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domingo, abril 26, 2009

Casa de Assis - 2

Cotidiano nos anos de chumbo

Eu e Jaqueline, ex-Jurandir
Foto Narciso (Peixe)

Concurso de miss, concurso de esculturas na areia, etc. e tal era a tônica das pautas naqueles anos de chumbo. Faits divers , como este do ex-Jurandir, voz grossisima, um dos pioneiros do metier, eu acho.
Além disso tudo, tinha o que se chamava "matérias 500", as recomendadas, até hoje ninguém sabe de onde saíram os 500, imagina-se que de algum jabá histórico nessa quantia. Já vinha a pauta assinalada: 500.
Então dá-lhe almoço na Ordem dos Velhos Jornalistas, reunião disso e daquilo. Nada que tenha mudado muito hoje em dia, só não tem mais a explicitação, só que a coisa é bem pior.
E fora uma ou outra pauta que o Zé Eduardo, de sacanagem, passava. Imagine uma época em que você tinha tempo pra fazer pauta-trote.
Eu fiz uma dessas, inesquecível. Era pra entrevistar um inventor no Bom Retiro, o seu Natanael.
Inicialmente tudo bem, eu achando que era uma pauta normal, até que ele falou da grande invenção: o tanque de guerra lava- roupass!!!
Ficou horas falando e eu arrumando um jeito de ir embora, até que consegui. Mas ele me acompanhou por uns bons anos mandando cartas com as novas invenções, tenho todas aqui guardadas, um primor.
Quando cheguei na redação, furiosa, o Zé morreu de rir.
Algum jornalista hoje pode imaginar coisa igual?
Também ninguém imaginaria entrar na redação pra começar a trabalhar, lá pelas 2 da tarde, abrir a portinhola tipo far-west e deparar-se com o próprio: dois caras armados ensaiando um duelo. Que não aconteceu, claro, um mais tonto que o outro, acho que eram da turma da reportagem policial, só podiam ser.
(Mas na Casa de Assis, mesmo quem não era da reportagem policial andava armado.)
Voltando às pautas, o problema, claro, não era só dos Diários. Em plena ditadura, falar do que?
Quando fui para a a sucursal de O Globo, o mesmo karma me acompanhou: agora eram congressos de medicina. Um dia, fiquei revoltada e disse, em prantos, que não ia mais cobrir congresso de médico algum, daí se compadeceram e me livrei desse karma.
Fora o fato que, você sendo mulher, já limitava muito: éramos a jovem geração universitária que chegava. Na Casa de Assis, tinha jornalista que não me cumprimentava porque eu chegava alegremente vestida com a jaqueta de nylon da ECAUSP, direto da aula.
Pra que? Os velhos lobos do mar da imprensa farejavam perigo: mulheres, jornalistas, boa coisa não devem ser.
Daí que a ditadura achava a mesma coisa, e uma edição inteira do jornal Movimento sobre o trabalho da mulher, inclusive uma pesquisa nacional alentada, a primeira, sobre mulheres no jornalismo, para a qual eu e várias colegas colaboramos, foi inteirinha censurada.
Sim, porque a gente escrevia abóboras nos jornalões mas tinha a válvula de escape da imprensa alternativa, aí sim era coisa séria.

sexta-feira, abril 24, 2009

Histórias das Redações

A Casa de Assis, Sete de Abril, 230, segundo andar

Casa de Assis. Foi assim que batizamos a redação dos já decadentes e pra lá do fim de linha Diários Associados, ex -império do Assis Chateaubriand, nos anos 1970, onde arrumei meu primeiro emprego, ainda na faculdade, registrada como auxiliar de escritório, já que precisava do diploma pra exercer o ofício.
Nunca se viu redação igual.
Havia de tudo lá: direta, esquerda e nada. Polícia, bandido, e nós jornalistas.
O meu primeiro dia foi interessante: minha primeira visão foi o chefe de reportagem, Zé Eduardo, em sua mesa, cercado de belas moçoilas, soube depois que eram todas ex-namoradas dele e se davam muito bem.
Daí fiz amigos: o Zé entre eles, figura que merecerá um destaque especial mais pra frente, aliás, seria preciso uma Biblioteca de Babel pra falar do Zé.



E entre os novos amigos, a querida Tania Mendes, companheira de muita batalha daí em diante. Mineira de Belzonte, que diz que não lembra de mais nada, é dela o depoimento:


"Uma das minhas primeiras saídas com fotógrafo na Casa de Assis, não lembro o assunto da matéria, foi com o Mostrangá. Voltei, fiz o texto e o Zé mandou assinar texto e foto. Assinei Tânia Mendes e Mostrangá. Assim mesmo. Imagina o que me deram de gozação por pelo menos uma semana KKKKK e o outro queria vir tirar satisfação comigo, você lembra, era tosco e por isso o chamavam Mostrangá"


( nota da blogueira: eu lembro, tinha uma verruga na ponta do nariz e se metia em todas as nossas entrevistas, eu morria de vergonha, porque falava só abóbora. ninguém lembra o nome dele, o Zé diz que nem o próprio se lembrava, não era costume assinar matéria, só em casos muito especiais, remember? E ele diz que a sua estava muito boa.)

"Zé acalmou o bicho dizendo que eu era tonta e aquilo não mais aconteceria. Me chamou e comunicou que o nome do dito era ( não lembro, você lembra o verdadeiro nome da figura??).KKKKKK

E teve o dia que o Zé me mandou prá estação do Brás entrevistar nordestinos, eu foca e completamente desorientada em relação à cidade grande. Cheguei lá já eram mais de 7 da noite, nunca me esqueço, não conhecia nada de São Paulo. Não lembro qual fotógrafo foi comigo, mas lá tive a notícia de que o trem que deveria chegar a tal hora estava muito atrasado porque houve um desastre. Imediatamente voltei prá redação e disse que não tinha matéria.

O Zé me expulsou aos berros e me mandou prá casa, mas morrendo de rir! E há o fato de que fui presa pela OBAN ( Operação Bandeirantes) na redação vetusta dos Diários. Foi um tititi que durou dias! Uma adrenalinada naquele túmulo!".


Maria Tania brinca agora, mas ela sabe o que passou e nós também.
Pois é, um dia após meu ingresso, um fulano que fazia turfe, no café veio me dizer: "Ontem foi presa uma cumunista aqui, a Tania, sabia?"
Ai meu Senhor do Bonfim, onde é que eu fui amarrar minha égua, pensei, apavorada, olhando para a cara cheia de bigodes do sujeito xexelento.

Tania, não lembro quem ao fundo, Nivaldo Notoli e Rodney Melo.

Era bom, mas era uma merda, diria o Tom Jobim. Nos reuníamos muito no Paribar, delicioso bar na Praça Dom José Gaspar, mas sempre falávamos em voz baixa, cheio de espiões disfarçados rondando. Como na música do Gil.
Depois do Zé, que foi editar Internacional, veio para a chefia de reportagem um sujeito baixinho, gordinho e perigoso: dizia-se que era ele o relações públicas do Esquadrão da Morte, o temível Lírio Branco, que ligava para as redações dando os endereços de onde eram abatidos o que chamavam de "presuntos".
Pensam que era mole???
Volto em breve, com mais eletrizantes revelações históricas da inesquecível Casa de Assis.



quarta-feira, março 11, 2009

Histórias das redações- 8


Manda esta história o querido Mouzar Benedito, mineiro, jornalista, geógrafo e escritor, o melhor contador de causos que já conheci e ainda por cima, fundador da Sosaci, a associação em defesa do Saci Pererê – brava entidade que aliás tem uma campanha para torná-lo o mascote da próxima Copa do Mundo de 2014, que será no Brasil.


Mamprim e Bete


Uma das figuras gloriosas do fotojornalismo brasileiro é (ou foi, “não está mais entre nós”, como diz o eufemismo para “morreu”) o italiano Luigi Mamprim. Na juventude, foi guerrilheiro, partisan, na Itália, lutando contra o fascismo durante a Segunda Guerra. Acho que lá pelo início da década de 1950 veio para o Brasil.

Trabalhou em várias revistas, entre elas a Realidade. Eu o conheci na redação do Guia Rural Abril, uma bela experiência que por fim foi derrotada por alguns jornalistas que resolveram fazer do Guia uma revista para grandes fazendeiros. Grande fazendeiro tem agrônomo e veterinário próprio, não precisa comprar revista sobre esses assuntos. E se precisassem, são poucos, não sustentariam uma edição de mais de cem mil exemplares.

Bom, lá estava o Mamprim, além de grande fotógrafo, grande companheiro, comunista histórico. Uns quatro ou cinco de nós almoçávamos sempre juntos num restaurante com cara de popular numa praça perto da avenida Luís Carlos Berrini. O Mamprim sempre comia um filezão quase cru, escorrendo sangue.

Mas quando viajava, o Mamprim mudava. Virava italiano de novo, principalmente quando estava em regiões nada italianas, como o Nordeste. Aí, queria comer macarrão ao pesto com pão italiano. E era uma encrenca.

Eis que veio a Bete Costa trabalhar no Guia Rural também. Uma ótima repórter. Com um detalhe: vegetariana total. Só comia vegetais e preferia uns que quase só existiam em São Paulo, como a rúcula, por exemplo.

Um dia foi mandada uma dupla fazer uma matéria na região de Irecê, oeste da Bahia, grande produtora de feijão. Hoje, Irecê produz muitas verduras, mas na época era daqueles lugares em que, se você pedia num restaurante alguma coisa com verdura, a tal coisa vinha acompanhada de tomate e batata, nada verde. Verdura lá era isso. A dupla era formada pelo Mamprim e pela Bete.

Fiquei imaginando que bicho ia dar essa viagem, a convivência entre um fotógrafo querendo comer macarrão ao pesto com pão italiano e no fim – dada a inexistência disso por lá – fazendo concessão a um filé sangrando, e uma repórter que comia rúcula e outras coisas exóticas (para a região), sem querer fazer concessões. E era uma viagem de mais de uma semana!

Esperávamos quase ansiosos a volta dos dois, para saber como se viraram. No dia do reinício do trabalho deles na redação, o Mamprim chegou primeiro. Estava sentado a uma mesa, de costas para a porta, antes de contar sobre a viagem, quando entrou a Bete bufando. Foi direto a uma mesa, pegou uma máquina de escrever e caminhou com ela erguida para largá-la na cabeça do Mamprim. Foi segurada a tempo. Mas até hoje não sei detalhes da viagem. Não contaram. Só sei que trouxeram matérias e fotos muito boas.

sexta-feira, março 06, 2009

Histórias das redações -7

Do Rogério Furtado, repórter de muita e muita estrada nas quebradas do jornalismo, e que hoje vive nos sertões das Minas Gerais. Labutou na Folha por um bom tempo.:

“Na Barão de Limeira acontecia de tudo. O jornal, por exemplo, "matou" um jogador de futebol "por constricção da vulva, algo dificilmente recuperável".
Um sujeito morou durante bom tempo (talvez anos, não sei) no banheiro da redação, até que fosse descoberto pelo Boris Casoy; um fotógrafo morreu dentro da Agência Folhas em consequência de um disparo acidental de revólver; um contínuo foi esmagado pelo velho elevador pantográfico que ficava perto da entrada da Agência Folhas... E por aí afora... Tudo isso passou despercebido para a maioria, em um contexto que me parece típico das redações: todo mundo fica acompanhando o que vai pelo mundo e não tem tempo (ou interesse) de olhar o que se passa "dentro de casa".”

É mesmo, Rogério.
Contam que nos Diários Associados, um senhor, durante anos, diariamente chegava, sentava, abria a mesa com aquela máquina de escrever dentro e se punha a trabalhar. Também recebia pessoas.
Todo o mundo achava que era um jornalista.
Mas não.
Descobriu-se, um dia, que ele apenas encontrara um escritório gratuito pra despachar.
Imagino quantas dessas histórias rolaram pelas varias redações, cadê o pessoal pra contar aqui?

quinta-feira, março 05, 2009

Histórias das redações 6
Reveillon 2000 no Estadão
e o bug do milênio







Alguém pode imaginar a delícia de passar o reveillon num plantão de redação? Especialmente aquele reveillon, ímpar, o da passagem do milênio, que na verdade seria em 2001, mas foi mundialmente acordado para 2000.
Então, imaginem a alegria da redação do Estadão, comandada por nada menos que o futuro assassino da namorada, (meses mais tarde), o elemento Pimenta Neves. Buñuel teria prato cheio, Fellini então...Mas as chanchadas da Atlândida seriam ideais.
A redação estava toda convocada- e mesmo os que fizeram plantão no Natal ficariam de sobreaviso, para qualqer tragédia, porque pintaria o tal bug do milênio, que segundo as previsões mais catastróficas, iria desregular todos os computadores do mundo.
Caos planetário!
Nosso karma foi bem pesado. Primeiro, tivemos de participar de um jantar, lá no restaurante do prédio da Marginal, ao lado do próprio elemento Pimenta. Não só os jornalistas, mas também os trabalhadores da gráfica foram convidados para o restaurante classe A.
Disse o elemento: “Eu que convidei. Sou um déspota esclarecido!”
Depois dessa indigestão, seguiu-se, mais tarde, na redação, um malfadado sorteio. A redação, munida de copos de plástico, se me lembro, preenchidos por um duvidosíssimo champanhe, teve de formar um círculo em torno do elemento para aguardar o sorteio de umas passagens, acho que para Paris.E só eram sorteados fotógrafos.
O elemento diretor ficava cada vez mais fulo, naturalmente porque não considerava fotógrafos como jornalistas.
“Não paro enquanto não sortear um jornalista”, bradava. “E se não sair, pago do meu bolso”.
Até que saiu, e nos livramos daquela segunda cena dantesca. Daí o jornal ia fechando, o bug não houve, mas o plantão ainda não havia se encerrado, tem mais.
Na editoria de Geral, uma repórter bonitinha acabava seu plantão e se arrumou toda para - sortuda- ir pro reveillon dela. Postados numa linha diagonal,o elemento diretor, o subeditor de Geral, Antonio Gaspar, e a garota. O elemento de frente para o Gaspar, e este de costas para a menina, todos de pé.
Quando o elemento viu a repórter, seus olhos brilharam, cúpidos - como diria a literatura pornô-erótica bem adequada ao seu nível. Ele abriu os braços e foi de encontro a ela, mas o Gaspar estava no meio, e achou, não entendendo nada, que a confraternização era com ele. Abraçaram-se, e a menina foi embora, na boa.
Alguns minutos depois que o elemento saiu de cena, a editoria toda gargalhou sem parar.

Assim se encerrou o milênio no Estadão.

Jamais imaginaríamos o que o próximo nos reservava.

A manchete feita pelo elemento era bem ruim, tinhas umas três linhas das quais não me lembro e se encerrava assim: “E bug foi um fiasco”.

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Os revisores : Histórias das redações- 5

Tide Hellmeister


Bons tempos em que os jornais tinham revisores. Jamais sairia uma chamada de capa de grande jornal escrita assim:

EXCESSÃO, como vi algumas vezes, e recentemente.

E tantas barbaridades, incontáveis, cotidianas.

Graciliano Ramos foi revisor do Correio da Manhã na década de 40.

Mas no fim do século passado, com a informatização e a economia, dançaram os revisores.

O amigo Gabriel Arcanjo, que começou e durante muito tempo exerceu a revisão em vários jornais e revistas, conta umas histórinhas exemplares:



“Uma vez saiu publicado, na lista de promovidos das Forças Armadas, na Folha, em corpinho pequeno, ´almirantes de esquerda´, em vez de esquadra. Os hómi queriam a cabeça de todo mundo...

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Numa matéria sobre novos limites de financiamento do BNH, um revisor anotou, de brincadeira, ao lado da prova: ´com isso aí não dá pra comprar nem um barraco´; o linotipista, muito sacana, colocou como emenda e saiu publicado... Parece que deu até demissão.

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Num anúncio fúnebre do Estadão, saiu ´é com prazer que notificamos a morte de...´, em vez de é com pesar.

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O Estadão tinha o maior cuidado com algumas páginas: a do Editorial e a dos turfes. No mínimo, eram feitas umas três revisões de prova, mais uma da página pronta. E vira e mexe aparecia, num dos páreos, o cavalo REVISOR. Comentário geral na sala: só pode ser animal dos Mesquita...

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O Ventura, portuga dos bons, era da elite de revisores do Estadão, e sempre que consultado, dava a opinião dele. Quando alguém contestava, dizendo que o dicionário registrava algo contrário ao que ele dizia, o portuga era categórico: ´pois o dicionário está errado; eles são vurros...´


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O mesmo Ventura, depois que o Estadão foi pra Marginal, era da turma que saía de madrugada, quase dia clareando. Na volta, descia do ônibus ali na Consolação e batia ponto no Mutamba, pra uma bagaceira. Num dia, em vez de de continuar indo pra casa, ali perto, voltou pra Consolação, pegou o Samar( o ônibus que o jornal colocava pra transportar funcionários) que estava no ponto e voltou pro jornal. Passou pela portaria, pelos corredores, elevador... Estranhou que não tinha ninguém na Revisão e lá ficou... pegou no sono...até que alguém se lembrou de acordá-lo.

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Mas a melhor do portuga foi quando decidiu, de vez, parar com as bagaceiras de fim de expediente. Numa madrugada daquelas, passou firme e forte em frente ao Mutamba e não entrou... continuou mais uns passos e, já sobre o viaduto comentou consigo mesmo: ´és um forte; mereces uma comemoração... voltou pro Mutamba; e começou tudo de novo...

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Diário do Grande ABC, a meu ver, tem a legenda imbatível da Imprensa nacional. Era comum visitantes mais ou menos ilustres serem recebidos pela Diretoria e posarem pra fotos. Não me lembro os personagens, mas numa das salas vip tinha na parede a foto do governador. E calhou de sairem na foto um dos diretores do jornal, o visitante e, na parede, Quércia. Adivinha se a legenda não ficou: ´fulano’, Quércia e ´cicrano...´

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Numa outra legenda, atento e abnegado montador de fotolito deu aquela colaborada com a Revisão, que havia, segundo ele, deixado passar um pastel na legenda. Era época do ministro Euclides Quandt de Oiveira, mas o olhar atento do rapaz se fixou só naquela palavra estranha; não teve dúvida e emendou para Quando... e ainda correu pra avisar os colegas no dia seguinte: ´quebrei um galhão de vocês´...

Histórias das redações-4: Cascolac x João



Foto Cascolac, 19 de agosto de 1971


Na foto, perfeita, como se tivesse sido tirada ontem, João Gilberto e Tião Motorista nos estúdios da TV Tupi em 1971, quando os baianos voltaram do exilio.
Eles foram lá gravar um programa histórico, que infelizmente se perdeu nos desvãos e incêndios da TV Tupi. Soube por um amigo, que soube pelo Alvaro Moya, que existe o áudio desse programa na TV Cultura.

Imaginem a imprensa toda lá.

Imaginem Caetano, Gal Costa, João Gilberto jogando ping-pong a tarde toda, sem resolverem fazer o programa. Imaginem a imprensa toda esperando - e olhem que não havia esses prazos rígidos de fechamento que temos hoje.

Mas o que não se pode imaginar é que, pelos Diários Associados, estava o fotógrafo Cascolac. Nunca se soube seu nome verdadeiro, só o apelido. Diz o Zé Eduardo, então chefe de reportagem, que até o próprio Cascolac deve ter se esquecido do nome.

Negro alto, reluzente, Cascolac era setorista no Deic- Departamento de Investigações Criminais de São Paulo. (Na época havia jornalistas destacados para cobrir determinados setores - aeroporto, polícia, exército, etc. E não se esqueçam de que em 1971 o Brasil vivia sob o ditador militar Garrastazu Médici.)

Mas, por urgências da profissão, naquele 19 de agosto Cascolac foi destacado para cobrir artes & cultura. Desde a chegada dos baianos no aeroporto de Congonhas. Claro que ele, bom profissional das quebradas do mundaréu, como diria o Plínio Marcos, comportava-se frente à notícia como era seu hábito de repórter fotográfico da editoria de polícia.
Primeiro, posar para foto, todos juntos.

-Ô João Gilberto, quer por favor ficar aqui do lado do Caetano...

Que não gostaram nada, aliás.

E por acaso o Cascolac tinha alguma idéia de com quem estava falando? Vaga, quase nenhuma.

E lá vamos nós para o Alto do Sumaré, emissoras associadas do mesmo grupo dos Diários Associados, do falecido Chatô, o rei do Brasil. Empresas já iam caindo pelas tabelas, aliás.

Então, depois daquele nehem nhem nhem de jogo de ping-pong, finalmente a coisa vai começar.

João Gilberto, que já era chatésimo, começa o ensaio. Um pequeno auditório, chão de madeira.

Cascolac vem lá do fundo pisando com seus brilhantes sapatões pretos.

A diva da Bossa Nova fulmina e dispara alguma coisa como:

" Esse fotógrafo pode se por daqui pra fora. Eu não canto com barulho!!!!"

Frisson. Corações gélidos. Ranger de dentes. Eu, muito garota, fiquei morta de vergonha.

O grande Cascolac se retira, humilde.

A diva prossegue.

O programa foi editado pelo Hiroshi Fuji, então estudante da ECA USP. Ele me contou que ficou com o João Gilberto umas três horas ao lado, vendo o que cortava e não cortava.

O programa deve ter ficado bárbaro. Histórico. Mas dançou, como todos os arquivos dos extintos Diários e Emissoras Associados.

Como tanta coisa da memória deste Brasil.

O Cascolac também se foi.
Eu o encontrei muitas vezes em Perdizes, morávamos perto. Depois sumiu. E sempre brincava com ele: "Ficou rico, Cascolac?" Porque ele tinha ótima aparência e se vestia muito bem. Enquanto os fotógrafos dos Diários viviam sempre na pindaíba ( os pagamentos eternamente atrasados).

Sabe lá.

Incrivel é que eu soube, também recentemente, que o irmão do Cascolac era carcereiro do presídio Tiradentes, onde estavam os presos políticos e entre eles meu amigo, o jornalista Alipio Freire.
Que conhecia o Cascolac e um dia virou pro carcereiro e perguntou: "Você é irmão do Cascolac?"

Imaginem a cara do homem.

Mas o que eu quero dizer é, que se fosse hoje, eu viraria pro João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira e diria que, como ele, o Cascolac estava lá para trabalhar, e levava a sério seu trabalho. Que havia ficado horas esperando acabar o jogo de ping-pong baiano e agora precisava fotografar o programa para sair no jornal de amanhã, entende?

"Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?"

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Histórias das redações- 3

Foto Pedro Martinelli

Onde estariam Carlos Augusto Gouveia, o Carlão (em São Paulo), ou Carlinhos, ( no Rio) e o Migué, o motorista de chapéu.

E o que teria acontecido, olhando tão desolados para a perua da sucursal paulista de O Globo?

Pedrão também não se lembra.
Mas certamente em mais uma das reportagens investigativas que o Carlão era mestre.
Já os carros de O Globo, parece que houve época em que não tinham letreiro: seria pra não levar pedrada, ou para despistar nas reportagens investigativas?




segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Histórias das redações- 2


Foto Pedro Martinelli


De pé com os braços cruzados, Migué Bedé Bedé, nosso motorista da perua Rural Willys da sucursal paulista de O Globo.

Conta o Victor Passos, nosso companheiro de redação:

"Uma vez eu e Migué fomos a Assis fazer um suite sobre um reduto da Máfia do Tomaso Buschetta (que o Cid Moreira insistia em pronunciar Busqueta) desbaratado pela polícia.

Muito bem. À noite, na cidade, eu não tinha o que fazer, mas o Migué tinha e me arrastou pra zona. Eu fiquei só no bar, mas o Migué logo sumiu num quarto com uma marafa do local. Quando voltou, após afogar o ganso, exibia um sorriso feliz.

Antes de sair tive o cuidado de pedir uma notinha da despesa.

A cafetina prontamente me deu uma em papel timbrado da Pensão da Dona Antonieta
(razão social do estabelecimento) constando duas refeições.

Fazia sentido.

Migué gostou e o Dr. Roberto pagou."

Histórias das redações 1 -- "Senta e escreve"

Foto Pedro Martinelli


Aí na foto a redação da sucursal paulista de O Globo, Av. Consolação, 257, 19. andar, anos 70.

Caminhando, altivo, o Fabinho, o Assis, Franciso de Assis Barbosa, caboclo potiguar, grande jornalista da área econômica, bravo que só, coração grande que só ele. Ao fundo, o repórter esportivo Cândido Garcia, também , na época da Rádio Jovem Pan.

Na frente do Assis, Etevaldo Dias.
A sucursal, que reunia uma das melhores equipes com as quais tive o prazer de trabalhar, e de ficar amiga, era chefiada pelo Cândido Cerqueira Silva, Candinho, o melhor chefe que já tive.
Estávamos todos felizes, fazendo matérias legais tanto quanto se podia - era a ditadura Médici- quando a direção geral mudou. Ou , acho que mandaram um pra preencher o cargo, já que a administração era de responsabilidade da dona Wanda e não havia ninguém acima.

Chegou do Rio um tipo baixinho, ligado ao IBC (Instituto Brasileiro do Café) egresso da turma do Filinto Muller, aquele chefe de polícia do Vargas. Logo foi apelidado de Cafezinho.

A primeira coisa que fez foi demitir o Candinho.

Nós , então, escrevemos uma carta de desagravo, que virou abaixo-assinado. Alguns souberam, por telefone, estavam viajando, e mandaram assinar.
Carlão, o Carlos Augusto Gouveia, pediu demissão.
E, um por um, todos fomos demitidos.
Desmantelou-se assim uma grande redação, o que não era a primeira vez, nem infelizmente foi a última.

Conversando com Pedro Martinelli, ele me contou- eu já não lembrava- que estava na Amazônia, com os Villas-Boas, quando chegou a mensagem por rádio do preposto do cafezinho, chamado Moura Reis: "Tá demitido"
Daí ele respondeu: "Então manda o Roberto Marinho vir aqui e pegar minhas máquinas, fotos e tralhas, que eu não vou levar".

Bom, como o trabalho do Pedrão era diretamente ligado à sede do jornal no Rio, foi desfeita a demissão.
Mas o que eu queria contar, também, era sobre o Assis.
Um dia, antes do desfecho com as demissões, chegou o tal Cafezinho, vigiando o Assis, olhando por cima dos ombros dele, que batucava na sua máquina de escrever.
(Não tem coisa pior , pelo menos eu sempre achei, pra um jornalista, que um neguinho vigiando o que você escreve, coisa típica de gente autoritária.)

"Não é assim que se escreve o abre dessa matéria", disse o pequenino.
E o Assis, vulcão em erupção:
"Então senta e escreve"
E se mandou.
Pois é, época de gente de brio.Em plena ditadura. Sinto saudades.
Especialmente do Assis, que já partiu há alguns anos.
Do Carlão e do Cândido Garcia, que também se foram.