quarta-feira, dezembro 02, 2009

O CQC e o humor mal intencionado



O programa humorístico CQC, da TV Bandeirantes, exibiu em 31 de novembro uma peça sobre a pré-estréia do filme Lula, o filho do Brasil em São Bernardo do Campo (SP). Um dos “homens de preto”, Oscar Filho, (na foto, o segundo a partir da direita) apresentado no site do programa como ator e humorista, pergunta a dois espectadores se eles conhecem Lula.
--Não só conhecemos como estivemos presos com ele, responderam.
--Ah é? E na cadeia, quem fazia a mulherzinha? Pergunta o solerte ator desempenhando o papel de repórter.
Entre os jornalistas, acotovelados, esperando uma brecha para entrevistar o presidente, pergunta a um câmera, apontando para o que parece ser uma persiana: “Você está louco para o Lula por a cabecinha, né?”
Na segunda-feira após a semana em que a Folha de S. Paulo havia publicado artigo de Cesar Benjamin denunciando um não comprovado ato de assédio sexual de Lula a um preso, é sintomática a pauta do programa na pré-estréia do filme sobre a vida do presidente.
Na mesa, Rafinha Bastos, ao lado do apresentador e responsável pelo programa, Marcelo Tas, e de Marco Luque, comenta algo a respeito de uma matéria com estudantes bebendo no bar, entrevistados sobre a prova do Enem, com questões alusivas ao governo, consideradas propaganda e que estão sendo julgadas nas instâncias do MEC. Cito de memória:
“Eles estão enchendo a cara, seguindo o exemplo do presidente”.
Não só o CQC usa o humor para caluniar. Jornalões da imprensa escrita contam com caricaturistas e cartunistas executando o mesmo serviço sujo. Pois é admissível, por exemplo, que se retrate o presidente lendo um jornal de cabeça para baixo, com um copo de bebida ao lado, e borbulhas saindo de sua boca?
Há um abismo de diferenças entre a irreverência inteligente e a má intenção declarada, o preconceito. Irreverente era o personagem criado por Tas nos anos 80, Ernesto Varela, enfrentando com humor e picardia políticos como Paulo Maluf. Hoje, Tas é mais um dos que engrossam o coro dos descontentes com Lula- o que é um direito inalienável. Claro, democracia é assim. Está lançando até um livro com frases do presidente. No dia 23 de novembro ele comentou no blog:
Nunca Antes na História Deste País , meu livrinho que comenta a epopéia do "cumpanhero" Lula em forma de frases e novas profissões assumidas pelo ex-metalúrgico no poder, entrou esta semana na lista dos 10 livros mais vendidos da revista Veja. Está na quarta posição (veja o top 10 acima), exatamente à frente de um livro sobre canções de Chico Buarque, da biografia de Erasmo Carlos e do livro de Ana Maria Braga.
(Bem, a lista dos dez mais de Veja não é exatamente objetiva, como se pode verificar na denúncia do jornalista Luis Nassif , dentro de seu Dossiê Veja, sobre a seção Os mais vendidos: http://luis.nassif.googlepages.com/osmaisvendidos)
Criticar é ótimo, só não é democrática a crítica que não parte da discordância política, mas do viés de classe. A falta de um dedo, perdido em acidente de trabalho braçal, a falta de educação formal, a origem proletária são indesculpáveis neste presidente, mesmo reconhecido internacionalmente, mesmo com alta popularidade.
Uma trajetória que só tem a orgulhar o país, mesmo aos que discordam politicamente. Um da senzala chegar ao poder é inadmissível para os da casa grande. Até aí, entende-se. Entretanto, também para os que nem a habitam,nem habitarão, mas desejam...
Muitas intervenções do programa são engraçadas, inteligentes. Mas o resto não escapa do estereótipo esclerosado do que se entende por humor na televisão: agressão e preconceito. E, como se apresenta também como um resumo das notícias, sofre do pior defeito do jornalismo, a manipulação.
Pesquisando sobre o programa, deparei com um artigo de um repórter policial do grupo Globo, Jorge Antonio de Barros, a quem não conheço. Em agosto deste ano repercutiu na internet o vídeo “O dia da caça” que o repórter tentou fazer com um dos homens de preto, Rafael Bastos, colocado no youtube, que acabou removido do site do Google devido "à reivindicação de direitos autorais da Rafinha Productions”.
Bastos não gostou nada da entrevista nos mesmos moldes em que atua o CQC e o vídeo foi censurado, depois recolocado no youtube por outro usuário e atualmente é exibido no Yahoo. Ninguém entendeu a censura por direitos autorais, já que o vídeo foi feito por um repórter e editado por ele.
Em seu blog, Marcelo Tas, afirma: “A combinação de jornalismo com humor é muito poderosa."
É verdade. E em alguns casos, quando o humor é mal intencionado, e o jornalismo manipulador, muito perigosa, como neste, em que se contribui para engrossar um caldo de cultura que despolitiza a política, tentando tornar “cômica” a explicitação de preconceitos.


O vídeo censurado chama-se O Dia da Caça:



terça-feira, dezembro 01, 2009

Espécies exóticas

Do blog do Pedro Martinelli, que conhece e anda pela Amazonia há quase 40 anos e paga seus pecados quando vê essas coisas:



"O governo do Pará descobriu uma maneira de pagar os pecados na terra e garantir um lugar no céu. A prova que a floresta nativa e um verde qualquer é a mesma coisa esta nesta notícia que a Folha de São Paulo publicou na semana passada. Imagina, espetaram no que já foi uma delicada camada úmida de humus, composta de folhas, do solo amazônico 220 milhões de pés de eucalipto, 1/3 do que ainda pretendem espetar para deixar tudo verde e sair bem na foto que o satélite vai fazer.

E, para afastar definitivamente a possibilidade de ir para o inferno seguem o Código Florestal que permite o plantio de “espécies exóticas como pioneiras, visando a restauração do écossistema original.” Agora só falta contabilizar quantos campos de futebol de eucalipto o estado do Pará terá no final da “restauração”.

segunda-feira, novembro 30, 2009

Cuidado com as trevas




Do meu amigo Alipio Freire, sobre o 'artigo" de Cesar Benjamin na Folha de S. Paulo e sobre a fascistização.

(...) "O centro da minha preocupação é a "naturalização" e "banalização" das práticas de matriz fascistóide, onde se despolitiza a política, e se a substitui por escândalos (ou supostos escândalos - como neste caso) sobre a vida privada dos sujeitos políticos.Esse tipo de banalização é ainda mais grave, quando (por estarem "naturalizados") esses métodos passam a ser praticados até mesmo por pessoas que se propõem de esquerda, ou assim se apresentam; e até por militantes de longa história de luta - como o caso César Benjamin.

Espantam-me também alguns textos que, na sua legítima ansiedade de defender o presidente Luiz Inácio Lula da Silva da acusação (calúnia/difamação) de que foi alvo, invertem o sinal da equação, e procedem acusações semelhantes contra o proprietário/herdeiro do Pasquim da Barão de Limeira.Decididamente não nos interessam os segredos e práticas privadas de alcova de qualquer cidadão enquanto espetáculo público, voyeurismo, prazeres solitários, ou o que quer seja. Trazê-los para a discussão, é igualmente (e muitas vezes sem perceber - obviamente) dar seqüência aos métodos e práticas fascistizantes aos quaos nos referimos acima.

O essencial é exatamente mudarmos esse tipo de lógica (em nossas cabeças) e de prática (em nossas ações políticas - ou ações de qualquer ordem).Deixar também que a nossa indignação se limite à questão eleitoral, e tentarmos inverter apenas o jogo dos votos, esbarra no mesquinho, no imediatismo, no oportunismo.

É preciso irmos sempre mais fundo, pois - numa questão desse tipo - o debate e disputa não são apenas político-eleitorais, ou simplesmente políticos (no sentido restrito). Em coisas desse tipo coloca-se claramente uma disputa de valores, uma disputa ideológica. E, ou estamos atentos para isto ou, imbuídos dos mais nobres sentimentos e intenções, estaremos reproduzindo de forma ampliada os valores e métodos do inimigo, valores que devemos sepultar, se queremos uma sociedade igualitária e livre.

Aliás, diz-nos um velho camarada de boa cepa que, "esquecer os objetivos maiores e de longo prazo, em função de pequenas vitórias imediatas, sempre foi e será oportunismo" (Teses sobre Feuerbach - citado de memória).


Ou seja, para além da inverdade da acusação, o que desqualifica funtamentalmente o texto "Os filhos do Brasil" e o jornal que o publicou, é sua matriz ideológica fascista - e este é o mais sinistro sintoma dos tempos que vivemos. É desse ponto de vista que devemos partir, até mesmo para nos defendermos dos danos eleitorais, que é o óbvio objetivo do texto e de sua publicação no atual contexto".

domingo, novembro 29, 2009

O bicentenário de Francisco de Paula Brito




















No Jornal do Brasil de sábado (28) . Rodrigo Ferrari, dono da simpática livraria Folha Seca, na rua do Ouvidor, Rio de Janeiro, escreveu um artigo sobre "bicentenário de uma figura esquecida na história do Rio, personagem marcante na cena carioca de meados do século 19. Poeta, tipógrafo, livreiro, editor, jornalista e dono de jornal, comerciante, impressor, tradutor, compositor, dramaturgo, Paula Brito marcou seu tempo não só por tudo isso, mas principalmente por criar em seu estabelecimento um espaço de sociabilidade que o transformou num dos mais importantes agentes de mediação cultural da sociedade de então."

Francisco de Paula Brito.
Na próxima quarta, 2 de dezembro, comemora-se o bicentenário do tipóprafo, editor e abolicionista, e a Livraria dedicou o ano a homenageá-lo. Já falei aqui sobre ele quando descobri a livraria .

Vai um trechinho do artigo do Rodrigo, leia mais aqui



"Foi nesse ano mesmo de 1853 que Paula Brito compôs os versos de um lundum que seria cantado aos quatro ventos não só na cidade do Rio, mas também no interior da província e arredores. Tratava-se de A marrequinha de iaiá, buliçosa composição propositadamente libidinosa e matreira, parceria com Francisco Manuel da Silva, autor de um hino destinado a festas da independência que mais tarde se transformaria em nosso Hino Nacional.

Isso tudo fez José Ramos Tinhorão escrever um belo artigo na Revista Cultura, número 28 de 1978, onde afirma textualmente que foi na loja de Paula Brito que surgiu a canção popular de parceria, isso entendido como letra e música sendo produzidas conjuntamente. Isso só foi possível pelo encontro que ali se dava dos poetas da geração romântica com os músicos populares frequentadores da casa. Para Tinhorão, Paula Brito assumiu brilhantemente o papel de mediador entre a cultura popular e a da elite nos anos de transição para o Segundo Império.

Doe um livro, no Natal e sempre

Muita gente, como eu, de vez em quando quer doar livros e tem dificuldade de achar quem receba. Agora no Natal, uma campanha interessante recebe livros.
"Passe essa história adiante.Doe um livro”
Foi lançada no twitter e cresceu, se juntou à Fundação Abrinq, Ong Visão Mundial e Projeto Sempre um Papo e Conselho de Secretarios Estaduais de Educação. As doaçoes podem ser feitas nas Secretarias de Estados de Educação, em 300 filiais da Droga Raia em cinco Estados do país (SP, RJ, MG, RS e PR).

Endereços
http://doeumlivrononatal.blogspot.com

sexta-feira, novembro 27, 2009

Paulo Freire é anistiado 45 anos após o exílio

Deu no Portal do MEC
Não vi nada na imprensa ontem ou hoje sobre a notícia. Quando Paulo Freire, não me esqueço, a "revista" Veja publicou um obituário apenas, e falando mal.
Já no resto do mundo, o educador sempre foi reconhecido.

Em julgamento nesta quinta-feira, 26, durante o Fórum Mundial de Educação Profissional e Tecnológica, foi declarada a anistia do educador Paulo Freire. A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, que analisou o requerimento feito pela viúva Ana Maria Freire, em 2007, sob a ótica da perseguição política sofrida pelo educador à época da ditadura, também pediu desculpas pelos atos criminosos cometidos pelo Estado.

“Esse pedido de perdão se estende a cada brasileiro que, ainda hoje, não sabe ler sua própria língua”, disse o relator do processo, Edson Pistori. Para ele, a perseguição a Paulo Freire pela ditadura se traduz no impedimento à alfabetização de milhares de cidadãos e, principalmente, à conscientização de cada um deles sobre a própria condição social.

quarta-feira, novembro 25, 2009

Maiakovski a plenos pulmões




Os versos
para mim
não deram rublos,
nem mobílias
de madeiras caras.
Uma camisa
lavada e clara,
e basta, —
para mim é tudo.


Tradução Haroldo de Campos

Feira de Livros na USP

Tudo com 50% de desconto, começou hoje e vai até sexta, no predio da Historia e Geografia.Martins Fontes é das mais procuradas, assim como Cosac Naif.

sexta-feira, novembro 20, 2009

Silvas

De repente, não mais que de repente, concluo: a maior família do Brasil, os Silva (minha amiga Silvanete tem no nome e no sobrenome, e sempre disse que é a família mais tradiconal da Rio-Bahia) é precedida da preposição de mais o artigo a quando é pobre e da preposição e apenas, quando é rica. Confiram.

terça-feira, novembro 17, 2009

Este filme não é de ficção

A Conferência Nacional de Comunicação será realizada pela primeira vez em dezembro, reunindo governo, sociedade civil e empresários, embora que se saiba as grandes famílias donas da comunicação não participarão.
A Intervozes , uma importante organização que atua pelo direito à comunicação no país – lançou o vídeo “Levante sua voz”, com direção de Pedro Ekman e narraçãode José Rubens Chachá.
Didático, útil e necessário.

Intervozes - Levante sua voz from Pedro Ekman on Vimeo.