
Mário Quintana
E se Deus é canhoto? Isso explica, talvez, as coisas deste mundo!
Meu amigo e colega jornalista Gutemberg Medeiros defendeu ontem, 14 de abril, na ECA-USP sua excelente tese de doutorado “Urbanidade e metajornalismo nas matrizes da Modernidade: memória textual nas produções de Lima Barreto e João do Rio no início do século XX". Durou mais de 4 horas, com intervenções preciosas dos professores da banca. O trabalho foi orientado pela professora Terezinha Tagé, de cujo grupo de pesquisa fazemos parte, e já falei aqui: Textos da Cultura em Mídias Diferenciadas, na pós-graduação em Ciências da Comunicação.
Como cheguei atrasada, peguei a discussão interesantissima, já pelo meio. E o alentado trabalho do Gutemberg abre as considerações finais com o verso do Paulinho da Viola "A vida não cabe num samba curto".
Trata de dois mulatos cariocas: Lima Barreto, o do Memórias do Escrivão Isaias Caminha, roman à clef sobre o Correio da Manhã, pelo qual foi expurgado do jornal até depois da morte - e quem descobriu que seu nome era impublicável foi o jornalista Sergio Augusto, que trabalhou lá no suplemento de cultura nos anos 1960.
E João do Rio, o daquela Alma Encantadora das Ruas, que, esperto, resolveu sair da exclusão via um acordo com a influente colônia portuguesa no Rio: criou a revista Atlântica, patrocinada pelo DIP de Vargas e pela ditadura de Salazar.
Mas, lembra Gutemberg, tinha maravilhosos artigos de gente como Graciliano Ramos e que tais.
Quando ele morreu, os portugas, donos das frotas de táxi, abriram seus carros gratuitamente para o povo, e muitos cariocas andaram de táxi pela primeira vez.
Claro que a tese do Gutemberg é muito mais que isso, aqui dei apenas um gostinho. E quando for publicada eu aviso que não é coisa chata de ler, as teses desse grupo são preciosos aportes à comunicação e sua visão de mundo é ampla.
“O mundo é uma ilha de edição”
Disse a professora Jerusa de Carvalho Pires Ferreira, na banca, citando seu conterrâneo baiano, o poeta Wally Sailormoon, ou Salomão, sugerindo a publicação da tese, claro, com uma boa edição.
Ensaísta e professora de Literatura e Comunicação Social, Jerusa é um dos grandes nomes dessa área, atualmente na PUCSP, onde coordena há mais de 10 anos o Centro de Estudos da Oralidade e onde organizou mais de dez colóquios e seminários internacionais. Lembrou também que Odorico Mendes, tradutor maranhense de Homero, disse uma vez: “Só Deus é original”.
E lembrou de seu trabalho, uma pesquisa no que chamamos de periferia, a Cultura das Bordas, que levou mais de 20 anos-e foi publicada na França, mas aqui ainda não-, e entre elas aquela sobre os editores Fittipaldi, sim, do mesmo ramo dos automobilistas. Saverio Fittipaldi chegou ao Rio em 1913, depois voltou para a Itália na guerra, depois retornou ao Rio e foi ser vendedor de jornais. Adorava o jornal O Pais e as crônicas de João do Rio. Certo dia, aparece o próprio na sua frente. Ele o descreve vestido como “um centurião romano”- era um dândi o João. E o jornalista e escritor diz: “Há muitos anos eu precisava de um vendedor de jornais capacitado como você”. Naquele momento criou-se a Editora João do Rio (1921-1937).
Mais tarde, em São Paulo, Saverio criou a Editora das Américas, que publicou clássicos como Dante, Virgilio, Tolstoi, Victor Hugo.
A grande matriz de Saverio e de João, entretanto, era a imprensa. Uma das histórias que pessoas sérias e entusiasmadas da academia, como Jerusa, descobrem para nós.
Colaboração da Beth Sigoli
Cesare Pavese
“No fundo, a sabedoria do destino é a nossa própria. Porque nós o seguimos tendo consciência daquilo que no fundo nos é permitido realizar. Por mais tentações que tenhamos, nunca erramos nisso. Sempre agimos de acordo com o destino. As duas coisas são uma só.Quem erra é quem não compreende ainda seu destino. Ou seja, não compreende qual é a resultante de todo o seu passado – que indica o seu futuro. Mas, compreenda-o ou não, indica-o do mesmo modo. Toda vida é exatamente aquilo que devia ser".
31 de março de 1946
Elizabeth Lorenzotti
Valsa para Bernardo
Uma rua de paralelepípedos. Um homem magro, óculos de aros finos e aspecto melancólico. Um café, onde é freguês habitual e tem sua mesa cativa. Um mapa astral guardado no bolso traça o perfil de seu país. Os tons velados do crepúsculo. Alguém bate uma fotografia do homem caminhando pela rua e esta será uma das poucas imagens que conseguem roubar dele. Detesta fotografia, talvez como certos povos que acreditam ficar sem alma se sua imagem for capturada num instantâneo flash.
Este o ajudante de guarda-livros do escritório da Rua dos Douradores, Bernardo Soares. O escritório da Rua dos Douradores é a vida inteira.
“E, se o escritório da Rua dos Douradores representa para mim a vida, este meu segundo andar, onde moro, na mesma Rua dos Douradores, representa para mim a Arte.
Sim, a Arte, que mora na mesma rua que a Vida, porém num lugar diferente, a Arte que alivia da vida sem aliviar de viver, que é tão monótona como a mesma vida, mas só em lugar diferente. Sim, esta Rua dos Douradores compreende para mim todo o sentido das coisas, a solução de todos os enigmas, salvo o existirem enigmas, que é o que não pode ter solução”.
É como se ele me guiasse agora, indicando suas escrituras que melhor podem exprimir este momento em que caminha pela Rua dos Douradores, o lugar da vida e da arte, vizinhas de porta.
Ah, Bernardo, eu não te conheci de carne e ossos, apenas destes papéis escritos. Eu te amo porque não te conheço. E se me conhecesses, me amarias? Eu te pergunto nestes papéis escritos que não são a vida. Eu, que te amo por esses papéis escritos.
Neste momento
Sobe os degraus -- e é um homem jovem, mas carrega fardos invisíveis, e seus passos são arrastados.
Mal posso imaginar Bernardo dançando alguma vez em sua vida.
Mas sei que ele gostaria de poder se dar esse prazer.
Por isso eu o convido, agora, logo que gira a chave da porta antiga.
Uma valsa talvez? Bernardo, se dançares tua alma ficará alegre, porque teu corpo se alegrará. Assim: um, dois, três, um, dois três, um, dois, três. Melhor sem os sapatos, pisar o chão de pés nus. Sim, era só o que te faltava, pois. Uma mulher te tirar para dançar.
Mas por que queres que este ajudante de guarda-livros dance contigo?
Porque tudo vale a pena, Bernardo, se a alma não é pequena, e bem sabes.
Ele coloca o chapéu de homem de bem na cadeira de palhinha, acende um abat-jour, tira os sapatos, meio trêmulo a princípio, as mãos transpiram quando pegam nas minhas. Deixe-me vê-las, eu peço, observo as palmas e sua linha da vida é curta, a da cabeça cheia de acidentes e a do coração muito fina, quase invisível. Dá corda ao gramofone, em meio aos livros e discos de modinhas e de valsas espalhados.
Me encanta ouvir, mas dançar é reservado apenas aos deuses, ele argumenta.
Se dançássemos a vida, como nossos mais remotos ancestrais, eu te digo, Bernardo.
Se dançássemos até o que não tem solução, talvez, quem sabe, nos tornássemos mais fortes e mais sábios.
Talvez nos tornássemos mais belos, diz Bernardo.
A noite cai sobre Lisboa. A luz da lua entra pela janela do pequeno quarto alugado do guarda-livros da Rua dos Douradores, que começa a aprender a dançar.
Amanhã, quando o despertador tocar, às seis e meia, ele repetirá o ritual cotidiano de jogar água da ânfora na bacia de louça, (um, dois, três) lavar o rosto, bochechar com um líquido violeta, colocar os óculos de aros finos, escolher entre os poucos ternos e camisas e gravatas (um, dois, três), as meias de algodão, os sapatos de couro marrom.
Sairá de casa, um, dois, três, um, dois, três e no bar da esquina tomará um pingado com pão e manteiga, um, dois, três. Acenderá um cigarro e irá para o escritório, um, dois, três, um, dois, três, atravessando sua rua de paralelepípedos e casas com azulejos azuis e brancos, um, dois, três, um dois três, um, dois, três, um.
O Boddhisatva da Compaixão
Orides Fontela
Construir torres abstratas
porém a luta é real. Sobre a luta
Nossa visão se constrói. O real
Nos doerá para sempre