Charles Baudelaire Tradução Aurélio Buarque de Holanda
Deixa-me respirar longamente, longamente, o cheiro dos teus cabelos, mergulhar neles todo o meu rosto, como um homem sedento na água de uma fonte, e agitá-los com a mão como um lenço perfumado, para sacudir recordações pelo ar.
Se pudesse imaginar tudo o que vejo! Tudo o que sinto! Tudo o que ouço nos teus cabelos! Minha alma viaja no perfume como a alma dos outros homens viaja na música.
Teus cabelos encerram todo um sonho, povoado de velas e de mastros; encerram grandes mares, cujas monções me conduzem a maravilhosos climas, onde o espaço é mais azul e mais profundo, onde a atmosfera é perfumada pelos frutos, as folhas e a pele humana.
No oceano da tua cabeleira entrevejo um porto formigante de canções melancólicas, de homens vigorosos de todas as nações, e de navios de todas as formas, cujas arquiteturas finas e complicadas se recortam num céu imenso onde se repoltreia o calor eterno.
Nas carícias da tua cabeleira reencontro os langores das longas horas passadas sobre um divã, no camarote de um belo navio, acalentadas pelo imperceptível balouçar do porto, entre as jarras de flores e as bilhas refrigerantes.
Na lareira ardente da tua cabeleira o odor do fumo se mistura com o ópio e o açúcar; na noite da tua cabeleira vejo resplandecer o infinito do azul tropical; nas margens penugentas da tua cabeleira embriago-me com os aromas combinados do alcatrão, do almíscar e do óleo de coco.
Deixa-me morder por muito tempo as tuas negras e pesadas tranças. Quando me ponho a mordiscar os teus cabelos elásticos e rebeldes, parece-me que estou comendo recordações.
Faz 70 anos. Vladimir Maiakovski, o poeta russo que enfiaria um balaço no peito no dia 14 de abril de 1930, aos 36 anos, produziu, em 1926, um poema belíssimo em homenagem ao também poeta e amigo Serguei Iessienin – que se matara três dias depois do Natal de 1925. Não se sabe o que é maior ali: se a tragédia de um suicídio consumado (e outro antevisto) ou se a beleza de versos encharcados de dor e esperança. Maiakovski passou três meses escrevendo os versos de “A Serguei Iessienin” e o aniversário do poema foi o pretexto para que uma pequena legião de fãs corresse ao Museu Maiakovski, que está se tornado um endereço cult em Moscou. Na tradução consagrada de Haroldo de Campos, o canto de Maiakovski ao amigo morto dizia: “Por enquanto / há escória de sobra. / O tempo é escasso mãos à obra. / Primeiro / é preciso / transformar a vida, para cantá-la / em seguida. / Para o júbilo / o planeta / está imaturo. / É preciso/ arrancar alegria ao futuro. / Nesta vida / morrer não é difícil. / O difícil / é a vida e seu ofício”. Iessienin tinha deixado, como despedida, versos belos mas desesperançados – escritos, literalmente, com sangue, num quarto do Hotel Inglaterra, em Leningrado. Depois de cortar os pulsos e escrever os versos finais, ele se enforcou. Cinco anos depois, o próprio Maikovski se matou. O bilhete de despedida dizia: “O incidente está encerrado. O barco do amor quebrou-se contra a vida cotidiana. Estou quite com a vida. É inútil passar em revista as dores, os infortúnios e os erros recíprocos. Sejam felizes”.
A Pantera Rainer Maria Rilke (Trad. Augusto de Campos) (No Jardin des Plantes, Paris) De tanto olhar as grades seu olhar esmoreceu e nada mais aferra. Como se houvesse só grades na terra: grades, apenas grades para olhar. A onda andante e flexível do seu vulto em círculos concêntricos decresce, dança de força em torno a um ponto oculto no qual um grande impulso se arrefece. De vez em quando o fecho da pupila se abre em silêncio. Uma imagem, então, na tensa paz dos músculos se instila para morrer no coração.
Jornalista e escritora, autora de Suplemento Literário-Que falta ele faz! : Tinhorão, o Legendário; As Dez Mil Coisas (poesia) e do e-book Jornalismo Século XXI- O modelo #mídia NINJA
VIVA BABEL
Notícias de Babel.
O título homenageia Xose Velo Mosquera, Pepe Velo, professor, poeta, revolucionário galego, que criou o lema e viveu por ele.
Sonhos de Leonardo
CRUEL
Sérgio Sampaio
Tudo cruel, tudo sistema Torre Babel, falso dilema É uma dor que não
esconde o seu papel São Carlos, morro, Borel Eu subo e nunca estou no céu
Torres
Orides Fontela
Construir torres abstratas
porém a luta é real. Sobre a luta
Nossa visão se constrói. O real
Nos doerá para sempre
CONTADOR DE ACESSOS - 06/03/2009
Páginas que revelam uma época . Autora discute legado do Suplemento Literário,
editado nos anos 50 e 60 (clique na imagem para ler)
Uma análise da relação entre imprensa e cultura. No prefácio do livro, Antonio Candido relembra
o contexto em que surgiu o Suplemento (clique na imagem)
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