segunda-feira, setembro 11, 2006

A última partida



Texto e fotos do repórter fotográfico Jesus Carlos, da Imagem Latina, velho companheiro de cobertura da imprensa sindical e social. Beleza Pura!
(Desculpem a inabilidade tecnológica da editora, na verdade as fotos devem ser vistas da última para a primeira, claro, do inicio proo fim do jogo, mas...)


"O primeiro jogo do Brasil no mundial, foi com a Croácia. No dia seguinte, encontrando com os amigos, perguntaram: Jesus, você não foi fotografar a torcida lá no Anhangabaú? Tava bem legal. Bem divertida. NÃO! Só irei fotografar na última partida. Dias depois, o Brasil volta a jogar com a Austrália. e no dia seguinte, encontro de novo os amigos e a pergunta, os comentários foram feitos de novo. Você não foi fotografar a torcida lá no Anhangabaú? Você ta perdendo. O pessoal vai todo fantasiado de verde e amarelo. Estás perdendo boas imagens. Veio o jogo com o Japão e encontro no dia seguinte com os amigos que de novo fizeram a mesma pergunta: você não fotografou a torcida no Vale do Anhangabaú? Não! Só irei fotografar na última partida. Aí o Brasil joga com as estrelas negras de Gana e no dia seguinte, veio de novo a pergunta: Jesus você não foi fotografar a torcida no Anhangabaú? Você precisa ver cara. Tem alguns que não perdem um só jogo e sempre estão lá na frente, bem perto do telão. Eles sabem que tá todo mundo da imprensa e querem sair nas primeiras páginas dos jornais, na televisão. É bem divertido e tá dando boas imagens. Você está perdendo um bom material fotográfico.
É sábado, são duas horas da tarde e penso: vou fotografar a torcida no Vale do Anhangabaú. Hoje é Brasil e França. Tenho que ir fotografar a torcida, as pessoas fantasiadas de verde e amarelo, o pessoal torcendo pelo Brasil. Não podia perder.
Era A Última Partida. "
Jesus Carlos

Foto Jesus Carlos

Foto Jesus Carlos

A última partida


Foto Jesus Carlos

quarta-feira, setembro 06, 2006

Orquestra do Quisisana Hotel


Orquestra do Quisisana Hotel, anos 50.
Meu pai é o careca magrinho, ao fundo, à direita. Sentado com as crianças, o grande ator Procópio Ferreira.


Meu pai e seus irmãos nasceram com a veia artística, herdada da italianada e da aculturação com o Brasil brasileiro, terra de samba e pandeiro. Oswaldo Lorenzotti, meu pai, tocava violão, compunha e cantava lindamente na rádio Cultura de Poços de Caldas (MG) e como crooner da Orquestra do Quisisana Hotel nos anos 50. Meu tio Emilio, em Varginha, na mocidade, tinha uma padaria e.....uma orquestra de padeiros. Eu os imagino todo santo dia encerrando o expediente e partindo pra música! Que lindo isso devia ser.
Zé Alberto, meu primo, também nasceu tocando : sanfona, violão, e era um ás da Jovem Guarda no interior de Minas.
Outro primo, Juemil, era professor,formou gerações em Poços de Caldas, e todo santo domingo colocava a partitura e tocava na sanfona tudo o que podíamos suportar ...
Filhos, primos, tias, tios, cantarolamos sempre pela vida. Estou falando dessa minha família musical depois de rever, banhada em lágrimas, o documentário de Win Wenders sobre o Buena Vista Social Club. A pesquisa do grande guitarrista Ry Cooder, que conseguiu reunir a velha guarda, a Vieja Trueba cubana, lançá-los ao mundo das celebrities depois de 70, 80, 90 anos de idade- além , é claro, do belo filme de Win Wenders- e ao menos desfrutarem do sucesso merecidissimo:Compay Segundo já tinha 90 e viveu mais 5: Ibrahim Ferrer tinhas 70 e poucos. Estão vivos Omara Portuondo e Eliade Ochoa.
Os velhos músicos maravilhosos cubanos estavam no desvio há anos. Ferrer conta que, desiludido, pensava em desistir. Até que foi encontrado por Coder, que viu nele uma espécie de Nat King Cole cubano.Mais ou menos o que aconteceu aqui com o Tomzé, que também foi redescoberto por um americano.
Tudo o que não aconteceu com meu pai, com meu primo Zé Alberto,que tiveram de desistir da música pra sobreviver. Não tem coisa mais triste que ver talentos assim podados. Meu pai virou funcionário de escritório, e durante muitos anos tocava violão e cantava sozinho, nas manhãs de domingo, em casa.Às vezes eu o acompanhava ocando...maracas.
Zé Alberto, que mora em Alfenas (MG) tem um pequeno comércio com a mulher e acaba de gravar um CD caseiro com as músicas preferidas pelo pessoal que freqüenta churrascarias...Seus olhos brilham quando fala nos seus tempos, nas suas canções e hoje, talvez, quem sabe, na possibilidade de cantar em algum lugar bom....
Lembrei muito deles em Havana, e ao rever este filme. Artistas populares, gente que aprendeu a tocar sozinha, de ouvido, e que amava isso. Povos musicais, temos isso em comum. Esse brilho nos olhos é o mesmo que vi no Ferrer, no Compay, na Omara, no baterista, no trompetista maravilhoso.
E nos olhos do Ry Cooder e de seu filho Joachim, jovem percussionista encantado com seus mestres cubanos.
Uns anônimos, outros por sorte, içados ao estrelato.Cooder diz que faz discos há mais de 35 anos e nunca sabe do que o público vai gostar. Sorte, talento, oportunidade, tudo isso junto e mais alguma coisa?


segunda-feira, setembro 04, 2006

As idéias



Foto Bea Faleiros

Muro do estacionamento ao lado do hotel no bairro Vedado

sexta-feira, setembro 01, 2006

Compay, Compay

Foto do filme Buena Vista Social Club

Compay Segundo, ou Francisco Repilado, beijado por Omara Portuondo. Compay quer dizer cumpadre, e segundo porque ele fazia segunda voz, com o outro Compay , eram o duo Los Compadres, criado em 1942 e durante 14 anos.
Essa lindissima figura, que há alguns anos partiu, aos 95, fumava "puros" desde os 5. Pois a avó pedia pra ele acender...Trabalhador do tabaco, amante das mulheres e das coisas boas da vida (e aqui não se fala de consumo, mas de bens essenciais.
É dele o Chan Chan, que abre o disco belissimo produzido pelo não menos maravilhoso guitarrista norte-americano Ry Coder. Disse numa entrevista: "Além das comidas típicas dos trovadores que já lhe disse, como provenho da costa, adoro os mariscos. Vou te revelar um segredo: use o caldo de cabeça de bode, isso lhe dará vitalidade. Quanto aos prazeres, é preciso ter medida. O bom não se deve experimentar muito, que sempre fique o desejo, que lhe anime a experimentar de novo e não o aborreça. Bebo um pouco e fumo desde menino, pois minha avó me ensinou. Aliás, esse foi um dos meus ofícios, na fábrica de Montecristo e H. Upman. Meu charuto preferido: H. Upman n.o 4."
Chan Chan tem apenas dois acordes: "Imagine que na França quando vão fazer um brinde, em lugar de tin tin, agora dizem chan chan, pois minha canção agradou demais. As pessoas até choram. Você sabe que as canções possuem seu mistério, seu encantamento, seu feitiço. Isso não é assunto de catedráticos, mas de magia. Você já pensou que a juventude de Cuba e da Europa, que já se esquecera da música tradicional, que somente gostava de rock, agora voltou à música de seus avós? Isso é um fenômeno."
E sobre o sucesso: "Passamos das montanhas à fama. Percorremos metade do mundo, apresentamo-nos nos palcos mais exigentes e fomos convidados por príncipes para suas festas faustosas. Mas eu continuo sendo simples, como se estivesse começando. Precisamente, prezam-nos por essa simplicidade e naturalidade. Eu continuo cantando para os cubanos, como faço por toda Cuba, desde quando jovem."
Contiuará cantando pra sempre, Compay.