terça-feira, setembro 02, 2008

Candido: O direito à literatura

Foto Jornal da Unicamp


Escrevi esta matéria para a edição de agosto da revista Panorama Editorial

Ele é um dos maiores intelectuais do país e completou 90 anos no dia 24 de julho. Embora afirme que “quase nonagenário, não posso dizer coisas novas”, acompanhar a linha de pensamento deste professor de tantas e tantas gerações é sempre um exercício enriquecedor e esclarecedor.

Escolhido para receber o troféu Juca Pato de Intelectual do Ano de 2007, Antonio Candido de Mello e Souza foi considerado "uma das inteligências mais completas e influentes da cultura brasileira contemporânea" e "autor de várias obras de análise, interpretação e avaliação crítica do principal acervo literário do Brasil e da herança européia”.
Mas para além de sua grande obra, Candido é um homem simples e generoso, bem humorado e humano. Um mineiro nascido no Rio, ele mesmo se define-criado em Cássia e em Poços de Caldas onde seu pai, o médico Aristides de Mello e Souza, foi o primeiro diretor das Termas Antonio Carlos.

Nasceu e cresceu em casas cheias de livros, o pai e a mãe tinham bibliotecas separadas, não só de medicina, mas de literatura, história, filosofia. Em 1989, Candido e seus irmãos Roberto e Miguel doaram 3.528 livros à Biblioteca Central da Unicamp, mediante o pedido de que a coleção ganhasse o nome do pai. A maioria dos livros pertencia ao professor.

Quando era criança, o pai costumava ler e explicar todas as noites, depois do jantar, certos textos em português ou francês que julgava oportunos. Entre 13 e 14 anos Candido ouviu o pai ler muito de Os Sertões, na primeira edição que possuía.

Ele aponta a estadia em Paris- para onde o pai foi se aperfeiçoar, entre 1928 e 1929 e a ida, em 1930, para Poços de Caldas “que contava com uma livraria excelente, com livros franceses e ingleses além dos nacionais”, como pontos importantes de sua formação. Cândido tornou-se freguês assíduo. Conta o professor que “foi ela a única, em toda a minha vida, onde vi à venda o raríssimo Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade, cuja tiragem foi mínima e quase não circulou”.

Com acontecia muito naquela época, Candido não freqüentou escola regular no primário, apenas três meses. A mãe o ensinou em casa: a ler, a escrever, aritmética, geografia, história, um pouco de francês. Em Poços fez o quinto ano primário, chamado "curso de admissão" ao ginásio.

Além de sua mãe e de uma professora na França, houve outra pessoa que muito ensinou o jovem Candido: dona Teresina Carini Rocchi, de quem escreveu a biografia no livro Teresina e etc. (Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1980).

A velha militante anarquista era amiga da mãe de Candido. “Ela me iniciou no mundo da cultura italiana além de contribuir para o meu interesse pelo socialismo. Cantávamos juntos canções e trechos de ópera, ela me fez ler muitos autores italianos cujos livros me dava e em geral falava italiano comigo”.

O pai queria que ele fosse médico, mas segundo ele mesmo, “graças a Deus”, foi reprovado nos exames para a Faculdade de Medicina. Em 1939 entrou no vestibular para as faculdades de Direito e Filosofia. Não terminou o curso de Direito, porque foi nomeado professor-assistente de Filosofia e casou-se com sua companheira da vida inteira, Gilda de Mello e Souza, falecida em 2005. Ela fazia parte do grupo de colegas, também amigos da vida inteira, desde os bancos da faculdade, com os quais fundou a revista Clima, na época da Segunda Guerra.

Era uma revista de cultura, feita por jovens universitários, praticamente a mesma equipe que depois fundou e colaborou com o Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo e tornou-se conhecida como a primeira geração de críticos saídos da USP. Ele conta: “Nós temos consciência de nos termos formado uns aos outros: Antônio Branco Lefèvre, estudante de medicina e depois jovem médico naquela altura, que se tornou um dos maiores neuropediatras do Brasil, foi crítico de música da revista; Lourival Gomes Machado era professor de política e ao mesmo tempo crítico de artes plásticas, tendo reorganizado a Faculdade de Arquitetura como diretor; Décio de Almeida Prado, ensinava filosofia no Colégio Universitário e era crítico de teatro; Rui Coelho, que tinha um saber universal, era especialista em personalidade e cultura, professor de sociologia, praticante do teste de Rorscharch, mas escreveu um livrinho sobre Proust e foi crítico de cinema. A nossa turma era assim”.

Um dos seus mais belos e importantes textos chama-se O direito à literatura, em Vários Escritos (São Paulo, Duas Cidades, 1995). Ele a coloca entre os direitos fundamentais.

O professor fala, no texto, sobre o poder universal dos grandes clássicos, “que ultrapassam a barreira da estratificação social e de certo modo podem redimir as distâncias impostas pela desigualdade econômica, pois têm a capacidade de interessar a todos e devem ser levados ao maior número”.

“Lembro de ter conhecido na minha infância, em Poços de Caldas, o velho sapateiro italiano Crispino Caponi, que sabia o Inferno completo e recitava qualquer canto que se pedisse, sem parar de bater as suas solas”.

Para Candido, a literatura “humaniza em sentido profundo, porque faz viver”.

E o que entende ele por humanização?“ O processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso de beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante”.

O Brasil é feliz por contar com Antônio Candido.




Candido: O prazer de ler

Eu perguntei ao professor o que recomendaria para despertar o gosto pela leitura em um adolescente de hoje, não muito interessado pelas letras. Ele respondeu:
“No meu tempo eu saberia indicar, hoje eles gostam de Harry Potter, que nem sei o que é, e tenho medo de parecer bobo”.
Mas não parecerá bobo jamais quem recomenda clássicos universais para os jovens.
Na época da Segunda Guerra, Candido foi professor de um colégio alemão que se desnasificava. “Eu conquistei os alunos com As Minas do Rei Salomão, do inglês, Henry Rider Haggard, traduzido por Eça de Queiroz. (Livros Horizonte, Lisboa, 2000) Eles resistiam à leitura e adoraram. Tudo depende da forma como se apresenta o livro”, afirma.
Sim, e como lembra a ex-aluna Telê Ancona Lopez, Candido ensinava a importância fundamental do texto, valorizando a imaginação crítica, a cultura. “Quando se estuda a literatura brasileira, se vê ao mesmo tempo as correlações com as artes, a música. A literatura não se isola”. Esta é uma grande forma de despertar nas pessoas o prazer de ler.
Livros de aventuras despertam o prazer da leitura, diz o professor que, quando moço adorava a coleção Terra, Mar e Ar, com Kipling, Mark Twain, as aventuras de Tarzan, de Tom Sawyer, A Volta ao mundo em 80 dias, e tantas outras.
Ele indica todos os livros de Alexandre Dumas, de Os três mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo, a Vinte anos depois.
E lembra-se do método que o pai usava para aproximar os filhos da leitura: “Por exemplo: um belo dia, quando eu tinha mais ou menos nove anos, meu irmão do meio, sete, e o caçula, seis, ele nos deu os dois volumes alentados do Larousse universal, dizendo: "brinquem com isto". E nós começamos a brincar, a ver as pranchas coloridas com mapas, uniformes, mamíferos, répteis, borboletas, peixes etc. Depois de passar um ano colorindo perucas de personagens históricos, pondo bigodes em imperadores romanos, cavanhaque em Luís XIV e coisas assim, tínhamos adquirido bastante familiaridade com muitos verbetes e aprendido um pouco de francês, reforçado pelas lições de minha mãe com o método Berlitz”.
Antonio Candido não é pessimista em relação à moderna cultura do audiovisual. Acentua que na nossa maior fonte cultural, a civilização grega, as obras eram feitas para serem ditas ou cantadas, o registro escrito vinha depois. Talvez a imagem e a oralidade possam imperar nesta terceira revolução industrial, mas ele não consegue imaginar.
Entretanto, afirma que uma coisa é certa: “Não é possível haver sociedade humana sem arte e sem literatura, pois o homem tem necessidade quotidiana, imperiosa e inadiável de satisfazer a fantasia, desde as formas mais modestas, como a anedota e os grafitos, até as mais altas, como o poema organizado e a estátua. Mas em nosso tempo de crise das normas, a mistura de tudo parece ter gerado a dissolução dos parâmetros, de modo que numa exposição de arte, por exemplo, ficamos sem saber se um trator em cima de um monte de jornais pode ser avaliado como se avalia um quadro de Picasso ou uma estátua de Moore”.

Candido:“Sou essencialmente um professor”

“Se me perguntassem o que sou essencialmente, eu diria, grifando, que sou professor. Ensinei sociologia, ensinei literatura, mas antes de ser professor disso ou daquilo, não sei se me faço entender, sou visceralmente professor,grifado. Tenho gosto e vocação para transmitir aos outros o que sei, e como costumava dizer Antônio de Almeida Júnior, o professor não é obrigado a criar saber, mas sim a transmiti-lo. Esta foi a tarefa que sempre me atribuí. (.) Repito: o que gosto mesmo é de dar aula. Se possível, sem ser interrompido”.
(Antonio Candido em entrevista concedida em junho de 1993 a Gilberto Velho e Yonne Leite, do Museu Nacional da UFRJ).

Antonio Candido formou várias gerações de estudantes de Letras em 36 anos de docência em Teoria Literária e Literatura Comparada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Quando se viaja pelo país, por exemplo, participando de algum evento nesta área, encontra-se sempre alunos formados por ele na graduação, no mestrado, no doutorado, ou em cursos de especialização. Alguns, por exemplo, daqui de São Paulo, como Roberto Schwarz, Telê Ancona Lopes, Vera Chalmers, Marisa Lajolo, Davi Arrigucci Jr, Walnice Nogueira Galvão, entre outros.
Marisa Lajolo, atualmente na Universidade Mackenzie e professora colaboradora da Unicamp foi sua sua aluna da graduação, nos anos 1960, quando a disciplina Teoria Literária recém havia ingressado no currículo de Letras. Depois foi sua orientanda na pós-graduação, Mestrado e Doutorado, já nos anos 1970.
Para Marisa, “Antonio Cândido é um grande professor. Mestre, no sentido maior do termo. A mim - além dos conteúdos- ensinou sobretudo respeito pelos alunos e interesse sincero por suas questões. Ele jamais humilhou nenhum aluno apesar de sua infinita sabedoria. Dava aulas de forma simples, comentava os trabalhos de cada um assinalando o que de melhor tínhamos. E - como faz até hoje- temperava tudo isso com um humor fino e inteligente”.
“É meu professor por toda a vida, sinalizou rumos no meu trabalho com a literatura”, afirma outra ex-aluna, Telê Ancona Lopez, igualmente graduada, mestrada e doutorada na USP com Antonio Candido como orientador. “Um professor que principalmente mostra em cada passo dele a valorização da ética,
a importância do intelectual-cidadão, interessado nos rumos do país, preocupado com o seu desempenho enquanto professor, enquanto critico”.
O tema de pesquisa de Telê, professora titular da USP é Mário de Andrade, de cujo arquivo é curadora no Instituto de Estudos Brasileiros, (IEB). E, claro, esse tema veio das aulas de Candido. “Eu fazia um curso de especialização em Teoria Literária com o professor, e ele começou a nos dar o poema Louvação da Tarde, contando que existia uma marginália fantástica de Mário de Andrade na Bilioteca. Eu levantei a mão e disse: “Quero fazer nas férias de julho!Imagine, estou fazendo até hoje...”
O papel do intelectual-cidadão também é destacado por Vera Chalmers, professora convidada da Unicamp: ”“Antonio Candido é um mestre no sentido pleno da palavra, um formador de pessoas a quem ensina a buscar a verdade, ainda que difícil”.
Ele formou não só grandes intelectuais e professores. Como sempre acontece, muitos de seus ex-alunos de Letras seguiram outras profissões, mas levaram seus ensinamentos pela vida afora. Como a assessora de moda Sonia Montana, sua aluna de graduação na década de 1970: “O professor me ensinou coisas que usei na educação de meus três filhos”.

segunda-feira, setembro 01, 2008

sábado, agosto 30, 2008

1998



Lembrar é esquecer aos poucos, do contrário enlouqueceríamos, eu escrevi isso esses dias depois de vir do enterro de um amigo. No velório, passaram pessoas que são pedaços da minha vida.

Ao fim e ao cabo, somos todos pedaços uns da vida dos outros. Interdependentes e impermanentes.

Eu também escrevia que, talvez, a insana luta pelo poder seja uma maneira torta que o homem tem de tentar conquistar a imortalidade. Será?

Pôr no papel em letra, em desenho, metamorfosear a vida em traço e tipo é também uma tentativa de alcançar a imortalidade.


Melhor, muito melhor esta, embora também vã.



quinta-feira, agosto 28, 2008

Tomatina em Buñol

Minha amiga Adriana está na Espanha e conta a história da Tomatina, aquele carnaval maravilhoso de tomates em Buñol, província de Valencia.
A festa acontece há 40 anos na última semana de agosto.

"Saíram cinco ônibus de dois andares para a cidadezinha de Buñol. Foram 40 minutos de viagem.
Um caminhao (tipo caçamba) percorre o circuito da tomatina, e o povão atrás, numa rua estreita,como se fosse um trio elétrico.
O caminhã repete o circuito cinco vezes. Na primeira passagem, o grupo de atiradores (dentro do caminhao) mira com força as pessoas (prensadas na multidao).

O aperto é tanto que nao dá nem para levantar a mao para se proteger. A gente abaixa o rosto para não pegar nos olhos. Mesmo assim, dá para sentir a pancada quando acertam o tomate.
Na quarta e na quinta passagem do caminhao, a bagunça é geral.

O pessoal começa a pegar o tomate no chao e atirar uns nos outros. Aí, atiram camisetas molhadas de tomates, chinelos, óculos, o pessoal dos apartamentos bota mangueira na janela para jogar água no povo, jogam balde de água etc.

Vira uma zona.
Só tinha gente da Nova Zelândia. Eles vieram de longe só para participar da Tomatina. Estava difícil de ver espanhóis na bagunça."

sábado, agosto 23, 2008

Antonio Candido: um intelectual socialista

Candido e Boris Schnaiderman
Foto Claudio Leal
DO TERRA MAGAZINE


Claudio Leal

O crítico literário Antonio Candido de Mello e Souza, 90 anos, recebeu ontem à noite (20/08 )o prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano de 2007, conferido pela União Brasileira de Escritores (UBE). Na entrega do troféu, no Salão Nobre da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, o crítico repassou sua trajetória intelectual e política. Afirmou-se fiel à "tradição do humanismo ocidental definida a partir do século XVIII".

­- O que importa não é que os alvos ideais sejam ou não atingíveis concretamente na sua sonhada integridade. O essencial é que nos disponhamos a agir como se pudéssemos alcançá-los, porque isso pode impedir ou ao menos atenuar o afloramento do que há de pior em nós e em nossa sociedade.

Ns últimos anos, o autor de "Formação da Literatura Brasileira" se tornou mais recluso. Resolveu se dar um presente ao completar 90 anos, no último 24 de julho, como revela a Terra Magazine:

- Não dou mais entrevistas, nem leio obras novas. Estou fora do tempo..

Integra do Discurso


O troféu Juca Pato tem para mim grande significado, inclusive porque as entidades que o criaram foram importantes na minha carreira intelectual. Uma é sucessora da Associação Brasileira de Escritores, a outra é sucessora da Folha da Manhã, e a ambas se prende a fase inicial da minha atividade de crítico literário e de intelectual participante, como se dizia naquele tempo.

Em 1942 a Associação Brasileira de Escritores foi fundada no Rio de Janeiro com uma finalidade ostensiva e outra implícita. Ostensivo era o intuito de lutar pela regularização dos direitos autorais, então muito desrespeitados. Implícito era o ânimo de lutar contra a ditadura do Estado Novo e seu duro arrocho em relação à liberdade de pensamento e de expressão. Eu estava presente ao encontro fundador da seção paulista, do qual saiu a deliberação de eleger Sérgio Milliet seu presidente, pois Mário de Andrade, que também estava ali, recusou o cargo, ficando discretamente como vice. A mim, jovem principiante, foi atribuída a função de 2o. secretário, não devido a mérito pessoal, mas como reconhecimento de um grupo de moços ao qual eu pertencia e estava se lançando na vida intelectual com a nossa revista Clima, cujo título passou a nos designar: éramos o "grupo de Clima".

Na seção paulista da ABDE, sigla com a qual a Associação ficou famosa, participei da organização e da realização do histórico Primeiro Congresso Brasileiro de Escritores, que teve lugar em São Paulo no mês de janeiro de 1945 e foi um movimento significativo de oposição ao regime, que aliás começou a se dissolver no mês seguinte. Mais tarde, em 1949, fui eleito presidente da seção de São Paulo e nessa qualidade presidi o Segundo Congresso Paulista de Escritores, realizado naquele ano em Jaú. A declaração de princípios deste congresso afirmou que o dever básico do escritor é a fidelidade à sua vocação, não a obediência a imperativos externos, aos quais poderia, no entanto, servir como intelectual em sentido amplo. Isso era uma retificação à tendência demasiado política justificada em tempo de ditadura. Pouco depois esse problema gerou a cisão que dividiu a entidade, recomposta felizmente mais tarde com o nome atual.

Quanto à outra instituidora, menciono que em 1943 tornei-me o que se denominava então "crítico titular" do jornal Folha da Manhã, que mudara de proprietário e passava por uma reforma modernizadora. Ligado aos autores desta era o meu grande amigo e companheiro da revista Clima Lourival Gomes Machado, que se encarregou da crítica de arte. Como os reformadores queriam estabelecer um rodapé semanal de crítica literária, ele me indicou para esta tarefa de grande responsabilidade. O meu nome foi aceito e eu, verde principiante, assumi o compromisso de fornecer semanalmente um artigo de cinco a seis laudas tamanho ofício a dois espaços sobre os livros da hora. Foi nessa tarefa, não na Universidade, que me formei como crítico, pois sou licenciado em Ciências Sociais, não Letras, e naquele tempo dava aulas de Sociologia. O meu tirocínio foi portanto adquirido dentro da tradição franco-brasileira do jornalismo, o que me ensinou antes de mais nada a procurar clareza e simplicidade na escrita. Sou, portanto, um crítico de jornal que passou mais tarde ao ensino da literatura, o contrário do que é freqüente em nossos dias.

Aquele momento era de intensa politização dos intelectuais, segundo o espírito predominante no decênio que sucedeu ao movimento armado de 1930. Eu embarquei nesse rumo, politizando talvez um pouco demais a minha atividade crítica, mas correspondendo assim ao ânimo de militância que era o dos intelectuais contrários à ditadura do Estado Novo. Afinado com as tendências radicais do momento, assumi então posições socialistas que não abandonei mais e continuam a nortear as minhas convicções relativas à necessidade de transformar profundamente a nossa sociedade desigual e mutiladora.

Mas não posso ir adiante sem mencionar que na redação da Folha da Manhã conheci e vi muitas vezes ninguém menos que o inventor do popular Juca Pato, personagem pitoresco que dá o nome a este prêmio. Refiro-me a Benedito Carneiro de Bastos Barreto, famoso sob o pseudônimo de Belmonte, escritor e desenhista de alto valor, um dos mais altos praticantes da caricatura no Brasil. Era um homem discreto e cortês, de pouca fala, mas muito simpático. Naquela altura participava da luta ideológica por meio de charges mordazes contra o nazismo.

Tendo mencionado dois motivos que contribuem para fazer deste prêmio uma alegria para mim, resta mencionar como terceiro o fato de ser ele conferido neste local. Estudei na Faculdade de Direito durante sete anos, dois no chamado "pré-jurídico", designação corrente na 1a. Seção do Colégio Universitário Anexo à Universidade de São Paulo, mais cinco no bacharelado, sendo que os três primeiros de maneira assídua e os dois últimos com muita ausência, acabando por não prestar em segunda época os exames finais, segundo o sistema da época e segundo também a minha intenção.

Portanto sou quase bacharel e sempre me senti uma espécie de aluno permanente que ainda não cumpriu a tarefa, mas tenho a honra de ser bacharel do XI de Agosto, grau que me foi conferido solenemente por uma turma de formandos. Por isso trago neste momento na lapela o distintivo do Centro, quase igual ao que, em seguida ao trote de 1939, depois de raspado o cabelo e pagas as devidas taxas, recebi junto com a flâmula e o diploma de burro em bom latim macarrônico, diploma que conservo como antídoto salutar contra eventuais assomos da vaidade...

Foi nesta Casa que comecei a militar contra as ditaduras, como um dos fundadores do Partido Libertador, surgido aqui em 1939, quando eu estava no primeiro ano do bacharelado, e que não deve ser confundido com o de âmbito nacional de mesmo nome, criado sob a inspiração de Raul Pilla. Mais tarde fui também um dos fundadores da Frente de Resistência, formada quando eu estava no 5o. ano por estudantes liberais e socialistas desta e de outras faculdades, que desenvolveu uma atividade ponderável apesar dos apertados limites impostos pela censura e a repressão.

O que estou dizendo se refere cronologicamente aos anos de 1940, isto é, mais de meio século atrás. Portanto, os generosos confrades da União Brasileira de Escritores foram buscar um intelectual bem antigo, bem fora do tempo, para confortá-lo com esta distinção consagradora. Devo ser de fato tão antiquado, que venho sendo definido em algumas instâncias como "ilustrado", devidamente entre aspas, e como alguém preso a uma visão de tipo teleológico da história e do pensamento. Devo esclarecer que, ao contrário do que se poderia pensar, considero esta restrição um elogio. Ela quer dizer que me mantenho fiel à tradição do humanismo ocidental definida a partir do século XVIII, segundo a qual o homem é um ser capaz de aperfeiçoamento, e que a sociedade pode e deve definir metas para melhorar as condições sociais e econômicas, tendo como horizonte a conquista do máximo possível de igualdade social e econômica e de harmonia nas relações. O tempo presente parece duvidar e mesmo negar essa possibilidade, e há em geral pouca fé nas utopias. Mas o que importa não é que os alvos ideais sejam ou não atingíveis concretamente na sua sonhada integridade. O essencial é que nos disponhamos a agir como se pudéssemos alcançá-los, porque isso pode impedir ou ao menos atenuar o afloramento do que há de pior em nós e em nossa sociedade. E é o que favorece a introdução, mesmo parcial, mesmo insatisfatória, de medidas humanizadoras em meio a recuos e malogros. Do contrário, poderíamos cair nas concepções negativistas, segundo as quais a existência é uma agitação aleatória em meio a trevas sem alvorada.

É com este espírito talvez obsoleto de velho intelectual participante, como se dizia naquele tempo, que aqui estou para agradecer de coração esta desvanecedora homenagem.



segunda-feira, agosto 18, 2008

Uma rocha e um anjo



"E aquela voz de Caymmi, aquela voz de caverna (que seus três filhos herdaram), voz de caverna marítima, como aquela que, ecoando o ronco das ondas, soa como um rugido de leão, na costa da ilha de Fernando de Noronha, Gruta Azul. A voz de Caymmi é uma Gruta Azul com cantos napolitanos de barqueiros dentro, barqueiros que pensam que enganam os turistas. Caymmi era uma rocha e um anjo. Demasiado material, demasiado espiritual. Caymmi é um núcleo do Brasil. Caymmi será o Mundo."
Caetano Veloso, 17/8/2008

sábado, agosto 16, 2008

Las Causas



Jorge Luis Borges


Los ponientes y las generaciones.

Los días y ninguno fue el primero.

La frescura del agua en la garganta

De Adán. El ordenado Paraíso.

El ojo descifrando la tiniebla.

El amor de los lobos en el alba.

La palabra. El hexámetro. El espejo.

La Torre de Babel y la soberbia.

La luna que miraban los caldeos.

Las arenas innúmeras del Ganges.

Chuag-Tzu y la mariposa que lo sueña.

Las manzanas de oro de las islas.

Los pasos del errante laberinto.

El infinito lienzo de Penélope.

El tiempo circular de los estoicos.

La moneda en la boca del que ha muerto.

El peso de la espada en la balanza.

Cada gota de agua en la clepsidra.

Las águilas, los fastos, las legiones.

César en la mañana de Farsalia.

La sombra de las cruces en la tierra.

El ajedrez y el álgebra del persa.

Los rostros de las largas migraciones.

La conquista de reinos por la espada.

La brújula incesante. El mar abierto.

El eco del reloj en la memoria.

El rey ajusticiado por el hacha.

El polvo incalculable que fue ejércitos.

La voz del ruiseñor en Dinamarca.

La escrupulosa línea del calígrafo.

El rostro del suicida en el espejo.

El naipe del tahúr. El oro ávido.

Las formas de la nube en el desierto.

Cada arabesco del calidoscopio.

Cada remordimiento y cada lágrima.

Se precisaron todas esas cosas

Para que nuestras manos se encontraran.

quinta-feira, agosto 14, 2008