sexta-feira, junho 06, 2008

Na Galicia, a Telefónica também é muito conhecida

Leiam o que o Alberto Moncada escreveu, dá pra ler numa boa, galego é ancestral da flor do Lácio

http://altermundo.org/portal/content/view/873/311/

Os defensores do neoliberalismo aborrecen as empresas públicas. Un importante representante do empresariado español dicía recentemente que as mellores empresas públicas son as que non existen. A duras penas aceptan que haxa servizos públicos, que exista Estado de Benestar e moitos quixeran seguir o exemplo americano e privatizar a atención sanitaria, algo que en Europa aínda resulta inconcibíbel aínda que algúns gobernos, incluído o valenciano, estean xogando con fórmulas mixtas.
Pero a empresa pública actual ten pouco que ver coa que naceu logo da segunda guerra mundial. En Estados Unidos chamábanse "utilities" e foron creadas para encher os graves buracos do modelo de mercado en rexións subdesenvolvidas.
As primeiras "utilities" foron as eléctricas e a súa filosofía consistía en prestar un servizo, a un prezo primeiro subvencionado e logo regulado, reinvestindo os beneficios no mantemento e mellora do servizo pero sen que a compañía saíse ao mercado de capitais, tivese accionistas ou outras actividades distintas ás súas propias.
En Europa moitos servizos públicos, auga, electricidade, etc. tiñan outrora ese carácter e até a radio e a televisión naceron como servizos públicos aínda que logo o mercado empezase a recortar ese dominio eminente.
Actualmente, e por influencia do modelo americano, as empresas públicas estanse privatizando e o exemplo principal é a Telefónica que dende que as súas accións, as famosas "Matildes", comezaron a ser obxecto de propiedade privada, combinou un estraño modelo de monopolio cunha crecente actividade mercantil dentro e fóra de España. A Telefónica ten competidoras pero é a dona da rede terrestre, dese cabo que chega aos nosos fogares.
A Telefónica, como as empresas eléctricas, as de gas, auga, etc. actúan como empresas privadas pero sen o beneficio para o consumidor dunha aberta competencia e débense a uns accionistas cuxo beneficio é o principal obxectivo da empresa. A tal fin invisten os seus cartos onde cren que lles poida producir máis beneficios e as españolas saltaron recentemente as fronteiras asentándose en América Latina, nun novo episodio de colonialismo cada vez máis resentido polos nacionais.
"Dende que está Telefónica, o teléfono é moito máis caro", dicíame recentemente un amigo brasileiro. E o mesmo ocorre en Arxentina e outros países onde a Telefónica utiliza os seus pingües beneficios para crearse mercados alleos no canto de manter e mellorar o servizo telefónico español, que está bastante deteriorado.
Pronto lles vai a ocorrer ás empresas españolas o que lle ocorreu á francesa, que se fixo co servizo de augas en Cochabamba, Bolivia, triplicou os prezos e só unha revolta na rúa fixo ao goberno anular a concesión.
Este neocolonialismo español, ademais de conseguir que nos odien, transforma a condición de empresa pública a privada até extremos inverosímiles e nin sequera os períodos de goberno socialista puxeron coto a tales desmáns.
As empresas públicas tiñan monopolios xustamente pola súa función social e agora utilízano para o beneficio dos seus accionistas e executivos, medido ademais polo estreito marco da Bolsa.
Non parece que corran bos ventos para o consumidor nin para o cidadán e si para executivos e accionistas. Rexenerar o auténtico perfil da empresa pública, recuperar a súa función de servizo á cidadanía forma parte da inevitábel reacción contra o ataque neoliberal aos fundamentos da convivencia democrática.•

Irritando o cidadão-1


A Telefonica, espanhola que ganhou o presentão tão festejado no governo FHC da privatização da Telesp, prometia dobrar os empregos e melhorar o serviço .Demitiu milhares , já os seus cabelos,continuam os mesmos...


Todo cidadão dessa cidade de Piratininga e desse Estado de São Paulo conhece bem os efeitos da mudança.
Não existem mais lojas de atendimento, que existiam antes e funcionavam, e por telefone, nem é preciso dizer o nivel. Os preços, então. Já viaram alguem pagar taxa obrigatoria de mais de 39,00 por nada? Isso é extorsão!
Oferecem produtos que nao têm capacidade de instalar, deixam a pessoa presa em casa esperando e não aparecem, cobram errado na conta e você pede análise, não avisam nada e cortam.
Por outro lado, as TVs a cabo sao iguais. Entre Net e TVA nosso coração balança, isso que é monopólio.
No momento, sou a 44a da fila de atendimento on line da TVA, para reclamar que foi pedido o encerramento do contrato em março, o desligamento foi em junho e acabo de receber uma conta para este mesmo mê!

O retorno que tive da Telefonica ocorreu porque escrevi para a seção Sao Paulo Reclama, do Estadão. O rapaz da assesoria, Paulo Junior, diosse que eu receberia a s segundas vias com õs descontos. Em seguida, momentos depois, minha linha foi desligada e só voltou 24 horas depois que paguei via internet.
Mas como, se não sabia de nada. E se nao tivesse internet?
Nao à toa a Telefonica permanece em primeiro lugar, campeã de reclamações nos órgãos de defesa do consumidor, ao lado dos bancos.


Tenho de sair agora, pois esse tempo todo era a 44 no atendimento, já está perto de chegar a minha vez, puxa, que felicidade!

domingo, junho 01, 2008

Boêmios, intelectuais & outros bichos

Este artigo foi publicado no site Congresos em Foco
http://congressoemfoco.ig.com.br/DetArticulistas.aspx?colunista=11&articulista=468
Márcia Denser*

Se considerarmos que as transformações histórico-culturais do século XX ocorrem no Brasil – mais especificamente no eixo São Paulo-Rio – quase sempre vinte anos mais tarde que nos Estados Unidos, mudanças decorrentes do processo de modernização e das circunvoluções do capitalismo tardio, e devidamente adaptadas ao nosso subcapitalismo periférico, um livro como Os Últimos Intelectuais, do historiador norte-americano Russel Jacoby, se torna bastante esclarecedor, uma vez que trata do desaparecimento do “intelectual público” – o autodidata culto sem formação acadêmica – que, ao migrar em massa para as universidades após Segunda Guerra, desaparece da cena pública norte-americana sem deixar sucessores.

Através dele é possível fazer algumas conexões e começar a entender a chamada Extinção do Pensamento, presente nos textos de Paulo Arantes, e o Silêncio dos Intelectuais, dos seminários de Adauto Novaes, fenômenos observados entre as décadas de 90 e 2000.

Mas voltando a Jacoby, este ressalta que o ponto crítico não é a novidade da situação, mas sua amplitude: quando – antes de 50 – as universidades americanas ocupavam apenas um certo espaço da vida cultural, seus defeitos e virtudes significavam uma coisa, mas quando – depois de 60 – elas dominaram toda a área, suas regras se tornaram As Regras.

Os últimos intelectuais a que se refere o autor são os críticos literários, filósofos e economistas norte-americanos que surgiram nas décadas de 30-40, como Edmond Wilson, Mary MacCarthy, Munford, Galbraith, Daniel Bell, Norman Mailer, Noam Chomsky, Susan Sontag, que dirigiam seus trabalhos a um público amplo e esclarecido. Mas os intelectuais das últimas gerações – os nascidos a partir da década de 40 – emergiram numa sociedade em que a identidade entre as universidades e a vida intelectual era quase completa. Nos Estados Unidos, ser intelectual significava ser um professor.

Evidentemente, textos acadêmicos ininteligíveis não constituem novidade, mas para Jacoby a questão não é o talento, coragem ou postura política, mas o fato de não ter surgido a oportunidade para dominarem uma linguagem pública; conseqüentemente, seus escritos não tiveram impacto público.

De fato, se a cultura pública é desvirtuada pelo dinheiro e pelo interesse privado, os intelectuais que sobressaem pouco significam. Por outro lado, uma cultura secreta sem contato com o público é absolutamente improvável. E improdutiva. A verdadeira cultura se alimenta do debate, do intercâmbio de muitas vozes, do exercício público dum pensamento crítico. Sem isso, ela se esteriliza.

Entrincheirados nas universidades, não importa quanto estes intelectuais produzissem: para o grande público, eles se tornaram invisíveis. Por optarem pela segurança de uma carreira (e aqui Jacoby inclui a esquerda norte-americana formada pelos radicais dos anos 60), eles mantêm uma relação de dependência com as instituições que os sustentam. Eles cresceram num mundo em que eram raros os pensadores independentes da universidade. Assim como as gerações anteriores de intelectuais quase nunca consideravam as carreiras universitárias, o inverso se tornou realidade. E considerar significa avaliar as oportunidades reais: reflete realidades sociais modificadas, não apenas desejos modificados.

E quais as causas desse deslocamento da intelligentsia para o restrito universo acadêmico? Que realidades sociais foram modificadas? A resposta a essas questões passa necessariamente pela reestruturação das cidades, pela expansão da educação universitária depois da Segunda Guerra Mundial e pelo desaparecimento do cenário boêmio.

Esboçando certa “sociologia da boemia”, o autor ressalta a importância dessa na formação de gerações intelectuais, uma vez que um modo de vida boêmio favorece a emergência dos novos talentos. Segundo Malcolm Cowley[1], escritores não surgem isoladamente, a intervalos aleatórios, eles aparecem em grupos ou constelações circundados por anos comparativamente vazios. Scott Fitzgerald escreveu que uma verdadeira geração tem seus líderes e porta-vozes e traz para sua órbita aqueles nascidos logo antes e logo depois.

Cowley revisa o clássico argumento de Max Weber de que a ética puritana – repressão, ascetismo, culpa – lubrifica as máquinas do capitalismo. E ética da produção que pregava a indústria, a previdência, a poupança pertencia a uma era anterior à máquina. O capitalismo recente não precisava de trabalho e economia, mas de lazer e gastos, não de uma ética de produção, mas de uma ética de consumo. Nesse conflito entre ética de produção antiga e ética de consumo recente, Greenwich Village, o bairro boêmio novaiorquino, teve um papel crucial: sua devoção ao prazer e à auto-expressão se ajustava ao “etos do mercado”. Donde que a boemia provou ser sua vanguarda. “Viver o momento” passou a promover o consumismo, acabaram-se restrições de preço e utilidade. Até a “igualdade feminina” – uma realidade na boemia – passou a vender cigarros. Em 1929!

Quarenta anos depois, a sexualidade e a subversão dos anos 60 comercializaram, popularizaram, banalizaram e, por fim, destruíram a ética boêmia que, sob o nome de contracultura, fundiu-se na corrente da “cultura” principal: a do dinheiro. E os shopping centers anti-tabagistas cortaram qualquer possibilidade de vida boêmia, senão de vida cultural propriamente dita tal como foi definida lá atrás.

Voltando ao sumiço do “intelectual público”: aqui também eles sumiram completamente.

E a nossa perda é ainda maior, pois se, para Russel Jacoby, os Estados Unidos jamais tiveram um pensamento crítico-cultural brilhante, e ele estava se referindo aos pensadores europeus – Derrida, Sartre, Camus, Habermas, Lacan, Foucault, aos escritores latino-americanos – Garcia Márquez, Borges, Cortázar ­– no Brasil, cujo pensamento tem origem no ensaísmo livre de Gilberto Freyre e Euclides da Cunha, tivemos intelectuais públicos admiráveis entre os anos 50 e 70 – Celso Furtado, Antonio Callado, Nelson Rodrigues, Antonio Cândido, Ferreira Gullar, Glauber Rocha, Stanislaw Ponte Preta, toda a turma do Pasquim (não quero ser extensiva) até Paulo Francis, morto em 1997, o último dos velhos dragões do pensamento independente a escrever na imprensa.

Realmente admiráveis, concordemos ou não com suas idéias.

E o que temos hoje? Diogo Mainard? O blog do Reinaldo Azevedo? Arnaldo Jabor?
Paulo Coelho? Lya Luft? Gabriel Chalita?

Sociologismos à parte, à vista dessa fauna não admira que qualquer intelectual de bom-senso prefira ficar calado.

[1] Editor e agitador cultural, publicou The Paris Review a partir de 1953, revista de língua inglesa editada na França, com as famosas entrevistas de escritores consagrados mais tarde publicadas em livro com o título de Writers at work, traduzido no Brasil como Escritores em Ação, pela Paz e Terra, e a série de três volumes de Os Escritores, pela Companhia das Letras.
PUBLICADO EM:26/05/2008


* A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango Fantasma (1977), O Animal dos Motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora (1986), Toda Prosa (2002) e Caim (2006). Participou de várias antologias importantes no Brasil e no exterior. Organizou três delas - uma das quais, Contos eróticos femininos, editada na Alemanha. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura brasileira contemporânea, jornalista e publicitária.

sexta-feira, maio 23, 2008

O legítimo rocambole de Lagoa Dourada




Vindo de São Joao Del Rey, paramos em Lagoa Dourada atrás do famoso, legitimo, original
Rocambole.
Fica na rua Miguel Youssef, 38 e tudo começou há 90 anos.
O casal Miguel Youssef, do Líbano,e sua esposa dona Dolores, lagoense, começaram a vender vários petiscos de fabricação própria, inclusive, o rocambole.
Eles experimentaram as receitas vindas da França. Daí, o início do sucesso, destacando-se o rocambole, pois Lagoa Dourada ia crescer e ganhar a Rodovia que liga São João Del Rei a Belo Horizonte, passando pelo centro da cidade.
A história do "Legítimo Rocambole" ganhou maior destaque na industrialização pelo filho Paulo Miguel do Líbano. O bolo ficou conhecido nacionalmente através da divulgação, já nas mãos do neto Ricardo Youssef do Líbano, com recheios variados como: doce de leite, chocolate, coco e goiabada. Em frente há outra confeitaria, mas dizem que o produto melhor é do Youssef mesmo.

E baratinho!
Além de ser enrolado na hora!
Ficamos pensdando na origem etmológica da palavra rocambole, e fui ver no dicionário: do francês rocambole, derivado do alemão Rockenbolle, século 19.

E aqui no nosso caldeirão , lá nas Minas, não é que o delicioso doce germano-francês foi adaptado pelo Migel Youssef, nascido no Libano, e que teve o nome de seu país anexado ao nome próoprio?
Como eu sempre digo, são essas coisas que nos salvam...

domingo, maio 18, 2008

Aqui Del Rey

Estive de 12 a 14 no II Coongresso de Letras, Artes e Cultura da Faculdade de Letras da Universidade Federal de São Joao Del Rey.
Quando me convidaram para participar de um dialogo tematico sobre o Suplemento Literario de Minas Gerais e o Suplemento Literario do Estadão, tema do meu livro, já adorei o nome do Congresso.
E só tive boas supresas: gente séria, pesquisadores de peso. Minicursos, workshops, diálogos, coisas as mais interessantes.
O mincursio sobre Clarice Lispector foi apenas um deles.
E outras boas surpesas que me emocionaram: ao meu lado, uma garota de nao mais de 18 anos vira pra mim e diz:
"Não posso imaginar a vida sem literatura"

E no dia da abertura, uma festa num salão, de repente um grupo de jovens começa a declamar poemas e textos de Machado de Assis.
Eles sao orientados por um professora neste projeto que leva a poesia e a literatura aos vários recantos da cidade.
Sim, nem tudo está perdido!




quinta-feira, maio 08, 2008

Limpeza social, mais uma e outra vez

Três moradores de rua são mortos a tiros em Vitória



CÍNTIA ACAYABA
da Agência Folha
Três moradores de rua foram mortos a tiros em Vitória na madrugada de anteontem. Para a prefeitura da capital capixaba e para a Polícia Civil, os crimes podem ter sido um ato de "limpeza social" praticado por pessoas insatisfeitas com a presença das vítimas.
Segundo a Polícia Civil, os moradores de rua foram atacados enquanto dormiam sob a marquise de um prédio comercial no bairro Horto. O bairro é sobretudo residencial, mas há várias lojas na rua onde ocorreu o crime.
Foram mortos os mendigos Ercílio Novaes, 64, e João Alves Filho, 48, ex-técnico de enfermagem, e um catador de recicláveis identificado apenas como Adilson. Alves Filho chegou a acordar durante o ataque, mas foi atingido por quatro tiros e morreu no local. Ao todo, seis moradores de rua dormiam no local no momento do crime --um casal e outro homem conseguiram fugir. Ao menos uma testemunha teria presenciado o crime.
A Polícia Civil suspeita que apenas uma pessoa tenha atirado contra os homens. O delegado Orly Fraga Filho, responsável pelo caso, disse, por meio de assessoria, que a principal linha de investigação é que os moradores de rua tenham sido mortos porque supostamente incomodavam moradores e comerciantes da região.
Para a Secretaria da Assistência Social de Vitória, a hipótese mais provável para o crime é a de "limpeza social" e "higienização das ruas". A secretária Ana Maria Petronetto disse que a pasta já havia recebido denúncia sobre "risco de morte" dos moradores de rua.
"Já havia indícios de que essas pessoas poderiam morrer no local. Uma denúncia anônima dizia que as pessoas estariam correndo risco se permanecessem lá. Deixaram um recado para ter cuidado com violência na região", afirmou.
O prefeito João Coser (PT) disse na noite de ontem que não podia "especular" sobre as razões do crime e que a polícia está apurando o caso. "Registramos isso [hipótese de "limpeza social'] como uma preocupação da cidade. Como cidadão e cristão é inadmissível que isso possa estar ocorrendo em Vitória", afirmou.
Ana Maria Petronetto afirmou que vai acompanhar as investigações da Polícia Civil. "Estamos acionando o Conselho Municipal de Direitos Humanos porque trata-se de uma violação dos direitos humanos", disse.

sexta-feira, abril 25, 2008

Bilac, velho Bilac

DUALISMO

Olavo Bilac

Não és bom, nem és mau: és triste e humano...
Vives ansiando, em maldições e preces
Como se, a arder, no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.
Pobre, no bem como no mal, padeces;
E, rolando num vórtice vesano
Oscilas entre a crença e o desengano
Entre esperanças e desinteresses
Capaz de horrores e de ações sublimes,
Não ficas das virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:
E, no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demônio que ruge e um deus que chora.

segunda-feira, abril 21, 2008

De Jorge Luis Borges, fragmento de O Aleph




Na parte inferior do degrau, à direita, vi uma pequena esfera tornassolada, de quase intolerável fulgor. Ao princípio pensei que fosse giratória; logo compreendi que esse movimento era uma ilusão produzida pelos vertiginosos espetáculos que encerrava. O diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros, mas o espaço cósmico estava aí, sem diminuição de tamanho. Cada coisa (a lua do espelho, digamos) era infinitas coisas, porque eu claramente a via de todos os pontos do universo. Vi o populoso mar, vi a aurora e a tarde, vi as multidões da América, vi uma prateada teia de aranha no centro de uma negra pirâmide, vi um labirinto roto (era Londres), vi intermináveis olhos imediatos escrutando-se em mim como em um espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me refletiu, vi em um pátio da rua Soler os mesmos ladrilhos que há trinta anos vi no saguão de uma casa em Frey Bentos, vi ramos, neve, tabaco, gretas de metal, vapor d'água, vi convexos desertos equatoriais e cada um de seus grãos de areia, vi em Inverness uma mulher que não esquecerei, vi a violenta cabeleira, o altivo corpo, vi um câncer de mama, vi um círculo de terra seca em uma calçada, onde antes houve uma árvore, vi uma chácara de Adrogué, um exemplar da primeira versão inglesa de Plínio, a de Philemont Holland, vi a um só tempo cada letra de cada página (quando criança eu costumava maravilhar-me de que as letras de um volume fechado não se misturassem e perdessem no decurso da noite), vi a noite e o dia contemporâneo, vi um pôr-do-sol em Querétaro que parecia refletir a cor de uma rosa em Bengala, vi meu dormitório sem ninguém, vi em um gabinete de Alkmaar um globo terrestre entre dois espelhos que o multiplicavam sem fim, vi cavalos de crina como um remoinho, em uma praia do Mar Cáspio na aurora, vi a delicada ossatura de uma mano, vi os sobreviventes de uma batalha enviando cartões postais, vi em uma vitrine de Mirzapur um baralho espanhol, vi as sombras oblíquas de umas samambaias no solo de uma estufa, vi tigres, êmbolos, bisontes, marejadas e exércitos, vi todas as formigas que há na terra, vi um astrolábio persa, vi em uma gaveta da escrivaninha (e a letra me fez tremer) cartas obscenas, incríveis, precisas, que Beatriz havia dirigido a Carlos Argentino, vi um adorado monumento na Chacarita, vi a relíquia atroz do que deliciosamente havia sido Beatriz Viterbo, vi a circulação do meu próprio sangue, vi a engrenagem do amor e a modificação da morte, vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Aleph a terra, vi minha cara e minhas vísceras, vi a sua cara, e senti vertigem e chorei, porque meus olhos haviam visto esse objeto secreto e conjetural, cujo nome os homens usurpam, mas que nenhum homem jamais olhou: o inconcebível universo.

domingo, abril 13, 2008

Beware of darkness


(Ainda não sabíamos.
Que o sangue correria. Que haveria choro e ranger de dentes. Que desentenderíamos nossos irmãos.Que perderíamos - irremediavelmente órfãos - nossos pais.
Que seríamos traídos e trairíamos.
Que assassinariam um jeito de sorrir que tínhamos.
Que muitos nos tornaríamos cínicos. Que nossos mais amados amigos partiriam para sempre.
Que não haveria mais no que crer. Que não distinguiríamos o lado da luz, imersos em trevas.

Ainda não sabíamos de nada disso, quando, alegres, simplesmente felizes por estarmos vivos, chegávamos ao colégio atrasados, e subíamos as escadas cantarolando músicas dos Beatles.

Ainda não sabiamos, e nem eles jamais saberiam então...)




Beware of darkness
George Harrison

Watch out now, take care

Beware of falling swingers
Dropping all around you
The pain that often mingles
In your fingertips
Beware of darkness
Esteja alerta, tenha cuidado

A dor

Cuidado com as trevas

Watch out now, take care

Beware of the thoughts that linger
Winding up inside your head
The hopelessness around you
In the dead of night
Cuidado com os pensamentos , cuidado com a tristeza
Tenha a certeza voce nao está aqui pra isso


Beware of sadness
It can hit youIt can hurt you
Make you sure and what is more
That is not what you are here for
Watch out now, take care
Beware of soft shoe shufflers
Dancing down the sidewalks
As each unconscious sufferer
Wanders aimlessly
Beware of maya

Cuidado com MAYA

Cuidado com os lideres vorazes
Watch out now, take care
Beware of greedy leaders
They take you where you should not go
While weeping atlas cedars
They just want to grow, grow and grow
Beware of darkness

sexta-feira, abril 11, 2008

Bukowski e a vocação literária



Roll the dice

if you’re going to try, go all theway.otherwise, don’t even start.
if you’re going to try, go all theway.this could mean losing girlfriends,wives, relatives, jobs andmaybe your mind.
go all the way.it could mean not eating for 3 or 4 days.it could mean freezing on apark bench.it could mean jail,it could mean derision,mockery,isolation.isolation is the gift,all the others are a test of yourendurance, ofhow much you really want todo it.and you’ll do itdespite rejection and the worst oddsand it will be better thananything elseyou can imagine.
if you’re going to try,go all the way.there is no other feeling likethat.you will be alone with the godsand the nights will flame withfire.
do it, do it, do it.do it.
all the wayall the way.
you will ride life straight toperfect laughter, itsthe only good fightthere is.
Bukowski
******
“role os dados
se você vai tentar, vá com tudo.senão, nem adianta começar.
se você vai tentar, vá com tudo.isso deverá fazer você perder namoradas,esposas, congêneres, trabalhos e talvez sua mente.
mas vá com tudo.talvez você não coma por 3 ou 4 dias.talvez você congele, sentado na praça.pode ser que seja preso,pode significar derrisão,escárnio,isolamento.isolamento é um grande presente,tudo o mais são testes de sua resistência,de quanto você realmente querinterferir.e você o faráa despeito de qualquer rejeição, as piores probabilidades,e você estará melhor do que ninguém poderia imaginar.
se vai tentar, vá com tudo..não há outro sentimento quanto a isso.você estará sozinho, com os deusese as noites queimarão como fogo.
vá, vá, vá.faça.
com tudo de cabeça.
você montará na vida, numa reta,e aperfeiçoará a gargalhada;e só haverá boa luta.”
Tradução: Hilam A na Grama