sexta-feira, maio 08, 2009

Revisitando o Caso Herzog

Este artigo inicia a série Memórias/Jornalistas, que prosseguirá com a verdadeira história da greve de maio de 1979. Trinta anos é um suficiente distanciamento histórico para se refletir sobre o que realmente aconteceu.
Mas aqui lembramos da noite da morte de Herzog e de seus desdobramentos, momento trágico e de grandes lutas, a partir das quais a sociedade civil se mobilizou pela retomada da democracia.
Conversando com o colega Paulo Nogueira - jornalista que durante muitos anos editou Internacional no Estadão - nos perguntávamos sobre quando seria contada a verdadeira história daquele episódio, sem o véu de ilusões e fantasias oportunistas.
Resolvi entao pedir a ele este artigo, excelente análise daqueles dias terríveis, e que hoje são recontados ao sabor dos interesses de quem ou nunca participou, ou daqueles que não tiveram o desempenho bonitinho que querem passar para a História.
O blog, claro, está aberto a opiniões e críticas.












Revisitando o Caso Herzog
Por Paulo Eduardo Nogueira

“A verdade emerge”
(Ben Bradlee, editor-chefe do Washington Post na época de Watergate)

Por que remexer/reviver fatos ocorridos há quase 35 anos, fartamente documentados e discutidos em livros, reportagens, filmes e depoimentos? Porque muitas vezes a versão que prevalece é parcial, incompleta ou mesmo mitificadora. E porque a responsável por este blog, Elizabeth Lorenzotti, que pretende resgatar a memória histórica dos jornalistas, como a da greve de 1979, me pediu para escrever sobre um evento intensamente vivido por nossa geração – no caso, a mobilização que se seguiu ao assassinato de Vladimir Herzog, o Vlado, em 1975. Na época, ainda cursando o último ano de jornalismo na ECA-USP, eu trabalhava como revisor na Folha. Vlado foi morto no sábado, dia 25 de outubro, mas a notícia só se espalhou pelas redações, de forma viral, num domingo de plantões com equipes reduzidas. Sem e-mails, twitter ou celulares, o boca-a-boca se encarregou de informar o grosso dos jornalistas. O assassinato chocou particularmente nossa turma, pois Vlado dava aulas de Telejornalismo na ECA até ser convidado para dirigir o jornalismo da TV Cultura – tragicamente, um cargo que o exporia à sanha repressiva da ditadura e terminaria em tortura e morte.

Na segunda-feira logo cedo, nós nos reunimos na ECA para discutir como enfrentar a situação. Um dos colegas redigiu rapidamente um panfleto para distribuirmos no enterro de Vlado e o assinou em nome da Comissão Universitária (um agrupamento informal de centros acadêmicos que seria o embrião do DCE Livre, criado no ano seguinte). Não havia sequer tempo de consultar dezenas de centros acadêmicos.

Chegando ao cemitério, no fim da manhã, distribuímos o texto a algumas pessoas. Nunca li menção a este detalhe em nenhum lugar. Talvez a panfletagem tenha sido muito discreta, como exigia a época. Talvez não interessasse aos donos da versão oficial partilhar o crédito pela mobilização. Minha lembrança mais forte daquele enterro, realizado a toque de caixa para encerrar logo o assunto, é a de Hamilton Almeida Filho, o HAF, gritar “abaixo a ditadura” enquanto o caixão descia à sepultura. Uma ousadia para os padrões vigentes e uma amostra da revolta que dominava a todos. Para a diretoria do sindicato dos jornalistas da época, então acossada pelo II Exército, terminaria ali a mobilização, com o sepultamento e uma nota oficial. Espontaneamente, porém, os presentes marcavam encontros na sede do sindicato à noite, comprometendo-se a levar mais colegas. Algo mais precisava ser feito.

À tarde, fui trabalhar e as redações do Grupo Folha (que então editava sete jornais, além de manter a Agência Folhas e o setor de Revisão, com centenas de profissionais) fervilhavam de indignação. Ao anoitecer, os jornalistas que chegavam em massa ao sindicato deparavam-se com uma imensa faixa negra de luto, lacrando a porta do auditório, fechado e às escuras. Extremamente nervoso, um dos diretores argumentou que o presidente do sindicato depunha naquele momento aos militares, correndo o risco de ser preso. Qualquer mobilização soaria como provocação. Replicamos que, ao contrário, somente a mobilização máxima dos jornalistas garantiria a segurança de todos. Escaldados pela recém-cometida barbaridade, que repercutia intensamente em toda a imprensa, os militares pensariam duas vezes antes de partir para a repressão. Os fatos históricos subseqüentes deram razão a este raciocínio, de resto já aplicado inúmeras vezes no movimento estudantil (quando, um ano antes, um de nossos professores, Jair Borin, fora detido pela repressão, percorremos classe por classe da ECA denunciando o fato: quanto mais pessoas soubessem, menos possibilidades teriam de “desaparecer” com ele, libertado tempos depois. Ficar quietos para evitar “provocações” -- a palavra mais utilizada por boa parte das tendências políticas, ao lado da expressão “não é o momento” -- só ajudaria o regime militar).

Retirou-se quase na marra a tal faixa de luto, as luzes se acenderam e em instantes o auditório estava lotado. Tradicionalmente apáticos, individualistas e desarticulados enquanto categoria profissional, os jornalistas estavam irreconhecíveis naquela noite histórica. Se algum gaiato propusesse uma ação até violenta, muitos no plenário topariam sem pestanejar – o que, aí sim, seria uma provocação potencialmente desastrosa. Uma repórter da editoria de Economia da Folha de S. Paulo, brandindo uma cópia da nota oficial do sindicato, lamentou que, de tão anódina, poderia ter sido endossada pelo II Exército. Seguiram-se as decisões por todos conhecidas: assembléia permanente e um ato ecumênico na sexta-feira. A partir daí, credite-se, a diretoria do sindicato cumpriu as decisões da maioria, ancorada numa mobilização sem precedentes de uma categoria profissional desde a decretação do AI-5. Era o típico caso de uma direção que ia além de suas possibilidades, premida pela ação coletiva e pelo momento histórico.

Durante a semana, partiu-se para ampliar o movimento e obter a adesão de outras entidades da chamada “sociedade civil organizada”. Pessoas físicas e profissionais liberais aderiam com entusiasmo ao trabalho de convocação do ato ecumênico. Porém, com exceção dos sempre combativos colegas da USP (que decretaram greve de três dias) e da coragem individual de alguns líderes religiosos, como dom Paulo Evaristo Arns, a receptividade dos setores organizados foi decepcionante. Entidades da comunidade judaica, por exemplo, se omitiram desde o enterro, ao qual nenhum rabino compareceu (Henry Sobel tinha um compromisso “inadiável” no Rio e ao voltar se posicionou inicialmente contra o ato público). A CNBB igualmente ficou calada e muitos bispos se mostravam contrariados com a decisão de ceder a Catedral da Sé para a cerimônia. Na área sindical, nenhuma entidade se envolveu. O Sindicato dos Jornalistas do Rio -- importante praça jornalística – limitou-se a enviar mensagem de condolências. Os metalúrgicos de São Paulo tinham à sua frente o notório pelego Joaquinzão. Sem chance. A diretoria do sindicato de São Bernardo, presidido por Luis Inácio da Silva, não se manifestou, argumentando que o morto era jornalista e não metalúrgico. Três meses depois o II Exército matava outro preso político – um metalúrgico –, mas São Bernardo manteve-se em silêncio.

Apesar da omissão da imensa maioria de entidades, da bizarra operação do coronel Erasmo Dias para congestionar o tráfego da cidade com 380 barreiras e impedir o acesso à catedral da Sé na sexta-feira, e da onipresente ameaça de repressão, o ato ecumênico, com cerca de oito mil participantes, consagrou-se como o ponto de virada na luta pela democracia no Brasil. Hoje, muitos dos omissos da época pegam carona nesse momento histórico. Omitem que estavam bem longe dali na hora do perigo.Versões de conveniência exaltam uma mobilização de setores da sociedade que jamais ocorreu (setores que só se envolveriam na luta pela democracia após as portas abertas pelo ato ecumênico). Como diz o ditado, a derrota é órfã, mas a vitória tem muitos pais.

Agora, porém, a Internet possibilita a veiculação de depoimentos dissonantes das versões consagradas. Nas palavras de Ben Bradlee aos repórteres Woodward e Bernstein quando as apurações de Watergate não avançavam, “calma, rapazes, a verdade emerge”.

segunda-feira, maio 04, 2009

A saga de Eton, o cartunista-carteiro


Meu querido amigo Edson Dias, o Eton, que trabalhou comigo no Departamento de Imprensa do Sindicato dos Bancários e tem um curriculo ponteado de grandes colaborações como ilustrador da imprensa sindical é um ex-preso politico- foi torturado na mesma cela de Vladimir Herzog, algum tempo depois de seu assasinato. E está muito revoltado, e com razão, com sua luta pela indenização.
Ele era carteiro, liderou uma greve de carteiros em 1975, quando nem havia Sindicato, e era ligado à Frente Nacional do Trabalho. Sequestrado na Praça da Sé, ficou 15 dias sob tortura no DOI-CODI e 15 dias no Deops, de onde foi resgatado por Dom Paulo Evaristo Arns , por sua mãe e pelo coronel que entao dirigia os Correios em SP, e nem ele sabia onde tinha ido parar o carteiro com toda a correspondência a ser entregue.

Depois de muitos anos-- nós nunca soubemos dessa história --, só recentemetne ele me contou, numa madrugada aqui em casa, os horrores pelos quais passou e um dia eu contarei. Coisa inacreditável!

Eton é pessoa de poucas posses- tanto que voltou a trabalhar nos Correios, após ser anistiado, e com mais de 50 anos de idade entrega cartas pelas ruas do centro.

Um militante de coragem impar, que continua até hoje acreditando no seu ideal e coerente com ele, é também um cartunista importante e está na história da imprensa sindical.

Aqui ele conta que o confundiram com um homônimo, leiam só que história incrivel. E está revoltado, porque enquanto Ziraldos recebem seu milhão , pessoas humildes e lutadoras como ele encontram grandes dificudlades, mesmo para serem entendidos e para provar o que passaram.

Boa sorte Eton, é o mínimo que psoso desejar.

O texto que ele me enviou:


"Bom dia! Estou enviando o texto abaixo para amigos meu da imprensa e no exterior . Estaremos em Brasília nesta terça- feira, 5 de maio, uma caravana, com talvez uns 20 onibus de "injustiçados pelo Ministério da Justiça!" e por esta "Comissão", que ao contrário do que acreditávamos, depois da "Temática", não mudou um milimetro das injustiça, que pratica com os anistiados!
Primeiro, dá tratamento diferenciado aos militares, idenizações milionárias e continuadas e eles. Segundo, que começaram pagando salário mínimo para aqueles que são considerados "zé ninguém". Agora não dão idenização, salários mínimos, nem nada. Agora estão dando só diploma! Sei que à imprensa não interessam nossas injustiças, muito pelo contrário, ela acha que os "anistiados em geral, são todos iguais", coisa absurda!
Tão absurdo quanto as excrescências encontradas nos nossos processos! Estive a semana passada analisando-os, embora tendo sido tratados com tanto desleixo, como da outra vez, que estive em Brasília.
As crianças que nos atenderam, e as que compõem o escritório da anistia são despreparadas! Deviam ter pelo menos mais idade e conhecimentos para lidar com o tema, tão complexo. Desconhecem História, e suas especificidades.
Tiveram a audácia de colocar no meu processo, uma ordem de captura do Exército, para a minha pessoa, por ter fugido do quartel em 1947, com a farda e o armamento! Só faltava essa!Só faltava o exército pedir mesmo que eu devolvesse as armas! Eu nasci em 1953, tive passagem pelo exercito em 1973, servi sem nada que desabonasse, minha pessoa, fui cozinheiro, muito querido na terceira companhia do segundo batalhão de guardas no Cambuci, em São Paulo.
O fato de ser militante de esquerda não nos torna soldados, desertores nem ladrões. Isso é resultado de um preconceito (propaganda), construído ao longo do tempo, por nossos inimigos! Se tiver dúvida, é só analisar a vida de Luiz Carlos Prestes! mas... perdão, com certeza nunca ouviram o nome deste senhor.
Até porque os jovens que vão ler esta carta, talvez sejam são como os outros que me atenderam, decerto se tiverem o segundo grau, é muito. Como iriam conhecer o Prestes? Eu sabia dos descalabros aí de Brasília, mas nem pensei que chegassem a este ponto! Sem dúvida das crônicas e livros sobre Hhistória, vão constar estas palhaçada!
Meus amigos são todos escritores e jornalistas, como eu. Com certeza não deixaremos passar despercebido, isto é uma pérola para os humoristas! Pois não nos interessa a grande imprensa tripudiar sobre a anistia que vocês estão transformando em uma palhaçada! Estou mandando mais material impresso, e depoimentos de amigos da imprensa sobre minha pessoa, até porque tem gente mesmo gente que só conhece o Ziraldo, pois lê muito pouco, meus amigos jornalistas acharam que eu estava exagerando em mandar tanto material para vocês. já que quem for estudar imprensa sindical, vai ter que ler sobre minha pessoa.
Mas quando se trata de "analfabetos políticos", é preciso exagerar nas apresentações! Se quiserem podem perguntar para Angeli, Laerte, Fausto, Glauco, sobre minha pessoa, já que só lhe interessa a grande imprensa e as figurinhas carimbadas!Até terça feira dia 5 de maio! Estaremos todos os anistiados na frente do Ministério da Justiça e das comunicações tomando um cafezinho com vocês!

Email mandado, para os blog dos cartunistas e jornalistas em São Paulo

Bira! Estarei viajando pra Brasilia, em protesto! Com mais uns 300 companheiros anistiados, faremos um tumulto frente ao Ministério da Justiça!Vim de Brasilia quinta feira! Fui no congresso, fazer lobby para a decisão do governo de julgar os vetos, (projetos vetados, pelo FHC), coincidência ou não, os mesmos vetos de Fernando Henrique serão endossados pelo Lula. O que deixa transparecer a semelhança nas prioridades de quem governa, como se diz: farinha do mesmo saco!
Fui até a Comissão de Anistia que julga os processos, examinar o meu, qual o meu espanto! Apareceram uns homens de verde oliva dizendo: "Devolva as armas!"
Eu disse: que armas! não tenho arma nenhuma! O que quer dizer isso? Tão me confundindo! Você não é o Edson Dias? Eu disse: Sou! Responderam: "Pois é, tem uma ordem de captura para Edson Dias, e você tem que devolver as armas que levou em 1947 do quartel. Aliás saiu fardado e desertou levando tudo!"

Pois é Bira! de fato, lendo o meu processo, descobri que tinha mesmo esta ordem de captura, tudo no meu nome, mas esqueceram de ler a data do meu nascimento, e do outro Edson Dias! Quando tudo se acalmou eu disse: pelo menos alguém deveria olhar na data do meu nacimento, pois como eu poderia ter roubado um quartel e desertado se eu não tinha nascido?Pois é assim na Comissão de Anistia, eles não lêm nada, vão levando as coisas assim na barriga, e é esse povo que deu um milhão e meio de idenização para o Ziraldo, só porque ele é conhecido, e para mostrar serviço! E eu, Edson Dias que fui militante jonalista, preso e torturado, confundem com um zé mané com o mesmo nome que eu em 1947, e ainda querem que eu devolva, ou fuzis, roubados!
Tô vendo um dia que eles vão cobrar uns trocos nossos, por termos sido demitidos e torturados na época da ditadura!"

Como a ditadura asfixiou a imprensa alternativa

Do Blog do Nassif

Belíssimo levantamento do Estadão, mostrando como a “ditabranda” asfixiou a imprensa alternativa da época, em pleno governo Geisel e com a concordância do Ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen, valendo-se da Receita Federal (clique aqui).

"Uma operação secreta de uso da Receita Federal para exterminar a imprensa alternativa foi desencadeada entre 1976 e 1978 pelo governo Ernesto Geisel (1974-1979), mostram documentos sigilosos da extinta Divisão de Segurança e Informações do Ministério da Justiça (DSI-MJ) obtidos pelo Estado.

Embora notabilizado pela suspensão da censura a jornais, pelo fim da tortura de presos políticos e pela distensão “lenta, segura e gradual”, o general, penúltimo ditador do ciclo militar de 1964, autorizou a ofensiva contra os pequenos veículos em despachos com o então ministro da Justiça, Armando Falcão. O ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen, concordou com a ação, proposta pelo II Exército - hoje Comando Militar do Sudeste, de São Paulo.

A autorização de Geisel para um ataque fiscal ao jornal Versus está documentada em ofício de 1º de setembro de 1978. Nele, o chefe de gabinete do Ministério da Justiça, Walter Costa Porto, transmite pedido da Polícia Federal para liberar a ação. A resposta vem manuscrita. “Confidencial. Conversei, no despacho de hoje, com o Exmo. Sr Presidente da República, que aprovou a medida”, escreve Falcão. “Prepare-se, assim, o competente expediente ao Sr. Ministro de Estado da Fazenda. Em 11.9.1978. A. Falcão.” Uma lista com Versus e outras 41 publicações que deveriam sofrer o mesmo processo da Receita, entre elas O Pasquim e Movimento, integra o dossiê."

domingo, maio 03, 2009

"Os jornalistas e sua greve: consciência de classe e debate político-2"




Foto Jesus Carlos

Decretação da greve em assembleia no Tuca, 22 de maio de 1979.





Excertos do artigo de Marco Antonio Roxo da Silva, apresentado no II Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho (Florianópolis,2004) mestrado em comunicação pela Universidade Federal Fluminense em 2003 com dissertação sobre o mesmo tema.


"A greve em questão ocorreu em maio de 1979. Os jornalistas de São Paulo reivindicavam 25% de aumento salarial e imunidade para os representantes sindicais nas redações. Duas assembléias foram realizadas. A primeira, na Igreja da Consolação, no dia 17 de maio, com presença de 1.500 jornalistas. A proposta de greve, apesar de aprovada, não atingiu o quorum qualificado de dois terços dos votantes, conforme deliberado pelo Comando Geral de Mobilização. A segunda, no início da noite do dia 22 daquele mês, no teatro da PUC de São Paulo, o TUCA, contou com a presença de 1.692 jornalistas. A proposta de greve geral foi aprovada por 90% dos profissionais presentes. Não houve propostas alternativas. Somente um voto contra.

Mesmo diante dessa unanimidade, os sindicatos patronais (de jornais e revistas, rádio e televisão) não modificaram a proposta inicial de 16% de antecipação, a ser descontada na data base da categoria, em dezembro do mesmo ano. Diante do impasse, no dia 28 do mesmo mês, o Tribunal Regional do Trabalho, por unanimidade, julgou a greve ilegal. O resultado abriu espaço para a retaliação das empresas, que iniciaram um processo de demissão de mais de 200 grevistas.


(...) Perseu Abramo, rememorando a greve dez anos depois, afirmou que o movimento teve duas motivações básicas: a primeira, a luta por melhores condições de trabalho; a segunda, o clima geral do país. “Naquela época todo mundo entrava em greve”.

Principal liderança do Teatro de Arena de São Paulo nos anos 1960. Criador do Teatro do Oprimido, metodologia internacionalmente conhecida que alia teatro a ação social.



Tem vários livros teóricos sobre o seu fazer teatral: O Teatro do Oprimido e Outras Políticas Poéticas, 1975; 200 Exercícios para Ator e o Não-Ator com Vontade de Dizer Algo através do Teatro, 1977; Técnicas Latino-Americanas de Teatro Popular, 1979; Stop: C'est Magique, 1980; Teatro de Augusto Boal, , vol. 1 e 2, 1986 e 1990; Jogos para Atores e Não Atores, 1988; Teatro Legislativo, 1996. Escreve dois textos autobiográficos, Milagre no Brasil, em 1977, e Hamlet e o Filho do Padeiro, em 2000.

Alguns prêmios no exterior: Officier de l'Ordre des Arts et des Lettres, outorgado pelo Ministério da Cultura e da Comunicação da França, em 1981, Medalha Pablo Picasso, atribuída pela Unesco em 1994. Em 2009, é nomeado embaixador mundial do teatro pela Unesco.

Disse o crítico Yan Michalski: " Até o golpe de 1964, a atuação de Augusto Boal à frente do Teatro de Arena foi decisiva para forjar o perfil dos mais importantes passos que o teatro brasileiro deu na virada entre as décadas de 1950 e 1960. Uma privilegiada combinação entre profundos conhecimentos especializados e uma visão progressista da função social do teatro conferiu-lhe, nessa fase, uma destacada posição de liderança. Entre o golpe e a sua saída para o exílio, essa liderança transferiu-se para o campo da resistência contra o arbítrio, e foi exercida com coragem e determinação. No exílio, reciclando a sua ação para um terreno intermediário entre teatro e pedagogia, ele lançou teses e métodos que encontraram significativa receptividade pelo mundo afora, e fizeram dele o homem de teatro brasileiro mais conhecido e respeitado fora do seu país".



Chico para Boal




Indicado ao Nobel da Paz em 2008



Imagens do projeto Teatro do Oprimido nas Escolas desenvolvido pelo CTO-Rio em 2006 e 2007



quinta-feira, abril 30, 2009

Dia do Trabalhador


Operários, Tarsila do Amaral, 1933



1 de Maio, Pedro Martinelli, 1971



Tenho esta foto do Pedrão guardada há anos. E também tenho a certeza de que, naquela época, Pedrão não conhecia o quadro da Tarsila. A chaminé é da antiga Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, no Parque da Água Branca.
Abaixo, texto dele próprio no seu blog, linkado aí embaixo à direita.


"Esta fotografia foi feita no dia primeiro de maio de 1971 no jogo Palmeiras X Guarani no Parque Antártica, segundos depois que o juiz colocou a bola na marca branca do meio do campo. Eu estava com o visor grudado na cara esperando o quadro ficar limpo. As bandeiras da torcida serem baixadas e os sorveteiros sairem do enquadramento.

O momento mágico foi entre o juiz olhar no relógio e fazer com a mão o sinal de positivo para os dois lados do campo, e o apito, dando o início do jogo. O estádio parou silencioso.

Esta foto foi a vencedora do Concurso de Fotografia da Revista Realidade e o prêmio foi uma viagem para a Fotokina em Colônia, na Alemanha, onde conheci meus queridos amigos e mestres Thomaz Farkas e Sergio Jorge."



Meu amigo, o escritor e tradutor Liu Sai Yam, me deu a alegria de escrever um texto sobre o Dia do Trabalhador, para a Babel. Obrigada Liu.


Primeiro de Maio



Chicago - 1885
Aos finais de 1885, a AFL (Federação Americana de Trabalho), em consonância com a AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores), programa para 1º de Maio de 1886 uma paralisação geral dos trabalhadores de Chicago, como manifestação a favor da jornada diária de 8 horas, em lugar das costumeiras 13, e até 17 horas, impostas pelas indústrias e o comércio.

Chicago – Zona Quente
Chicago, capital do Estado de Illinois, era polo central da crescente industrialização norte-americana, zona quente que concentrava fábricas, lojas, bancos, jornais, os maiores sindicatos patronais e operários, centro nervoso do crime organizado, território livre da Máfia, organizações socialistas, comunistas e agitadores anarquistas.

Chicago – 1º de Maio de 1886
O movimento tem adesão maciça em conseqüência da intensa convocação pelas lideranças sindicais. A polícia está também com os nervos à flor da pele. A imprensa conservadora de um lado e a agitação anarquista de outro insuflam as tensões. As primeiras passeatas ocorrem de modo pacífico, com participação de mulheres e crianças.

Chicago – 3 de Maio de 1886
No terceiro dia de paralisações, ânimos se acirrados. Guerras ideológicas se travam entre órgãos de imprensa, oradores de rua, lideranças sindicais e políticas. A polícia investe contra uma concentração em frente à MacCormick. Atira para matar. Saldo de 6 mortos, mais de 50 feridos e centenas de prisões.

Chicago – 4 de Maio de 1886
Nervos em ponto de bala. Líderes sindicais, ativistas socialistas e anarquistas lutam pela continuação da greve. A polícia ataca os comícios, começa a haver reação. Disparos e explosões a bomba por toda a cidade. O pau come solto (com participação ativa do crime organizado, no ataque aos operários) dando oportunidade ao governo decretar Estado de Sítio e encarcerar ativistas e sindicalistas, inclusive os que tentavam acalmar a população.

7 prisões para quebrar a espinha do movimento
O Estado manda prender 7, tidos “cabeças” do movimento: August Spies e Michel Shwab, editores de jornais operários; Sam Fieldem, Oscar Neeb, Adolph Fischer, Louis Lingg e Georg Engel, sindicalistas e ativistas de esquerda. Em 9 de outubro de 1886, Parsons, Fischer, Spies, Lingg e Engel são condenados à forca; Schwab e Fieldem à prisão perpétua; Neeb recebe 15 anos.

4 enforcamentos e 1 suicídio
Aos 11 de Novembro de 1886, Parsons, Fischer, Spies e Engel são executados. Lingg se antecipara, matando-se na prisão.

Sentenças anuladas
Em 1891, a Corte de Illinois, pressionada pelas fartas evidências de irregularidades, falsos testemunhos e intimidações havidos no julgamento de 1886, anula as penas dadas aos sete, reabilitando-os e libertando os sobreviventes.

Paris – 14 de Julho de 1889
No centenário da Revolução Francesa, ocorre em Paris gigantesca assembléia geral operária representando mais de 3 milhões de trabalhadores, o que daria início à 2ª Internacional Socialista, de 1890; e entre diversas resoluções cruciais ao futuro do movimento operário –
Marx, por exemplo, neutraliza de vez a figura polêmica de Bakunin, expurgando os anarquistas da cena política": errado, que os camaradas socialistas-libertários podem ter perdido a parada na 2ª Internacional, mas jamais na cena política.Fizeram e aconteceram em todos os momentos cruciais da história do Trabalho urbano e rural no século 20, proporcionando contrapontos ora autofágicos ora salutares nas lutas e polêmicas teóricas.
Resultados

1º de Maio de 1886 e Chicago foram adotados como símbolos, marcos de um longo processo de lutas dos trabalhadores contra condições desumanas, tratamentos crueis e ausência total de direitos. As conquistas foram lentas, extraídas a fórceps: a jornada de 8 horas, descanso remunerado, férias, assistência médica, previdência, tudo o que o trabalhador hoje considera normal e natural, foram duramente extraídos de encarniçados confrontos, debates políticos, polêmicas teóricas, prisões e sangue derramado.

Hoje em dia, as celebrações de 1º de Maio tomam forma de festivos convescotes, com sorteio de brindes ao som de axé, sambão e pagode; o que de resto se sucede com todas as celebrações clássicas, como Natal, Páscoa, Confraternização Universal...

Mas não custa lembrar o porquê de estarmos pulando ao som de Ivete Sangalo.

quarta-feira, abril 29, 2009

Itamar Assumpção




(Venha até São Paulo.Video de apresentação do seminário sobre Itamar Assumpção;História da MusicaIV.Centro de Estudos Musicais Tom Jobim)

Vai sair um livro com as letras dele, morador da Penha (SP) e apresentação do Mario Bortolotto. Imperdível, aqui uma das letras

Do alto dos quarenta e quatro

Do alto dos quarenta e quatro

miro meu retrato de anos atrás.

Tenho ar preocupado, um riso forçado...

num branco sem paz.

Do alto dos quarenta e quatro

tiro meus sapatos, ando pelo cais.

Mais lúcido que alucinado,

aprendi um ditado: “Prendam Barrabás!”

Vivo entre verso e prosa, ataque e defesa.

Vivo muito mais.

terça-feira, abril 28, 2009

O administrador do prédio fugiu





Com a grana do predinho onde moro, e de mais outros dez predios, minha gente. Pode???
A doença do mundo




Mestre Liu Pai Lin aos 93 anos


Na Associação Tai Chi Pai Lin diz o professor: não é que apenas nos afastamos da natureza, nós não nos consideramos parte da natureza.
E diz a professora: como podemos querer consertar o mundo, se dentro de nós tudo está brigando?

O mundo sofre de síndrome de pânico, me diz um amigo. A cada dia, uma notícia aterradora: agora é a gripe suína. Outro dia foi a gripe aviária, e aqui entre nós a febre amarela, devidamente transformada em pânico pela midia, que chegou até a matar gente porque repetiu vacina que não precisava. Filas no Instituto Pasteur, me conta o amigo que mora lá perto, mesmo com chuva, ano passado, gente atrás da vacina, porque deu no jornal, deu na TV.

Michael Moore, em um de seus excelentes documentários, mostra como os Estados Unidos da América do Norte vive sob o domínio do medo, e faz seus cidadãos se armarem até os dentes. Isso na era Bush.
E o dominio do medo espalha-se. Em Alfenas, pequena cidade do sul de Minas Gerais, a maioria das casas tem muros altissimo. Não se vê mais a antiga varanda, o então jardim.

E quando passar a gripe suina outro sinal de alarme surgirá, além dos tsunamis, além dos terremotos,
além da indústria farmacêutica ( a maior criminosa do mundo, disse aquele Doutor da Alegria norte-americano em uma entrevista impar no Brasil) além dos planos de saúde, além da fome, além da míséria, além dos lucros dos bancos, além da falta de ética e de caráter, além da dor.

Quando teremos algum minuto de paz? Quando nos lembraremos de quem somos e do milagre que representa a vida, tão banalizada?

Quando voltaremos a nos considerar parte da natureza, a natureza humana?

segunda-feira, abril 27, 2009

Making of da Babel de Brueghel