sábado, novembro 20, 2010

O cinema argentino é o maior

Já viram O segredo dos teus olhos?
Acabo de ver Dos Hermanos, de um diretor de 37 anos. Delicadeza, sensibilidade, simplicidade, emoção. Vida cotidiana. Dores da família , e também alguma delícia.
Já começa com uma reunião de condominio- é genio.
O cinema argentino dá de 10 nesse aqui de tropas de elite e tudo o mais. O único que gostei nos últimos tempos foi a recriação de Cinco Vezes Favela, por moradores favelados com ajuda de cineastas. Mas Cinco Vezes Favela já tem história. O resto o que é? Com exceção de Ugo Giorgetti, que está para lançar um filme sobre o cotidiano na ditadura, e deve ser ótimo, como tudo o que faz.



Dos hermanos (2010)
Direção: Daniel Burman
Roteiro: Daniel Burman e Sergio Dubcovsky, baseado no romance "Villa Laura", de Sergio Dubcovsky
Atores: Graciela Borges e Antonio Gasalla

O beat e sua visão de mundo

"Tudo me pertence, porque eu sou pobre"

Jack Keoruac, em Visões de Cody (L&PM, 2009)

Agora, pergunto se esse escritor merece que sua obra mais famosa, On The Road, seja filmada por banqueiro junior cineasta.

quinta-feira, novembro 18, 2010

Coleman Hawkins, ou The Bean




Um dos preferidos do pessoal da beat generation.

Sutra Zen

quarta-feira, novembro 17, 2010

William Blake

No ano passado estive em uma exposição sobre William Blake, no Petit Palis, em Paris. Chamava-se O gênio visionário do romantismo inglês, com sua grande poesia e pintura, e também o filme Dead Man, de Jim Jarmush, que eu não conhecia.Grande filme.

Com Johnny Depp, conta a jornada física e espiritual de William Blake, homem que passa por situações tragicômicas no Velho Oeste após acidentalmente matar o filho de um figurão. Ferido, recebe a ajuda do estranho índio Nobody, que acredita ser ele o poeta homônimo do século 19.



segunda-feira, novembro 15, 2010

"Elas querem é biscoito?":anotações para um revival do glorioso Teatro de Revista

Por ordem de entrada :Virginia Lane,Carmen Miranda,As Frenéticas, Jorge Benjor, Rita Lee,mais elenco do fantástico "Tem Bububu no Bobobó", Ankito, Mara Rúbia, Colé, Gracinda Freire, entre outros.



Virginia Lane, a Vedete do Brasil. "Sassaricando" .Cena do filme Tudo Azul,1952, dirigido por Moacyr Fenelon.
A Vedete do Brasil se retira e, por uma escadaria em forma de ferradura, descem duas vedetes vestidas apenas com dois pares de maracas -- cada uma por um dos braços da escadaria, ao som de "Soy loco por ti América". Param e ficam dançando em volta de um grupo de pessoas discutindo, dentro de um enorme computador. Ouvem, curiosas, enquanto continuam a dançar:
-Intelectual considerado de esquerda:
Não tenho problema nenhum em declarar que dificilmente exista alguém mais ateu que eu. Mas reconheça-se a importância da TV Record para o equilíbrio de forças no Brasil de hoje, com excelentes jornalistas como Luiz Carlos Azenha e Rodrigo Vianna. Fundamentais.
-Claque do intelectual considerado de esquerda:
BRAVO ! BRAVO ! BRAVO !
-Voz discordante 1:
Prefiro, ao mesmo tempo em que elogio os jornalistas citados, manter um pé atrás. Não duvidaria nada , tendo em vista o passado do Bispo, que ele fosse capaz de usar os mesmos expedientes da Globo.

Intelectual considerado de esquerda, de agora em diante identificado pelas iniciais ICE:
Difícil saber, porque "ser uma nova Globo" incluiria apoiar um golpe de estado, juntar-se ilegalmente ao capital estrangeiro, esconder e fomentar a tortura durante 15 anos, apresentar um comício das Diretas como se fosse aniversáriode SP, editar criminosamente um vídeo final de campanha presidencial, esconder o maior acidente aéreo da história do país e tentar transformar uma bolinha de papel em projétil, entre otras cositas más.
-Voz discordante 1:
Bem, para que a Record fizesse tudo isso, se exigiriam muitos anos de poder e monopólio. Mas a questão me parece outra: se oferecêssemos tais condições ao bispo, será que ele se indignaria com a indecência de tal proposta?Acho difícil acreditar que a Record esteja promovendo um bom jornalismo em nome da ética e de ideais progressistas; parece haver, isso sim, uma tentativa de fazer um contraponto à Globo.
- ICE
O .fato é que, no jornalismo da Record, MST não vira bandido, telejornal não vira propaganda eleitoral da direita e bolinha de papel não vira projétil. Se a intenção é fazer contraponto ao jornalismo da Globo, seduzir o leitor, promover a ética ou dominar o mundo diz muito pouco sobre o fato. Interessa-me o fato.
-Voz discordante 1
Eu considero as ações promovidas pela Igreja deles tão inescrupulosas quanto o jornalismo golpista da Globo...


-Voz discordante 2
O problema é que a origem do dinheiro da Record não é santa, assim como a da Globo, e não adianta querer encobrir. Não gosto da filosofia dos fins que justificam os meios.Nao gosto desse tipo perigoso de pragmatismo.Concordo que os jornalistas citados são profissionais competentes, mas só começaram a criticar a Globo após sairem de lá. Assim como não tocam em qualquer escândalo proveniente da Record.E não publicam comentários desse tipo nos seus blogs: tenho um amigo que falou o que estou falando no blog de um deles e não foi publicado. Não dá pra esquercer dos sacos de dinheiro arrecadados pelos tais bispos no Maracanã anos atrás, assim como das malas de dinheiro que um deputado deles levava, em outro escândalo. O apresentador do telejornal deles argumentou defendeu dizendo que eram notas pequenas, e o deputado tinha de carregar na mala mesmo...

Vedetes com as maracas começam a cantar , acompanhando a entrada triunfal de
ninguém menos que a PEQUENA NOTÁVEL, Carmen Miranda, senhoras e senhores!


Voz discordante 1

Não esqueço o evento que fizeram em 21 de abril no Rio de Janeiro, paralisando tudo.Informaram as autoridades que haveria 100 mil pessoas e houve 2 milhoes.O Rio ficou atravancado. E em pleno dia de São Jorge guerreiro. Li no jornal no dia seguinte que um funcionário da Prefeitura era da Igreja, e foi um dos responsáveis pelo furdunço. Desculpe, mas não vou defender as ações desses detentores desta concessão só para me contrapor à Globo. E só porque eles apoiam Lula. Minha ética não permite.

Cortinas se fecham e abrem em seguida, e uma vedete entra carregando uma placa onde está escrito: Passadas 21 horas. Madrugada.

- Voz discordante 1
Mas, após 21 horas, o silêncio aqui é retumbante. Só posso concluir que quem cala consente,ou os companheiros não querem meter a mão em cumbuca.

ICE
Existe uma terceira possibilidade, as pessoas escolhem em quais polêmicas querem entrar. Algumas não valem a pena. Mas tenho a dizer que a Constituição garante o direito de livre e pacífica associação nas ruas. Lamento que esse princípio constitucional lhe cause incômodo. Quanto à não publicação de comentários discordantes nos blogs dos jornalistas citados, eu sugiro que você teste por si mesma, ao invés de por ouvir falar. Pra quem quer dar lições de ética, não fica muito bem fazer acusação baseado em fato relatado por segunda mão.
Voz discordante 1
Olhem só, silêncio retumbante de dias quebrado finalmente. E de maneira bem grosseira para um professor tão incensado. Não está acostumado com discordâncias à esquerda? Pelo que vejo, em todos os seus meios via net, encontra sempre a unanimidade.Que chato não? Continue defendendo os bispos e sua demonstração de poder pelo Brasil afora, assim igualmente concordará com sua lavagem de dinheiro. Ser ou não ateu abolutamente, nada tem a ver com esta discussão. Mesmo porque, esta não é uma discussão sobre RELIGIAO, mas sobre PODER. Eu prefiro nadar contra a maré da unanimidade. Isso nunca trouxe frutos aproveitáveis, só puxação de saco intelectual.
-ICE:
Nunca ouvi falar em você, não sei quem você é. E é absolutamente legal e legítimo, caso você não saiba, que um funcionário de uma prefeitura seja membro de uma Igreja!

-Voz discordante 1
Calma professor, que feio perder o eixo. Voce tem o direito de opinar, não de distorcer imaginando coisas que ocorreram naquele dia no Rio.E você nao sabe mesmo o que é liberdade de expressão, me consta que: manifestações do leitor devem ser publicadas e respondidas. Não é o que ocorre na grande imprensa, estamos cansados de saber.Por que os blogueiros independentes repetiriam? Um abraço e fique calminho, seja zen.
Entram , resplandescentes, As Frenéticas .


ICE
CRESÇA E APAREÇA. Faça um blog com 50.000 acessos diários, centenas de comentários, e aí depois dite regras. Muito fácil publicar e responder tudo num blog que está às moscas, como o seu!
Voz discordante 1
Vou encerrar: se um intelectual não polemiza com outra pessoa não em função das ideias opostas à sua, mas apenas porque não sabe quem a pessoa é, não há como. Não está acostumado ao debate franco. É legitimo que um funcionário da Prefeitura pertença à Igreja. Não é legitimo que use dessa prerrogativa para prejudicar a população e defender os interesses da Igreja. Isso está na Constituição e se chama prevaricação.
O mundo é feito de diversidade. Não basta pregar sua defesa, tente exercitar
ICE
Informe-se sobre: 1) ...Direito de ir e vir nas ruas. 2) Direito de cada blogueiro publicar o que quiser em seu próprio blog. 3) Direito de cada funcionário público pertencer à religião que quiser. 4) Direito de seguidores de qualquer religião irem às ruas.
Voz discordante 1
Tsc, tsc, melhor parar professor, está muito fora do eixo. Faz questao de ser desentendido, só posso concluir.
ICE
Mostre onde a Constituição proíbe que um funcionário de prefeitura pertença a uma igreja que organizou uma manifestação pública e pacífica. Repito: leia a Constituição. Qual foi o uso de cargo público em benefício próprio?
Voz discordante 1 :
Eu redisse e tredisse que a Constituição proibe usar cargo público em benefício póprio. Mas que lamentável, defender tão ardorosamente tipos que construíram um império com dinheiro dos pobres iludidos.
Entra Jorge Benjor, aliás devoto fiel de São Jorge de Ogum


ICE
Qual foi o uso de cargo público em benefício próprio? Nome do funcionário e qual foi o uso que ele fez do cargo?"
Voz discordante 1
Um momentinho que vou buscar no meu blog e nos jornais do dia. Mas acho você um tanto policialesco...
ICE
POLICIALESCO? Você faz uma acusação sem provar e eu sou policialesco? Olha, chega. Isso aqui é trollagem da pior categoria. Tchau pra você."
Entrada triunfal de Rita Lee Jones


Coro de 10 vedetes vestidas apenas com suas maracas cercam o ICE, que deleta a voz discordante. Ela desaparece da tela do computador e nunca mais poderá vê-lo.
Cena final, como todos os artistas no palco e mais:




O grand finale de "Bububu no Bobobó", que revive os anos dourados do Teatro de Revista no Brasil. Ankito, Mara Rúbia, Colé, Gracinda Freire, entre outros. Filme dirigido por Marcos Farias em 1980.



domingo, novembro 14, 2010

Carta ao pai

Escrita por Marina Gonçalves Garrote, 15 anos, obra de ficção para a aula de teatro do Colégio Santa Cruz, em São Paulo.
Marina diz que ama de paixão Clarice Lispector.


Querido Pai,
Não há como por em palavras o quanto é difícil escrever esta carta, principalmente devido à distância que se criou entre nós. Distância entre nós mesmos, e entre o que já fomos um dia. Ainda mais difícil que isso é não te culpar por essa distância, não dirigir a você toda minha mágoa, meu ódio, meus choros engasgados, e, quando minhas mãos não querem parar de tremer, quando eu me abraço no escuro tentando me proteger do que me devora por dentro, o culpado, criador desta distância é você. Em uma de nossas raras conversas, eu, cigarro aceso nas mãos, você, olhos cansados e insones, confessou que uma relação amorosa só funciona enquanto a outra pessoa o faz bem. No momento, mais pelo cansaço e pela ressaca tardia de sexta à noite, suas palavras não fizeram sentido algum, não tinham qualquer propósito. Foi ao chegar em casa, com minha mãe solitária como todas as noites, fingindo-me um sorriso para me consolar, que as palavras se juntaram e o sentido veio à superfície. Você estava tentando justificar porque as abandonara. Porque deixou-se ser passado de mão em mão, em meio a um corredor de mulheres amarguradas, violentadas, vazias, meras sombras de ser há muito mutilado, desprovido de qualquer sombra de identidade. Confesso que não apenas desprezei cada uma delas, como também cresci em meio às minhas manipulações e mentiras, em uma tentativa de afastar aquele bando de mulheres de você. Elas chegavam mascaradas, no baile do que você tanto chama de amor, sorriam o tempo todo, e você sorria também. Em algum momento, sem qualquer motivo passível de ser o causador, as máscaras começavam a rachar. Todas, exceto uma. A sua. E o artista, ao contemplar sua obra, aquelas tristes mulheres, de estilo quase surrealista, miseráveis, aquela obra cheia de humor negro, fugia assustado. Aquilo não podia ser amor, simplesmente não era, não o fazia bem. Elas não mereciam amor, apenas desprezo, aqueles seres de interiores horríveis, apenas visíveis após a queda das máscaras, pernas, braços, seios, corações distorcidos. Aquilo não se encaixava no que você desejava. E era aí, então, que você sentava para a tradicional conversa, na mesma mesa de canto, da nossa padaria favorita. Falava para duas crianças, sobre a complexidade das relações adultas, que estavam muito fora do alcance daquelas pessoinhas, rechonchudas, de aparência. Pessoinhas que, depois de tantas reviravoltas, haviam aprendido muito sobre o teatro da vida. O seu teatro. Elas aprenderam a fingir também, a manipular os outros e a si próprias. E mesmo com todas as mentiras, todas as mulheres partidas, nada disso era grave para mim. Você ainda era meu herói, em um pedestal reluzente, um mártir com o qual o destino teimava em ser cruel, o fazia perder empregos o tempo inteiro, rodar pelas cidades sem dinheiro suficiente para nos pagar uma comida, sem qualquer saída.
Eu nunca tinha entendido como seu amor se transformava tão rapidamente em ódio. Até o dia em que tirei minha máscara, já gasta, muito velha. Nunca me arrependi tanto de ter feito algo como o que fiz naquele dia. Porque, assim que eu tirei minha máscara, você viu em minhas faces, de traços cada vez mais femininos, o reflexo do que você mais temia. Fragmentos da mulher original estavam lá, a primeira do baile, a mais odiada, de mais horrendo interior. A minha mãe. A partir daí, ando sobre rochas, tentando não sentir o horror que é não mais fazê-lo feliz. O passado é apagado a cada queda, a cada rompante de choro, a trágica verdade pulsando cada vez mais em mim, lutando para sair, para que eu grite. Eu fico quieta.
O silêncio me traz pesadelos, me ensurdece, e cada vez as imagens são piores. A insônia, demônio rastejante que sempre te atormentou, agora me faz companhia. Morro um pouco mais a cada noite mal dormida, a cada levantar súbito, abraçando a mim mesma para aprisionar o que tanto quer sair, o que me devora, me tortura, lentamente me consumindo.
A morte agora é próxima, Pai, e você sabe. A última vez na qual nos vimos, nem mais um sorriso você tentou fingir, nem mais forças você teve para me abraçar.
Eu, sinceramente, espero que algum dia, eu possa te perdoar, pela criação do maldito abismo para o qual sou arrastada a cada manhã, abismo sobre o qual tentei construir uma ponte, uma identidade, um ser, e não esse fragmento de mentiras que teima em botar as últimas palavras que você talvez leia em um guardando imundo, em um bar qualquer.
Eu te amo, Pai.
Maria Antonieta.

sexta-feira, novembro 12, 2010

Jack Kerouac para Charlie Parker: "Suspenda o exílio/ meu e de todo o mundo"

Belo poema do Jack. Me informa agora Claudio Willer que está em Mexico City Blues.
E me envia um trechinho traduzido:


Charley Parker, perdoa-me –
Perdoa-me por não responder a seus olhos –
Por não haver indicado
O que você poderia divisar –
Charley Parker, reze por mim –
Reze por mim e por todos
No Nirvana de seu cérebro
Onde você se esconde, indulgente e enorme,
Não mais Charley Parker
Porém o secreto indizível nome
Que carrega consigo o mérito
Não para ser mensurado daqui
Para cima, para baixo, para o leste, para oeste –
- Charley Parker, suspenda o exílio,
meu, e de todo o mundo


Achei alguns trechos na net, aqui vão, quando encontrar todo postarei, vale a pena.
Charlie Parker, diz Kerouac, parecia um Buda.
Ele era um Buda. O budismo diz que todos podemos ser Budas.
Certamente Kerouac foi um Buda também, por paradoxal que possa parecer. Mas as aparências enganam.

Charley Parker Looked like Buddha
Charley Parker, who recently died
Laughing at a juggler on the TV
after weeks of strain and sickness,
was called the Perfect Musician.
And his expression on his face
Was as calm, beautiful, and profound
As the image of the Buddha
Represented in the East, the lidded eyes,
The expression that says "All is Well"
- This was what Charley Parker
Said when he played, All is Well.
You had the feeling of early-in-the-morning
Like a hermit's joy, or like
the perfect cry
Of some wild gang at a jam session
"Wail, Wop" - Charley burst
His lungs to reach the speed
Of what the speedsters wanted
And what they wanted
Was his Eternal Slowdown.
A great musician and a great
creator of forms
That ultimately find expression
In mores and what have you.

Musically as important as Beethoven…(....)


(....) 'Charlie Parker, pray for me - /Pray for me and everybody/:
'In the Nirvanas of your brain
………/'
Charlie Parker, lay the bane,/off me, and every body/.'

Charley Parker, suspenda o exílio, meu, e de todo o mundo. Isso é puro budismo mahayana. Que não apenas eu, mas todos, possamos sair do exílio da ilusão. É muito bonito.


Contribuição luxuosíssima do china, que lembrou essa pérola no comentário

McLaren clássico, Vizinhos