quarta-feira, maio 19, 2010

Intelectuais e intelectuais

Alguém na blogosfera lançou um repto : que nenhum acadêmico brasileiro, de nenhuma área, dê entrevista para a Veja, ou colabore com a revista enquanto não houver um pedido de desculpas a Eduardo Viveiros de Castro, o antropólogo citado na matéria "A farra da antropologia oportunista", reproduzindo pretensas afirmações suas sem entrevistá-lo.
(De minha parte, entendo que intelectuais de respeito não deveriam dar entrevistas ou colaborar com tal publicação de qualquer forma, e não apenas em virtude desse caso absurdo).
Lembrei imediatamente de outro episódio envolvendo intelectuais: a lista de professores improdutivos, documento vazado da reitoria da USP, publicado pela Folha de S. Paulo. Dizia:

"A Universidade de São Paulo começa a fazer o levantamento de sua produção docente. Nos anos de 85e 86, um quarto de seus professores não produziu. Este é o resultado do levantamento preliminar feito pela reitoria. Ele contém incorreções, mas sua publicação é a possibilidade deiniciar o debate sobre a avaliação dos docentes nas universidades.

Os dados foram obtidos através de questionários enviados aos docentes pela reitoria. Eles deveriam informar sobre todos os trabalhos publicados nos anos de 85 e 86."

(Iniciava-se, então, o processo vigente mais do que nunca hoje em nossas universidades, em que "produtividade" se mede pela quantidade em quilos de artigos publicados, não pela sua qualidade, muito menos pela atuação do professor em sala de aula).
Criou-se imensa polêmica da comunidade uspiana contra a Folha e contra o então reitor José Goldemberg, que depois foi secretário e ministro de Collor.
O Jornal da USP, do qual eu era editora, tentava garantir a palavra e o mesmo espaço a todos os segmentos envolvidos.
Entretanto o reitor, mentalidade autocrática e imperial, considerando-se dono da Universidade-- porque todos os brasileiros conhecemos a eterna confusão entre o público e o privado --, mandou recolher a edição do jornal em que os professores falavam, pois queria ele mesmo ter mais e mais espaço do que todos.Censura em plena Universidade.

A editora pediu demissão e a própria Folha cobriu o episódio. O representante do reitor argumentou que o jornal não havia sido apreendido, mas simplesmente retido para inclusão de um encarte, desculpa absolutamente esfarrapada pois qualquer encarte teria de ser do conhecimento da editora.

Resumo da ópera: os intelectuais uspianos, revoltadissimos, prometiam não mais colaborar com a FSP. Promessa que não durou mais de uma ou duas semanas: voltaram todos.

Por isso, e sem colocar todos no mesmo saco, é fácil entender as razões pelas quais um repto desses não teria qualquer eco na academia. Mesmo porque, quem vive sem mídia, não é mesmo?
Tudo o que digo aqui tem provas, guardadas nos baús , de tão guardadas são difíceis de achar no momento, e só me socorro da memória. Não é mesmo mais uma historinha exemplar?

terça-feira, maio 18, 2010

Menos

Se o presidente ajuda Clovis Rossi a se recuperar de um tombo, não quer dizer que é um ato de magnanimidade frente a um jornalista que o critica. Por que não poderia o presidente ser solidário com um jornalista brasileiro que levou um tombazo, seja ele de que lado for?Questão de educação. Menos, minha gente...

Sobre o futebol


Não gosto de comerciais em geral. Este argentino, entretanto, é uma exceção em meio a tanta coisa ruim dos publicitários deste mundo.E poderia , também, ser sobre o futebol brasileiro. Vi no Blog da Josefina , de um certo fotógrafo que mora na mais bela cidade do mundo ocidental.

segunda-feira, maio 17, 2010

Cartas à redação

From: Celso Lungaretti
To: leitor@uol.com.br
Sent: Monday, May 17, 2010 5:42 PM
Subject: "Governo Lula quer implantar ditadura totalitária no País" General Maynard

"É chocante que a Folha tenha permitido ao general reformado Maynard Marques de Santa Rosa afirmar, sem nenhuma prova, que Dilma Rousseff assaltou, torturou e matou pessoas. Foi uma acusação grave demais para o jornal colocar, como única ressalva, a débil refutação da repórter ("Até onde se sabe, ela não matou ninguém"), ao que o entrevistado respondeu taxativamente: "É o que ela alega. Sabe-se que tem vítima". E fiquei pasmo ao não encontrar, em seguida, a pergunta que até um 'foca' faria: "Quem são essas vítimas?". Assim como estranho muito a omissão de uma informação fundamental: a de que, como tenente de Infantaria, Maynard Marques atuou na Inteligência do Exército e integrou a equipe de Buscas do DOI-Codi/RJ no período de 1971/72, o que coloca sob suspeição todas as suas críticas à Comissão da Verdade, já que ele pode estar temeroso do que possa ser apurado a seu respeito."

Celso Lungaretti, ex-preso político, torturado pelo DOI-Codi/RJ em 1970 (Sâo Paulo, SP)

Si quieres vivir 100 anõs

Joaquin Sabina, cantautor e poeta andaluz

domingo, maio 16, 2010

Klee


"A arte não reproduz o que vemos. Ela nos faz ver"


Paul Klee

Lady Day

sábado, maio 15, 2010

sexta-feira, maio 14, 2010

O Joelma, o QG tucano em SP e a demissão na Abril


1- Celso Lungaretti escreveu interessante texto lembrando o edifício Joelma em chamas, em 1974, do qual pessoas se atiravam feito passarinhos. O laudo dos bombeitros constatou que havia somente uma escada comum (não de segurança,), não havia sistema de alarme nem qualquer sinalização para abandono e controle de pânico. Diz Celso:"Sobreviventes revelaram que sequer sabiam como chegar à tal escada comum, era praticamente escondida para que todos fossem obrigados a utilizar o elevador. A obsessão por mantê-los sempre controlados."
179 mortos e 300 feridos.
E continua: " Enfim, saltando para o presente, em tudo e por tudo o Joelma é mesmo o local escrito nas estrelas para abrigar o comitê de campanha 2010 de Geraldo Alckmin e José Serra.De nada adianta terem mudado seu nome para Edifício Praça da Bandeira.Nem a ridícula mobilização de influências políticas para que fosse trocado o número do prédio, de 184 para 182, a fim de evitar que os algarismos somassem 13.O mau agouro é outro: estarem ocupando um espaço amaldiçoado pelas almas penadas de quem foi imolado no altar do L-U-C-R-O ".

2- Esta semana a Editora Abril demitiu o editor-assistente da revista National Geographic Brasil Felipe Milanez, pelas críticas em seu Twitter contra a revista veja, da mesma editora, a respeito da reportagem “A farra da antropologia oportunista", sobre delimitação de reservas indígenas e quilombos no país. A mesma que reproduz delcarações do antropólogo Viveiros de Castro, que não foi entrevistado, conforme denunciado por ele.
" A decisão me foi comunicada pelo redator-chefe Matthew Shirts. Ela veio lá de cima , disse Felipe". Segundo o Portal Imprensa, Matthew Shirts, disse: "Foi demitido por comentário do Twitter com críticas pesadas à revista. A Editora Abril paga o salário dele e tomou a decisão".
Ao ser questionado se concordava com a demissão do jornalista, Shirts declarou que "fez o que tinha que fazer exercendo a função".
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Lembrei imediatamente de Decio de Almeida Prado, que entre 1956 e 1967 exerceu a mesma função no Suplemento Literário do Estadão. Em depoimento para o meu livro "Que falta ele faz!", o professor Antonio Candido contou uma história exemplar.
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" Houve um momento -- (...) que o doutor Julio conversou com o Décio sobre um colaborador comunista que talvez valesse a pena não colaborar. O Décio disse, “não sei se é comunista, mas o fato é que não transparece nos artigos, é um grande crítico. Mas se o senhor achar necessário que ele não colabore mais, eu aceito e nesse caso apresento minha demissão”.
O dr. Julio disse: “Não Décio, está encerrado o assunto”.

Mudou o mundo e mudaram os jornalistas. Não só não se fazem mais liberais como antigamente. Não há a mais remota hipótese de algum redator-chefe se comportar como Décio, frente a uma decisão de quem "paga o salário".

Shirts disse que fez o que devia fazer exercendo a função. Décio de Almeida Prado fez o oposto, coerente com seus princípios.O que pensaria Shirts sobre Décio? Não sei. Sei o que pensa Antonio Candido: "Ele era um ser de exceção".

quinta-feira, maio 13, 2010

Vivendo e aprendendo a não jogar - A Era Dunga e a chacina do sonho

i Yam

Este texto foi publicado no Portal do Nassif por Zezita via de Regra, alter ego de Liu Sai Yam.

Continuo não entendendo de futebol, mas nem precisa, pra entender do que Zezita fala.


A seleção de Dunga é reedição da corrente pra frente, da “coerência” careta e do “comprometimento” fascista. Só se compromete quem não pensa, e Dunga, à semelhança do novo admirável mundo novo, é refratário aos que pensam criativamente.Nem se trata de criticar escalação, inclusão ou exclusão de nomes, mas o discurso nitidamente patriótico nacionalista beirando ao fascismo, descarregando todo o jargão auto-ajuda mesclado à fidelidade pitbull, à obediência cega e ao conformismo tático de linha militarista. Pátria, família e comprometimento. Cegueira bitolada de milícias direitistas e chacinadores de outsiders.
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Será por mera coincidência que no mesmo dia em que Dunga (representando a autoridade constituída de situações constituídas mediante a medíocre qualificação “winner”) proferia o seu discurso de retorno aos anos 1970, seis sem-tetos tenham sido mortos a tiros debaixo de um viaduto em São Paulo? Não estavam comprometidos com uma sociedade ordeiramente desenvolvimentista e vencedora, que aufere láureas de gringos mundo afora, mas não sabe lidar com seu próprio povo.
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E ai das vozes discordantes, imediatamente tachados de voluntaristas, irrealistas, indigestos, individualistas, putanheiros, firulentos desobedientes de táticas do ferrolho, preferindo a derrota debaixo de trágica alegria e dolorido sonho à vitória cinzenta dos conservadores, os eternos winners. Brasil tem condições de montar 10 seleções, todos com chances reais de abocanhar a malfadada copa. Tinha uma chance de selecionar arte/alegria estruturada sobre descompromisso, irresponsabilidade e prazer. A partir da escalação inicial de Dunga, optou pela Solange da lentidão gradual, do reacionarismo fanático e da chapa-branquice.
Si zouzou fuera Maradona, jugaría/viviría como Maradona...