quarta-feira, novembro 04, 2009

Vida e escritura

Caetano Veloso escevendo sobre Lévi-Strauss diz que sentia uma certa tranquilidade por saber que, mesmo distante o antropólogo estava por aí, como Niemeyer e sua mãe, Canô, ambos com mais de 100 anos.
Os longevos nos dão esperança, assim como minha tia Judith, 96 anos , especialmente se são pessoas legais.
Bob Lester, ex-integrante do bando da Lua, que acompanhava Carmem Miranda, apresentou-se na TV ontem tocando castanholas e sapateando, uma figura também aos 96 anos.

Mas eu queria dizer é que sinto essa certa tranquilidade quando passo semanalmente na Pedroso de Moraes e vejo seu Raimundo Arruda Sobrinho, que vive debaixo dos seus plásticos, no canteiro, escrevendo sob sol e chuva.
Ele é um dos escritores de Sampa, certamente o que mais leva a sério a missão.

terça-feira, novembro 03, 2009

Viva Lévi-Strauss

Morreu mais um mestre. Ano passado ele fez 100 anos. Esta é uma matéria minha publicada pelo caderno Eu & do Valor Econômico.Olhem só o que ele dizia, há mais de 20 anos:
Constatando que não vivemos em uma época brilhante em termos intelectuais declarou, há mais de vinte anos, que “existem períodos particularmente notáveis, do ponto de vista da produção intelectual, e períodos de vazio, e acredito que a atual fase é do segundo tipo”.

Os 100 anos de um mestre

O antropólogo que ajudou a desvendar mitos da América recebe homenagens na sua travessia do século

Por Elizabeth Lorenzotti
28, 29 e 30 de novembro de 2008

Até o ano passado o mestre ainda usava o metrô para suas atividades, entre elas participar das reuniões da Academia Francesa, da qual é membro desde 1973. Nesta sexta-feira, 28, mais recolhido (após uma queda locomove-se em cadeira de rodas), porém lúcido como sempre, o “arqueólogo do espaço”, como ele se definiu em Tristes Trópicos (1955) -- a clássica narrativa de sua viagem de estudos entre os índios no Brasil -- o viajante que detestava viagens completa 100 anos de prodigiosa travessia no breve século 20.
O grande pensador recebe, hoje, mais homenagens em Paris: um dia inteiro dedicado a Claude Lévi-Strauss no Museu du Quai Branly. E recentemente obteve mais uma consagração: foi incluído na Biblioteca da Pléiade, a coleção mais prestigiosa da França, que publica grandes obras de referencia do patrimônio literário e filosófico mundial.
Belga, filho de pais franceses, iniciou sua carreira universitária, aos 26 anos, no Brasil, nomeado professor da recém-criada Universidade de São Paulo (1935-1938).
Ele mesmo declarou que, durante aquele período “o que mais me interessava não era dar aulas, mas fazer pesquisas de campo. Então, aproveitava minhas férias para viajar. Na primeira vez, conheci pequenas populações de língua tupi na região Sul, Paraná e Santa Catarina. Depois aproveitei três meses de férias e passei uma temporada maior com os caduvéus, na fronteira com o Paraguai, e outra com os bororos, no centro de Mato Grosso. Por fim, a terceira missão, que preparei durante todo um ano, me levou às terras dos nhambiquaras e outras populações que vivem no norte de Mato Grosso”. As expedições foram patrocinadas pelo Departamento de Cultura de São Paulo, dirigido por Mário de Andrade.
Há uma versão de que Lévi-Strauss teria sido demitido da USP -- onde mais tarde recebeu o título de doutor honoris causa -- por ser comunista. O professor Antonio Candido de Mello e Souza, que estudou nas primeiras turmas da Filosofia da Universidade, nega: “A direção da faculdade achava que ele devia dar aulas, e não fazer suas pesquisas viajando. Ouvi de alguém que Julio Mesquita pensava o mesmo. Strauss era amigo do Paul Rivet, etnólogo francês que também estava no Brasil, um socialista, aliás amigo de Mesquita.Ele foi simpático ao socialismo, mas não era comunista”.
De volta à Europa convulsionada, em 1941 suas pesquisas renderam um convite para dar aulas na New School for Social Research de Nova York, onde também escapou à perseguição nazista. Lá conheceu a lingüística estrutural de Roman Jakobson, sua mais importante influência teórica. Em 1948 defendeu tese de doutorado, publicada em 1949: As estruturas elementares do parentesco, marco fundador da antropologia estrutural.
Segundo o antropólogo, o estruturalismo “é um esforço para aplicar, na medida do possível, o pensamento científico àquelas áreas que chamamos, impropriamente, de ciências sociais, ou ciências humanas. Digo impropriamente porque elas não são, nem nunca serão, ciências. Um etnólogo, por exemplo, está envolvido demais com o objeto de seu estudo para abandonar os preconceitos e as formas de pensamento que herdou. Isso se explica, no fundo, pelo fato de que as chamadas ciências sociais e ciências humanas não são coisas que se possam isolar do mundo real. Podemos progredir um pouco em seu conhecimento, mas isso é tudo”.
Na década de 1960 o estruturalismo virou moda, segundo Lévi-Strauss, “graças a uma série de mal-entendidos. As pessoas imaginavam que se tratava de uma nova filosofia para a era industrial e tecnocrática, e poderia resolver todas as questões do mundo...”.
Desvendador do Outro por excelência dos europeus, os ameríndios, Lévi-Strauss concluiu que as sociedades estudadas pela etnologia seriam “frias” em relação às modernas. “São sociedades que produzem extremamente pouca desordem, isso que os físicos chamam de “entropia”, e têm uma tendência a se manter indefinidamente no seu estado inicial, o que aliás explica que para nós elas se pareçam como sociedades sem história e sem progresso”. Mas observou que as sociedades modernas precisariam incorporar algumas lições das primitivas, para o bem de ambas.
Hoje, especialistas apontam que o desenvolvimento de sua obra se dá, na realidade, no Brasil, principalmente no trabalho do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, professor do Museu Nacional, no Rio de Janeiro.
Para Beatriz Perrone-Moisés, professora do Departamento de Antropologia da USP, “as idéias de Lévi-Strauss continuam bem vivas, gerando conhecimento e sugerem múltiplas possibilidades a serem ainda exploradas”.
Ela tem traduzido, com os cumprimentos do mestre, desde 2004, pela Cosac Naify, a edição integral da tetralogia Mitológicas, começando por O cru e o cozido. Ponto culminante de sua obra, Mitológicas analisa um conjunto de 813 mitos de diferentes povos indígenas do continente americano. Em 2005 foi lançado o segundo volume, Do mel às cinzas, e em 2006, A origem dos modos à mesa. Para 2009 está previsto o lançamento do último volume, O homem nu, estes três traduzidos no Brasil pela primeira vez.
No dia 11 de dezembro, no fim do ciclo Os sentidos de Lévi-Strauss, promovido pela USP, será lançada nova tradução de Antropologia estrutural, publicado originalmente em 1958. Nos textos, escritos entre 1944 e 1956, Lévi-Strauss faz relações da antropologia com a lingüística, a psicanálise e a arte, e analisa o ensino da disciplina. Também no dia 11, no Instituto de Estudos Brasileiros, a ex-aluna de Lévi-Strauss, Manuela Carneiro da Cunha, do Departamento de Antropologia da Universidade de Chicago falará sobre O efeito Lévi-Strauss nos EUA e no Brasil, encerrando o ciclo iniciado dia 9 de outubro.

Observador atento em todos os sentidos, é dele a única apreciação contrária que se tem notícia de um acidente geográfico cantado e decantado: a Baía de Guanabara pareceu-lhe uma boca banguela.
Em entrevista a Perrone-Moisés em 1998, aos 90 anos, o etnólogo lembrava-se do perfume dos abacaxis no rio Madeira e de vários cheiros do Brasil: de fumo de rolo, da pinga, da rapadura. Na segunda e última viagem ao país, em 1985, evocou a qualidade muito especial do ar paulistano, ao mesmo tempo combinando altitude e clima tropical. No belo livro Saudades do Brasil (1995), ele conta, em um pé de página, que seus ouvintes gargalharam: “Mergulhados cotidianamente no inferno paulista da poluição, não o identificavam mais como tal”.
Constatando que não vivemos em uma época brilhante em termos intelectuais declarou, há mais de vinte anos, que “existem períodos particularmente notáveis, do ponto de vista da produção intelectual, e períodos de vazio, e acredito que a atual fase é do segundo tipo”.
Que não lhe perguntem, porém, como sair dela, advertiu o mestre. ”Eu não sei”.

Asas do Desejo



"Asas do Desejo", do original alemão "Der Himmel über Berlin", de 1987, dirigido por Wim Wenders.Marion (Solveig Dommartin) e Damiel (Bruno Ganz), o anjo que quis se tornar humano.

segunda-feira, novembro 02, 2009

Finados ilustradores




Vejam a mãozinha com quatro dedos. É uma ilustra publicada em O Globo, o nome do autor parece ser Cláudio Duarte, ao lado de um artigo do ex-FHC, contra o governo Lula.

Agora já usam deficiência fisica também. Além de desenharem o presidente lendo o jornal de cabeça para baixo, com um copo de cana ao lado.

Critica política é uma coisa, preconceito de classe, intolerância, é outra.



Alguns ilustradores talentosos viraram editorialistas de O Globo, do Estadão, que coisa mais feia, e terrível, porque muitos deles ficaram conhecidos na época da ditadura, e nos deixaram impressão oposta à que temos hoje.

Pena, era só impressão.

Tsc

domingo, novembro 01, 2009

Aniversário de Drummond

Os grandes poetas, eles nos salvam.
Roubei esse vídeo postado por Laura e soube que ontem foi aniversário dele.
Aqui ele diz que, ao contrário as teorias modernas, crê na inspiração. Eu concordo.
Como disse Laura, que viva Drummond!

Os ombros suportam o mundo
1935 -


Os ombros que suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se, mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertam ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo, prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

sexta-feira, outubro 30, 2009

Genis do século XXI

El sueño de la razón produze monstruos (1797-1799)
Goya

Dia desses estava, com amigos que estudaram comigo na ECAUSP, no século passado, vendo nossas fotos em branco e preto: lembranças, risos, bons e maus tempos, velhos amigos.
Numa delas, uma garota com um superminivestido me chamou a atenção. Não me lembrava como eram tão curtas nossas saias, mas os colegas sim. Entretanto, debaixo da ditadura militar, nunca houve nenhum escândalo, agressão, desrespeito coletivo, violência contra uma colega como o que aconteceu com a moça loira de olhos verdes da Uniban, em São Bernardo, dia 22 de outubro, noticiada dia 30, após a postagem do vídeo na internet.

Mas, na segunda metade do século XX nós vivíamos a Utopia. Saias curtas, cabelos longos, acreditávamos na mudança. Easy Rider é um dos filmes emblemáticos daquela geração, e seu final já acenava para os tempos que viriam. E eles chegaram mais depressa do que se imaginava, ao avesso do que se sonhava.

O prédio onde funciona a Uniban é o mesmo onde durante muitos anos esteve instalado o Centro de Pesquisas da então Ford Brasil. Coincidentemente, o campus norte desta universidade, na Avenida Braz Leme, em Santana, funciona no prédio de uma ex-revendedora de automóveis. Quando passei por lá, outro dia, fiquei pensando em como se pode substituir carros por alunos, mantendo a mesma arquitetura.
Uma metáfora que pode esclarecer muito sobre os rumos do ensino no país, desde o famigerado projeto MEC-Usaid, de fins dos anos 1960, contra o qual os estudantes brasileiros engajados muito lutaram. Esse projeto preparava a entrada do ensino particular que, 40 anos depois, deu no que deu.
Claro que nada é isolado, e o afluxo da sociedade de massas, da sociedade de consumo, e mais recentemente do neoliberalismo constitui o chamado caldo de cultura para o mundo no qual tentamos sobreviver.

O saudoso cineasta, pensador e poeta libertário Pier Paolo Pasolini, homossexual assassinado nos anos 1970, já alertava em um contundente artigo: “O verdadeiro fascismo dos tempos atuais é o consumo, que está entranhado na alma das pessoas”.
Assim como a pensadora Hannah Arendt: “A atitude de consumo condena à ruína tudo em que toca”.
Aliado à mídia, ao desgoverno das famílias, que se reproduzem a esmo sem condições de educar os filhos , legando a responsabilidade às escolas (atenção, estou me referindo a estratos da população que têm filhos na escola e trabalham fora) a sistemas político-econômico-sociais baseados na exploração do trabalho e no lucro, e consequentemente na devastação dos recursos naturais, ao lado de grandes fortunas e de países que consomem o dobro do que pode suportar o planeta, não se pode esperar mais do que espetáculos de esquizofrenia, prepotência, destemperos universais.

A banalidade do mal instaurou-se, conforme refletia Hannah Arendt a respeito do nazismo.

Se, na essência, nada disso na história humana é novidade, o novo é que hoje somos bilhões e sabemos de tudo o que ocorre na vizinhança e no mundo todo. O que deveria ser bom, aliás, para uma humanidade saudável, mas se trata de uma civilização doente.

Nas universidades públicas, instala-se o reinado da produtividade, onde as publicações independentemente da qualidade do trabalho, são exigidas. Professores que não publicam são afastados, não importa se dedicados e produtivos no ensino. Quantidade é a palavra de ordem. Alunos do ensino superior são instados a se mestrar, doutorar, pós-doutorar, ainda muito jovens e sem experiência de vida, em função do mercado de trabalho.
Universidades não são locais de saber, mas de futura colocação. Ramos do conhecimento que dão dinheiro podem ser fisicamente explicitados já a partir das instalações onde estes cursos se dão. Na Universidade de São Paulo, é patente a diferença, por exemplo, entre o prédio da Faculdade de Economia e Administração, suntuoso, e por exemplo a Faculdade de Letras, onde cãezinhos vira-latas dão as boas vindas a quem entra no prédio, embora em reforma, absolutamente decadente, de pisos esburacados e paredes idem.
A situação não era muito melhor na década de 1970, em plena ditadura, que instalou uma academia de polícia na entrada da USP, e colocou os cursos de humanidades, transferidos do centro da cidade, em barracões improvisados na Cidade Universitária, durante muitos anos.
Cenas de vandalismo não ocorrem apenas no ensino privado: universidades públicas várias já viveram episódios dantescos de trotes violentos, até com mortes. Tem para todos.
O comportamento desrespeitoso de muitos universitários em classes, saindo e entrando, atendendo celulares, conversando alto, destratando professores é corriqueiro. No ensino fundamental e no colegial o problema é pior. Generalizar é perigoso, mas é certo que a balança pende para o destempero.

Em um mundo assim posto, qual a saída? Drogas, sexo, violência de classe e individual, um panorama muito além de todas as previsões de Huxleys e Orwells e etc.
Voltando ao episódio da aluna loira de olhos verdes –“ trajada inadequadamente para a escola, puta, provocadora, gostosa” – eu me lembrei da foto da nossa colega de mini vestido do mesmo tamanho do dela, nos anos 1970.
Lembrei-me das nossas minis, na faculdade. Lembrei-me de uma moda Mary Quant, de shorts, meia de nylon, botas e casacão. Lembrei-me , principalmente, de que essa era uma das faces da mudança mundial de comportamento, mulheres à frente, e de conquistas que hoje sequer são consideradas frutos de lutas por quem veio depois e encontrou muitos caminhos abertos.Porque a História não é ensinada. E tudo foi antropofagizado pelo consumo.

No século 21, permissivo para sexo e drogas e violência de classe na real e no virtual, na escola, na rua e nas telas, quando o consumo incita a sensualidade desde a mais tenra idade , esse poder destrutivo é muito mais visível e palpável do que os esforços daqueles que tentam manter a sanidade da sociedade por meio de organismos coletivos ou não, e de atitudes solidárias. E não se fale em medievalismo, mesmo porque depois veio o Século das Luzes e nós, o que podemos esperar?
Um filme em cartaz The Third Wave (A Onda), baseado em fato real ocorrido na Califórnia em 1967, relata a experiência de um professor reproduzindo a estrutura que levou Hitler e seu partido ao poder. A classe e o professor inclusive mudam radicalmente de comportamento.

Atenção, que tudo é perigoso! É preciso estar atento e forte!

Os uivos do vídeo da universidade, o morto num carrinho de supermercado no Rio, as guerras civis cotidianas, surdas ou declaradas pelo mundo, o hospital de Santos que enganava pacientes de câncer que pensavam estar sendo submetidos à radioterapia mas não, o médico responsável ordenou que não fosse ligada a máquina, e seria até melhor para eles, pois eram terminais...filhos e filhas matando pais, avós; pais espancando e matando filhos, alunos agredindo professores, crianças e seus violentíssimos brinquedos, trabalho escravo, talebans e klu-klux-klans (hoje com outros nomes), imigrantes deportados, corrupção mundial, desvio de leite de criancinhas, grandes corporações e seus lobbies promíscuos nos governos, tantas famílias despejadas e sem destino.
Humanidade em mais uma encruzilhada.
Não, não são animais de um e de outro lado. São humanos.Somos humanos demonstrando tudo aquilo de que somos capazes, para o bem e para o mal.

domingo, outubro 25, 2009

Cacique Raoni e o tempo

"O calor está muito intenso, os ventos estão muito mais fortes do que eram antes e o nível dos rios na seca é diferente do que era... Estou muito preocupado."

sexta-feira, outubro 23, 2009