domingo, abril 19, 2009


Mário Quintana


E se Deus é canhoto? Isso explica, talvez, as coisas deste mundo!

sábado, abril 18, 2009




Aprendi a gostar dele desde criança, com os discos de meu pai. Hoje faz 11 anos da sua morte.
Mas esses artistas não morrem, ficam encantados, como disse Rosa.


Janis- Summertime- stocolmo 1969

sexta-feira, abril 17, 2009

Melô e as crianças da Rocinha




Cruel (Sérgio Sampaio)

Tudo cruel, tudo sistema

Torre Babel, falso dilema

É uma dor que não esconde o seu papel

São Carlos, morro, Borel


Eu subo e nunca estou no céu
Marianne cheia de fé


Texto que escrevi em 4 de agosto de 2005, carta a alguns amigos

Me deu vontade de escrever – e há tanto tempo não escrevo coisas de que gosto --depois de assistir pela segunda vez, num canal a cabo, a um documentário sobre Marianne Faithfull. Não sei se vocês se lembram, eu tinha uma vaga lembrança.
Era uma linda cantora dos sixties, roqueira que fugiu com o Mick Jaegger. Inglesa também. Ela hoje tem uma voz grave, parecida com a de La Dietrich. Peguei o documentário na hora em que ela dizia: “Mudei para a Irlanda porque a Inglaterra não me merece!”.
“England doesn't deserve me!”, coisa assim.
Porque o establishment caiu em cima dela, “e eu que nunca fiz nada de errado”, dizia.
Claro que nós imaginamos o que ela fez de errado para a velha Albion. Não é? Aquela mesma na qual o jovem príncipe herdeiro vai a uma festa fantasiado de nazi, e dizem que aquela bela história de amor entre o príncipe Edward e a plebéia no século passado era para encobrir coisas menos nobres.
Então, depois de uma vida cheia de glamour- acho que ela foi a inspiração para aquela linda “Angie”, dos Stones – Marianne cheia de fé caiu na sarjeta, anoréxica, drogada, acabada. Depois dos sixties vieram os seventies brabos.
Mas Marianne levantou a cabeça loira da lama. E o que eu vi hoje foi uma mulher creio que na sexta década, mas que, mesmo sem plástica, não parece. Pois tem o mesmo jeito dos sixties.
“Não gosto muito de gente, não sou sociável, gosto de minha casa, que é meu reino”. Fez uma linda música pra dois que já se foram, Warhol e uma francesa, Nico, não sei quem é, mas alguma cantora vítima de alguma injustica.
E diz Marianne: “Não gosto de injustiças. Embora nunca tenha feito nada publicamente contra isso. “

A câmera segue Marianne na cozinha, na sala, no quarto, ela com músicos jovens irlandeses, e eles falando o tanto que a admiram. Patrice Chereau, aquele belo diretor de cinema, também fala sobre ela.
E uma câmera acompanha Marianne no ensaio de um show. Canta, com a voz gravíssima, uma bela canção. Fumando que nem louca.
“Claro que não vou continuar me arrastando pelos palcos aos 70 anos”, ela confessa. “Mas eu adoro o stage. Enfim, terei coisas para fazer: acho que sou uma boa jardineira e nunca me testei nisso”.
Termina assim, ela deitada, de botas, na cama com colcha de pele, cantando junto com o CD, uma música que fala do reino doméstico.Belíssima canção, a song, daquelas que Tinhorão vaticinou -- seguido por Chico Buarque , sem dizer o nome da fonte-- não terão mais lugar no século 21, pois foram uma manifestação do século 20.
Não sei, mas acho que vocês entenderam o espírito da coisa. Né?

quarta-feira, abril 15, 2009




João do Rio e Lima Barreto: almas encantadoras das ruas cariocas






Meu amigo e colega jornalista Gutemberg Medeiros defendeu ontem, 14 de abril, na ECA-USP sua excelente tese de doutorado “Urbanidade e metajornalismo nas matrizes da Modernidade: memória textual nas produções de Lima Barreto e João do Rio no início do século XX". Durou mais de 4 horas, com intervenções preciosas dos professores da banca. O trabalho foi orientado pela professora Terezinha Tagé, de cujo grupo de pesquisa fazemos parte, e já falei aqui: Textos da Cultura em Mídias Diferenciadas, na pós-graduação em Ciências da Comunicação.

Como cheguei atrasada, peguei a discussão interesantissima, já pelo meio. E o alentado trabalho do Gutemberg abre as considerações finais com o verso do Paulinho da Viola "A vida não cabe num samba curto".

Trata de dois mulatos cariocas: Lima Barreto, o do Memórias do Escrivão Isaias Caminha, roman à clef sobre o Correio da Manhã, pelo qual foi expurgado do jornal até depois da morte - e quem descobriu que seu nome era impublicável foi o jornalista Sergio Augusto, que trabalhou lá no suplemento de cultura nos anos 1960.

E João do Rio, o daquela Alma Encantadora das Ruas, que, esperto, resolveu sair da exclusão via um acordo com a influente colônia portuguesa no Rio: criou a revista Atlântica, patrocinada pelo DIP de Vargas e pela ditadura de Salazar.

Mas, lembra Gutemberg, tinha maravilhosos artigos de gente como Graciliano Ramos e que tais.

Quando ele morreu, os portugas, donos das frotas de táxi, abriram seus carros gratuitamente para o povo, e muitos cariocas andaram de táxi pela primeira vez.

Claro que a tese do Gutemberg é muito mais que isso, aqui dei apenas um gostinho. E quando for publicada eu aviso que não é coisa chata de ler, as teses desse grupo são preciosos aportes à comunicação e sua visão de mundo é ampla.


“O mundo é uma ilha de edição”


Disse a professora Jerusa de Carvalho Pires Ferreira, na banca, citando seu conterrâneo baiano, o poeta Wally Sailormoon, ou Salomão, sugerindo a publicação da tese, claro, com uma boa edição.

Ensaísta e professora de Literatura e Comunicação Social, Jerusa é um dos grandes nomes dessa área, atualmente na PUCSP, onde coordena há mais de 10 anos o Centro de Estudos da Oralidade e onde organizou mais de dez colóquios e seminários internacionais. Lembrou também que Odorico Mendes, tradutor maranhense de Homero, disse uma vez: “Só Deus é original”.

E lembrou de seu trabalho, uma pesquisa no que chamamos de periferia, a Cultura das Bordas, que levou mais de 20 anos-e foi publicada na França, mas aqui ainda não-, e entre elas aquela sobre os editores Fittipaldi, sim, do mesmo ramo dos automobilistas. Saverio Fittipaldi chegou ao Rio em 1913, depois voltou para a Itália na guerra, depois retornou ao Rio e foi ser vendedor de jornais. Adorava o jornal O Pais e as crônicas de João do Rio. Certo dia, aparece o próprio na sua frente. Ele o descreve vestido como “um centurião romano”- era um dândi o João. E o jornalista e escritor diz: “Há muitos anos eu precisava de um vendedor de jornais capacitado como você”. Naquele momento criou-se a Editora João do Rio (1921-1937).

Mais tarde, em São Paulo, Saverio criou a Editora das Américas, que publicou clássicos como Dante, Virgilio, Tolstoi, Victor Hugo.

A grande matriz de Saverio e de João, entretanto, era a imprensa. Uma das histórias que pessoas sérias e entusiasmadas da academia, como Jerusa, descobrem para nós.


segunda-feira, abril 13, 2009

Brasil Nação discute abusos da mídia



Trechos de recente mesa redonda do excelente programa Brasil Nação, da TV Educativa do Paraná, com os jornalistas Beto Almeida, mediador; Luiz Carlos Azenha, do Vi o Mundo e da TV Record; Leandro Fortes, da Carta Capital; e o meu queridíssimo amigo Alípio Freire, do jornal Brasil de Fato e da editora Expressão Popular, poeta, escritor e companheiro de tantas batalhas.
Dá-lhe!

(Achei tudo interessante demais, especialmente o senador mencionado ( por exclusão entre dois de São Paulo, Aloisio Mercadante), que disse não poder denunciar coisas da imprensa porque ficaria sem mídia....que xuxuzinho (aliás, é também muito chegado aos GMO, ou seja, organismos geneticamente modificados). Ainda bem que nunca votei nesse senhor, nem votarei, e recomendo o mesmo aos amigos deste blog, seus amigos e familiares.)






Colaboração da Beth Sigoli

Cesare Pavese

“No fundo, a sabedoria do destino é a nossa própria. Porque nós o seguimos tendo consciência daquilo que no fundo nos é permitido realizar. Por mais tentações que tenhamos, nunca erramos nisso. Sempre agimos de acordo com o destino. As duas coisas são uma só.Quem erra é quem não compreende ainda seu destino. Ou seja, não compreende qual é a resultante de todo o seu passado – que indica o seu futuro. Mas, compreenda-o ou não, indica-o do mesmo modo. Toda vida é exatamente aquilo que devia ser".

31 de março de 1946


domingo, abril 12, 2009

A Valsa- Camile Claudel

A Valsa- Camile Claudel



Elizabeth Lorenzotti



Valsa para Bernardo



Uma rua de paralelepípedos. Um homem magro, óculos de aros finos e aspecto melancólico. Um café, onde é freguês habitual e tem sua mesa cativa. Um mapa astral guardado no bolso traça o perfil de seu país. Os tons velados do crepúsculo. Alguém bate uma fotografia do homem caminhando pela rua e esta será uma das poucas imagens que conseguem roubar dele. Detesta fotografia, talvez como certos povos que acreditam ficar sem alma se sua imagem for capturada num instantâneo flash.

Este o ajudante de guarda-livros do escritório da Rua dos Douradores, Bernardo Soares. O escritório da Rua dos Douradores é a vida inteira.

“E, se o escritório da Rua dos Douradores representa para mim a vida, este meu segundo andar, onde moro, na mesma Rua dos Douradores, representa para mim a Arte.

Sim, a Arte, que mora na mesma rua que a Vida, porém num lugar diferente, a Arte que alivia da vida sem aliviar de viver, que é tão monótona como a mesma vida, mas só em lugar diferente. Sim, esta Rua dos Douradores compreende para mim todo o sentido das coisas, a solução de todos os enigmas, salvo o existirem enigmas, que é o que não pode ter solução”.

É como se ele me guiasse agora, indicando suas escrituras que melhor podem exprimir este momento em que caminha pela Rua dos Douradores, o lugar da vida e da arte, vizinhas de porta.

Ah, Bernardo, eu não te conheci de carne e ossos, apenas destes papéis escritos. Eu te amo porque não te conheço. E se me conhecesses, me amarias? Eu te pergunto nestes papéis escritos que não são a vida. Eu, que te amo por esses papéis escritos.

Neste momento em que Bernardo caminha de volta para o segundo andar do prédio onde mora , homem tão frágil e indefeso, não pode impedir quem o recria, mesmo que seja com amor. Olvido é uma bela palavra em espanhol, mas é a lembrança que nos mantém vivos em português.

Sobe os degraus -- e é um homem jovem, mas carrega fardos invisíveis, e seus passos são arrastados.

Mal posso imaginar Bernardo dançando alguma vez em sua vida.

Mas sei que ele gostaria de poder se dar esse prazer.

Por isso eu o convido, agora, logo que gira a chave da porta antiga.

Uma valsa talvez? Bernardo, se dançares tua alma ficará alegre, porque teu corpo se alegrará. Assim: um, dois, três, um, dois três, um, dois, três. Melhor sem os sapatos, pisar o chão de pés nus. Sim, era só o que te faltava, pois. Uma mulher te tirar para dançar.

Mas por que queres que este ajudante de guarda-livros dance contigo?

Porque tudo vale a pena, Bernardo, se a alma não é pequena, e bem sabes.


Ele coloca o chapéu de homem de bem na cadeira de palhinha, acende um abat-jour, tira os sapatos, meio trêmulo a princípio, as mãos transpiram quando pegam nas minhas. Deixe-me vê-las, eu peço, observo as palmas e sua linha da vida é curta, a da cabeça cheia de acidentes e a do coração muito fina, quase invisível. Dá corda ao gramofone, em meio aos livros e discos de modinhas e de valsas espalhados.

Me encanta ouvir, mas dançar é reservado apenas aos deuses, ele argumenta.

Se dançássemos a vida, como nossos mais remotos ancestrais, eu te digo, Bernardo.

Se dançássemos até o que não tem solução, talvez, quem sabe, nos tornássemos mais fortes e mais sábios.

Talvez nos tornássemos mais belos, diz Bernardo.

A noite cai sobre Lisboa. A luz da lua entra pela janela do pequeno quarto alugado do guarda-livros da Rua dos Douradores, que começa a aprender a dançar.

Amanhã, quando o despertador tocar, às seis e meia, ele repetirá o ritual cotidiano de jogar água da ânfora na bacia de louça, (um, dois, três) lavar o rosto, bochechar com um líquido violeta, colocar os óculos de aros finos, escolher entre os poucos ternos e camisas e gravatas (um, dois, três), as meias de algodão, os sapatos de couro marrom.

Sairá de casa, um, dois, três, um, dois, três e no bar da esquina tomará um pingado com pão e manteiga, um, dois, três. Acenderá um cigarro e irá para o escritório, um, dois, três, um, dois, três, atravessando sua rua de paralelepípedos e casas com azulejos azuis e brancos, um, dois, três, um dois três, um, dois, três, um.


sábado, abril 11, 2009

O Boddhisatva da Compaixão

(e quanto estamos precisados desse sentimento, que tanto pregou também o Cristo, especialmente na sua Paixão: perdoai-os, eles não sabem....)

No Budismo os chamados Boddhisattvas são aqueles que estão a um passo de se tornarem Budas. Dentro da linha do budismo tibetano, o Boddhisattva Avalokitesvara é
conhecido como o Boddhisattva da compaixão.
Conta-se que Avalokitesvara prometeu a si mesmo que ficaria reencarnando na Terra enquanto nela houvesse sofrimento e pessoas necessitando de ajuda.
Com o passar do tempo, ele percebeu que sua missão era impossível de ser completada, pois quanto mais pessoas ajudava, mais apareciam necessitadas de auxílio. O Buda Amitabha (da Luz Imensurável) sugeriu a ele que criasse um mantra e continuasse sua caminhada evolutiva.
Dessa forma quem precisasse de sua ajuda deveria pensar firmemente nesse mantra que acabaria por se conectar com ele.
Assim nasceu o mantra budista tibetano: OM MANI PADME HUM (salve a jóia no lótus).
Não importa que soe estranho na nossa língua, são palavras imemoriais e ressoam bem no fundo da nossa ancestralidade.