quarta-feira, junho 24, 2009

Reflexões de um aprendiz de cozinheiro

Este belo texto meu amigo do Rio, Victor Passos mandou, de um ex-colega seu no Jornal do Brasil.
É triste ver com uma decisão de uma entidade que não tem canais de comunicação com a sociedade, o STF, tendo à frente um gilmar desses, que se pretende onipotente, desqualifica milhares de profissionais de uma profissão já tão sacrificada e difícil.

O exemplo citado do entrevistado comendo camarão é , como se diz, emblemático.

Eu faço parte de uma geração que lutou pela dignidade profisisonal, pela ética e pelos direitos trabalhistas. Mas na modernidade líquida em que estamos atolados, estas parecem palavras sem sentido .
Na geléia geral que se forma em torno da celeuma da profissão, há de tudo: anticorporativistas, solidamente assentados em seus diplomas e em suas corporações, atiram pedras nos jornalistas que defendem sua formação. Acreditam que agora qualquer um pode chegar às redações e ter à disposição colunas de opinião, grandes reportagens, fama e sucesso. Acreditam tambem que isso tem a ver com a liberdade de imprensa - leiam abaixo o belo artigo de Janio de Freitas esclarecendo a liberdade das más razões - e agora navegaremos felizes em mares de rosas.

Nos bastidores desse longo processo, que chega a mais de 30 anos, entretanto, interesses poderosos se colocaram.

Na grande crise da imprensa escrita , este golpe será sentido não apenas por jornalistas de carreira e diplomados, mas por leitores e pela sociedade em geral, que vão se dando conta, aliás, e ainda bem, do que significa o chamado quarto poder.
Desregulamentação-- a palavra chave do neoliberalismo que teve em Margareth Tatcher sua mais perfeita tradução , aquela senhora que dizia : "não há mais Estado, apenas familias e empresas -- desbaratou os trabalhadores em todo o mundo. Embora o velho Estado tenha sido a válvula de salvação da mais recente crise do capitalismo.

Mas as políticas mundiais e seus lideres estão desacreditados, os trabalhadores desunidos, fragmentados. As lideranças sindicais estão igualmente desacreditadas, o vale-tudo vai tomando conta.

Embora eu seja otimista, e creia que a Historia nunca pára, sei que é lenta. Mas que as coisas mudam, disso não tenho dúvidas, e muitas vezes para melhor. Espero.


João Batista de Abreu
Jornalista com diploma


Nesses 55 anos de estrada, confesso que vivi. Profissional e afetivamente. Mas que me perdoe Pablo Neruda, nunca aprendi a cozinhar. Sei apenas de cozinha de jornal. Aquele trivial simples, como fazer títulos e linhas de apoio, legenda e texto-legenda, chamada, macaca e outros adereços. Aprendi a botar tempero na matéria alheia, numa época em que o copidesque do Jornal do Brasil estava repleto de gurmês de fino trato. E eu, apenas um aprendiz de cozinheiro.
Nesses 35 anos de janela, compreendi que a paisagem nos oferece várias lições e que nos cabe assimilá-las ou não. A universidade se apresenta como um balcão de ofertas. Uma oferta democrática porque permite a aprendizes conhecer, experimentar, refletir, enfim preparar receitas que, espera-se, algum dia serão destinadas à sociedade. No espaço da sala de aula pode-se sim ensinar técnicas jornalísticas. Se não acreditasse nisso, preferiria pedir demissão.
Quando um poder supremo desmerece uma profissão desqualifica também sua formação. Ignora o longo tempo de dedicação de jovens que buscam nos bancos escolares ascensão social e a perspectiva de encontrar um lugar digno na sociedade, sem depender de favores, práticas de nepotismo ou arranjos partidários.
Talvez seja essa possibilidade que incomode tanto. Silenciosamente, a universidade pode contribuir para dotar cidadãos das mais variadas origens sociais de uma reflexão crítica, sem qual ele não exerceria qualquer profissão de nível superior na sua plenitude.
Como repórter, aprendi que a maioria dos jornalistas não costuma ser convidada para banquetes e aqueles que o são correm o risco de pagar uma conta alta na carreira. Certa vez, ao entrevistar um empresário durante um coquetel para o qual eu não fora convidado, arranquei-lhe algumas respostas enquanto ele degustava tranquilamente um camarão, sem ao menos ter a educação de oferecer ao entrevistador. Interpretei aquela atitude como um recado, que marcava a distinção do lugar social entre os dois personagens.
Os filmes de Buñuel ensinam como as refeições representam um lugar de exclusão e inclusão na sociedade burguesa. A constatação nos ajuda a entender a metáfora do ministro onipotente. Novamente a demarcação entre os que sentam à mesa do banquete e os que preparam a comida. Sem diploma, e portanto sem os benefícios econômicos que dele advêm, o que se deseja é que fiquemos sempre condenados a preparar a comida alheia, especialmente a dos comensais de banquetes.
Aos jovens cozinheiros, candidatos a chefes de cozinha, fica a advertência. Não confundam o lugar do jornalista com os dos representantes da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), principal articuladora do lobby que derrubou a obrigatoriedade do diploma. Ho Chi Minh – cozinheiro da colonial Marinha francesa –, nos mostrou que é possível um pequeno Davi de olhos puxados sair vitorioso na luta contra Golias. A nossa luta é a do feijão com arroz contra o supreme de frango.

terça-feira, junho 23, 2009

segunda-feira, junho 22, 2009

Poesia

Elizabeth Lorenzotti

Essas ruas com nomes tão lindos, assim como as de Minas Gerais, da Bahia...

Igreja de São Domingos

Elizabeth Lorenzotti

Africanos em Lisboa


No Largo de São Domingos eles se reúnem cotidianamente: algaravia de linguas africanas. Também vi alguns indianos, mas africanos, muitos.
Gostei muito desse lugar, a velhissima igreja foi incendiada durante o terremoto do século 18 e continua assim. É um lugar forte, lugar da Inquisição.
Ali tem outra coisa ótima, o bar da Ginja, com seus 100 anos, sei lá, uma portinha que vende o licor feito da fruta, aguardente e canela, e é uma delícia.
Neste blog sempre entra gente de Lisboa e da África, então fica uma homenagem a eles.

domingo, junho 21, 2009

De Madrid, para Lorca

Foto Elizabeth Lorenzotti


No Bairro de Las Letras, onde nasceram e morreram Cervantes y Lope de Vega.
A liberdade das más razões

Janio de Freitas
FSP 21/6/2009

“LIBERDADE de expressão” não é uma expressão de liberdade, é uma fórmula cuja utilidade política está em encobrir limitações e condicionantes do direito de expressão. Umas necessárias à sociedade, outras impostas para preservação de domínio.
Magistrados e advogados abusaram do uso da expressão que sabem ser falaciosa, para chegar à extinção, pelo Supremo Tribunal Federal, da exigência de diploma específico para profissionais do jornalismo. A exigência, não nascida dos motivos repetidos no STF, foi um excesso problemático desde sua criação em 1969, mas nem por isso deixou de produzir um efeito muito saudável e nunca citado, no STF ou fora. Em lugar do diploma específico, a obrigatoriedade de algum curso universitário, não importa qual, seguida de um curso intensivo de introdução aos princípios e técnicas do jornalismo, seria a fórmula mais promissora para a melhor qualidade dos meios de comunicação.
É um argumento rústico a afirmação de que diploma obrigatório de jornalismo desrespeita a Constituição, por restringir o direito à liberdade de expressão. É falsa essa ideia de que o jornalismo profissional seja o repositório da liberdade opinativa. São inúmeros os meios de expressão de ideias e opiniões. E, não menos significativo, a muito poucos, nos milhares de jornalistas, é dada a oportunidade de expressar sua opinião, e a pouquíssimos a liberdade incondicional de escolha e tratamento dos seus temas. (A esta peculiaridade sua, a Folha deve a arrancada de jornal sobrevivente para o grande êxito).
A matéria-prima essencial do jornalismo contemporâneo não é a opinião, é a notícia. Ou seja, a informação apresentada com técnicas jornalísticas e, ainda que a objetividade absoluta seja um problema permanente, sem interferências de expressão conceitual do jornalista. A grande massa da produção dos jornalistas profissionais não se inclui, nem remotamente, no direito à liberdade de expressão. Há desvios, claro, mas a interferência de formas opinativas no noticiário serve, em geral, à opinião e a objetivos (econômicos ou políticos) da empresa. Neste caso há, sim, uma prática à liberdade de expressão, no entanto alheia ao jornalismo, aí reduzido a mera aparência de si mesmo.
Os colaboradores, não profissionais de jornalismo, são os grandes praticantes do direito de liberdade de expressão nos meios de comunicação. E nunca precisaram de diploma de jornalista. A extinção da exigência de diploma em nada altera as possibilidades, as condicionantes e as limitações da liberdade de expressão na produção do jornalismo. Altera o que chamam de mercado de trabalho para os níveis iniciais do profissionalismo. Para os níveis mais altos, há muito tempo as empresas adotaram artifícios para dotar suas redações de diplomados em outras carreiras que não o jornalismo. À parte a questão legal, o resultado é muito bom.
Com o diploma, extinto à maneira de um portão derrubado e dane-se o resto, o STF eliminou sem a menor consideração o efeito moralizante, não só para o jornalismo, trazido sem querer pela exigência de curso. Efeito sempre silenciado. Deu-se que os anos de faculdade e seu custo desestimularam a grande afluência dos que procuravam o jornalismo, não para exercê-lo, mas para obter vantagens financeiras, sociais e muitas outras. Tal prática sobreviveu à exigência do curso, porém não mais como componente, digamos, natural do jornalismo brasileiro. É lógico que as empresas afirmem critérios rigorosos para as futuras admissões, mas sem que isso valha como segurança de passar da intenção à certeza.
O julgamento do recurso antidiploma trouxe uma revelação interessante, no conceito que a maioria do Supremo e os advogados da causa mostraram fazer da ditadura. Segundo disseram, já a partir do relatório de Gilmar Mendes, o decreto-lei com a exigência de diploma era um resquício da ditadura criado, em 69, para afastar das redações os intelectuais e outros opositores do regime. Ah, como eram gentis os militares da ditadura. Repeliram a violência e pensaram em uma forma sutil, e legal a seu modo, de silenciar os adversários nos meios de comunicação, um casuísmo constrangido.
Nem que fosse capaz de tanto, a ditadura precisaria adotá-lo. Sua regra era mais simples: a censura e, se mais conveniente, a prisão.
O julgamento no STF dispensou a desejável associação entre direito à liberdade de expressão e, de outra parte, recusa a argumentos inverazes. A boas razões preferiu a demagogia.

quarta-feira, junho 17, 2009


Fernando, Ele mesmo


Quarto de Fernando Pessoa


Padrão dos Descobrimentos


Elizabeth Lorenzotti

Belém, Portugal