquerda´, em vez de esquadra. Os hómi queriam a cabeça de todo mundo...

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Numa matéria sobre novos limites de financiamento do BNH, um revisor anotou, de brincadeira, ao lado da prova: ´com isso aí não dá pra comprar nem um barraco´; o linotipista, muito sacana, colocou como emenda e saiu publicado... Parece que deu até demissão.

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Num anúncio fúnebre do Estadão, saiu ´é com prazer que notificamos a morte de...´, em vez de é com pesar.

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O Estadão tinha o maior cuidado com algumas páginas: a do Editorial e a dos turfes. No mínimo, eram feitas umas três revisões de prova, mais uma da página pronta. E vira e mexe aparecia, num dos páreos, o cavalo REVISOR. Comentário geral na sala: só pode ser animal dos Mesquita...

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O Ventura, portuga dos bons, era da elite de revisores do Estadão, e sempre que consultado, dava a opinião dele. Quando alguém contestava, dizendo que o dicionário registrava algo contrário ao que ele dizia, o portuga era categórico: ´pois o dicionário está errado; eles são vurros...´


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O mesmo Ventura, depois que o Estadão foi pra Marginal, era da turma que saía de madrugada, quase dia clareando. Na volta, descia do ônibus ali na Consolação e batia ponto no Mutamba, pra uma bagaceira. Num dia, em vez de de continuar indo pra casa, ali perto, voltou pra Consolação, pegou o Samar( o ônibus que o jornal colocava pra transportar funcionários) que estava no ponto e voltou pro jornal. Passou pela portaria, pelos corredores, elevador... Estranhou que não tinha ninguém na Revisão e lá ficou... pegou no sono...até que alguém se lembrou de acordá-lo.

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Mas a melhor do portuga foi quando decidiu, de vez, parar com as bagaceiras de fim de expediente. Numa madrugada daquelas, passou firme e forte em frente ao Mutamba e não entrou... continuou mais uns passos e, já sobre o viaduto comentou consigo mesmo: ´és um forte; mereces uma comemoração... voltou pro Mutamba; e começou tudo de novo...

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Diário do Grande ABC, a meu ver, tem a legenda imbatível da Imprensa nacional. Era comum visitantes mais ou menos ilustres serem recebidos pela Diretoria e posarem pra fotos. Não me lembro os personagens, mas numa das salas vip tinha na parede a foto do governador. E calhou de sairem na foto um dos diretores do jornal, o visitante e, na parede, Quércia. Adivinha se a legenda não ficou: ´fulano’, Quércia e ´cicrano...´

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Numa outra legenda, atento e abnegado montador de fotolito deu aquela colaborada com a Revisão, que havia, segundo ele, deixado passar um pastel na legenda. Era época do ministro Euclides Quandt de Oiveira, mas o olhar atento do rapaz se fixou só naquela palavra estranha; não teve dúvida e emendou para Quando... e ainda correu pra avisar os colegas no dia seguinte: ´quebrei um galhão de vocês´...