sábado, julho 17, 2010

Joel e Joan

Roubei do Outra Margem, grandes guitarristas da Europa. Joel, português, Joan, espanhol.Improviso de "Vou dar de beber à dor".

Senhor, livra-me dos implacáveis

Texto da querida Maria Inez Mattiazzo, pessoa das mais admiráveis que já conheci, mulher de fé e que sempre me comove. Um beijo, Sarita.

Há pessoas que não se envergam, que não se dobram, que não se inclinam.
Não porque tenham um caráter varonil, mas porque são incapazes de qualquer sentimento de empatia, de compreensão, de compaixão ou de bondade.
São incapazes de admitir um erro, mesmo diante das conseqüências desastrosas que seus atos acarretam.
São incapazes de pedir desculpas, mesmo diante da mágoa causada a outrem.
São os tiranos e tiranas da mentira, ainda que a verdade pudesse resultar em bênçãos libetadoras para todos.
Tiranos e tiranas do silêncio, ainda que uma única palavra pudesse desfazer todas as mágoas e restabelecer o entendimento e a paz.
Tiranos e tiranas da inveja que se comprazem em armar ciladas àqueles que tem em abundância, aquilo que julgam lhes faltar.
Tiranos e tiranas da calúnia que com línguas ligeiras e ferinas denigrem num único gesto ou palavra, o santuário de integridade que uma pessoa pode ter levado a vida toda para construir.
Tiranos e tiranas do cinismo e do humor grotesco em deboche crônico reduzindo valores inestimáveis ao nível de sua própria insignificância.
Tiranos e tiranas da ingratidão que devolvem espinhos às mãos que lhes ofertam flores.
Opressores e opressoras hipócritas que confundem suas vítimas com sorrisos amplos e lisonjeiros, enquanto pelas costas estão a tramar toda a sua desdita.
Senhor...livra-me da ação maléfica destes seres empedernidos, mas acima de tudo, de por um momento sequer, a despeito de qualquer circunstância, engrossar a fileira tenebrosa dos implacáveis.

sexta-feira, julho 16, 2010

Rain



Can you hear me that when it rains and shines,
It's just a state of mind,
Can you hear me, can you hear me?

quinta-feira, julho 15, 2010

O rio que não passa pela minha aldeia

Por do sol no Rio Madeira,naquela longinquisssima Rondônia, fiz a foto há tanto tempo, lembrei agora que uma amiga falou do maravilhoso.
Maravilhosa é a natureza pra espanar as dores.

O ídolo de barro-Uma tragédia brasileira

Texto da minha amiga, jornalista Rose Nogueira.Não tenho nada a acrescentar, cada dia fico mais perplexa, e muito mais que perplexa. Apenas que a "juíza" que negou proteção à vítima, ameaçada, meses atrás, argumentou que ela não tinha uma "relação afetiva" com o sujeito, só "ficava" e isso não se inclui na lei Maria da Penha.


Quando o país parou e muita gente chorou depois de confundir o Brasil com a Seleção, ninguém poderia imaginar notícia mais trágica no reino do futebol. Mas teve uma, com todos os componentes e personagens das tragédias gregas clássicas. Envolve um rei ou herói, uma mulher bonita, intrigas, casamento, amores, filhos, pais, mães, a sociedade imperfeita, os costumes, a hipocrisia, a paixão, a vingança, a traição, a vida e a morte. Tem até um coro, formado pelo séqüito de parasitas que costumam acompanhar os ídolos, por simples proximidade ou por dinheiro. Se fosse uma peça de teatro, o coro cantaria mais ou menos assim:

- Mata! Mata! Mata!
Ela te incomoda. Mata!
Para um rei não acontece nada,
mulher é menos que barata...

E o herói, como todo psicopata, decidiria que sim, que a moça linda deveria sumir de sua vida. Um semi-deus não pode ser incomodado. Se ela perturba com exigências – mesmo depois de ele ter se encantado e desfrutado de seu corpo e sua companhia – ele se transforma em juiz perverso e vingativo.

Ignorante, o coro não o avisou que, ao livrar-se da moça, ele se livraria também de si mesmo, ou do que acreditava ser. Ao pensar em sumir com ela, da maneira mais cruel que poderia arquitetar a mente perigosa, estaria se transformando em pó, por onde passam as baratas. Perderia seu reino.

O coro lembrou ainda que há outro destino misturado ao deles, e tem apenas cinco meses. É ele o motivo de tantos problemas. Um filho do herói e da moça bonita, que teria assistido ao sacrifício da mãe. Estarrecidos, ficamos sabendo que foi poupado no último momento. Ele, o inocente, não seria picado e atirado aos cães famintos. Seria condenado à orfandade e ao esquecimento, ao abrigo de menores, depois de passar de mão em mão, levado, segundo as notícias, pela esposa traída.

Mas o que tanto queria sua mãe? Queria o direito de paternidade para o filho, o reconhecimento e o sobrenome. Lembrou que o menino era fruto de dois e não de uma, quando o pai a obrigou a tomar drogas para que ele não viesse ao mundo. Mas o menino nasceu e continuou brigando para viver. Como nas peças gregas, cumprirá seu destino, sem pai e mãe.

Talvez um dia lhe contem que seu pai foi um herói de verdade no país apaixonado por futebol. Seu reino era o campo, seu trono ficava sob a trave. Ele era o todo-poderoso das defesas geniais, o homem a quem o Flamengo, que possui a maior torcida do mundo, devia suas vitórias. Rebatia pênaltis como ninguém, levou o estádio ao delírio na final contra o Botafogo. E ouvirá que sua mãe era a moça bonita que freqüentava os campos até se apaixonar pelo mais talentoso goleiro, que além de tudo tinha alta conta bancária e cabeça pequena para um corpo tão grande. Talvez lhe digam que ela só queria “se dar bem”, como tantas outras moças parecidas. Afinal, algumas se casam em cerimônias milionárias. Mas Eliza Samúdio “perdeu”, como se diz na gíria do sub-mundo.

Vivemos o tempo das ridículas “celebridades”, onde a cabeça vale pouco, desde que os pés pisem um castelo que já foi de algum nobre falido e isso vire foto de revista. Pior de tudo é ouvir e ver na Internet comentários do tipo “ela foi mau caráter, oportunista, mas não merecia morrer dessa forma...” Ou então “ela era ‘maria-chuteira’ interesseira, tinha que acabar assim mesmo...” Tanto isso é verdade que, por vários dias, Eliza Samúdio foi chamada, pelas TVs de “a ex-amante do goleiro Bruno”. Não tinha nome. Até a palavra “amante”, em desuso há muito tempo, foi recuperada para crucifica-la moralmente. As fotos vulgares, mostradas insistentemente, servem para isso. Além de ser mulher, Eliza tinha “um passado”.

Senti falta das bravas opiniões feministas, dos protestos, da lembrança da lei Maria da Penha. Eliza demonstrava ter sonhos de maior inclusão social – mas também de formar uma família com seu filho e protegê-lo. Nem ela nem Bruno tinham muita experiência de afeto e proteção familiar. Os dois personagens são trágicos desde o começo, e se aproximam pela história comum lá atrás: ambos foram abandonados pelos pais quando crianças, e esse é o legado do menino.

O que os distancia, e separa a vida da morte, é que Bruno tinha poder e dinheiro. Ganhava perto de 200 mil reais por mês só em patrocínio e salário do Flamengo. Agora os contratos foram suspensos. O garoto que confessou ter ferido Eliza e acompanhado seu martírio até o final disse que recebeu três mil e entregou ao matador. Uma vida rica e uma morte barata.

Um colega levantou uma hipótese: se Bruno estivesse na Seleção, se tivesse ido para a África do Sul, talvez a tragédia fosse evitada. Eliza sumiu dias antes do primeiro jogo. O herói não sabe lidar com a frustração e pode cometer barbaridades, diz ele. Se estivesse feliz, talvez tivesse reconhecido o filho e seus direitos, e ainda ajeitasse a situação com a mulher traída. Pode ser. Isso porque, ao ser preso, Bruno teria lamentado apenas que a Copa de 2014, para ele, já era. Era esse o seu sonho. Sua paixão era o campo, a partida, a vitória. O reino perdido. Não chorou pelo que se tornou, por Eliza ou pelo abandono do menino. Mas esse é material para os psiquiatras.

O que nós sabemos é que a arte imita a vida e muitas vezes esta supera aquela. Estamos assistindo a uma tragédia brasileira.

quarta-feira, julho 14, 2010

sexta-feira, julho 09, 2010

quarta-feira, julho 07, 2010

segunda-feira, julho 05, 2010

Depois de tudo



Por detrás de cada pedra
Por detrás de cada homem
Por detrás de cada sombra
O vento traz-me o teu rosto

(Roberto Piva)



Acho que todos que estávamos no dia 6 de março no evento para juntar fundos para o tratamento do Piva devíamos isso a ele, de alguma forma. Pensei nisso lendo o texto do blog do dramaturgo, que sequer conhecia o poeta, mas muitas vezes o viu e leu.
Eu também não o conhecia, só daqui, dali,deste, daquele bar, de vista. Anos , séculos atrás. O dramaturgo diz que foi sua primeira noite de vinho, depois de tudo que lhe aconteceu, e que se arrastava com dificuldade. Eu vi.

Ele declamou o poema de Paranóia (1963)-Boletim do mundo mágico- e do meu lado o professor Boris Schnaiderman e a mulher dele, professora Jerusa Pires, generosa gente amante da poesia, gostaram do que ouviram. E olha que o professor Boris, do alto dos seus mais de 90, deve até ter visto o próprio Maiakovski declamando. O grande poeta morreu em 1925 e o professor ucraniano chegou ao Brasil em 1930...

Noite meio encantada, porque logo que chego encontro na porta meu velho amigo de adolescência e companheiro de rodadas de poesia, quando estudávamos no inesquecível colégio estadual da zona norte de Sampa. Então, o Edson ainda ama a poesia, como a amávamos desde crianças, eu pensei, feliz. Querem coisa mais incrível num mundo desses?

A namorada do Edson, depois mãe de suas filhas, Lucila, também nossa querida companheira de rodadas de poesia, já tinha partido há uns 10 anos.Saudades, sempre. Ela estaria lá também naquela noite, se é que não estava. E Boris Schnaiderman havia sido seu professor na USP, lembramos...Noite encantada, porque muitos fios se juntavam.

O poeta da Paranóia nos reunia. A alma da poesia vagando entre doidos (as) de pedra y loucos varridos (as). Eterna tribo sempre, e claro, como iria faltar o Marsicano tocando Coltrane y etc. na cítara?

Bortolotto havia se salvado milagrosamente.Leio no seu blog que, naquela noite, chegando em casa, sentiu que estava de volta. Definitivamente. Ou provisoriamente. E algum de nós sabe?

O casal Schnaiderman foi cumprimentá-lo pela declamação.
Meu ex-colega do colégio saiu no meio do evento, como fez a vida inteira- deu um tchau rapidinho, anotou meu telefone e desde então me manda emails engraçados e/ou comoventes.

Muitas apresentações depois, dei carona para o casal russo/baiano, que por outras vias meio encantadas havia conhecido meses antes, e até tomado um chá da tarde no apartamento-bliblioteca deles. (Um belo homem este, com seus olhos azuis tranquilos, onde se vê o amor e o cuidado pela mulher. Que sorte a deles.)

A noite estava suave, sim. Me despedi deles, olhei para a lua, respirei: às vezes, mesmo por motivos graves e tristes, a vida tece fios dourados enredando pessoas especiais, fora do tempo, a sincronicidade, um átimo de encanto.

domingo, julho 04, 2010

Para que existe o poeta?

De uma entrevista com Roberto Piva:

FW - Num dos últimos poemas do Paranóia, você diz: "eu quero a destruição de tudo o que é frágil"...

RP - Mas sabemos que não é nada frágil aquilo cuja destruição eu desejo. A poesia é que é frágil, é uma forma de abrir brechas na realidade; como o Baudelaire, o Artaud, o Gottfried Benn e o Georg Trakl abriram. Mas não impediram Auschwitz. O poeta não existe para impedir essas coisas. O poeta existe para impedir que as pessoas parem de sonhar.
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Do jornalista e escritor Ronaldo Antonelli
O poeta existe para que algo não precise responder a pergunta "para quê?".