
Foto: Jesus Carlos/Imagemlatina

Atendendo a pedidos, vai a relação das livrarias que vendem real e virtualmente o meu livrinho:
São Paulo
Azteca - R. Bartira, 351
Sobrado - Av. Moema, 493
Paraler - R. Quatá, 300
Livraria da Vila – http://www.livrariadavila.com.br/
Rua Fradique Coutinho, 915-Vila Madalena- fone 3814-5811
Vila Madalena Telefone: 3814-5811
Alameda Lorena, 1731 - Jardins Telefone: 3062-1063
Cortez
Rua Bartira, 317 ao lado da PUC
www.livrariacortez.com.br
Cultura
http://www.livrariacultura.com.br/
Rio de Janeiro
Livraria da Travessa -
Travessa do Ouvidor, 17 fone (21) 3231-8015
Av. Rio Branco, 44 fone (21) 2519-9000
Leblon
Shopping Leblon, 2º piso (021) 3138-9600
Ipanema
R. Visconde Pirajá, 572 (21) 3205-9002
Vendas nacionais
Saraiva
Siciliano - www.siciliano.com.br
Submarino - www.submarino.com.br

JB ONLINE
[ 26/01/2008 ] 02:01
Elizabeth Lorenzotti. Suplemento literário: que falta ele faz!. Do artístico ao jornalístico: vida e morte de um caderno cultural. São Paulo: Imprensa Oficial, 2007.)
Criado em 1956, o Suplemento Literário d´O Estado de S. Paulo singularizou-se desde logo pela rigorosa estruturação orgânica, meticulosamente planejada por Antonio Candido. O plano previa o rodapé de crítica literária, a cargo de quem escreve estas mal traçadas linhas, mais um número variável de resenhas, de cujos autores se esperavam artigos curtos, tratando dos livros como críticos "em que haja uma certa informação sobre o conteúdo e uma análise crítica brevemente traçada".
Além do rodapé, o núcleo intelectual seria reservado às letras estrangeiras, às nacionais, as dos estados e à literatura brasileira. Quanto às estrangeiras, haveria duas partes: um artigo crítico de 3 a 4 laudas em média e uma série de pequenas notas informativas as mesmas observações aplicando-se às letras dos estados. Inovação importante referia-se à literatura brasileira: "O Diretor deverá combinar com os escritores constantes da lista os temas de seus artigos, podendo inclusive sugeri-los. Os artigos podem ir do tipo crítico-apreciativo ao tipo erudito-informativo, contanto que sejam de natureza a despertar interesse pela nossa literatura passada".
No que se refere às literaturas estrangeiras os 16 ou 17 sábados do ano seriam preenchidos da seguinte maneira: 4 com literatura alemã; 3 com a portuguesa; 2 com a argentina e a mexicana, mais um alternadamente com a espanhola, síria-libanesa, israelita, russa, suiça e japonesa. Assim, o Suplemento determinava superar o paroquialismo e o localismo, reunindo um plantel de colaboradores: para as letras francesas, Brito Broca; para as italianas, Lauro Escorel; para as argentinas, Norberto Frontini; para as portuguesas, Adolfo Casais Monteiro; para as alemãs, Anatol Rosenfeld, e assim por diante, lista preliminar modificada segundo as necessidades.
Para a literatura dos estados, previam-se convites a Osman Lins (Recife), Afonso Ávila (Belo Horizonte), Wilson Chagas (Porto Alegre) e assim por diante, enquanto para os artigos, diagamos, mais históricos ou eruditos sobre a literatura brasileira estavam previstos nomes como José Aderaldo Castelo, Antonio Soares Amora, Edgard Cavalheiro, Lúcia Miguel-Pereira, Augusto Meyer, Eduardo Frieiro, Moysés Velhinho e outros, sem prejuízo das desistências e de novos colaboradores que surgissem. O mesmo critério seria aplicado às resenhas (literatura, filosofia, sociologia, economia, etc..), ao setor artístico e à parte variável.
Plano apresentado como provisório, advertia o autor, não pretendendo ser rígido nem definitivo, mas que, "uma vez aceito, e enquanto não for modificado por este modo, as normas estabelecidas devem ser observadas, para ser possível um funcionamento satisfatório". O projeto estatuía ainda a independência "como organização e matéria, do jornal quotidiano, pautando-se por normas próprias, salvaguardados, naturalmente, os princípios gerais da Empresa". E ainda: "Empenhado em manter uma atmosfera de objetividade e largueza intelectual, rejeitará os preconceitos literários e artísticos bem como a formação de 'cliques'. Neste sentido, para evitar equívocos, não publicará resenhas e artigos sobre livros de diretores e redatores, tanto seus quanto do jornal" - regra aplicável ao autor do projeto que o organizou a convite dos diretores do jornal e expressamente aprovado por eles (Júlio de Mesquista Neto e Ruy Mesquita).
Dirigido por Décio de Almeida Prado e enquanto o dirigia, o Suplemento foi certamente o melhor de nossa imprensa. Os Mesquita, observa Antonio Candido, "sempre foram contra a esquerda", o que não os impedia, acrescento eu, de empregar numerosos redatores tidos por esquerdistas, além de convidarem o citado Candido, aprovando-lhe o projeto sem restrições. Eram, na minha estimativa, liberais republicanos pelo modelo clássico, aceitando divergências ideológicas, embora combatendo-as. Sabe-se que o "dr. Júlio", como era chamado Júlio de Mesquita Filho, conversou certa vez com Décio de Almeida Prado a respeito de um colaborador conhecido como comunista, recebendo esta resposta: "não sei se é comunista (...) mas é um grande crítico. Mas se o senhor achar necessário que ele não colabore mais, eu aceito e nesse caso apresento minha demissão". O incidente terminou aí.
Isso dava a idéia da grandeza de Julio Mesquita Filho ( palavra empregada por Antonio Candido), demonstrada em mais de uma circunstância.Com a saída de Décio de Almeida Prado, começou o declínio gradativo até o seu desaparecimento em 1974,
De manuscritos raros a registros afetivos no correio eletrônico, a historiadora Meize Lucas fala sobre os vestígios que deixarão de existir no futuro próximo
Meize Lucas
especial para O POVO
05 Jan 2008 -
Mês passado comprei, numa daquelas charmosas livrarias do Rio de Janeiro, um livro chamado A paixão pelos livros, reunindo textos que manifestam o prazer e os amores possíveis por esse objeto. A razão da compra foi, além do título, a bela capa com a foto de uma livraria bombardeada em Londres na Segunda Guerra Mundial, na qual se vêem elegantes senhores a ler.
Na semana seguinte, em Recife, compro outro livro pela beleza da edição e pelo assunto, Suplemento Literário - que falta ele faz, de Elizabeth Lorenzotti. Trata-se de um estudo sobre o caderno lançado pelo jornal O Estado de São Paulo, em 1956. Nele encontramos a reprodução do projeto elaborado (e datilografado) por Antonio Cândido para o jornal. Livros que integram minha estante pelo gesto comum a quem gosta do objeto: o prazer de entrar em uma livraria, olhar, pegar e, principalmente, esquecer do tempo e da vida. Não sei se, correndo os olhos por algum site, esses livros estariam aqui ao meu lado. Na Internet, a gente busca o que quer. Não há lá muito espaço para o aleatório.
Não vou entrar na discussão besta e já datada sobre o fim do livro ou o mal da Internet. Sobre o primeiro, o historiador Roger Chartier já respondeu mil vezes que não, o livro não vai acabar. Além disso, basta ver as cifras milionárias das editoras e o tanto de doidos que têm por aí a rodar sebos, alguns imundos, a cheirar livros, a gastar rios de dinheiro em sites e a percorrer estantes de livrarias boas e ruins. Quanto ao segundo, seria interessante ver que o cinema provocou igual celeuma quando apareceu. Dizia-se que ele podia acabar casamentos, destruir infâncias e desviar a conduta de mulheres e jovens.
Não quero falar sobre o bem ou sobre o mal dessas mudanças. Mas sobre o que se perde. Reservo-me o direito de não falar sobre os ganhos, pois esses já são amplamente propagados (alguns de forma enganosa) e vivenciados no dia-a-dia.
Comprar pela internet é prático: não tem trânsito, vendedor ruim nem o famoso "tem, mas tá faltando". Também não há o risco de perguntar pelo livro do Mia Couto e o vendedor te pedir dez vezes para repetir o nome do autor por achá-lo meio estranho. E, com sorte, podemos comprar na promoção "a partir de três livros o frete é grátis". Ganhamos, sim. Mas perdemos (ou pelo menos diminuímos) a possibilidade da surpresa e assim sermos arrebatados. A cada dia vivemos não o nosso prazer, mas compramos o nosso conforto. E, assim, vamos suprimindo junto com os desgastes alguns pequenos prazeres.
Há também uma questão de ordem prática, que diz respeito ao meu ganha-pão. Sou historiadora. E como sabem, historiadores são um povo que vive de papel velho, coisa e tal. Entre essas velharias uma das melhores é topar com alguém com vocação para tinta e papel que tenha deixado cartas, diários e anotações espalhadas por cadernetas sem fim. Basta pensar nas cartas enviadas por Freud a Fliess e a Ferenczi, base ainda hoje para os estudos da psicanálise. É também maravilhoso ver um manuscrito e perceber o texto na poesia envolvente da caligrafia de quem escreve. Nos textos de Antonio Cândido, reproduzidos no livro citado, quase podemos ouvir (tactactac) seu surgimento. Há ainda o entrelaçamento entre a escrita e a datilografia, caso de Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, em que, "corrigindo" à mão os capítulos datilografados, o autor nos permite espiar a refundação do texto.
Vestígios que vão deixar de existir num futuro próximo. Documentação inexistente não por falta de acervos, mas por falta de quem os produza como rastro de suas ações. As impressões de trabalho, as trocas amorosas e as construções do pensamento se apagam repetidamente no computador. Não há mais versões até chegarmos à final, logo perdemos o percurso. E o amor desaparece sem deixar mágoas impressas no mundo.
Também teremos o esgotamento de um gênero literário por falta de estoque. Fernando Sabino guardou todas as cartas enviadas aos seus amigos Helio Pellegrino, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende. Publicadas, renderam um belo livro.
Os exemplos podem ser multiplicados, mas, como fica claro, não ao infinito.
Dia desses tive vontade de reler um poema enviado por um amigo, hoje distante do coração e da vida. Qualquer um sabe, menos eu - aliás, hoje eu sei -, que, se uma pessoa fica muito tempo sem acessar o tal do e-mail, ele fica desativado e perde-se tudo. E foi o que aconteceu. Colocando na busca da Internet posso recuperá-lo, mas é impossível recuperar o poema junto com as palavras que o acompanhavam, a data em que foi enviado, o porquê da sua existência na minha caixa de e-mails.
Mas quem sabe no futuro ainda não topo com ele por aí numa caixa de mensagem.
Meize Regina de Lucena Lucas é doutora em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professora do Departamento de História da Universidade Federal do Ceará (UFC)


Orides Fontela
Construir torres abstratas
porém a luta é real. Sobre a luta
Nossa visão se constrói. O real
Nos doerá para sempre