sábado, fevereiro 09, 2008


Vestígios do dia

De manuscritos raros a registros afetivos no correio eletrônico, a historiadora Meize Lucas fala sobre os vestígios que deixarão de existir no futuro próximo

Meize Lucas
especial para O POVO

05 Jan 2008 -


Mês passado comprei, numa daquelas charmosas livrarias do Rio de Janeiro, um livro chamado A paixão pelos livros, reunindo textos que manifestam o prazer e os amores possíveis por esse objeto. A razão da compra foi, além do título, a bela capa com a foto de uma livraria bombardeada em Londres na Segunda Guerra Mundial, na qual se vêem elegantes senhores a ler.


Na semana seguinte, em Recife, compro outro livro pela beleza da edição e pelo assunto, Suplemento Literário - que falta ele faz, de Elizabeth Lorenzotti. Trata-se de um estudo sobre o caderno lançado pelo jornal O Estado de São Paulo, em 1956. Nele encontramos a reprodução do projeto elaborado (e datilografado) por Antonio Cândido para o jornal. Livros que integram minha estante pelo gesto comum a quem gosta do objeto: o prazer de entrar em uma livraria, olhar, pegar e, principalmente, esquecer do tempo e da vida. Não sei se, correndo os olhos por algum site, esses livros estariam aqui ao meu lado. Na Internet, a gente busca o que quer. Não há lá muito espaço para o aleatório.

Não vou entrar na discussão besta e já datada sobre o fim do livro ou o mal da Internet. Sobre o primeiro, o historiador Roger Chartier já respondeu mil vezes que não, o livro não vai acabar. Além disso, basta ver as cifras milionárias das editoras e o tanto de doidos que têm por aí a rodar sebos, alguns imundos, a cheirar livros, a gastar rios de dinheiro em sites e a percorrer estantes de livrarias boas e ruins. Quanto ao segundo, seria interessante ver que o cinema provocou igual celeuma quando apareceu. Dizia-se que ele podia acabar casamentos, destruir infâncias e desviar a conduta de mulheres e jovens.

Não quero falar sobre o bem ou sobre o mal dessas mudanças. Mas sobre o que se perde. Reservo-me o direito de não falar sobre os ganhos, pois esses já são amplamente propagados (alguns de forma enganosa) e vivenciados no dia-a-dia.
Comprar pela internet é prático: não tem trânsito, vendedor ruim nem o famoso "tem, mas tá faltando". Também não há o risco de perguntar pelo livro do Mia Couto e o vendedor te pedir dez vezes para repetir o nome do autor por achá-lo meio estranho. E, com sorte, podemos comprar na promoção "a partir de três livros o frete é grátis". Ganhamos, sim. Mas perdemos (ou pelo menos diminuímos) a possibilidade da surpresa e assim sermos arrebatados. A cada dia vivemos não o nosso prazer, mas compramos o nosso conforto. E, assim, vamos suprimindo junto com os desgastes alguns pequenos prazeres.

Há também uma questão de ordem prática, que diz respeito ao meu ganha-pão. Sou historiadora. E como sabem, historiadores são um povo que vive de papel velho, coisa e tal. Entre essas velharias uma das melhores é topar com alguém com vocação para tinta e papel que tenha deixado cartas, diários e anotações espalhadas por cadernetas sem fim. Basta pensar nas cartas enviadas por Freud a Fliess e a Ferenczi, base ainda hoje para os estudos da psicanálise. É também maravilhoso ver um manuscrito e perceber o texto na poesia envolvente da caligrafia de quem escreve. Nos textos de Antonio Cândido, reproduzidos no livro citado, quase podemos ouvir (tactactac) seu surgimento. Há ainda o entrelaçamento entre a escrita e a datilografia, caso de Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, em que, "corrigindo" à mão os capítulos datilografados, o autor nos permite espiar a refundação do texto.

Vestígios que vão deixar de existir num futuro próximo. Documentação inexistente não por falta de acervos, mas por falta de quem os produza como rastro de suas ações. As impressões de trabalho, as trocas amorosas e as construções do pensamento se apagam repetidamente no computador. Não há mais versões até chegarmos à final, logo perdemos o percurso. E o amor desaparece sem deixar mágoas impressas no mundo.

Também teremos o esgotamento de um gênero literário por falta de estoque. Fernando Sabino guardou todas as cartas enviadas aos seus amigos Helio Pellegrino, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende. Publicadas, renderam um belo livro.

Os exemplos podem ser multiplicados, mas, como fica claro, não ao infinito.
Dia desses tive vontade de reler um poema enviado por um amigo, hoje distante do coração e da vida. Qualquer um sabe, menos eu - aliás, hoje eu sei -, que, se uma pessoa fica muito tempo sem acessar o tal do e-mail, ele fica desativado e perde-se tudo. E foi o que aconteceu. Colocando na busca da Internet posso recuperá-lo, mas é impossível recuperar o poema junto com as palavras que o acompanhavam, a data em que foi enviado, o porquê da sua existência na minha caixa de e-mails.

Mas quem sabe no futuro ainda não topo com ele por aí numa caixa de mensagem.

Meize Regina de Lucena Lucas é doutora em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professora do Departamento de História da Universidade Federal do Ceará (UFC)

terça-feira, fevereiro 05, 2008

Crítica na Folha de S. Paulo




São Paulo, domingo, 20 de janeiro de 2008
+ livrosPara gostar de ler
Livro sobre o "Suplemento Literário", do "Estado de S. Paulo" expõe atual elitização da leitura

CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA
ESPECIAL PARA A FOLHA
M eio século e um ano atrás, "O Estado de S. Paulo" resolveu pagar bem a um grupo de intelectuais de primeira linha para produzir uma "apensa" ao jornal: seis páginas semanais dedicadas à literatura, sob o título de "Suplemento Literário". Basta mencionar os nomes dos editores e colaboradores para ter certeza da qualidade do produto: Antonio Candido, Décio de Almeida Prado, Paulo Emílio Salles Gomes, Lourival Gomes Machado, Leyla Perrone-Moisés, Nilo Scalzo, entre diversos outros. Quem ilustrava os textos dessa gente eram artistas como Aldemir Martins, Clóvis Graciano, Marcelo Grassman, Di Cavalcanti, Maria Bonomi, Hilde Weber, Renina Katz, Wesley Duke Lee, Livio Abramo.

A história deste marco da cultura brasileira, que viveu de 1956 a 1974, está relatada em "Que Falta Ele Faz!", de Elizabeth Lorenzotti. Trata-se de documento inestimável para a história do jornalismo e da vida intelectual do país. Dentre os registros que ele traz, de incalculável valor para os profissionais e estudiosos da comunicação atuais, está a reprodução fac-similada do projeto que Antonio Candido apresentou a Júlio de Mesquita Neto e Ruy Mesquita para o suplemento e foi integralmente aceito pelos diretores do jornal. Em toda a sua existência, o "Suplemento Literário" não sofreu censura nem pressões. O plano original foi cumprido à risca, independentemente das tensões ideológicas e econômicas que o país viveu, como relatam seus sobreviventes.

Mas a sociedade mudou, o jornalismo também e o suplemento acabou. Lorenzotti diz que ele faz falta. Mas o fato é que aqueles seus objetivos de "servir como instrumento de trabalho e pesquisa aos profissionais da inteligência" e "nunca transigir com a preguiça mental, com a incapacidade de pensar" talvez tenham deixado de fazer sentido no mundo contemporâneo. Sem pessimismo saudosista, é difícil fugir à realidade de que hoje em dia lê-se cada vez menos. Não só aqui no Brasil; no mundo todo. Sete minutos por dia O National Endowment for the Arts (entidade pública independente nos EUA) divulgou no ano passado pesquisa segundo a qual os jovens americanos entre 15 e 24 anos gastam em média sete minutos por dia de semana em leitura voluntária (ou seja, não como tarefa escolar obrigatória). A venda de livros nos EUA caiu de 8,21 por habitante/ano em 2001 para 7,93 em 2006. A despesa com livros por domicílio americano em 2007 foi a mais baixa em 20 anos, e o preço médio cresceu substancialmente -ou seja, as pessoas estão consumindo menos livros. No Brasil, embora as livrarias estejam comemorando um crescimento de 15% em seu faturamento em 2007 em relação ao ano anterior no bojo da onda do aumento generalizado do consumo, não há nenhum sinal de que o número de leitores ou que o tempo gasto em leitura estejam também subindo. Neste cenário, será que o "Suplemento Literário" ou algo do seu gênero teria como existir? Provavelmente não se o jornalismo se mantiver no mesmo rumo que tem seguido nas últimas décadas. No último quarto do século 20, o jornalismo impresso resolveu enfrentar o avanço dos meios eletrônicos sobre o consumidor de informação mimetizando os adversários. A fórmula mais apurada desse processo foi o diário "USA Today", que tentava aparentar-se a uma TV no papel. A estratégia deu certo por uns tempos. Mas, depois de cerca de 20 anos, o próprio "USA Today" resolveu editar textos mais longos e aprofundados, aparentemente convencido de que o público dos veículos impressos nunca mais irá crescer e exige material de qualidade superior. Na edição de 24 de dezembro da revista "The New Yorker", o escritor Caleb Crain especula sobre a possibilidade de que "a leitura de livros por prazer um dia se tornará o domínio de uma "classe de leitores" especial, à semelhança da que existiu até a segunda metade do século 19, quando chegou a leitura de massa". Ler ficção poderá se tornar um hábito arcano de uns poucos, que poderão desfrutar de prestígio social ou não. Se e quando isso acontecer, talvez os jornais impressos venham a ser o veículo preferencial dessa casta, e aí, então, produtos como o "Suplemento Literário" realmente farão falta e poderão voltar a existir.

CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA é livre-docente e doutor em comunicação pela USP e diretor de relações institucionais da Patri Políticas Públicas.

SUPLEMENTO LITERÁRIO - QUE FALTA ELE FAZ!
Autora: Elizabeth Lorenzotti
Editora: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (tel. 0/xx/11/ 6099-9800)
Quanto: R$ 40 (208 págs.)

sábado, fevereiro 02, 2008

A Opção Obrigatória- Capitulo 2


Navegando, achei essa noticia, num site de comunicação que reproduzia nota da fonte abaixo.

Fonte: Sindicato dos Jornalistas de S. Paulo

O jornalista, ex-assessor de imprensa do presidente Lula, Ricardo Kotscho lançou no dia primeiro de dezembro o livro Uma vida nova e feliz... sem poder, sem cargo, sem carteira assinada, sem crachá, sem secretária e sem sair do Brasil. A obra retrata a vida do jornalista entre os anos de 2005 e 2007, desde quando deixou o trabalho no governo e iniciou a sua vida profissional autônoma.

No livro, o jornalista constata como é possível ter qualidade de vida sem estar preso ao relógio e sem ter vínculo empregatício. Ele mesmo constatou isso depois de 40 anos de carreira com carteira assinada. No prefácio da obra, Mário Prata diz que o livro não é de auto-ajuda, mas de “alta ajuda” para todos os que querem conciliar trabalho com curtir a vida.
Escritor de mais 18 publicações, entre elas, Do Golpe ao Planalto - Uma Vida de Repórter, Kotscho pretende expor em seu novo livro como é a vida de um jornalista que trabalha por conta própria, faz a sua agenda, não sofre pressão de chefe, não precisa viajar e se distanciar de sua família.
Pois é, tempos atrás escrevi um artigo em resposta a outro onde Kotscho se regozijava da vida de jornalista autônomo. (http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=364FDS006)

Eu observava que nossa categoria está sendo OBRIGADAa trabalhar como autoôma, sem registro, sem garantias, sem direitos, e isso não é motivo de louvação e sim de tristeza . RK respondeu por email que concordava comigo. Mas vejo que não- resolveu soltar um manual de ajuda , como se todos tivessem as mesmas condições de vida dele, a mesma situação profisisional, e pudessem se dar ao luxo de


" trabalhar por conta própria, fazer a sua agenda, não sofrer pressão de chefe, não precisar viajar e se distanciar de sua família".

Ora minha gente, que é isso????
Só para quem não sabe como é a vida de jornalista: constatações de RobertoHeloani, professor da Fundação Getúlio Vargas, da Universidade Estadual de Campinas e da Unimarcos (São Paulo), em tese de pós-doutorado pela Escola de Comunicações e Artes da USP --Mudanças no mundo do trabalho e impactos na qualidade de vida do jornalista.
De 22 jornalistas amostrados, nove trabalham de 41 a 50 horas semanais e oito até 60 horas. Apenas cinco têm jornada de até 40 horas na semana. A média de horas trabalhadas diariamente chega quase a 10 horas, muito superior à carga fixada por legislação (cinco horas) com permissão de mais duas extras.
Como eu já havia dito no meu artigo, os ares de Brasilia realmente tornam as pessoas muito fantasiosas, especialmente as que conviveram tão perto do poder, como RK.
E pior, o Sindicato dos Jornalistas dá essa noticia sem nenhum comentário e nenhuma vergonha na cara.
Alias, aquela entidade da rua Rego Freitas, que para nada serve, seria de muita utilidade se cerrasse para sempre suas portas.

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Perguntas que não querem calar

Meu amigo residente na carioquissima Santa Tereza me envia essas questões....


"Buenas tardes. "Mi daikiri en la Floridita, mi mojito en la Bodeguita", dizia Hemingway. La Bodeguita del Medio. O mar do Caribe explodindo suas ondas no Malecon. La Habana Vieja. Sierra Maestra, La Revolución, A Baía dos Porcos, o Bloqueio Naval, o Embargo, Guantánamo, Che deixa a vida revolucionária e vira mito. Fidel, el Comandante en Jefe, praticamente agoniza. E o regime, resistirá depois dele? Que me dizes? É verdade que sempre haverá a música e o cinema, Pablo Milanez, Silvio Rodriguez, Wim Wenders e o Buena Vista Social Club. Ry Cooder, Ibrahim Ferrer, Compay Segundo, Rubén González, Barbarito Torres e Omara Portuondo, é claro.

Meanwhile, os ianques já estão em plena corrida presidencial. Estamos ainda nas primárias, mas se o quadro permanecer assim - republicanos divididos, excesso de candidatos, (Mac Cain, Romney, Huckabee, Giuliani, Thompson) nenhum deles querendo o Bush por perto - arrisco a dizer que o próximo ocupante da Casa Branca será Hillary Clinton ou Barack Obama. Qualquer um deles, que conseguir a indicação do Partido Democrata ganhará a eleição. E o mundo vai respirar mais aliviado. Os EUA saem do Iraque e assinam o Protocolo de Kyoto. E o Bush some no Texas, de onde nunca devia ter saído. I hope so. What about you?

Enquanto isso, aqui nos trópicos, sob a canícula inclemente, abro a internet e vem a pergunta que não quer calar (por que no te callas?):
- Quem você mandaria para o paredão do BBB nesta terça?
Eu mandaria o ex-coleguinha Bial e o Boninho (aquele que gosta de jogar ovo podre nos pobres - jeter les oeufs par les fenêtres).
Era o que tínhamos a declarar.

Besos,

Steps "

terça-feira, janeiro 08, 2008

O amor nos tempos do cólera

"Os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos".
Gabriel García Márquez

domingo, dezembro 16, 2007

Sidarta Gautama, o Buda

Estátua do Buda Amida, o Buda da Luz Imensurável

Não acrediteis numa coisa apenas por ouvir dizer.
Não acrediteis na fé das tradições só porque foram transmitidas por longas gerações.
Não acrediteis numa coisa só porque é dita e repetida por muita gente.
Não acrediteis numa coisa só pelo testemunho de um sábio antigo.
Não acrediteis numa coisa só porque as probabilidades a favorecem ou porque um longo hábito vos leva a tê-la por verdadeira.
Não acrediteis no que imaginastes, pensando que um ser superior a revelou.
Não acrediteis em coisa alguma apenas pela autoridade dos mais velhos ou dos vossos instrutores
Mas aquilo que por vós mesmos experimentastes, provastes e reconhecestes verdadeiro
Aquilo que corresponde ao vosso bem e ao bem dos outros –
Isso deveis aceitar, e por isso moldar a vossa conduta.


sábado, dezembro 15, 2007

Colagem Tide Hellmeister


Declaração


Abúlica, nevrálgica, efêmera

Helênica, epidérmica, esdrúxula

Itálica, inédita, neófita

Ínclito, másculo, cáustico

Seráfico, trópico, feérico

Amor às proparoxítonas

sábado, dezembro 08, 2007

Mar de gente


Quando o homem entender onde está inserido, entenderá que é eterno.


Ivaldo Bertazzo



quarta-feira, novembro 28, 2007

Suplemento Literário-Que falta ele faz! Artigo no Estadão

Páginas que revelam uma época

Autora discute legados do Suplemento Literário, editado nos anos 50 e 60

Luiz Zanin Oricchio e João Luiz Sampaio

Que Falta Ele Faz! É esse o significativo subtítulo do livro de Elizabeth Lorenzotti sobre o Suplemento Literário do Estado de S. Paulo, marco do jornalismo literário brasileiro que circulou de 6 de outubro de 1956 a 17 de dezembro de 1966, deixando um legado de textos até hoje atuais e saudades em leitores e colaboradores. O estudo de Elizabeth, porém, não se quer saudosista ou nostálgico. A pesquisadora entende que a compreensão daquele que foi um modelo de excelência no passado pode servir de inspiração para o presente, mesmo que seja neste mundo veloz de hoje.

Idealizado por Antonio Candido e dirigido por Décio de Almeida Prado, o Suplemento Literário mantinha em seu quadro de colaboradores fixos nomes como Wilson Martins, Paulo Emilio Salles Gomes, Ruy Coelho e Lívio Xavier, autores que se tornaram paradigmas em suas áreas de atuação específicas - a crítica literária, a cinematográfica, a antropologia, etc. Um dos segredos do SL foi fazer de suas páginas ponto de encontro dos maiores talentos de uma geração.

Suplemento Literário - Que Falta Ele Faz! (Imprensa Oficial, 208 págs., R$ 40) traz um histórico da publicação e das condições sociais e culturais na época da sua aparição. Inclui entrevista inédita com Antonio Candido e uma cópia do projeto inicial do suplemento apresentado a Julio de Mesquita Neto, então diretor do jornal. E, sim, a cereja no bolo - um conto do então candidato a escritor Francisco Buarque de Holanda. O autor de Estorvo, na época já famoso como cantor e compositor de A Banda, era um neófito como ficcionista. Estreou no Suplemento Literário, com um conto chamado Ulisses, na edição de 30 de julho de 1966. Abaixo, trechos da entrevista com Elizabeth Lorenzotti, que lança o livro na quarta-feira, a partir das 17h30 , no hall do Auditório Simon Bolívar, no Memorial da América Latina.

A sra. lembra que uma das características principais do Suplemento Literário era sua autodefinição como "suplemento artístico e não jornalístico". O que significava isso?

Já existia no jornal uma seção, Letras e Artes, dedicada basicamente ao noticiário jornalístico. O Suplemento, desde o projeto de Antonio Candido identificado como Suplemento Literário e Artístico d?O Estado de S. Paulo, pretendia ser uma pequena revista semanal de cultura. Mas já no plano inicial, Candido frisava que se devia evitar dois extremos, "o tom excessivamente jornalístico e o tom excessivamente erudito". O primeiro, porque não pesaria na opinião, não contribuiria para criar hábitos intelectuais, não colocaria o leitor em contato com o pensamento literário; o segundo, porque seria de leitura penosa. Considerava que quase não havia revistas literárias no Brasil, e os suplementos de jornais funcionavam como sucedâneos delas. O texto de apresentação do primeiro número frisava: "O Suplemento não será jornalístico, nem no alto nem no baixo sentido do termo." E continuava Décio de Almeida Prado: "O jornal, por definição, por decorrência, poder-se-ia dizer, da própria etimologia da palavra, vive dos assuntos do dia (...) A perspectiva do Suplemento tinha, pois, de ser outra, mais desapegada da atualidade, mais próxima da revista que, visando sobretudo a permanência, pode dar-se ao luxo de considerar mais vital a crônica dos amores de um rapaz de 18 e uma menina de 15 anos na Verona pré-renascentista, do que qualquer fato de última hora, pelo motivo de que as crises, as guerras, até os impérios, passam com bem maior rapidez que os mitos literários, muitos dos quais vêm acompanhando e nutrindo a civilização ocidental há pelo menos 30 séculos." Essa concepção não é de fácil assimilação para nós hoje, o que já acontecia na época, aliás. O próprio Décio, em entrevista de 1997, afirmava que existiam reclamações , "dizia-se que não era jornalístico, que falava de coisas que não interessavam ao leitor comum". Mas na verdade interessaram muito a quem estava de alguma forma ligado às letras, às artes plásticas, à música, ao cinema, ao teatro, à dança. Encontrei e encontro pessoas que mantêm coleções do Suplemento em casa, que estudaram nele e o utilizaram para dar aulas.

Qual acha que foi o papel do Suplemento Literário na efervescência da vida cultural da época? Ele a influenciou ou foi apenas reflexo de uma época também bastante rica? Qual o papel do SL ao lado de outros suplementos, como o do Jornal do Brasil, por exemplo?

Creio que o Suplemento Literário foi uma via de duas mãos: influenciou e refletiu essa época rica de desenvolvimento em todos os setores da vida do País. Com seu projeto (equilibrado, como diz Antonio Candido, entre a tradição e a inovação) refletindo a discrição e a sobriedade de seus idealizadores, conseguiu dar uma idéia do panorama nos Estados, sem descuidar-se do foco internacional. Aliás, acompanhar o que acontecia nas artes e nas letras do exterior foi uma das grandes contribuições do Suplemento, numa época em que a tecnologia das comunicações ainda engatinhava. O Suplemento Dominical do Jornal do Brasil teve igual importância. Entretanto, era uma publicação de combate, de movimentos. O SL realizou uma fórmula paulista, com um tom universitário. Como diz Antonio Candido, acolheu a vanguarda, mas esteve sempre ligado a uma espécie de linha média das concepções literárias.

Em que medida seria possível pensar a vida cultural de São Paulo tomando como ponto de partida e de referência a criação e o desenvolvimento do projeto do SL?

A São Paulo de fins dos anos 50 era uma cidade que ainda não se descentralizara. Até a segunda metade dos anos 1960, no grande quadrilátero formado pelas avenidas Angélica, Brigadeiro Luiz Antônio, Paulista e São João, concentravam-se não apenas comércio e serviços, como sobretudo os principais equipamentos culturais da cidade: universidades, bibliotecas, teatros, cinemas, livrarias, redações e sucursais de jornais, etc. Intelectuais, artistas, jornalistas encontravam-se no barzinho do MAM, na Rua Sete de Abril, instalado no mesmo endereço do Masp, fundado um pouco antes, em 1947, por Assis Chateaubriand e Pietro Maria Bardi. Desde a década de 50, a redação do Estadão ficava na Rua Major Quedinho; na Alameda Barão de Limeira, o grupo Folha; na Rua João Adolfo, a Editora Abril; mais tarde, na Avenida São Luís, as sucursais de O Globo e Jornal do Brasil. Ainda no centro velho, as agências internacionais; na Nestor Pestana, o auditório da TV Excelsior. E, claro, as livrarias, nas imediações da Biblioteca Mário de Andrade. Subindo um pouco a Consolação, a Filosofia da USP, na Rua Maria Antônia. Esse ambiente cultural - que vinha da Semana de Arte Moderna de 1922, dos anos 30, com a criação do Departamento de Cultura; do TBC, da Vera Cruz, nos anos 40, da revista Clima - do mesmo grupo de estudantes da USP que se tornariam os colaboradores do SL; dos museus, das bienais - alcançou a década de 60 ampliado, transformado, evoluído, assim como a cidade que crescia, não era mais uma província. A redação do SL era um centro animado de discussões. E o Suplemento, um veículo transmissor de idéias, um intermediário, um mediador cultural que teve seu importante papel na reflexão e na difusão da crítica cultural da cidade e do País.

Se o livro se preocupa em mostrar que o Suplemento Literário é fruto de uma época, de um momento específico, será que cabe a nostalgia que perpassa o texto, desde o título (Que Falta Ele Faz!), e a tentativa de julgar os cadernos culturais atuais tendo o SL como referência?

O título foi sugerido pelo artista Tide Hellmeister, que fez a capa do livro, ele mesmo um ex-colaborador do Suplemento. Tide traduziu o sentimento da maioria das pessoas com as quais falei. Na verdade, esta é uma preocupação minha com a recepção do livro: pensarem que se trata de algo nostálgico, um carro com os faróis voltados para trás, que de nada vale para jogar luz na nossa acidentada estrada do século 21. Não! Resgatar a história serve e servirá sempre para iluminarmos o presente e o futuro. E, sempre à luz do espírito crítico, clarear, recuperar experiências boas ou más, peneirar, transformá-las. Não é verdade que o leitor de hoje não gosta e/ou não tem tempo de ler textos mais reflexivos, densos e, portanto, maiores. Vivemos um tempo em que as pessoas estão ávidas por saídas, e saída só se encontra pensando e lendo o que pensa o outro. Arte e cultura não são separadas da vida, não constituem só uma indústria. São legados imemoriais. A mídia, que tanta responsabilidade carrega, tem o dever de rever sua história e abrir mentes e corações para novas experiências que ajudem o homem a se tornar mais humano.

O SL poderia ter-se adaptado à nova época ou seu fim era inexorável? Quais seriam as possibilidade, hoje, de um caderno cultural de mesmo nível, adaptado à realidade do presente? Ou, mudando o enfoque da questão: a sra. acha que o SL pode servir como inspiração para o jornalismo cultural de hoje, sem que se caia na nostalgia, sempre paralisante, dos "bons tempos" e de uma época de ouro que já passou e não volta mais?

O Suplemento cumpriu o seu papel na sua época. Poderia, sim, ter se adaptado aos novos tempos, se as mudanças não tivessem se imposto, no jornalismo, na tecnologia, na economia, na política, na chamada indústria cultural, no País, no mundo enfim, de forma tão abrupta. Não tenho dúvida de que essa experiência pode ser retomada. Não tenho dúvida de que grupos de pessoas podem transformar radicalmente as coisas em qualquer setor da vida humana. E para melhor. Algo se perderia em moeda? Talvez sim, talvez não. Mas certamente muito se conquistaria em reflexão, pensamento crítico, maior compreensão e contribuição para a cultura que, no fim, significa maior contribuição ao esclarecimento e à ampliação de horizontes de leitores que, sim, agradeceriam. A internet é um veículo que conquista, cada vez mais, possibilidades para várias experiências. Setores representativos do pensamento de várias correntes da sociedade e de seus múltiplos movimentos culturais também abrem seus caminhos em publicações próprias, mostrando aspectos que quase nunca chegam à chamada grande imprensa. Mais cedo ou mais tarde os jornais trilharão o caminho, já apontado por especialistas há algum tempo, da análise, da opinião, da crítica, enquanto a notícia ficará por conta de veículos mais ágeis. E que papel importante esse, o da reflexão e do reconhecimento da pluralidade. É quando uma experiência como a do Suplemento Literário poderá ser resgatada, em papel, que é muito melhor de se ler, reunindo os novos críticos e pensadores da literatura, do cinema, do teatro, das artes e os que já trilharam várias estradas, para repassarem sua experiência
.


Equilíbrio entre tradição e inovação

Para Antonio Candido, que elaborou o projeto, eis a fórmula que explica o sucesso do trabalho no jornalismo cultural do País

Ubiratan Brasil

Autor do planejamento que resultou no Suplemento Literário, o crítico Antonio Candido foi um dos responsáveis pela criação de um espaço privilegiado para debate de idéias,surgimento de novos autores e revisão dos consagrados. Aos 88 anos, ele lembra que o SL, como era carinhosamente conhecido o suplemento, tinha uma posição de equilíbrio entre tradição e inovação.

'Naquela época, São Paulo não tinha a densidade cultural do Rio', comenta ele, em entrevista ao Estado. 'O SL foi uma tentativa de fundir o tom de jornal com o de revista.'

Como foi seu trabalho de estruturação do Suplemento Literário, ou seja, a definição das áreas, seções e escolha dos principais colaboradores? A divisão se seções foi inspirada em Clima?

Não pensei em Clima, embora alguns dos encarregados de suas seções tenham vindo para o SL. A escolha das seções é diferente. A de Clima segue os setores habituais: Livros, Teatro, Cinema, Música, Artes Plásticas, Economia e Direito. A do SL compreende quase todos eles mas privilegia a literatura referida ao lugar de origem, tanto exterior quanto interior: Letras Alemãs, Francesas, Anglo-Americanas; Letras de Pernambuco, de Minas etc. Foi uma inovação que deu abrangência à matéria.

Já em sua diretriz estava claro que o Suplemento não se confundiria com o jornalismo diário. Qual era propriamente o seu objetivo?

A diretriz que norteou o plano foi a seguinte: São Paulo naquele tempo não tinha a densidade cultural do Rio, onde se concentrava o mais vivo da literatura e das artes. Não valeria a pena, portanto, pensar uma fórmula 'de movimento', como a que caracterizava, por exemplo, o famoso suplemento do Jornal do Brasil. A maior contribuição de São Paulo era a cultura universitária, mas não havia aqui revistas culturais importantes, nem na USP nem fora dela. Sendo assim, era recomendável tentar uma espécie de equilíbrio entre o movimento vivo da literatura e das artes e a tonalidade mais estável dos estudos universitários. O SL foi uma tentativa de associar as duas dimensões de maneira criativa e acessível, fundindo o tom de jornal com o tom de revista.

Que tipo de orientação recebiam os colaboradores quanto à escolha do assunto e à forma de escrever?

Os colaboradores eram livres para escrever sobre o que quisessem, da maneira que quisessem. Havia apenas o pedido de clareza e, na seção de resenhas, normas de apresentação da matéria e dos dados bibliográficos.

Não existe obra sem consciência da linguagem ou das linguagens que utilizará. Como o Suplemento evitou o rebaixamento do discurso que, de tempos em tempos, ameaça a integridade do pensamento?

Por isso mesmo a seleção dos colaboradores foi cuidadosa. Foram convidados sempre autores de boa qualidade, que mantiveram o nível característico do SL. Na escolha para as seções, por exemplo, consultei diversos amigos. Lembro que Egon Schaden, professor de Antropologia da USP, sugeriu para Letras Alemãs Anatol Rosenfeld, então praticamente desconhecido, que foi um dos principais colaboradores e ganhou fama por meio do SL. O escritor Antonio Olavo Pereira sugeriu alguns nomes, entre os quais Brito Broca para Letras Francesas e Willy Levin para Letras Anglo-Americanas. Para Letras de Minas, o historiador Francisco Iglesias indicou Afonso Ávila, e assim por diante. Como vê, a preparação foi cuidadosa e eu procurei reunir pontos de vista consensuais. Por isso erramos pouco, o nível se manteve e o SL acolheu colaboradores de várias partes do Brasil.

De que forma o Suplemento exibia, como o senhor lembrou em algumas oportunidades, a marca pessoal de Decio de Almeida Prado?

O SL nasceu de uma conversa que tive com o saudoso José Vieira de Carvalho Mesquita, que trabalhava no departamento financeiro e era um rapaz encantador. Eu censurei o jornal por não ter um suplemento literário, que me parecia indispensável devido à sua responsabilidade no terreno da cultura. Daí veio tempos depois o convite para planejá-lo e dirigi-lo, num exemplo de como os Mesquita souberam transformar a crítica bem intencionada em fator de aperfeiçoamento. Aceitei a primeira parte, não a segunda, e lembrei o nome de Décio de Almeida Prado, aceito calorosamente. Ele foi competentíssimo, criando uma atmosfera de dignidade com a sua abertura de espírito, a sua acuidade crítica, o seu raro equilíbrio e a força da sua personalidade harmoniosa. Na verdade, o êxito do SL foi devido a ele.

A diagramação era inovadora e austera ao mesmo tempo. Como foi a definição do projeto gráfico?

Eu estava meio perplexo com relação a este aspecto, alheio ao meu conhecimento, quando minha mulher, Gilda de Mello e Souza, lembrou o nome de Italo Bianchi, que assumiu a tarefa e foi responsável pela fórmula que a sua pergunta caracteriza bem e correspondia ao espírito do plano. Foi obra dele.

O senhor acredita que o Suplemento Literário continua sendo a vanguarda do jornalismo cultural brasileiro?

Não digo vanguarda, porque o SL tinha uma posição de equilíbrio entre tradição e inovação. Foi assim que acolheu os poetas do Concretismo, mas esteve sempre ligado ao que se pode chamar de linha média das concepções literárias. Esta fórmula compreensiva talvez tenha sido um dos motivos que fizeram dele o melhor suplemento do jornalismo brasileiro do seu tempo, graças, repito, à orientação firme de Décio de Almeida Prado. E é preciso dizer que também contribuíram os padrões de remuneração, elevados para o tempo, que permitiram interessar colaboradores de qualidade.