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sexta-feira, novembro 11, 2011

quarta-feira, novembro 02, 2011

domingo, agosto 14, 2011

Roberto Piva

"Eu sou uma alucinação na ponta dos teus olhos".

sexta-feira, abril 08, 2011

E para que ser poeta em tempos de penúria?

Bilhete para Bivar

Roberto Piva


hoje é o dia que os

anjos descem nas

catacumbas de cimento

sem o aviso das

máquinas de empacotar

sem saltar sobre

caramanchões de poluição

disseminando comportamento

de Lacaio

é o momento do

último homem

e que dura mais

tempo

é o tempo do crime

& sua prova

a caveira que ri

na noite vermelha

a explosão demográfica

& a fome a galope

é o Sol mudo a

Lua paralítica

Drácula janta na

Esquina

E para que ser poeta

em tempos de penúria? Exclama

Hölderlin adoidado

assassinos travestidos em folhagens

hordas de psicopatas

atirados nas praças

enquanto os últimos

poetas

perambulam na noite

acolchoada


Em Estranhos sinais de Saturno

segunda-feira, março 07, 2011

quarta-feira, outubro 20, 2010

Dois poemas de Roberto Piva

Objeto de minha pesquisa, o poeta roça na minha pele o tempo todo. Ontem houve um tributo a Piva no Centro Cultural São Paulo, com leituras pelos poetas Celso de Alencar e Luiz Roberto Guedes e a atriz Lizette Negreiros. Coisa fina.
Reunir gente para ouvir poesia, na metrópole-necrópole ( como dizia Piva) até que a torna mais civilizada.


À deriva no rio da existência

Abandonar tudo. conhecer praias. amores novos.
poesia em cascatas floridas com aranhas
azuladas nas samambaias.todo trabalhador é escravo. toda autoridade
é cômica. fazer da anarquia um
método & modo de vida. estradas.
bocas perfumadas. cervejas tomadas
nos acampamentos. Sonhar Alto.


Mestre Murilo Mendes

tua poesia são os sapatos de abóboras que eu calço
nestes dias de verão.
negócio de bruxas ,
o sol caía na marmita do
adolescente da lavanderia.
você veria isto com seu olhar silvestre.

um murro bem dado no vitral
que eu mais adoro.

quinta-feira, setembro 02, 2010

Paranóias

O menino Roberto Piva, na Fazenda Santa Terezinha, em Analândia, interior de São Paulo - (1950/1951)

Em Paranóia, de 1963, reeditado pelo IMS, o poeta Roberto Piva andarilha por São Paulo. A fotografia é do grande artista plástico Wesley Duke Lee.
"Ninguém ampara o cavaleiro do mundo delirante", é o verso de Murilo Mendes que Piva colocou como epígrafe ao Poema de ninar para mim e Brueghel (aliás, pintor da Torre de Babel, reproduzida no cabeçalho deste blog)."Eu abro os braços para as cinzentas alamedas de São Paulo".
"Na rua São Luis, meu coração mastiga um trecho da minha vida", diz em Visão de São Paulo à noite-Poema antropófago sob narcótico.
Depois de Mário de Andrade, Piva refaz os roteiros da cidade, outra cidade, novas lisergias.
Na década de 1960 já era outra a metrópole, muito diferente dos tempos de Mário meditando sobre o Tietê.
No ano 2010, então... Nesta tarde, ecoam os versos- porradas de Piva dentro de mim, que leio Paranóia, e ando pela cidade.
Na avenida Paulista dos ex-barões do café, hoje do capital financeiro,resta o muro da casa do Matarazzo, que virou estacionamento há décadas. Se me lembro, detonaram a casa da noite para o dia quando a então prefeita Luiza Erundina mencionou um possível tombamento. Não entendi por que ainda não virou prédio, e fiquei pensando que o estacionamento naquele ponto estratégico talvez renda mais.

No Belas Artes, assisti a Cinco vezes favela, uma reedição do clássico do Cinema Novo, desta vez com o olhar dos proprios favelados. Alguma coisa mudá para melhor, às vezes.
Já o cinema, desde 1952 na cidade, cenário de tantas gerações fazendo História ou não, pede socorro, desde que o banqueiro retirou o patrocínio. Banqueiro quer lucro em tudo, e não pensa na imagem que um patrocínio cultural desses pode possibilitar.
Cinemas vão fechando as portas, e tomara que as campanhas pelo Belas Artes tenham sucesso.
Nós, seus assiduos cinéfilos, temos o dever de ajudar.
Assim como algum ex-frequentador rico do mais que tradicional Riviera, o bar em frente, onde todo mundo ia discutir o filme e etc, poderia resgatá-lo. Está pra alugar ou vender. Ninguém, a não ser as tantas gerações que iam lá, sabe o que era esse bar, onde Angeli criou a Rê-Bordosa e o garçon virou personagem.
A cidade não tem memória.
Paranóia, paranóias. Quem vai amparar tantos cavaleiros e amazonas delirantes? Que cidade? Que metrópole esta onde nossos corações mastigam tantos trechos de nossas vidas?

segunda-feira, julho 05, 2010

Depois de tudo



Por detrás de cada pedra
Por detrás de cada homem
Por detrás de cada sombra
O vento traz-me o teu rosto

(Roberto Piva)



Acho que todos que estávamos no dia 6 de março no evento para juntar fundos para o tratamento do Piva devíamos isso a ele, de alguma forma. Pensei nisso lendo o texto do blog do dramaturgo, que sequer conhecia o poeta, mas muitas vezes o viu e leu.
Eu também não o conhecia, só daqui, dali,deste, daquele bar, de vista. Anos , séculos atrás. O dramaturgo diz que foi sua primeira noite de vinho, depois de tudo que lhe aconteceu, e que se arrastava com dificuldade. Eu vi.

Ele declamou o poema de Paranóia (1963)-Boletim do mundo mágico- e do meu lado o professor Boris Schnaiderman e a mulher dele, professora Jerusa Pires, generosa gente amante da poesia, gostaram do que ouviram. E olha que o professor Boris, do alto dos seus mais de 90, deve até ter visto o próprio Maiakovski declamando. O grande poeta morreu em 1925 e o professor ucraniano chegou ao Brasil em 1930...

Noite meio encantada, porque logo que chego encontro na porta meu velho amigo de adolescência e companheiro de rodadas de poesia, quando estudávamos no inesquecível colégio estadual da zona norte de Sampa. Então, o Edson ainda ama a poesia, como a amávamos desde crianças, eu pensei, feliz. Querem coisa mais incrível num mundo desses?

A namorada do Edson, depois mãe de suas filhas, Lucila, também nossa querida companheira de rodadas de poesia, já tinha partido há uns 10 anos.Saudades, sempre. Ela estaria lá também naquela noite, se é que não estava. E Boris Schnaiderman havia sido seu professor na USP, lembramos...Noite encantada, porque muitos fios se juntavam.

O poeta da Paranóia nos reunia. A alma da poesia vagando entre doidos (as) de pedra y loucos varridos (as). Eterna tribo sempre, e claro, como iria faltar o Marsicano tocando Coltrane y etc. na cítara?

Bortolotto havia se salvado milagrosamente.Leio no seu blog que, naquela noite, chegando em casa, sentiu que estava de volta. Definitivamente. Ou provisoriamente. E algum de nós sabe?

O casal Schnaiderman foi cumprimentá-lo pela declamação.
Meu ex-colega do colégio saiu no meio do evento, como fez a vida inteira- deu um tchau rapidinho, anotou meu telefone e desde então me manda emails engraçados e/ou comoventes.

Muitas apresentações depois, dei carona para o casal russo/baiano, que por outras vias meio encantadas havia conhecido meses antes, e até tomado um chá da tarde no apartamento-bliblioteca deles. (Um belo homem este, com seus olhos azuis tranquilos, onde se vê o amor e o cuidado pela mulher. Que sorte a deles.)

A noite estava suave, sim. Me despedi deles, olhei para a lua, respirei: às vezes, mesmo por motivos graves e tristes, a vida tece fios dourados enredando pessoas especiais, fora do tempo, a sincronicidade, um átimo de encanto.

domingo, julho 04, 2010

Para que existe o poeta?

De uma entrevista com Roberto Piva:

FW - Num dos últimos poemas do Paranóia, você diz: "eu quero a destruição de tudo o que é frágil"...

RP - Mas sabemos que não é nada frágil aquilo cuja destruição eu desejo. A poesia é que é frágil, é uma forma de abrir brechas na realidade; como o Baudelaire, o Artaud, o Gottfried Benn e o Georg Trakl abriram. Mas não impediram Auschwitz. O poeta não existe para impedir essas coisas. O poeta existe para impedir que as pessoas parem de sonhar.
---
Do jornalista e escritor Ronaldo Antonelli
O poeta existe para que algo não precise responder a pergunta "para quê?".

Caminhante, não há caminho: a morte de Piva


Reproduzo aqui o texto do ator e dramagurgo Mario Bortolotto sobre a morte de Piva, um de nossos maiores poetas, ontem em São Paulo.
E que, por viver em um país que nunca respeitou nem grandes poetas, nem idosos--em geral gente sem recursos, que nunca viveu em função de lucro-- sofreu um verdadeiro calvário em busca de internação, até ser acolhido no Incor, via alguns médicos que se comoveram.
Ao menos teve , quero crer, uma morte digna e sem dor, estava em coma induzido há algum tempo.
Viva Piva Forever!


O Texto de Bortolotto
Eu não conheci Roberto Piva. Mas eu vi Roberto Piva. Várias vezes. Lendo seus poemas nos mais variados lugares. Adentrando os eventos culturais cercado por seus "pivetes" (como eram conhecidos os garotos que andavam com ele e com os quais ele dividia suas iluminações). Piva era amigo de amigos meus (Bivar, Pinduca) e teve uma noite que eu fui até à Funarte com minha velha câmera VHS e registrei um bate-papo entre ele e o grande poeta Cláudio Willer. Quando morava em Londrina, já lia Roberto Piva. Eu já o considerava o maior poeta vivo do Brasil e ele tinha aquela aura de mito marginal, do cara que não se rende e que vai até as últimas consequencias em nome de sua arte, no caso, sua poesia, do cara que dizia "só acredito em poeta experimental com vida experimental". Nos últimos anos, Piva vinha definhando por conta de sua doença que era degenerativa. Nós, do lado de cá, ficavamos torcendo por sua recuperação, mas na verdade ninguém tinha muita esperança. Meses atrás, lá no Barco, organizaram uma leitura de poemas pra ajudar a pagar o tratamento dele no hospital. Dei minha pequena contribuição lendo um poema dele acompanhado pela gaita do meu amigo Flavinho Vajman ( http://www.youtube.com/watch?v=TRQYXoBl0M0 ) E esse é o mesmo poema que li anos atrás em Londrina no programa "Estação Blues" da Rádio Universidade FM.
E aqui o próprio lendo o poema "A Piedade": http://www.youtube.com/watch?v=P2Lhaedkh48
Enquanto estou terminando de postar esse texto, Piva deve estar sendo cremado no Cemitério de Vila Alpina (o mesmo em que cremaram recentemente o meu amigo Marcos Cesana). E ele já deve estar nesse momento atazanando a vida (ou seria pós-vida?) de uma porrada de anjos em algum boteco bacana lá no céu. Acompanhado é claro de sujeitos de boa procedência poética como Vinícius de Moraes, Wally Salomão e Itamar Assumpção.
Vá em paz, excepcional (não encontro uma expressão mais adequada) Poeta.


Os drinks desfilam diante dos amigos
embriagados no tapete
Saratoga Springs
Kummel Coquetel
minhas almas estão sendo enforcadas
com intestinos de esqueletos
meus livros flutuam horrivelmente
no parapeito meu melhor amigo
brinca de profeta
no meu cérebro oito mil vagalumes
balbuciam e morrem
(Roberto Piva)
--
Música de Serrat sobre texto que mistura de versos de Machado y de Serrat.

segunda-feira, maio 03, 2010

O que acontece com Roberto Piva

Ele quase não pode mais andar. Locomove-se com extrema dificuldade.

Além do Mal de Parkinson, grave problema de próstata, e desde alguns meses - na época do evento em sua homenagem em março - tenta uma cirurgia no Hospital das Clínicas.
Está muito magro, alimenta-se pouco, me conta um amigo dele.
Precisa de um exame que foi marcado hoje para 18 de junho, lá mesmo, nas Clinicas. O retorno para levar os exames, só no dia 2 de agosto.

Não tem plano de saúde, não tem grana, é um dos nossos maiores poetas vivos. O diretor-clinico do HC chama-se Marcos Boulos. Se alguém o conhecer, ou conhecer alguém que possa ajudar, por favor entre em contacto por este blog.

Eu sei que não acontece só com o Piva, mas com o povo brasileiro pobre. Aconteceu com minha mãe, que morreu num puxadinho do Incor/SP, porque eu não tinha nenhum padrinho lá para arrumar uma vaga na UTI.
A saúde pública no país sendo privatizada aos poucos, as pessoas morrendo por falta de acesso. No século 21.

Isso me mortifica.


Do Piva, o que não vendeu a alma:

"Tudo o que vocês chamam de história não é senão o nosso plano de fuga da civilização de vocês."

"Com a poesia domada, a ditadura é da informação. O monopólio informativo favorece à subordinação administrativa em seu papel de controle social. A imagem do Estado policial se trata menos de uma repressão franca e policial que de uma opressão insidiosa caracterizada pelo domínio do conjunto dos comportamentos."

segunda-feira, março 08, 2010

Piva faz da vida a sua arte

Eu o via nos bares, principalmente nos bares, e chegava bradando, gesticulando, aparecendo. E me acostumei com ele, mas pouco conhecia de sua poesia. O Piva. Fui conhecendo com o passar do tempo, até que vi o belíssimo documentário de Ugo Giorgetti, Uma outra cidade, Poesia e Vida em São Paulo nos anos 60, com os poetas da geração de Piva.
Voltei a ler Piva aqui e ali. Depois, o vi no Parque da Água Branca. Não tive coragem de falar com ele, ali, sem camisa, ao sol das 11 horas, lendo um livro, um companheiro sempre perto ( sorte do Piva, ao menos nisso, pensei, um companheiro sempre por perto).
Então, fiz um poema para ele e para seu amigo de sempre, Wesley Duke Lee, hoje sofrendo de Alzheimer. Muita dor para tão grandes artistas, e para nós.
Fui procurar e achei na internet notícias sobre seus problemas de saúde e de $$. Cheguei mais perto e também entrei na corrente pró-Piva.

E neste sábado , dia 6, fui ao Viva Piva, corrente de solidariedade pelo poeta que tem Parkinson, fez uma angioplastia e passará por extirpação de próstata, e espero que encontre um bom lugar no Hospital das Clínicas.

Encontrei lá meu querido amigo de adolescência do Colégio Estadual Doutor Octávio Mendes, Edson Motta, companheiro da nossa Roda de Poesia. Fiquei feliz por encontrá-lo, como eu, ainda continuando a amar a poesia e os poetas.
Encontrei o professor Boris Schnaiderman e sua mulher, professora Jerusa Pires, dois novos velhos amigos que fiz recentemente, nem sei explicar como. Bravo casal de intelectuais de respeito, não na torre alienada, aqui embaixo, com a gente. E nos abrindo trilhas.

Velhos companheiros da geração de Piva: Claudio Willer, Bicelli, entre os que me lembro. Novos, como o escritor Marcelino Freire e o ator e dramaturgo Mário Bortolotto. E tantos outros que subiram ao pequeno palco do b_arco, em Pinheiros, para declamar as poesias de Piva, celebrá-lo e contar suas histórias engraçadíssimas. Porque o poeta é bem humorado.

Alberto Marsicano, citarista discípulo de Ravi Shankar, poeta e tradutor de poesia, tocou Coltrane, Hendrix e Raul Seixas para Piva. Edivaldo Santana, amigo dos professores, encerrou o espetáculo com sua música ricamente simples e cheia de citações.

Massao Ohno está aqui, ouvi dizerem. Não o encontrei, o editor de vanguarda da década de 60, que publicou Piva, Hilda Hilst, tantos e tantos talentos inumeráveis. Resgatei no baú agora o depoimento que ele me deu em 1994, para um projeto daqueles maravilhosos do sempre maluco criativo Tide Hellmeister. Que começou a fazer capas de livros com o Massao, mas me disse que nunca entendeu nadica das conversas intelectuais do pessoal. Esse grande artista que foi ali e volta já, amante dos surrealistas, amaria também o clima do Viva Piva.

Há quanto tempo eu não sentia esse calor. Esse revival de tempos em que tudo era Nós, e não Só Eu. Exato pensamento de Massao Ohno naquele texto de 1994. Ele escreveu Devaneios ao crepúsculo especialmente para o Tide, coroando seu belísismo depoimento.

Pois é meu caro. Como diria Drummond, ‘o primeiro amor passou, o segundo amor passou..et La vie continue’.Trinta anos se passaram e tudo ficou muito mais caótico. Tivemos que criar técnicas mais sofisticadas de sobrevivência, perder a ternura sem endurecer, aprender a dissimular sem mentir, a responder com perguntas, a proferir sem nenhum eco em resposta. Somos os mistificadores do caos. Que os deuses nos poupem. Somos uma hipótese sem tese. Indemonstráveis, portanto.

E mais:

Músicos, poetas, pintores, artistas, no geral e no particular, insurgi-vos! O mundo não é apenas um vasto circo de variedades, de consumo frenético. Viver é um ato prodigioso, uma dádiva a ser desfrutada, segundo a segundo, até a finitude.


Este o espírito da geração de Roberto Piva.

Aqui, alguns textos que podem dar uma ideia da bela noite de solidariedade, afeto, encontros e reencontros de gerações de doidos de pedra y loucos varridos.

Viva eles! Viva nós! Viva Piva!

Alberto Marsicano

Num transatlântico espanhol, sob o olhar pasmo dos passageiros, arranquei as folhas de Paranoia (obra prima de Piva), coloquei cada uma delas numa garrafa (que arrumei na cozinha) e arrojei-as ao alto mar, proferindo a conjuração poética: 'O pensamento profético de Piva singrará os Sete Mares'."

E textos de Roberto Piva:


Tudo o que vocês chamam de história não é senão o nosso plano de fuga da civilização de vocês.
*
Se o coito anal derruba mesmo o capital? De certa forma sim. Se a sociedade inteira for homossexual, acaba a reprodução de mão-de-obra e, portanto, acaba o capital. Não só o capital, a espécie humana. O que talvez fosse interessante. O herdeiro seria a onça pintada que, comovida, agradeceria.

*

Poesia é iniciação, uma linguagem hermética. Os primeiros poetas eram xamãs e curandeiros, assim como o teatro na Grécia antiga era um teatro de cura. O caráter centáurico de minha poesia consiste em que ela se lança do fundo do mundo mágico até as esferas mais altas e mais livres
*
Existem dois tipos de leitores: um que acumula, enciclopedicamente,conhecimento na cabeça, e isso não serve para nada. E outro, que transforma aquilo que lê em seu sangue, em vida. Eu sou um leitor assim: tudo que li, transformei em minha vida. Segui aquela frase de Octavio Paz: “Poesia é a subversão do corpo”.
*
Só acredito em poeta experimental que tenha vida experimental. Não tenho nenhum patrono no “Posto”, nem leões-de-chácara & guarda-costa literários nas redações de jornais & revistas. Nada mais provinciano do que os clubinhos fechados da poesia brasileira, com seus autores-burocratas tentando restaurar a Ordem & cagando Regras que o futurismo, dadaísmo, surrealismo & modernismo já se encarregaram de destruir.
*

Com a poesia domada, a ditadura é da informação. O monopólio informativo favorece à subordinação administrativa em seu papel de controle social. A imagem do Estado policial se trata menos de uma repressão franca e policial que de uma opressão insidiosa caracterizada pelo domínio do conjunto dos comportamentos.

quinta-feira, março 04, 2010

Viva Piva

Espetáculo para arrecadar fundos para o grande poeta Roberto Piva, que passou por uma angioplastia e precisa de recursos para seu tratamento médico.
Grandes poetas nunca têm dinheiro.Maiakóvski dizia que os poemas nao lhe deram rublos, mas ele apenas precisava de uma camisa lavada e clara. Piva é fã de Maiakóvski.
Quem puder ir sábado, assistirá, tenho a certeza, a um comovente espetáculo.

A partir das 20h30
Rua Virgilio de Carvalho Pinto,426, Pinheiros

Não será cobrado ingresso, mas aceitas doações em dinheiro ou cheque.

Roberto Piva
CPF 565.802.828-00
Banco Itau
Agencia 0036
conta 20592-0


IV

Dêem-me um anestésico. A vida dói e arde.

Não sei controlar meus impulsos demoníacos.

Não acredito em forças de outro mundo.

Sou eu, meus versos e o perigo das frações.

Arranco minhas víceras poéticas do ostracismo.

Trezentos dias e cinqüenta noites marianas.

O caracol de meus cabelos caídos no chão de espelhos.

O sangue e os olhos transformados em areia cinza.

A árvore sem galhos esconde os meninos saltimbancos.

Foi-se o tempo em que se acreditava nas histórias ditas.

Sempre começo pelo meio e jamais olho para os lados,

enquanto rio e sufoco meu próprio rosto turvo.

Minha maquiagem, os primeiros tombos das gaivotas.

Atiro farpas e pragas para antigos e mórbidos desejos.

A torre delirante de um neocórtex em latência,

ou o pedúnculo, ou o miocárdio, ou o octocentésimo.

Quatro poemas nos espaços angustiados do processo.

Sou eu? Sou ateu? De que me valem as respostas?

As idéias me levam ao eterno estado de castidade

entrelaçado neste puro estado de sonho e malogro.

quarta-feira, janeiro 27, 2010

O poeta Roberto Piva está internado e precisa de ajuda

Acabo de ir ao blog do Bortolotto e leio isto aí embaixo.
Mas o que está acontecendo contra dramaturgos - Bortolotto, lembram, levou três tiros de assaltantes, ficou entre a vida e a morte e está se recuperando- poetas, jornalistas decentes?
Piva na enfermaria, meu amigo em Brasilia em outra, esperando até domigo por uma cirurgia de emergência no fêmur.
O mundo não trata bem os do Bem, especialmente o Brasil. Os artistas, sempre desamparados, meu amigo jornalista, que foi preso politico nos anos de chumbo, traz sequelas nas pernas da tortura na Cadeira do Dragão. Como Piva, ele não tem grana e nem plano de saúde.
Roberto Piva foi professor da escola pública. Suas obras completas estão reunidas em três volumes pela editora Globo: "Um Estrangeiro na Legião", "Mala na Mão & e Asas Pretas" e "Estranhos Sinais de Saturno". Recentemente, o livro "Paranoia" (1963) foi reeditado pelo Instituto Moreira Salles.

Quem puder ajudar o Piva, assino embaixo do que diz o Bortolotto.


"O grande poeta Roberto Piva está internado. Ele tá no HC. Piva não tem plano de saúde. Tá na enfermaria na companhia de outros pacientes. Alguns são evangélicos e rezam a noite inteira, ali onde tem também uma tv ligada (e com certeza não é na Tv Cultura e nem no People and Arts). Piva ainda deve permanecer no hospital por algumas semanas. E se tem uma coisa que eu aprendi com o meu acidente e minha convalescença é que vida no hospital é estação no inferno. Piva ainda deve passar por uma cirurgia da próstata e um cateterismo, segundo informa meu amigo Pinduca (o poeta Ademir Assunção) no blog dele. Piva tem 73 anos de poesia e vida experimental e sofre de Mal de Parkinson. Se me permitem, vou quase que parafrasear o poeta Allen Ginsberg em seu brilhante prefácio para a obra de Gregory Corso e dizer que Roberto Piva é talvez (na minha opinião ele é) o maior poeta brasileiro vivo e nesse momento está internado num hospital público em São Paulo precisando de auxílio. Todo tipo de auxílio é bem vindo. Quem puder ajudar com grana que ele vai precisar e não é pouco, depositem na conta que eu tô transcrevendo aí embaixo. Também peguei o número no blog do Pinduca que é altamente confíavel.
http://zonabranca.blog.uol.com.br/

Roberto Lopes Piva
Banco: Itau

Agência: 0036

Conta: 20592-0

CPF: 565.802.828/00 "
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Postei aqui em março de 2009 esta poesia para Piva e Wesley Duke Lee, um poeta e um artista plástico maior deste país. Sempre foram amigos, e Wesley ilustrou com fotos o clássico "Paranóia", de Piva.


Por quem os sinos dobram?


Para Roberto Piva
e
Wesley Duke Lee

O poeta rebelde hoje esquenta ao sol das 11 horas
No Parque da Água Branca
Livro numa mão, firme
A outra, trêmula
O poeta da cidade - ácido, lírico, transverso
Mas ainda aprecia os rapazes
E acha que as moças, cada vez mais, estão parecidas com eles
Por isso, até começa a gostar delas
("Teu olhar maluco atravessa os relógios as fontes a tarde de São Paulo como um desejo espetacular tão dopado de coragem marfim de teu sorriso nascosto fra orizzonti perduti assim te quero: anjo ardente no abraço da Paisagem")

Seu amigo, o artista plástico do primeiro hapenning desta cidade
Não reconhece mais o mundo
Quando o visitei, anos atrás
Figura de brilhos e fulgores -
Mostrou-me uma mesa cheia de coisas empoeiradas:
Não permitia que a limpassem
“Para marcar a passagem do tempo”

Mostrou-me também um mural repleto de fotos da sua vida: “Para não me esquecer”
“Ele dói e brilha”, escrevi na matéria, emprestado verso de Veloso sobre o homem velho

Na parede a frase, quase no teto:

“Entusiasmo-Pleno de Deus”

Só hoje fui atrás da etmologia
Do Grego:entu: DEUS,
iasmo: Cheio

Pleno de entusiasmo o velho homem belo


Uma enfermeira o acompanha, ele sorri



São Paulo, 28 de fevereiro, noite alta





domingo, março 01, 2009

Por quem os sinos dobram?

Wesley Duke Lee
Egipciana
Óleo sobre fotografia de Otto Stupakoff, com aplicação de buril


Para Roberto Piva
e
Wesley Duke Lee

O poeta rebelde hoje esquenta ao sol das 11 horas

No Parque da Água Branca


O poeta da cidade - ácido, lírico, transverso


Livro numa mão, firme

A outra, trêmula



Mas ainda aprecia os rapazes

E acha que as moças, cada vez mais, estão parecidas com eles

Por isso, até começa a gostar delas


(Teu olhar maluco atravessa os relógios as fontes a tarde
de São Paulo como um desejo espetacular tão
dopado de coragem
marfim de teu sorriso nascosto fra orizzonti perduti
assim te quero: anjo ardente no abraço da Paisagem)


Seu amigo, o artista plástico do primeiro hapenning desta cidade

Não reconhece mais o mundo


Quando o visitei, anos atrás


Figura de brilhos e fulgores


Mostrou uma mesa cheia de coisas empoeiradas

Não permitia que a limpassem:

“Para marcar a passagem do tempo”


Mostrou também um mural repleto de fotos da sua vida:

“Para não me esquecer”


“Ele dói e brilha”, escrevi, emprestado verso de Veloso sobre o homem velho


Na parede a frase, quase no teto:


“Entusiasmo-Pleno de Deus”


Só hoje fui atrás da etmologia


Do Grego:entu: DEUS,

iasmo: Cheio


Pleno de entusiasmo, então, aquele velho homem belo


Uma enfermeira o acompanha, ele sorri


São Paulo, 28 de fevereiro, noite alta