segunda-feira, outubro 04, 2010

Um sonho dentro de um sonho

Edgar Allan Poe traduzido por Jorge Pontual


Sonho dentro de um sonho (1827)

Na testa toma o meu beijo!
E, agora que eu te deixo,
Confessar é meu desejo -
Não, não erras ao julgar
Que vivo só a sonhar;
Mas se a esperança voou
Na noite, no dia ou
Numa visão, ou nenhuma,
Não ficaria alguma?
Tudo o que vejo ou sonho
É sonho dentro de um sonho.

Estou de pé frente ao mar
Batendo no quebra-mar
E tenho nas minhas mãos
Areia que sinto em grãos -
Tão poucos! Mas como vão
Por meus dedos para o vão,
E choro em vão - choro em vão!
Ó Deus! como segurar
O que não posso agarrar?
Ó Deus! não posso salvar
Um grão desse cruel mar?
Será o que vejo ou sonho
Um sonho dentro de um sonho?


A Dream Within a Dream

Take this kiss upon the brow!
And, in parting from you now,
This much let me avow-
You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?
All that we see or seem
Is but a dream within a dream.

I stand amid the roar
Of a surf-tormented shore,
And I hold within my hand
Grains of the golden sand-
How few! yet how they creep
Through my fingers to the deep,
While I weep- while I weep!
O God! can I not grasp
Them with a tighter clasp?
O God! can I not save
One from the pitiless wave?
Is all that we see or seem
But a dream within a dream?

domingo, outubro 03, 2010

Quanto mais quente...

Sinopse: Billy Wilder, o genial mestre de todos os gêneros, reuniu elementos de filme de gângster, das mais tresloucadas comédias dos irmãos Marx e do romance mais sensual neste trabalho, eleito pelo American Film Institute a melhor comédia da história do cinema. Na década de 1930, em plena vigência da Lei Seca, dois músicos (Tony Curtis e Jack Lemmon) testemunham um massacre entre mafiosos e fogem de Chicago disfarçados de mulher. A caminho de Miami, conseguem trabalho numa banda feminina, cuja cantora é Marilyn Monroe, então no auge do estrelato. E isso só pode provocar muita confusão.
Grande Billy Wilder e elenco fantástico: Tony Curtis, Marilyn, Jack Lemmon...




E esta incrível cena final, com Tony Curtis e o maravilhoso Joe E. Brown:
"Eu não sou mulher"
"Ninguém é perfeito"...


Eu quero é

sexta-feira, outubro 01, 2010

Da maior importância

Os surrealistas e a noção do comércio



Trechos do texto O âmago de desejo, de Jorge Coli, In: J. Guinsburg; Sheila Leirner. (Org.). O Surrealismo. 1 ed. São Paulo: Perspectiva, 2008, v. 1, p. 751-758.
O professor da Unicamp era colunista da Folha, mas, naturalmente, dançou, me dizem.


"Quase todos os suportes materiais eram condenados: o trabalho era desprezado e as atividades jornalísticas ou para-jornalísticas eram assimiladas à traição"(A. Thirion. Revolutionnaires sans révolution).
Max Ernst e Miró são insultados ( por Bréton, nda) por causa de uma encomenda que aceitaram para cenários de balé, feita por Diaghilev. E no Segundo Manifesto, manifesto de anátemas, encontramos entre outros exemplos, o de Artaud: "ele fazia a montagem de O Sonho, de Strindberg, tendo ouvido fizer que a embaixada da Suécia pagaria (o sr. Artaud sabe que eu posso provar), e ele estava consciente que isso determinava o valor moral de seu projeto".

Os exemplos poderiam se multiplicar, mas o importante é que a noção de comércio ou venda, ligada à desonestidade ou à desonra, alarga e ultrapassa o quadro inicial do "ascetismo burguês".

Na realidade, trata-se de uma oposição à burguesia, à sociedade, por uma exigência extrema de honestidade para consigo mesmo, traduzida pela recusa a toda sedução que esteja contida neste mundo. Trata-se de conservar incólume a pureza primordial, para reencontrar a liberdade,esmagada pelo mundo exterior. Trata-se de se dispor, como homem e como artista, fora de qualquer submissão a tudo que possa exalar cheiro de lucro ou de rentabilidade monetária.
Salvador Dali assumiu e encarnou o anjo caído do surrealismo: objeto dos mais violentos anátemas de André Bréton - que o chamava pelo anagrama de Avida Dollars - não cessará jamais de provocar a ortodoxia bretoniana".

quinta-feira, setembro 30, 2010

Justiça condena Pimenta Neves a indenizar pais de Sandra Gomide em cerca de R$ 400 mil

(Mas ele continua à solta )

Do Uol
O Tribunal de Justiça de São Paulo condenou o jornalista Antonio Marcos Pimenta Neves a pagar indenização no valor de R$ 400 mil aos pais da jornalista Sandra Gomide. A decisão foi tomada nesta quinta-feira (30), por votação unânime. Pimenta Neves foi condenado por matar a ex-namorada, em agosto de 2000. A defesa disse que vai recorrer da condenação civil por entender que ela configura enriquecimento ilícito.
Em primeira instância, a juíza Mariella Ferraz de Arruda Nogueira, da 39ª Vara Cível, determinou que Pimenta Neves pagasse R$ 166 mil ao casal. Hoje, o Tribunal de Justiça aumentou o valor da indenização para R$ 220 mil, acrescidos de juros e correção monetária, o que eleva o valor da condenação para R$ 400 mil.
A família pedia o aumento do valor da indenização para R$ 300 mil. A defesa de Pimenta Neves queria a reforma total da sentença e a absolvição civil de seu cliente. Dois desembargadores votaram a favor do pedido na sessão anterior. O desembargador Vito Guglielmi havia pedido adiamento e hoje trouxe seu voto. Ele ponderou que o valor apontado por seus colegas (R$ 150 mil para cada um dos pais) era excessivo e desproporcional. A turma concordou.
Além da indenização, a juíza manteve parte do bloqueio dos bens de Pimenta Neves como forma de garantir o pagamento das indenizações.Os pais de Sandra Gomide alegam que ficaram doentes depois da morte da filha, tanto fisicamente quanto psicologicamente, tamanho o abalo moral sofrido.

A defesa de Pimenta Neves argumentou que o jornalista também é vítima, porque sofreu abalo psicológico e teve sua vida e imagem atacadas.

Carrossel das espécies-Ivaldo Bertazzo

Em cartaz no Sesc Pinheiros

terça-feira, setembro 28, 2010

Um hemisfério numa cabeleira

Cabeça de Leda, Leonardo da Vinci

Charles Baudelaire
Tradução Aurélio Buarque de Holanda

Deixa-me respirar longamente, longamente, o cheiro dos teus cabelos, mergulhar neles todo o meu rosto, como um homem sedento na água de uma fonte, e agitá-los com a mão como um lenço perfumado, para sacudir recordações pelo ar.

Se pudesse imaginar tudo o que vejo! Tudo o que sinto! Tudo o que ouço nos teus cabelos! Minha alma viaja no perfume como a alma dos outros homens viaja na música.

Teus cabelos encerram todo um sonho, povoado de velas e de mastros; encerram grandes mares, cujas monções me conduzem a maravilhosos climas, onde o espaço é mais azul e mais profundo, onde a atmosfera é perfumada pelos frutos, as folhas e a pele humana.

No oceano da tua cabeleira entrevejo um porto formigante de canções melancólicas, de homens vigorosos de todas as nações, e de navios de todas as formas, cujas arquiteturas finas e complicadas se recortam num céu imenso onde se repoltreia o calor eterno.

Nas carícias da tua cabeleira reencontro os langores das longas horas passadas sobre um divã, no camarote de um belo navio, acalentadas pelo imperceptível balouçar do porto, entre as jarras de flores e as bilhas refrigerantes.

Na lareira ardente da tua cabeleira o odor do fumo se mistura com o ópio e o açúcar; na noite da tua cabeleira vejo resplandecer o infinito do azul tropical; nas margens penugentas da tua cabeleira embriago-me com os aromas combinados do alcatrão, do almíscar e do óleo de coco.

Deixa-me morder por muito tempo as tuas negras e pesadas tranças.
Quando me ponho a mordiscar os teus cabelos elásticos e rebeldes, parece-me que estou comendo recordações.

"Os tempos estão duros para o artista" (Maiakovsky,1926)


Artigo de Geneton Moraes Neto, de 1996

Faz 70 anos. Vladimir Maiakovski, o poeta russo que enfiaria um balaço no peito no dia 14 de abril de 1930, aos 36 anos, produziu, em 1926, um poema belíssimo em homenagem ao também poeta e amigo Serguei Iessienin – que se matara três dias depois do Natal de 1925. Não se sabe o que é maior ali: se a tragédia de um suicídio consumado (e outro antevisto) ou se a beleza de versos encharcados de dor e esperança.
Maiakovski passou três meses escrevendo os versos de “A Serguei Iessienin” e o aniversário do poema foi o pretexto para que uma pequena legião de fãs corresse ao Museu Maiakovski, que está se tornado um endereço cult em Moscou.
Na tradução consagrada de Haroldo de Campos, o canto de Maiakovski ao amigo morto dizia: “Por enquanto / há escória de sobra. / O tempo é escasso mãos à obra. / Primeiro / é preciso / transformar a vida, para cantá-la / em seguida. / Para o júbilo / o planeta / está imaturo. / É preciso/ arrancar alegria ao futuro. / Nesta vida / morrer não é difícil. / O difícil / é a vida e seu ofício”.
Iessienin tinha deixado, como despedida, versos belos mas desesperançados – escritos, literalmente, com sangue, num quarto do Hotel Inglaterra, em Leningrado. Depois de cortar os pulsos e escrever os versos finais, ele se enforcou.
Cinco anos depois, o próprio Maikovski se matou. O bilhete de despedida dizia: “O incidente está encerrado. O barco do amor quebrou-se contra a vida cotidiana. Estou quite com a vida. É inútil passar em revista as dores, os infortúnios e os erros recíprocos. Sejam felizes”.

O sol nasce para todos