terça-feira, janeiro 13, 2009

Judeus contra o massacre

Publicada no The Guardian, em 10/01/2009

Nós, os abaixo-assinados, somos todos de origem judaica. Quando vemos os corpos mortos e ensaguentados de pequenas crianças, o corte de água, eletricidade e comida, nos lembramos do cerco ao Gueto de Varsóvia. Quando Dov Wisglass, um assessor do primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, falou em colocar os moradores de Gaza "numa dieta" e o vice-ministro de Defesa, Matan Vilnai, falou sobre os palestinos experimentarem um "shoah maior" (holocausto), nos lembramos do governador-geral Hans Frank, da Polônia ocupada pelos nazistas, quando ele falou de "morte pela fome".
A verdadeira razão para o ataque em Gaza é que Israel só quer lidar com palestinos fracos. O maior crime do Hamas não é o terrorismo, mas sua negativa de se tornar um peão na mão do regime de ocupação de Israel na Palestina. A decisão no mês passado da União Européia de dar um upgrade nas relações com Israel sem qualquer exigência quanto aos direitos humanos encorajou a agressão israelense. O tempo de não confrontar Israel acabou. Como primeiro passo, a Grã Bretanha deveria retirar seu embaixador de Israel e, como fez no caso do apartheid na África do Sul, iniciar um programa de boicote, desinvestimento e sanções.
Ben Birnberg, Prof Haim Bresheeth, Deborah Fink, Bella Freud, Tony Greenstein, Abe Hayeem, Prof Adah Kay, Yehudit Keshet, Dr Les Levidow, Prof Yosefa Loshitzky, Prof Moshe Machover, Miriam Margolyes, Prof Jonathan Rosenhead, Seymour Alexander, Ben Birnberg, Martin Birnstingl, Prof. Haim Bresheeth, Ruth Clark, Judith Cravitz, Mike Cushman, Angela Dale, Merav Devere, Greg Dropkin, Angela Eden, Sarah Ferner, Alf Filer, Mark Findlay, Sylvia Finzi, Bella Freud, Tessa van Gelderen, Claire Glasman, Ruth Hall, Adrian Hart, Alain Hertzmann, Abe Hayeem, Rosamene Hayeem, Anna Hellmann, Selma James, Riva Joffe, Yael Kahn, Michael Kalmanovitz, Ros Kane, Prof. Adah Kay, Yehudit Keshet, Mark Krantz, Bernice Laschinger, Pam Laurance, Dr Les Levidow, Prof. Yosefa Loshitzky, Prof. Moshe Machover, Beryl Maizels, Miriam Margolyes, Helen Marks, Martine Miel, Diana Neslen, O Neumann, Susan Pashkoff, Hon. Juliet Peston, Renate Prince, Roland Rance, Sheila Robin, Ossi Ron, Manfred Ropschitz, John Rose, Prof. Jonathan Rosenhead, Leon Rosselson, Michael Sackin, Ian Saville, Amanda Sebestyen, Sam Semoff, Prof. Ludi Simpson, Viv Stein, Inbar Tamari, Ruth Tenne, Norman Traub, Eve Turner, Tirza Waisel, Karl Walinets, Renee Walinets, Stanley Walinets, Philip Ward, Naomi Wimborne-Idrissi, Ruth Williams, Jay Woolrich, Ben Young, Myk Zeitlin, Androulla Zucker, John Zucker

sábado, janeiro 10, 2009

Jornalista tem de ter lado

Robert Fisk, no The Independent (10 de janeiro)

Voz de jornalista que redime essa nossa categoria, voz que me dá esperança, ainda que seja uma das poucas no deserto da mídia mundial



http://www.amalgama.blog.br/01/2009/por-onde-ando-sempre-as-mesmas-velhas-ideias-sobre-o-oriente-medio


"Terminei a semana num daqueles debates do Serviço Internacional da BBC, com um sujeito do The Jerusalem Post, outro da rede al-Jazeera, um intelectual inglês e um Fisk. Dançamos a valsa de sempre em torno da catástrofe de Gaza. Foi eu dizer que é grotesco comparar os 600 palestinos mortos aos 20 mortos israelenses perto de Gaza em dez anos, e os presentes pró-Israel puseram-se a me linchar por sugerir (o que eu não fiz) que só haviam morrido 20 israelenses em todo o território de Israel em dez anos. Claro que morreram centenas de israelenses fora de Gaza em dez anos – mas no mesmo período morreram milhares de palestinos.

Meu momento preferido aconteceu quando eu disse que jornalistas têm de ter lado, e que o lado dos jornalistas têm de ser o lado dos que mais sofrem. Se me mandassem cobrir o tráfico de escravos no século 18, eu jamais daria destaque, no que escrevesse, à opinião do capitão do navio mercador de escravos. Se me mandassem cobrir a libertação num campo de concentração nazista, eu não entrevistaria o porta-voz da SS. Nesse ponto, um jornalista do Jewish Telegraph em Praga “argumentou” que “o exército israelense não é Hitler”. Claro que não. Eu não disse que é. Aqueles jornalistas, sim, é que temem que seja."

* tradução: Caia Fittipald

sexta-feira, janeiro 09, 2009

A árvore que chove

O Parque da Água Branca é um lugar incrível nesta São Paulo. Lá eu vou quase diariamente caminhar, há anos.

Na entrada, esses dias de sol, de muito calor, reparei, ao passar debaixo da enorme, bela árvore de Pau Ferro (Caesalpinia Ferrea), que ela chovia. Isso mesmo.

Só ela chovia.

Daí perguntei para o seu Manoel, dono da barraquinha de doces logo depois dela: “Mas o que é que está acontecendo aqui?”.

Ele me explicou que:

um prédio, daqueles de 5 suítes, suíte master, estilo neoclássico e o escambau, ali do lado, faz um tempinho desviou as fontes de água do parque. Primeiro secou um lago que dá para a av.Francisco Matarazzo, entraram com processo na Justiça, não sei o que deu.

Consertado esse laguinho, a coisa descambou no outro com peixes ornamentais e cada bagre enorme. Chamado Lago Preto.

Esse eu vi fim do ano, as águas baixando, e eu pensei que estavam limpando.

Agora está cercado para reforma.

Bom, mas contou o seu Manoel que essa água que escapou do Lago Preto naturalmente foi pra algum lugar, desceu por baixo da terra e chegou até a árvore de Pau Ferro.

“Essa árvore não aceita água na raiz, então ela chupa e devolve lá de cima. Eu sei porque sou de Alagoas, e uma vez lá plantaram eucalipto- outra arvore que não pode com água na raiz- nas margens do rio São Francisco. Então o rio foi baixando...”

Diz mais o seu Manoel: que chamaram um biólogo no parque e ele disse que era um fungo na árvore. Fungo nada, e eu acredito mais é no alagoano. Diz que a raiz é imensa.

E agora?

Sei que há uma movimentação de reformas no Parque, tubos e conexões, deve ser relativa a esse problema.

E até quando o Pau Ferro vai chover seu Manoel? Ele acredita que mais uns três ou quatro meses, até a água secar.

O Pau Ferro deve ter uns 15 metros de altura, é planta terapêutica, o caule é usado para problemas gástricos, a casca para curar asma e bronquite.

Pois é, nem as árvores podem ter sossego nessa cidade cheia de prédios neoclássicos com cinco quartos de 2m x 2 m e vista para o Parque.



No jornal baiano A Tarde


Receita de um vencedor

Simone Ribeiro

Jornalista e editora-coordenadora de conteúdos semanais de A TARDE

6/12/2008


Se todos fossem iguais a você também poderia ser o título do estudo que a pesquisadora Elizabeth Lorenzotti lançou no ano passado, pela Imprensa Oficial, resgatando a história do extinto suplemento literário do jornal O Estado de São Paulo. Suplemento literário. Que falta ele faz!, o nome como foi publicado, conta as origens daquele que talvez seja o avô dos últimos sobreviventes do gênero no País - motivo suficiente para leitura tanto de quem faz quanto de quem os consome. Mas existe um outro: os 90 anos de Antonio Candido. O decano da crítica literária foi a pessoa encarregada de criar o projeto editorial do caderno, que circulou entre 1956 e 1974.

O "plano" de edição, reproduzido na íntegra - em letras que, para os mais velhos, vão fazer "ressuscitar" o ruído de uma máquina de datilografar - é, sem medo de errar, uma das melhores coisas do livro. Didático, denso e minucioso, ele não se perde numa linguagem erudita e deixa claro que a proposta é se dirigir tanto ao leitor comum quanto ao culto. Sem distinções. Ali é possível conhecer desde a sua estrutura até os níveis de remuneração dos colaboradores. No anexo, mais uma aula de quem entendia do riscado, com as especificações de cada seção, sugestão para os quatro primeiros números e perspectivas de desenvolvimento.

Em nenhum momento, as orientações de Antonio Candido soam impositivas ou avessas às forças que cercam uma redação de jornal e uma empresa privada de linha conservadora, mesmo em se tratando de um produto fronteiriço com a arte.

Vale lembrar que foi a crítica do professor da USP e militante socialista, feita ao diretor Julio de Mesquita Filho, à edição comemorativa dos 400 anos da Cidade de São Paulo, o estopim do suplemento literário do jornal O Estado de São Paulo. Era o começo de uma guinada no jornalismo cultural brasileiro.



CRÍTICAS - Excesso de publicidade, páginas inteiras de anúncios com uma parte menor reservada à colaboração, foram alguns dos defeitos que Antonio Candido viu e não gostou. O desafio estava lançado, e o mestre foi convidado a bolar um impresso melhor. No dia 6 de outubro de 1956, a edição inaugural do suplemento literário chegava às bancas. Na capa, um perfil longilíneo de mulher nua, assinado por Karl Plattner. Uma diagramação ousada, sem dúvida, afinal, ilustração rivalizando com o texto, sempre soberano, era algo impensável.

Candido criou, mas foi o crítico teatral e professor Décio de Almeida Prado quem, durante dez anos (de 1956 a 1966), cuidou de semanalmente colocar o suplemento na rua. Como editor gráfico, foi escolhido o italiano Ítalo Bianchi. Paulo Emílio Salles Gomes era o homem que falava de cinema; Lourival Gomes Machado e Sábato Magaldi ficaram, respectivamente, com as áreas de artes plásticas e teatro. Candido e Wilson Martins abocanharam a literatura.

O lançamento de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, pela livraria e editora José Olympio; a vinda dos filósofos Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir ao Brasil; a genialidade de Charles Chaplin; e os 40 anos da Semana de Arte Moderna foram alguns dos temas importantes que o suplemento abordou em edições especiais. Críticas ao teatro de Dias Gomes, José Celso Martinez e Nelson Rodrigues, comentários de filmes, obras de música erudita e popular e até um caderno especial dedicado à Bossa Nova, em 1966, também ajudaram a escrever essa história.

A híbrida constelação a que o suplemento abriu suas portas diz muito do sucesso que alcançou. Os poetas concretos encontraram abrigo em suas páginas tanto quanto os poetas ligados à tradição. Em 30 de julho de 1966, já famoso como artista de festivais, Chico Buarque publicava nele o primeiro conto: Ulisses. O mesmo vale ser dito sobre os pintores e desenhistas: um mosaico de tendências. Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda, Portinari, Aldemir Martins, Frans Krajcberg, Marcelo Grassmann, Renina Katz, Hansen Bahia, dentre outros, formavam o glorioso time de colaboradores. A confortável situação de independência de que desfrutava perante a direção do jornal - para propor temas e articulistas - e perante a publicidade foi outro trunfo.

Reconhecer semelhanças com o que ainda hoje se pratica em matéria de cadernos culturais no País não é mera coincidência. O suplemento de O Estado de São Paulo, como assinala a pesquisadora Elizabeth Lorenzotti logo na introdução, serviu de modelo a todos os seus congêneres. Em três palavras - crítica, análise e reflexão - poderia-se resumir o objetivo da publicação. Sua despedida, como era de se prever, veio com a adoção de uma maneira de se fazer jornalismo mais frenética e imediatista, incompatível com aqueles velhos tempos, fortemente influenciada pela imprensa norte-americana, e com os novos ventos que sopravam no Brasil e no mundo.

Com Suplemento literário, que falta ele faz!, a pesquisadora Elizabeth Lorenzotti propõe tanto um olhar para o passado quanto para o futuro do jornalismo cultural. Afinal, qual o lugar da crítica, hoje, na imprensa brasileira? Como despertar o público para ler, ver ou ouvir uma obra sem a necessária provocação intelectual? "O espaço de debate nos jornais ficou menor", afirmou Décio de Almeida Prado, em entrevista à revista Veja, em 1997, e não há como negá-lo.




terça-feira, janeiro 06, 2009

Longa é a arte, tão breve a vida


Tide Hellmeister por Mario Amaya

Os ventos que as vezes tiram
algo que amamos, são os
mesmos que trazem algo que
aprendemos a amar...
Por isso não devemos chorar
pelo que nos foi tirado e sim,
aprender a amar o que nos foi
dado.Pois tudo aquilo que é
realmente nosso, nunca se vai
para sempre...

Bob Marley

Uma bonita homenagem do Mario Amaya para o Tide em

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Poema do Menino Jeus



Alberto Caeiro

(trecho)


Num meio-dia de fim de primavera eu tive um sonho como
uma fotografia: eu vi Jesus Cristo descer à Terra.
Ele veio pela encosta de um monte, mas era outra vez
menino, a correr e a rolar-se pela erva
A arrancar flores para deitar fora, e a rir de modo a
ouvir-se de longe.
Ele tinha fugido do céu. Era nosso demais pra
fingir-se de Segunda pessoa da Trindade.
Um dia que Deus estava dormindo e o Espírito Santo
andava a voar, Ele foi até a caixa dos milagres e
roubou três.
Com o primeiro Ele fez com que ninguém soubesse que
Ele tinha fugido; com o segundo Ele se criou
eternamente humano e menino; e com o terceiro Ele
criou um Cristo eternamente na cruz e deixou-o pregado
na cruz que há no céu e serve de modelo às outras.
Depois Ele fugiu para o Sol e desceu pelo primeiro
raio que apanhou.
Hoje Ele vive na minha aldeia, comigo. É uma criança
bonita, de riso natural.
Limpa o nariz com o braço direito, chapinha nas poças
d'água, colhe as flores, gosta delas, esquece.
Atira pedras aos burros, colhe as frutas nos pomares,
e foge a chorar e a gritar dos cães.
Só porque sabe que elas não gostam, e toda gente acha
graça, Ele corre atrás das raparigas que levam as
bilhas na cabeça e levanta-lhes a saia.
A mim, ensinou-me tudo. Ele me ensinou a olhar
para as coisas. Ele me aponta todas as cores que há
nas flores e me mostra como as pedras são engraçadas
quando a gente as tem na mão e olha devagar para
elas.
Damo-nos tão bem um com o outro na companhia de tudo
que nunca pensamos um no outro. Vivemos juntos os dois
com um acordo íntimo, como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer nós brincamos as cinco pedrinhas no
degrau da porta de casa. Graves, como convém a um DEUS
e a um poeta. Como se cada pedra fosse todo o Universo
e fosse por isso um perigo muito grande deixá-la cair
no chão.
Depois eu lhe conto histórias das coisas só dos
homens. E Ele sorri, porque tudo é incrível. Ele ri
dos reis e dos que não são reis. E tem pena de ouvir
falar das guerras e dos comércios.
Depois Ele adormece e eu o levo no colo para dentro da
minha casa, deito-o na minha cama, despindo-o
lentamente, como seguindo um ritual todo humano e todo
materno até Ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma. Às vezes Ele acorda de
noite, brinca com meus sonhos. Vira uns de pena pro ar,
põe uns por cima dos outros, e bate palmas, sozinho,
sorrindo para os meus sonhos.
Quando eu morrer, Filhinho, seja eu a criança, o mais
pequeno, pega-me Tu ao colo, leva-me para dentro a Tua
casa. Deita-me na tua cama. Despe o meu ser, cansado e
humano. Conta-me histórias caso eu acorde para eu
tornar a adormecer, e dá-me sonhos Teus para eu
brincar.

quinta-feira, dezembro 18, 2008

Meirelles resgata brio da classe artística

Foto Reinaldo Marques/Terra

O Terra Magazine traz uma bela notícia de fim de ano, papai noel para todos os que já estávamos tão desiludidos com a classe artística, que há muitos anos não assume posições combativas. O talentoso cineasta Fernando Meirelles (Cidade de Deus, Jardineiro Fiel, Ensaio sobre a Cegueira) recebe prêmio da Veja e o dedica ao juiz Fausto de Sanctis.
Na carta a de Sanctis, ele diz que o juiz é um paulistano que merece o troféu mais do que ele, "por sua postura e capacidade de resistir às pressões". Tapa bem dado com luva de pelica na Editora Abril, que via revista Veja tem protagonizado espetaculos de antijornalismo explicito no caso Daniel Dantas.

Beijos pro Meirelles!

Não dá mais pra ver artistas posando para publicidade de tudo: Fernanda Montenegro na Vale, nos bancos estatais, etc. Artistas de todos os quilates fazendo propaganda de bebida alcoólica e de remédios ( aliás exatamente hoje sua performance foi proibida pela Anvisa).

Paulo Autran recusava-se a fazer publicidade. Era o nosso maior ator.

Por que todos os outros são tão necessitados?
Não pensam na ética?
Na sua imagem?
Ou só pensam no Castelo de Caras?
Mirem-se no exemplo de Meirelles e ajam como cidadãos.





Claudio Leal
O cineasta Fernando Meirelles, diretor de Ensaio sobre a cegueira, realizou uma premiação particular e inabitual ao juiz da 6ª Vara Federal Criminal de São Paulo, Fausto de Sanctis, que condenou o banqueiro Daniel Dantas a 10 anos de prisão por corrupção ativa.
Vencedor do prêmio "Paulistanos do Ano 2008", da Veja São Paulo, Meirelles repassou o troféu ao magistrado por achar que havia um paulistano que merecia a homenagem mais do que ele. A notícia foi antecipada pela coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo desta quinta, 18. Em cima da placa, Meirelles colou um papel: "Fausto De Sanctis/ O Homem!".
Em novembro, De Sanctis recusou a promoção à vaga de desembargador do Tribunal Regional Federal da 3ª Região. Permaneceu no caso Dantas e condenou o banqueiro por tentativa de suborno ao delegado Vitor Hugo Alves, da Polícia Federal.
O cineasta foi procurado por Terra Magazine, mas se encontra em Dubai, onde divulga Ensaio.









quinta-feira, dezembro 11, 2008

Do blog de José Saramago



Baltasar Garcón,


Dezembro 11, 2008 by José Saramago



Apesar do tempo agreste, com chuva a espaços e frio, o cinema estava cheio. Carmen Castillo temia que as duas horas e meia de projecção do seu documentário acabassem por fazer desanimar a assistência, mas não foi assim. Nem uma só pessoa se levantou para sair e, no final, com os espectadores rendidos à força das imagens e aos testemunhos estremecedores dos membros do M.I.R sobreviventes da ditadura, Carmen foi aplaudida de pé. Nós, os da Fundação, estávamos orgulhosos daquele público. Havia confiança, mas a realidade excedeu as previsões mais optimistas.
À hora a que escrevo, mais de duzentos mil exemplares da Declaração Universal dos Direitos Humanos circulam nas mãos de outros tantos leitores dos jornais Diário de Notícias, de Lisboa, e Jornal de Notícias, do Porto. E hoje, dia 11, será a vez de Baltasar Garzón, que vem expressamente de Madrid para falar de direitos humanos, de Chile e de Guantánamo. Tal como a homenagem às Letras Portuguesas que se realizou ao fim da tarde com grande êxito, a conferência de Garzón será na Casa do Alentejo, às 18 horas. É uma boa ocasião para aprender. Sim, para aprender.


Dezembro, 12


O juiz Baltasar Garzón deixou em Lisboa uma lição do que é ou deve ser o Direito. A verdade é que, em sentido estrito, do que se falou no acto organizado pela Fundação foi de Justiça. E de sentido comum: dos delitos que não podem ficar impunes, das vítimas a quem tem de ser dada satisfação, dos tribunais que têm de levantar alcatifas para ver o que há por baixo do horror. Porque muitas vezes, por baixo do horror, há interesses económicos, delitos claramente identificados perpetrados por pessoas e grupos concretos que não podem ser ignorados em Estados que se proclaman de direito. Quem sabe se os responsáveis dos crimes contra a humanidade, que de outra forma não posso chamar a esta crise financeira e económica internacional, não acabarão processados, como o foram Pinochet ou Videla ou outros ditadores terríveis que tanta dor espalharam? Quem sabe?
O juiz Baltasar Garzón fez-nos compreender a importância de não cair na vileza uma vez para não ficar para sempre vil. Quem conculca uma vez os direitos humanos, em Guantánamo, por exemplo, atira pela borda fora anos de direito e de legalidade. Não se pode ser cúmplice do caos internacional com que a administração Bush infectou meio mundo. Nem os governos, nem os cidadãos.
Um auditório multitudiná rio e atento seguiu as intervenções do juiz com respeito e consideração. E aplaudiu como quem ouve não verdades reveladas, mas sim a voz efectiva de que o mundo necessita para não cair em na permissividade da abjecção.
A Fundação está contente: fizemos o que pudemos para recordar que há uma Declaração de Direitos Humanos, que estes não são respeitados e que os cidadãos têm de exigir que não se tornem em letra morta. Baltasar Garzón cumpriu a sua parte e tê-lo puesto posto a claro esta tarde em Lisboa só pode fazer com que nos felicitemos.

domingo, novembro 30, 2008

Um poema antigo para Maiacóvski


Por Vladímir Maiacóvski

De Elizabeth


Vladímir voz de veludo
Carcaça gigante, eu te reverencio
Porque se passaram 66 anos
e passarão cem, e o século vai virar
e mais mil anos
e sempre ressuscitarás a cada poema
E continuarão a ler tua obra/vida
Com ou sem balalaikas
Ó delicado!
A iluminar, a brilhar
A libertar povo e poesia
Muita coisa junta para um só poeta

E a misérias do cotidiano
E os amores servis
E o deserdados do mundo
Ó delicado!
Tudo mudou
nada mudou

É preciso que tudo mude, eles dizem
Para que tudo permaneça como sempre foi

Este o slogan do século 20
(Não o seu , não o nosso)

New York, Moscou, Praga
São Paulo (Brasil, lá onde poderia existir um homem feliz)
As capitais engasgadas
Desenrolam suas misérias
Sérvio e croatas, afegãos,
e nordestinos, cucarachos e africanos
judeus, palestinos, e curdos e tantos
sangram como talvez nunca
tenha sangrado o homem

Vladímir, foi bom
foi bom que teu tempo se esgotou tão cedo
Quanto disso o poeta poderia suportar?

Resta-nos beber da tua fonte
Ó delicado!
Entoar poemas pelos bares vadios
E brilhar
Nossa vingança é brilhar
Brilhar sempre
Brilhar como o sol

sexta-feira, novembro 28, 2008

Livros, essa coisa antiga

Do Abrapalavra, do jornalista e escritor Ronaldo Antonelli:
http://ronaldoantonelli.blogspot.com/search/label/Abrapalavra

"Procurou-me uma sobrinha, na casa dos vinte anos e estudante de comunicações, perguntando pelo porão de casa, local amplo e aproveitável que uso como sala de trabalho: queria saber se lá havia ainda “aquelas estantes com livros”.
Dono de alguns milhares de livros que acumulei durante a vida, respondi que naturalmente ainda estavam lá – até pela dificuldade de sua remoção, sempre presente numa eventual perspectiva de mudança. Ela me explicou que desejava fazer uma filmagem, para um documentário que produzia como trabalho de faculdade.
Visitando o local, a sobrinha concluiu que era ideal para suas necessidades de apresentar um ambiente de “coisas antigas”, de acervo bibliográfico antiquado para introduzir a matéria sobre histórias fantásticas e de terror que constituía o tema de seu trabalho.
E veio a equipe, composta de vários jovens com tralha de equipamentos, que se mostraram admirados com a quantidade de livros e a aparência anacrônica do acervo. Com alguma discreta indagação, apurei que o que reputavam antiquado era a mera existência dos livros, reunidos em tal quantidade.
Sua matéria falava nas lendas medievais, tal como coletadas pelos irmãos Grimm, e sua busca de ambientação entre estantes vetustas tinha começado por bibliotecas públicas e sebos, mas seus pedidos tinham esbarrado na burocracia dos funcionários e na má-vontade dos comerciantes. Foi então que minha sobrinha se lembrou do porão de seu livresco tio.
Os membros da equipe fizeram seu trabalho e se foram, agradecendo-me pelo empréstimo do local. Fiquei pensando na idéia que tantos jovens atuais parecem fazer dos livros. Lembrei-me de que minha sobrinha dispõe, em sua casa, de um quarto exclusivo, com seu computador e aparelhos de áudio e vídeo, onde uns poucos livros se alojam em sua escrivaninha – aqueles estritamente utilizados no dia-a-dia escolar.

Pensei nos quartos e casas de outros jovens, incluídos amigos de meu filho mais novo, e a memória não me revelou quadro diferente. Depois me recordei de um instalador de redes, estudante de informática de nível superior, que ao visitar o porão de casa também se intrigou diante dos livros... sugerindo que “hoje o Google e a Wikipedia substituíram tudo isso, não?” Tentei argumentar que nem de longe se poderia supor tal substituição, mas logo percebi a árdua tarefa que teria pela frente.
Tremi à idéia de que estaríamos (“estaríamos” quem, cara-pálida?) repassando aos jovens a noção de que as volumosas massas de livros de papel das bibliotecas seriam “antiquadas”, ultrapassadas e... inúteis, talvez, diante das modernas tecnologias de armazenamento de textos – e, pior que isso, diante das atuais necessidades de seu uso, já não absorvido, exaustivo e mnemônico, porém imagético, salteado e acessável via cliques ou outras formas de solicitação técnica.

À idéia, enfim, de que a própria cultura se estaria rapidamente reduzindo a um recurso secundário, confinada a nichos museológicos e a cargo de especialistas excêntricos. A um exótico tema de documentário para um TCC – trabalho de conclusão de curso... quem sabe, por isso mesmo, premiado pela originalidade!