
segunda-feira, março 08, 2010
De volta a Saigon

Piva faz da vida a sua arte
Eu o via nos bares, principalmente nos bares, e chegava bradando, gesticulando, aparecendo. E me acostumei com ele, mas pouco conhecia de sua poesia. O Piva. Fui conhecendo com o passar do tempo, até que vi o belíssimo documentário de Ugo Giorgetti, Uma outra cidade, Poesia e Vida em São Paulo nos anos 60, com os poetas da geração de Piva.Voltei a ler Piva aqui e ali. Depois, o vi no Parque da Água Branca. Não tive coragem de falar com ele, ali, sem camisa, ao sol das 11 horas, lendo um livro, um companheiro sempre perto ( sorte do Piva, ao menos nisso, pensei, um companheiro sempre por perto).
Então, fiz um poema para ele e para seu amigo de sempre, Wesley Duke Lee, hoje sofrendo de Alzheimer. Muita dor para tão grandes artistas, e para nós.
Fui procurar e achei na internet notícias sobre seus problemas de saúde e de $$. Cheguei mais perto e também entrei na corrente pró-Piva.
E neste sábado , dia 6, fui ao Viva Piva, corrente de solidariedade pelo poeta que tem Parkinson, fez uma angioplastia e passará por extirpação de próstata, e espero que encontre um bom lugar no Hospital das Clínicas.
Encontrei lá meu querido amigo de adolescência do Colégio Estadual Doutor Octávio Mendes, Edson Motta, companheiro da nossa Roda de Poesia. Fiquei feliz por encontrá-lo, como eu, ainda continuando a amar a poesia e os poetas.
Encontrei o professor Boris Schnaiderman e sua mulher, professora Jerusa Pires, dois novos velhos amigos que fiz recentemente, nem sei explicar como. Bravo casal de intelectuais de respeito, não na torre alienada, aqui embaixo, com a gente. E nos abrindo trilhas.
Velhos companheiros da geração de Piva: Claudio Willer, Bicelli, entre os que me lembro. Novos, como o escritor Marcelino Freire e o ator e dramaturgo Mário Bortolotto. E tantos outros que subiram ao pequeno palco do b_arco, em Pinheiros, para declamar as poesias de Piva, celebrá-lo e contar suas histórias engraçadíssimas. Porque o poeta é bem humorado.
Alberto Marsicano, citarista discípulo de Ravi Shankar, poeta e tradutor de poesia, tocou Coltrane, Hendrix e Raul Seixas para Piva. Edivaldo Santana, amigo dos professores, encerrou o espetáculo com sua música ricamente simples e cheia de citações.
Massao Ohno está aqui, ouvi dizerem. Não o encontrei, o editor de vanguarda da década de 60, que publicou Piva, Hilda Hilst, tantos e tantos talentos inumeráveis. Resgatei no baú agora o depoimento que ele me deu em 1994, para um projeto daqueles maravilhosos do sempre maluco criativo Tide Hellmeister. Que começou a fazer capas de livros com o Massao, mas me disse que nunca entendeu nadica das conversas intelectuais do pessoal. Esse grande artista que foi ali e volta já, amante dos surrealistas, amaria também o clima do Viva Piva.
Há quanto tempo eu não sentia esse calor. Esse revival de tempos em que tudo era Nós, e não Só Eu. Exato pensamento de Massao Ohno naquele texto de 1994. Ele escreveu Devaneios ao crepúsculo especialmente para o Tide, coroando seu belísismo depoimento.
Pois é meu caro. Como diria Drummond, ‘o primeiro amor passou, o segundo amor passou..et La vie continue’.Trinta anos se passaram e tudo ficou muito mais caótico. Tivemos que criar técnicas mais sofisticadas de sobrevivência, perder a ternura sem endurecer, aprender a dissimular sem mentir, a responder com perguntas, a proferir sem nenhum eco em resposta. Somos os mistificadores do caos. Que os deuses nos poupem. Somos uma hipótese sem tese. Indemonstráveis, portanto.
E mais:
Músicos, poetas, pintores, artistas, no geral e no particular, insurgi-vos! O mundo não é apenas um vasto circo de variedades, de consumo frenético. Viver é um ato prodigioso, uma dádiva a ser desfrutada, segundo a segundo, até a finitude.
Este o espírito da geração de Roberto Piva.
Aqui, alguns textos que podem dar uma ideia da bela noite de solidariedade, afeto, encontros e reencontros de gerações de doidos de pedra y loucos varridos.
Viva eles! Viva nós! Viva Piva!
Alberto Marsicano
Num transatlântico espanhol, sob o olhar pasmo dos passageiros, arranquei as folhas de Paranoia (obra prima de Piva), coloquei cada uma delas numa garrafa (que arrumei na cozinha) e arrojei-as ao alto mar, proferindo a conjuração poética: 'O pensamento profético de Piva singrará os Sete Mares'."
E textos de Roberto Piva:
Tudo o que vocês chamam de história não é senão o nosso plano de fuga da civilização de vocês.
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Se o coito anal derruba mesmo o capital? De certa forma sim. Se a sociedade inteira for homossexual, acaba a reprodução de mão-de-obra e, portanto, acaba o capital. Não só o capital, a espécie humana. O que talvez fosse interessante. O herdeiro seria a onça pintada que, comovida, agradeceria.
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Poesia é iniciação, uma linguagem hermética. Os primeiros poetas eram xamãs e curandeiros, assim como o teatro na Grécia antiga era um teatro de cura. O caráter centáurico de minha poesia consiste em que ela se lança do fundo do mundo mágico até as esferas mais altas e mais livres
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Existem dois tipos de leitores: um que acumula, enciclopedicamente,conhecimento na cabeça, e isso não serve para nada. E outro, que transforma aquilo que lê em seu sangue, em vida. Eu sou um leitor assim: tudo que li, transformei em minha vida. Segui aquela frase de Octavio Paz: “Poesia é a subversão do corpo”.
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Só acredito em poeta experimental que tenha vida experimental. Não tenho nenhum patrono no “Posto”, nem leões-de-chácara & guarda-costa literários nas redações de jornais & revistas. Nada mais provinciano do que os clubinhos fechados da poesia brasileira, com seus autores-burocratas tentando restaurar a Ordem & cagando Regras que o futurismo, dadaísmo, surrealismo & modernismo já se encarregaram de destruir.
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Com a poesia domada, a ditadura é da informação. O monopólio informativo favorece à subordinação administrativa em seu papel de controle social. A imagem do Estado policial se trata menos de uma repressão franca e policial que de uma opressão insidiosa caracterizada pelo domínio do conjunto dos comportamentos.
sexta-feira, março 05, 2010
Viva Piva:Trecho de carta do jovem Modigliani
"Nós temos direitos diferentes dos das pessoas normais, pois temos necessidades diferentes que nos colocam acima - é preciso dizer e acreditar - da moral delas. Seu dever é o de nunca se consumir no sacrifício. Seu dever real é o de salvar o teu sonho. A Beleza, tem, ela também, direitos dolorosos, que criam no entanto os mais belos esforços da alma. Todo obstáculo ultrapassado marca um incremento de nossa vontade, produz a renovação necessária e progressiva de nossa aspiração. Obtém o fogo sagrado de tudo o que pode exaltar tua inteligência. Tente provocá-los, perpetuá-los, esses estimulantes fecundos, pois somente eles podem levar a inteligência a seu poder criador máximo. É por isso que devemos lutar. Podemos nos fechar no círculo de uma moral estreita? Afirme-se e supere-se sempre. O homem que não sabe extrair de sua energia novos desejos, e quase um novo indivíduo, destinado a sempre demolir tudo o que sobrou de velho e podre, para afirmar-se, não é um homem, é um burguês, um merceeiro, o que você quiser."
Extraído de carta do jovem Modigliani ao amigo Oscar Ghiglia, do livro Modigliani de Christian Parisot
quinta-feira, março 04, 2010
Viva Piva
Grandes poetas nunca têm dinheiro.Maiakóvski dizia que os poemas nao lhe deram rublos, mas ele apenas precisava de uma camisa lavada e clara. Piva é fã de Maiakóvski.
Quem puder ir sábado, assistirá, tenho a certeza, a um comovente espetáculo.
A partir das 20h30
Rua Virgilio de Carvalho Pinto,426, Pinheiros
Não será cobrado ingresso, mas aceitas doações em dinheiro ou cheque.
Roberto Piva
CPF 565.802.828-00
Banco Itau
Agencia 0036
conta 20592-0
IV
Dêem-me um anestésico. A vida dói e arde.
Não sei controlar meus impulsos demoníacos.
Não acredito em forças de outro mundo.
Sou eu, meus versos e o perigo das frações.
Arranco minhas víceras poéticas do ostracismo.
Trezentos dias e cinqüenta noites marianas.
O caracol de meus cabelos caídos no chão de espelhos.
O sangue e os olhos transformados em areia cinza.
A árvore sem galhos esconde os meninos saltimbancos.
Foi-se o tempo em que se acreditava nas histórias ditas.
Sempre começo pelo meio e jamais olho para os lados,
enquanto rio e sufoco meu próprio rosto turvo.
Minha maquiagem, os primeiros tombos das gaivotas.
Atiro farpas e pragas para antigos e mórbidos desejos.
A torre delirante de um neocórtex em latência,
ou o pedúnculo, ou o miocárdio, ou o octocentésimo.
Quatro poemas nos espaços angustiados do processo.
Sou eu? Sou ateu? De que me valem as respostas?
As idéias me levam ao eterno estado de castidade
entrelaçado neste puro estado de sonho e malogro.
quarta-feira, março 03, 2010
Edir Macedo vira jornalista
"O Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio deve fornecer carteira de identidade de jornalista a Edir Macedo, fundador da Igreja Universal – esta foi a decisão do desembargador Fernando Marques, do TRF da 2ª Região, para o recurso por ele julgado. Macedo tenta obter esse documento há algum tempo. Ele tem um registro especial de jornalista colaborador e, anteriormente, o Sindicato negou-lhe a carteira sob o argumento de não haver o registro profissional. Macedo requereu na Justiça a habilitação, perdeu em primeira instância em 2001, entrou depois com um recurso no TRF. A decisão saiu em agosto de 2009. Quando o STF extinguiu a necessidade do diploma para exercício da profissão, o TRF acatou o pedido. O Sindicato foi informado agora em fevereiro e entrou com uma petição, na qual afirma que cumprirá a decisão, e informa as exigências para a expedição do documento, entre elas o registro profissional no Ministério do Trabalho. O Sindicato questiona o reconhecimento, pela Justiça, do registro de colaborador, que não existe na lei, e lembra que, sem necessidade do diploma, qualquer pessoa pode tirar o registro profissional. Não é mais necessário diploma, mas o registro ainda é necessário.
Procurada pelo J&Cia, a direção da Igreja Universal respondeu que não pretende comentar o assunto. Suzana Blass, presidente do Sindicato do Rio, marcou sua posição para o J&Cia. –
Como foi recebida essa decisão na diretoria do Sindicato?
Suzana Blass – Não faz sentido esse mandato segurança vir para o Sindicato do Rio. Quem substitui o Estado na concessão do documento de identidade é a Fenaj, os sindicatos são apenas um balcão receptor nos estados. Então, recomendamos que ele se dirija à Fenaj.
J&Cia – E o que o Sindicato vai fazer?
Suzana – A decisão judicial vai ter que ser cumprida, qualquer que seja. A diretoria se reuniu hoje [3ª.feira, 2/3], com os advogados, para avaliar as consequências de a primeira carteira de habilitação em diploma ser concedida a um empresário que fez carreira como líder religioso, e não como jornalista, e que sofre processos na Justiça.
J&Cia – Empresários também eram Roberto Marinho (OrganizaçõesGlobo) e Ary Carvalho (Grupo O Dia), e tinham registro...
Suzana – Eles sempre foram homens de jornal, e solicitaram seus registros no momento em que a lei passou a exigir o diploma, permitindo a concessão do registro a quem exercesse a profissão anteriormente. Já que a queda do diploma é irrevogável, é preciso haver critério: é preciso ter curso superior, ficha limpa na polícia. Quando se derrubou a necessidade do diploma, ninguém imaginou que qualquer pessoa pudesse solicitar o registro. E se amanhã um miliciano pede a carteira? [Refere-se às milícias que agem no Rio e são constantes nas páginas de Polícia.]
J&Cia – Como o Sindicato vê a decisão?
Suzana – É uma ironia que a TV Globo e a Folha de S.Paulo, os veículos que mais brigam com a Universal – dona da TV Record, principal concorrente da Globo, e da Folha Universal, o jornal de maior circulação na América Latina, embora não diário –, serem os que mais fizeram pressão para que caísse a exigência do diploma, destacando representantes da ANJ, como o diretor do Comitê de Relações Governamentais da entidade, Paulo Tonet Camargo, e da Abert para atuar junto ao Supremo. E vejam agora o Sindicato obrigado a cumprir a decisão judicial de dar o registro a um sócio dessa mesma Universal."
O Mundo
De André Abujamra, que teve a quem puxar
O mundo é pequeno pra caramba
Tem alemão, italiano e italiana
O mundo filé milanesa
Tem coreano, japonês e japonesa
O mundo é uma salada russa
Tem nego da Pérsia, tem nego da Prússia
O mundo é uma esfiha de carne
Tem nego do Zâmbia, tem nego do Zaire
O mundo é azul lá de cima
O mundo é vermelho na China
O mundo tá muito gripado
O açúcar é doce, o sal é salgado
O mundo caquinho de vidro
Tá cego do olho, tá surdo do ouvido
O mundo tá muito doente
O homem que mata, o homem que mente
Por que você me trata mal
Se eu te trato bem
Por que você me faz o mal
Se eu só te faço o bem
Todos somos filhos de Deus
Só não falamos as mesmas línguas
Todos somos filhos de Deus
Só não falamos as mesmas línguas
Everybody is filhos de God
Só não falamos as mesmas línguas
Everybody is filhos de Ghandi
Só não falamos as mesmas línguas
Chico lê Álvaro de Campos: Dobrada à moda do Porto
"Mas se eu pedi amor, por que me trouxeram Dobrada à Moda do Porto fria?
Nunca se pode comer frio. Mas veio frio".
terça-feira, março 02, 2010
Terremoto pode ter reduzido duração dos dias na Terra

Cientistas da Agência Espacial Americana (Nasa), afirmam que o terremoto de magnitude 8,8 que atingiu o Chile no dia 27 pode ter reduzido a duração dos dias na Terra. Segundo a Nasa, o terremoto deve ter encurtado a duração de um dia a Terra por cerca de 1,26 microssegundos (um microssegundo é a milionésima parte de um segundo). Os responsáveis pelo estudo fazem parte da equipe do cientista Richard Gross e realizaram um cálculo por meio de complexo modelo computadorizado sobre como o abalo teria modificado a rotação do nosso planeta.
O dado mais impressionante levantado no estudo é sobre o quanto o eixo da Terra foi deslocado pelo terremoto. Gross calcula que o abalo sísmico deve ter movido o eixo do planeta (o eixo imaginário sobre o qual a massa da Terra se mantém equilibrada) por 2,7 milisegundos (cerca de 8 centímetros). Esse eixo da Terra não é o mesmo que o eixo norte-sul.
O cientista afirma que o mesmo modelo computadorizado foi usado para estimar que o terremoto de magnitude 9,1 que atingiu Sumatra em 2004 deve ter reduzido a duração do dia de 6,8 microsegundos e deslocado do eixo da Terra em 2,32 milisegundos (cerca de 7 centímetros).
Segundo o cientista, apesar do terremoto chileno ter sido muito menor do que o terremoto de Sumatra, prevê-se que ele tenha alterado mais a posição do eixo da Terra por dois motivos. Primeiro, ao contrário do terremoto de Sumatra localizado perto do equador, o terremoto chileno aconteceu nas latitudes abaixo dele, o que o torna mais eficaz na mudança do eixo do planeta. Em segundo lugar, a falha responsável pelo terremoto Chileno foi mais profunda e em um ângulo ligeiramente mais acentuado do que a falha responsável pelo terremoto de Sumatra. Isso faz com que a falha no Chile seja mais eficaz para deslocar verticalmente a massa da Terra e, portanto, mais eficaz na sua mudança de eixo.
Os cientistas afirmam, porém, que devem aguardar maior refinamento dos dados para que ter resultados definitivos.
domingo, fevereiro 28, 2010
Iza: um poema
Vincent van GoghMaria Luiza Soares Fernandes, amiga de uma vida inteira, texto primoroso, em prosa ou em poesia, já falei sobre Iza aqui, está na lista de assuntos.
Las Bocas Rojas
Lá fora, a noite chegando
A cor desmaia
O negro invade
O perfume intenso
Eu me enrolo na capa
Me desenrolo na lapa
Eu quero só ver a noite
Ah! Meu fugidio cavalheiro
Que canta entre vilões
Que anda entre as visões
De uma tardezinha fina!
Eu nada quero
Além dos nervos, das veias
Do sangue correndo morno
Pelo sistema do corpo.
Este cavaleiro das damas
Respira a espuma dos sonhos
No jardim da taverna
E desaparece no bar
Junto ao ruído da cidade
Sigo andando
Amando a dama da noite
Doce, delicada, pequenina, branquinha
Sumindo
Subindo
Eu vi, sem medo
A flor que se faz licor
Ou pelo cheiro, ou pelo gosto
O composto de água, treva e riso
Aniquila em teu peito
O sentimento vulgar
Sugado no floripôndio (*)
Em cachos presos aos galhos
Flor da noite
Dama só
Olho caído
No bar.
(*) Floripôndio, árvore de flores brancas e estranhas que encantou Iza no Peru.
