sexta-feira, outubro 22, 2010
Diane di Prima:"O poeta é a última pessoa que ainda diz a verdade quando ninguém mais ousa"
“I think the poet is the last person who is still speaking the truth when no one else dares to. I think the poet is the first person to begin the shaping and visioning of the new forms and the new consciousness when no one else has begun to sense it; I think these are two of the most essential human functions”
— Diane di Prima
Uma entrevista interessantissima com a poeta aqui
quinta-feira, outubro 21, 2010
Mulheres beats, sim, existiram
No poema Uivo, de Allen Ginsberg --
que falaram 72 horas sem parar do parque ao apê ao bar ao Hospital Bellevue ao Museu à Ponte de Brooklyn
-- o tradutor Claudio Willer explica em uma nota tratar-se de Ruth Goldemberg, amiga do grupo, a mais quieta e tímida de um grupo de moças apelidadas de "as três graças". Certo dia, em 1953, começou a falar sem parar na WashingtonSquare, Village, até 72 horas depois ser internada. Levada pela familia, nunca mais se teve notícias dela.
Não sei se era poeta, mas era uma das mulheres, poucas, que andavam com eles. E por que havia poucas mulheres? Certamente porque nos anos 50 era muito dificil uma mulher participar de um grupo tão iconoclasta, libertário, chegado nas drogas, na bebida e no sexo livre. Além disso....
Lawrence Ferlinghetti, poeta e editor entrevistado por Amy Goodman
Amy Goodman: E as mulheres? E as mulheres naquela época, as mulheres na Geração Beat, as poetisas, as escritoras?
Lawrence Ferlinghetti: Bem, quer dizer, pelo menos a metade da Geração Beat era gay. E Allen realmente temia as mulheres, pensava eu, e tendia a vê-las como se não estivessem presentes. Tenho uma amiga que foi em uma viagem com ele pelo Sudeste, e um ano depois encontrou-se com ele. Eles tinham viajados juntos neste carro com outros por vários meses e um ano mais tarde, em outra ocasião, ele olhou para ela como se não a conhecesse. É como se elas não estivessem ali para ele.
Mas havia umas poucas escritoras que conseguiram ser publicadas com os Beats, como Diane di Prima, por exemplo, e um pouco depois, Anne Waldman, que agora se impõe como chefe do Instituto Naropa, a parte do Instituto Naropa que é o instituto de poesia. Mas, geralmente, se poderia dizer que talvez –
Amy Goodman: Lembro que a entrevistei logo depois da morte de Allen Ginsberg em Nova York.
Lawrence Ferlinghetti: Oh, sim. Poderíamos dizer que, em geral, apesar de as mulheres serem ignoradas, aquelas com quem eles saíam eram ignoradas, sobretudo pelos Beats, mas, como na tragédia grega, freqüentemente eram as mulheres que determinavam o destino dos homens.
Disse Claudio Willer no excelente curso da Letras/USP que estou assiitndo sobre geração beat que um deles, não sei se Gregory Corso, ao ser perguntado, respondeu que as mulheres beats eram logo internadas pelas famílias. (Aliás, vários dos homens também.)
Imaginem o que não era rebelar-se contra aquele mundo convencional e de moral retrógrada e política mais ainda. (Aliás, parece que retrocedemos a muito antes disso, pelo que se vive atualmente.) E penso em tantas mulheres valentes e talentosas internadas: Camile Claudel, Zelda Fitzgerald, quantas ...
Loucas? Por que teriam ficado loucas? Talvez esculpisse, uma, e escrevesse, outra, até melhor que os respectivos maridos?
Diane di Prima escapou. Sorte dela e nossa.
Aqui um poema de Diane di Prima, que encontrei por acaso no site http://www.subcultura.org/, e fiquei sabendo que foi criado por Iosif Landau, que morreu ano passado com quase 90 anos, um imigrante romeno que se tornou escritor no Brasil após se aposentar e...era um beatnik.
O site tem muitas poesias beats de lá e de cá.
Um poema de Diane, traduzido por ele:
Esse, então, é o presente que o mundo nos deu
(você me deu)
de mansinho a neve
escondeu-se nos vazios
deitada na superfície do laguinhos
e parece com minhas esguias brancas velas
que estão na janela
e que queimarão na madrugada enquanto a neve
enche o nosso vale
nesse vazio nenhum amigo nele se perderá
ninguém de pele morena virá do México
dos campos ensolarados da Califórnia, trazendo maconha
todos perdidos agora, mortos ou silenciosos
ou destruídos pela loucura
do uivo resplandescente da nossa visão de então
e esse seu presente
-silêncio envolvendo o contorno de minha existência.
---
Creio haver referências a Kerouac ( alguém vem do México trazendo maconha) e a Ginsberg ( o uivo) e o fim deles
todos perdidos agora, mortos ou silenciosos
ou destruídos pela loucura
quarta-feira, outubro 20, 2010
Dois poemas de Roberto Piva
Reunir gente para ouvir poesia, na metrópole-necrópole ( como dizia Piva) até que a torna mais civilizada.
À deriva no rio da existência
Abandonar tudo. conhecer praias. amores novos.
poesia em cascatas floridas com aranhas
azuladas nas samambaias.todo trabalhador é escravo. toda autoridade
é cômica. fazer da anarquia um
método & modo de vida. estradas.
bocas perfumadas. cervejas tomadas
nos acampamentos. Sonhar Alto.
Mestre Murilo Mendes
tua poesia são os sapatos de abóboras que eu calço
nestes dias de verão.
negócio de bruxas ,
o sol caía na marmita do
adolescente da lavanderia.
você veria isto com seu olhar silvestre.
um murro bem dado no vitral
que eu mais adoro.
terça-feira, outubro 19, 2010
Geraldino Brasil (1926-1996)
O convite é o lançamento de um livro póstumo de poesia.É hoje, que pena, queria estar lá.
E me disse o poeta:
"Será como se você aqui estivesse, Beth, pisando -- com os pés tão bonitos -- sobre o tecido da noite rumorosa do rio Capibaribe."
Delicadeza, num mundo da delicadeza perdida é tão bom.
Às 19 horas, a Companhia Editora de Pernambuco estará promovendo, na Livraria Cultura (Paço Alfândega), o lançamento de A Intocável beleza do fogo, livro inédito do inesquecível Geraldino Brasil.
Fernando vai apresentar o livro, que prefacia. Você conhecia Geraldino Brasil? Eu também não, porque ninguém conhece nada de poesia do Nordeste por aqui. Parece uma cortina de ferro.
Também vao debater a situação atual da Poesia (o que será, segundo ele, "sem dúvida, uma das melhores formas de homenagearmos a memória do Autor de "A Intocável Beleza do Fogo". E o dia do poeta, na quarta).
Dois poemas de Geraldino
A derrota
A cidade não saberá do poeta no seu quarto, seu coração, sua cabeça, a tentativa do poema.
A cidade não saberá
da expressão de beleza
de que flor,
de que amor,
gerou nele.
A cidade não saberá do momento
de pesada carga de dor do homem e de Deus.
Problema de família
A família ia bem,
mas o filho mais novo.
A família ia bem,
quebra a casca do ovo.
A família ia bem,
vê a rua, olha o povo.
Um problema, surgiu
um poeta na família.
domingo, outubro 17, 2010
Os óculos Oakley, o náufrago de García Márquez e o heróico salvamento dos chilenos
Ricardo Viel
Em 1955, um repórter chamado Gabriel García Márquez foi escalado pelo editor do diário colombiano El Espectador para contar a incrível história de Luis Alejandro Velasco, que sobreviveu dez dias em alto mar, sem comer nem beber, depois de cair do navio em que trabalhava – outros sete marinheiros caíram no mar, mas morreram. García Márquez foi incumbido de narrar uma história que, à época, fora explorada à exaustão pelos meios colombianos. O náufrago, depois de declarado oficialmente morto (as buscas se encerraram após o quarto dia), virou herói nacional, foi beijado pela “rainha da beleza”, ficou rico com comerciais e, por fim, esquecido para sempre.
Havia algo na fantástica história que faltava ser contado: os motivos pelos quais Velasco caiu no mar. A embarcação vinha dos Estados Unidos sobrecarregada de muamba e, ao encontrar uma tempestade, acabou por entornar. Parte da carga e alguns marinheiros caíram no mar. García Márquez, depois que a história esfriara, conseguiu descobrir o real motivo do naufrágio. O Relato de um Náufrago saiu em fascículos semanais no diário e depois virou livro. Além da qualidade da narrativa, Gabo teve o mérito de expor mazelas escondidas ao recontar a história.Nesta semana, o mundo (não é exagero dizer) se comoveu com o resgate de 33 mineiros que ficaram, por 70 dias, enterrados a quase 700 metros de profundidade em uma mina nos Andes.
Com a facilidade de informação em tempo real, fomos bombardeados com a história de vida dos chilenos, que, assim como Velasco, viraram heróis. Eles também terão encontros com rainhas da beleza, farão comerciais, ganharão dinheiro e serão esquecidos.33 óculos e 40 milhões de dólaresNo entanto, há, ainda, muito a ser contado sobre o ocorrido no Deserto do Atacama.
Fatos como a “doação” de 33 óculos de sol que a Oakley fez aos mineiros. Calcula-se que a exposição gratuita que a marca teve com as imagens dos trabalhadores usando seu produto ultrapasse os 40 milhões de dólares – o custo do resgate dos 33 chilenos foi estimado em 20 milhões de dólares. O que há por trás disso? Segundo o jornal El Mundo, da Espanha, durante os trabalhos de escavação para a retirada dos mineiros foi encontrada uma grande quantidade de ouro e cobre na mina. O Chile é hoje o 15º produtor mundial de minério e pretende, até 2015, alcançar a sétima posição. Quem ficará com essa riqueza descoberta? A mina será reaberta?
Quantas minas como a San José existem no Chile e na América do Sul? Quantos mineiros vivem em situação de risco como os resgatados? É exagero imaginar que muitos trabalhadores de minas trocariam 70 dias de liberdade, a 700 metros embaixo da terra, para ganhar uma casa, 20 mil dólares, fazer propaganda, ganhar ingresso vitalício para assistir seu clube de coração, ser convidado pelo Real Madrid para ver um jogo no Santiago Bernabéu e, principalmente, nunca mais precisar viver como tatu?
O que aconteceu com aquele mineiro, desconhecido, que perdeu uma perna no dia em que os outros 33 ficaram soterrados? Vai ganhar um abraço do presidente do Chile? Vai ganhar óculos de sol da marca gringa? Vai precisar se enfiar embaixo da terra com uma perna só para sustentar a família?
Espero, e torço para, que um novo Gabriel García Márquez seja escalado para contar a história por trás dessa história dentro de alguns meses, quando tudo isso pareça só o roteiro de um filme. Por falar em filme, um canal de TV espanhol, em associação com um colombiano, já está filmando a história dos 33 mineiros.
sábado, outubro 16, 2010
sexta-feira, outubro 15, 2010
Mantra do diamante
Experimenta.E por que não?
O mantra de Padmasambhava é o mantra de todos os Budas, mestres e seres iluminados, para a paz, a saúde, a transformação e proteção nesta era caótica e violenta.
Isso que gira são rodas de oração, que espalham as palavras, não é bonito?
Há também bandeiras de orações ao vento. Não é bonito?

