sexta-feira, agosto 17, 2007

Rio, 40





A escada que vai dar no Cantagalo
O consolo aos deprimidos. Calçadões.
A praia especial para os cachorros.
A esmola fácil ao falso mendigo.
A orientação das pedras, as pulseiras.
Os estrangeiros. Tapetes vermelhos.
As alças dos vagões sujos da Central.
As quinze facadas. As ciclovias
ao pôr do sol. Peixe à belle méunière.
Os bares da barra. Pizza em pedaços.
Os sons ainda distantes do carnaval.
Os solenes rituais do cotidiano.
A carta e a carteira. o farol e o sinal.
Os velhos casarios. A graça de Deus.
O templo nos altos de Santa Tereza.
O estorvo e o trevo do arcado poeta.
A elegância delgada do sambista.
A algaravia. O sol na tua cabeça.
As manchetes nos quiosques de revistas.
Os invólucros dos corpos. As barcaças.
Os olhares esgarçados das meninas.
O negro gato enroscado sob a mesa.
A estrela na porta. A tua presença.
Os tiros na madrugada. As risadas.
A tornozeleira indiana, as cartas.
As padarias que não vendem cigarros.
Os matadores. A visão do templário.
Os bolos sempre embatumados dos bares.
O chute na pedra. O homem da espada.
O tratado de métrica abandonado.
Os primitivos à venda numa praça.
As marcas dos trilhos de bondes extintos.
O sol nas barracas de Copacabana.
As finas paredes dos apartamentos.
A folia incessante sob os trópicos.
A roda da fortuna, as linhas das mãos.
As impávidas causas. Multidumbres.
A sinistra cegueira. A alma antiga
dessas mulheres. Os desencontros.
A thing of beauty is a joy forever

Um jornalista como poucos

Morreu ontem um dos melhores jornalistas do país, aos 89.
Ninguém melhor do que Joel Silveira para retratar o momento presente, de "cansadinhos" na Praça da Sé.
Ele que descreveu a elite paulistana na grande reportagem "A milésima segunda noite da Avenida Paulista", em 1943, e tantas outras pérolas. Imagino o que sua pena faria com dórias, madames, advogados corporativos, CEO revoltado...
Trabalhando para o Diário da Noite, de Chateaubriand, que tinha rixas com o conde Matarazzo, acabou reportando o casamento de um casal de seus operários, na periferia, no mesmo dia em que se casava a filha do conde.
Em outra reportagem sobre o high society lê-se:
"Comento com Fifi a vida mundana de São Paulo, e ela me diz na sua vozinha:
-Está adorável!Nunca tivemos uma vida social tão intensa.
É que os motores das fábricas estão trabalhando muito.Já não há horas vagas nos domínios dos Matarazzo e dos Crespi. Os enormes portões da Moóca não se fecham: expulsam, de manhã cedo, uma turma de gente cansada e cinzenta, engolem mais gente que se cansará durante o dia. Os relatórios, sempre exatos, nos contam coisas muito importantes. Dizem, por exemplo, que os lucros de Matarazzo no ano passado foram de 700 milhões de cruzeiros. É muito dinheiro e com ele os Matarazzo podem fazer grandes e belas coisas. Algum dia (quem sabe?) Matarazzo fará um refeitório ventilado e claro para seus operários. Fará também uma maternidade para as mulheres dos operários, não uma maternidade elegante e cara, a melhor da América do Sul, como aquela que ergueu lá para os lados da Avenida 9 de Julho; apenas uma maternidade sóbria, mas que seja de graça".
Algumas das melhores reportagens de Joel estão em "A milésima segunda noite na Avenida Paulista", Companhia das Letras, 2003.

quarta-feira, agosto 15, 2007

Vídeo de ricos "caçando" pobres gera polêmica na Escócia

Aqui, por enquanto, os videos mostram só as elites jogando ovos nos pobres lá embaixo. Já na Old Scotland a coisa é mais aventurosa...
Esses dias, li em algum lugar que, com o colapso do socialismo, só restaram os ricos contra os pobres, sem nenhuma mediação. Parece que sim, a barbárie está aí



Da BBC Brasil

Um dos mais prestigiados colégios particulares da Escócia, o Glenalmond College, tornou-se o centro de uma polêmica depois que alunos vestidos como aristocratas apareceram em um vídeo humorístico perseguindo e matando adolescentes que aparentam ser de classe social inferior.

Divulgado na segunda-feira, o vídeo intitulado Class Wars (em tradução livre, Luta de Classes) faz uma paródia das tradicionais caçadas britânicas, associadas à elite do país.

Mas ao invés de animais, o alvo dos caçadores são os chavs, segundo o dicionário Oxford, termo inglês usado para descrever jovens de comportamento insolente e grosseiro vestidos com roupas esportivas de marca. A expressão tem conotações de baixa posição social.

Um representante do Glenalmond College, Gordon Woods, disse que o vídeo, colocado no site YouTube, foi feito por ex-alunos do colégio.

Ele disse que desaprova profundamente o vídeo, que qualificou de revoltante.

O filme, com três minutos e meio de duração, foi retirado do site YouTube. Nele, jovens vestindo roupas de montaria são vistos bebendo champanhe antes de sair a cavalo para a caçada.

Ao avistar os chavs, vestidos com abrigos esportivos, bonés e tênis de marca associados à classe baixa branca britânica, os caçadores iniciam a perseguição.

Um dos jovens, separado dos outros e cercado pelos cavaleiros, cai no chão. Um caçador desmonta do cavalo e cutuca o jovem caído com uma bengala, enquanto um cachorro o fareja.

No final do filme, os chavs são vistos correndo por um gramado enquanto uma arma mira e derruba um por um. Ao som de música erudita e em câmera lenta, os jovens caem no chão.

Acredita-se que todos os atores, aristocratas e chavs, sejam alunos ou ex-alunos do colégio Glenalmond. O vídeo identifica o colégio como local das filmagens.

A escola, que pode custar até US$ 45 mil por ano para alunos em regime de internato, se gaba de instilar em seus alunos "qualidades que têm raízes firmes na tradição britânica: cortesia, honestidade, integridade, modéstia e respeito ao outro".

Entre os ex-alunos do Glenalmond College, em Perthshire, estão o ator Robbie Coltrane e Kevin MacDonald, diretor do filme "O Último Rei da Escócia".

quinta-feira, agosto 09, 2007

Verdade, honra, vergonha?





Passei pelo centro da cidade de São Paulo hoje, esquina da Barão de Itapetininga com Dom José de Barros, onde num antigo predio que abriga um restaurante vegetariano, os donos têm o bom gosto de pendurar banners poéticos. Vem a calhar pra tudo o que aconte ne no pais, na cidad,e no mundo.
Trecho do poema Epilogos , de Gregório de Matos



Que falta nesta cidade?.Verdade

Que mais por sua desonra?Honra

Falta mais que se lhe ponha..Vergonha.



O demo a viver se exponha,

Por mais que a fama a exalta,

numa cidade, onde falta

Verdade, Honra, Vergonha.

sexta-feira, agosto 03, 2007

Fora do ar?

Algo de muito estranho no reino da Brasilândia.
Não consigo acessar meu proprio blog.
A loja de assistencia tecncia ambém não consegue.
Outros amigos conseguem, o Acessa Sp consegue.
Diz um amigo que já acionou a Telefonica, mas não teve resposta.
Cada vez mais estão estranhas as explicações nesse mundo do consumo. Dia desses comprei um Cd do Chico Buarque- Cidades- da Biscoito Fino.
Belissmo.
Cheguei em casa e não tocou, deu No disk
Levei na loja e lá tocava. o vendedor explicou que-ahahahaha- talvez a Biscoito Fino não tocasse no meu aparelho
Ué, eu disse, pensei que esses aparelhos existissem pra tocar qualquer CD!!!Sei não, sei não!!!Isos foi na Fnac Pinheiros
E agora esotu postando aqui, vai para o ar, mas eu não consigo entrar.
Não vou aderir ao movimento Cansei, lá de Campos do Jordao e da Oscar Freire, locais que não frequento.
Outra explicação interessante foi da vendedora de uma rmario de área de serviço. Pedi antes apra medir, fui emc asa, verifiquei que 1,85 era o que servia.
Voltei , comprei e chego emc asa dá 1,75. Ligo pra moça que diz que fez isso porque podia ter alguma coluna......!!!!!
Minha senhora, voce mediu 10 cm a mais e não mme avisou que faz isso da sua propria cabeça? Dai eu disse que estava muito cansada e não iria ao Procon, fico com o armariomenor oonde não cabe a escada, que tem 1,85. Isso na loja Evolukit
Estamos na era do consumo, não é mesmo? Danemo-nos
Enquanto isso morrem Bergman, Antonioni e estamos aqui, com a veja e a globo.

domingo, julho 29, 2007

Fascistização da sociedade brasileira

Em seu blog o jornalista Luiz Zanin, critico de cinema do Caderno 2 do Estadão, fala o seguinte:
"Tenho andado muito preocupado com a guinada à extrema-direita de parte considerável da sociedade brasileira. O e-mail que recebi agora há pouco, e reproduzo abaixo, confirma esses temores. Os eventos que ele relata lembram os tempos da ditadura militar, quando artistas do espetáculo Roda Viva foram espancados por membros do CCC (Comando de Caça aos Comunistas). Ainda não se chegou a isso. Mas o clima não é bom. Leiam abaixo e comprovem por vocês mesmos.


SALMO 91 TEVE SESSÃO

TUMULTUADA NO ÚLTIMO SÁBADO

Com casa lotada, o espetáculo Salmo 91 (dirigido por Gabriel Villela, uma adaptação do jornalista Dib Carneiro Neto para o best seller Estação Carandiru, de Drauzio Varella, em cartaz no Teatro do SESC Santana) teve uma sessão tensa no sábado, 21 de julho.

O clima de desconforto se deu devido à presença da senhora Karina Florido Rodrigues, de 30 anos, que se declarou “ex-assessora do deputado Coronel Ubiratan Guimarães”, o policial que comandou o massacre que resultou na morte de 111 presos no Carandiru, há 15 anos. Na semana passada, ela visitou o blog do Salmo 91 e escreveu um longo texto, sem ter visto o espetáculo, tachando-o de "peça de teatro fazendo apologia ao crime".

"Não podemos admitir que isso aconteça", escreveu Karina no blog, "enquanto gritamos aos quatro ventos implorando por justiça aos nossos entes queridos brutalmente assassinados, enquanto lutamos para que o código penal seja alterado, enquanto vivemos revoltados com a impunidade de verdadeiros monstros, temos que abrir os jornais e as revistas que circulam em nosso país e ler que existe uma peça em cartaz que conta as atrocidades de que foram vítimas os bandidos que se encontravam presos."

Democraticamente, pelo blog, a produção da peça (além do diretor, autor e atores) convidou a senhora Karina para assistir ao espetáculo. No sábado, dia 21 de julho, a senhora Karina esteve à tarde na bilheteria do teatro, comprou seus ingressos e, de maneira intimidatória, em altos brados, dirigiu-se à bilheteira dizendo que estava ali para comprar ingressos para a peça, que era um crime, e que se manifestaria ao final do espetáculo.

A mesma senhora Karina enviou correspondência à direção da unidade do SESC Santana apresentando-se como dirigente de uma ONG defensora dos direitos humanos, e que estaria presente na noite do dia 21 para assistir ao espetáculo ao lado de pessoas vítimas da violência urbana e que queria da gerência da unidade direito de se manifestar ao final da sessão. Gerentes e funcionários do SESC Santana, tomados de surpresa, conversaram com os atores e direção da peça e foi decidido que, ao final da sessão, a senhora Karina poderia se manifestar.

Ela compareceu no sábado com um grupo de pessoas que se diziam familiares de vítimas da violência (algumas também se manifestaram no blog da peça, antes de assisti-la). O grupo era formado por várias pessoas – entre elas, destaque para dois homens carecas (depois identificados como pai e filho) trajando roupas pretas de skinheads (jaquetas de couro com estampas de caveiras e dizeres como black wolf).

No Sesc Santana, Karina e seus amigos compraram ingressos para a primeira fila e mandaram a bilheteira avisar a toda a produção que “a Karina chegou". Temendo pela integridade física dos atores, a gerência decidiu colocar seguranças e funcionários na platéia. Nesse clima tenso, a peça transcorreu sem incidentes. Mesmo com o grupo de Karina tendo passado todo o espetáculo falando alto e incomodando a platéia mais próxima deles.

Ao final, o ator Pascoal da Conceição se dirigiu à platéia e explicou que a senhora Karina estava presente e havia solicitado o direito de se manifestar, e que o SESC e as pessoas envolvidas com a montagem de SALMO 91 resolveram, de comum acordo, dar esse direito a ela.

Houve uma surpresa geral e imediatamente um senhor da comitiva da primeira fila gritou: “Cento e onze é um número cabalístico. Deviam morrer cento e onze mil”. Na seqüência, o senhor careca, uniformizado com colete de caveira, sentou-se na beira do palco, e se dirigiu à platéia: “Alguém aqui teve um parente assassinado por esses criminosos?”

Um espectador respondeu: “Eu tive, sim. Meu pai foi assassinado. Mas não é por isso que eu vou sair por ai defendendo a pena de morte pra todo mundo”. O senhor careca se fez de surdo e continuou. “Eu vou sair daqui com a mesma dúvida com que entrei: quando vocês riram e aplaudiram, vocês aplaudiram os atores ou os criminosos?”

Convidada pelo elenco a subir ao palco, a senhora Karina disse que a peça mostrava apenas um dos lados da história, mas que os atores eram ótimos e ela não estava ali para criticar esteticamente a peça. Mas ideologicamente. E para defender o – segundo ela – "injustiçado Dr. Ubiratan, que sempre foi um homem honrado, preocupado com as questões de direitos humanos".

Nesse momento, 80% da platéia se levantou e foi embora. A senhora Karina continuou: “Por que é que vocês não fazem peças falando do lado da polícia?” Uma pessoa da platéia novamente retrucou: “Então escrevam, produzam e façam a sua peça”. O debate prosseguiu com a metade restante da platéia, mais diretor e autor, que também subiram ao palco para, juntamente com o elenco – Rodrigo Fregnan, Ando Camargo, Pedro Henrique Moutinho e Rodolfo Vaz, além de Pascoal da Conceição – se manifestarem diante do público, negando que seja uma peça que faça apologia ao crime e firmando suas intenções humanistas ao abordar tal tema.

Na platéia, foram surgindo cada vez mais manifestações espontâneas e acaloradas de advogados, jornalistas, artistas, entre outros profissionais, todos demonstrando total simpatia pelo espetáculo e tentando apontar equívocos no discurso truculento do grupo de Karina. Ao fim de muita tensão e discussão, Karina e seu grupo se retiraram, enquanto a platéia fez nova sessão de aplausos à equipe do espetáculo.

Porém, no estacionamento do SESC Santana mais um incidente. O rapaz careca, acompanhado pelo pai, fez ameaças a um espectador, que durante o debate disse que era advogado afirmando que o artigo 5º da Constituição Brasileira falava sobre as garantias individuais de todos os cidadãos brasileiros, sem nenhuma distinção, e que era garantida a todos o direito à vida e que não existe na República nada que legitime a pena de morte, ou alguém que possa fazer justiça por si mesmo.

terça-feira, julho 03, 2007

Morar em Sampa


Perto da Folha de S. Paulo, entro num estacionamento, volto meia hora depois, preço R$ 3,00. Descubro que não tenho mais que dois reais em moedas na carteira, pergunto se não pode ficar por R$ 2, o guardião do estacionamento nega peremptoriamente.

Pergunto onde tem banco Itau, tem na Praça da República, ando até lá e sou barrada várias vezes pela porta automatica. Eu e uma moça. Resolve ela ligar pra policia.

Esperamos um tempinho, nos desculpamos com os policiais- afinal tanta coisa grave acontecendo- mas precisamos entrar no indigitado banco onde temos de ter conta. O guarda chama uma gerente, que continua a nos revistar- chave- celular- metal-- uma moça acabara de tirar o cinto de metal na porta, a calça quase caiu mais ela entrou...

Bom, só assim conseguimos entrar, eu saquei 10 reais e, como já fazia uma hora, tive de pagar cinco ao estacionamento. O gerente do tal estacionamento da boca do lixo disse que não tinha jeito e eu disse que esperava que eles nunca precisassem de 1 real na vida, porque iam ver o que é bom pra tosse.

terça-feira, junho 26, 2007

Prosseguem as Invasões Bárbaras

Foto Alaor Filho/AE
Deu no Estadão on-line de hoje, com esta chamada:
Doméstica reconhece adolescentes agressores

RIO - A empregada doméstica Sirlei Dias Carvalho Pinto, de 32 anos, reconheceu informalmente os cinco acusados pelo espancamento contra ela, na manhã de sábado, 23, na Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio de Janeiro. A vítima disse que o único que não participou do ato de vandalismo foi o universitário Leonardo de Andrade, de 19 anos.
Sirlei reconheceu Rubens Arruda, de 19 anos; Felippe de Macedo Nery Neto, de 20 anos; Júlio Junqueira, de 21 anos; e Rodrigo Baçalo, de 21 anos, como os agressores. Todos devem ser indiciados por tentativa de latrocínio.
"Eles bateram várias vezes na cabeça da moça, ou seja, aceitaram o resultado-morte. Além disso, roubaram os pertences, como celular, carteira, que eram a única riqueza que ela possuía. Trata-se de uma tentativa de latrocínio", disse o titular da delegacia da Barra (16º DP), delegado Carlos Augusto Nogueira, que investiga o caso."
Achei interessante a qualificação "adolescentes" para homens de 19, 20 e 21 anos.
Em geral não é usada quando se trata de agressores da oura classe que não esta, cariocas moradores da barra da Tijuca, estudantes de Direito, filhos desse e daquele.
Daquele que disse para as câmeras: "São crianças que trabalham e estudam, não podem ficar presas!"
Disse ainda:"Eu já pedi desculpas".
Esses tipos vivem por ai, depois das tragédias, pedindo "desculpas", vejam bem, não é nem perdão.
Na cadeia, os "adolescentes" disseram que confundiram a domestica com uma prostituta... Claro, não haveria problema se fosse..
A opinião mais lucida foi a do pai da moça agredida. Ele disse que essa violência tem muito a ver com a forma como esses pais tratam os filhos, dando tudo o que querem, e não querendo saber dos seus passos. É isso aí.

segunda-feira, junho 25, 2007

Salve Jorge!


São Jorge é o cavaleiro da cruz que derrota o dragão do mal, da dominação e exclusão. Estamos bem precisados dele, por isso, nunca é demais:

Oração a São Jorge ( ao som de Jorge Benjor)

Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge
para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem,
tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam,
e nem em pensamentos eles possam me fazer mal.
Armas de fogo o meu corpo não alcançarão,
facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar.
Jesus Cristo, me proteja e me defenda com o poder de sua santa e divina graça, Virgem de Nazaré, me cubra com o seu manto sagrado e divino,
protegendo-me em todas as minhas dores e aflições, e Deus, com sua divina misericórdia e grande poder,
seja meu defensor contra as maldades e perseguições dos meu inimigos.
Glorioso São Jorge, em nome de Deus, estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas,
defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza,
e que debaixo das patas de seu fiel ginete meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós.
Assim seja com o poder de Deus, de Jesus e da falange do Divino Espírito Santo.

sábado, junho 23, 2007

O fantástico testamento de Darcy Ribeiro

Texto de Aziz Filho, não sei de quando, nem de onde, celebrando essa figura insubstituível, esse grande brasileiro

Vinte hectares de capim verde, garantia de que nunca mais puxará carroça ou usará sela, liberdade para correr, relinchar ou dormir quando o instinto mandar. O que mais pode um cavalo querer? Para o manga-larga Preto, único animal do sítio Tira-Teima, em Maricá, a 100 quilômetros do Rio, a vida mansa começou há três anos e não tem prazo para acabar. Foi um presente deixado pelo senador Darcy Ribeiro antes de morrer de câncer, em fevereiro de 1997. "Meu cavalo preto fica aposentado, com direito de comer o capim que achar até o fim da vida", escreveu o mais efusivo antropólogo que o Brasil já conheceu, numa carta que gostaria de ver anexada ao testamento que registrou em 1995. Ministro, vice-governador, acadêmico, educador, sociólogo, etnólogo e imperador da Festa do Divino em Montes Claros, o criador de "fazimentos" ousados como o sambódromo não pára de criar surpresas. A última delas virou problema para o juiz Mário Gonçalves, da 7ª Vara de Órfãos e Sucessões do Rio. Responsável pelo inventário de Darcy, que não tinha filhos, o juiz está em dificuldades para bater o martelo sobre a partilha dos bens.Os beneficiários do testamento estão preparados para uma espera ainda maior. Um deles é o médico Frederico Ribeiro, sobrinho mais velho, que herdou um presente de grego. Darcy deixou para ele sua parte na casa onde nasceu, em Montes Claros, Minas. Mas sob uma condição: "... que desmonte a velha casa existente no local e a remonte no sítio pertencente ao seu pai, Mário Ribeiro."
A casa, modesta, fica no centro da cidade e hoje abriga uma instituição de apoio a menores carentes. É feita de adobe moldado por uma armação de madeiras. "Foi uma sacanagem dele com o Fred, para criar problema mesmo", conta o sociólogo Paulo Ribeiro, irmão de Frederico. A justificativa de Darcy para insistir na inusitada cláusula é outra piada: "Ele queria a casa no sítio para seu fantasma assustar os visitantes homens e adular as mulheres", recorda Paulo.Homem fede - A implicância com os homens e a paixão pelas mulheres, algumas das incontáveis manias de Darcy, são evidentes no testamento. Paulo, o parente mais querido, foi o único herdeiro masculino, já que não se pode classificar Frederico como herdeiro. Paulo recebeu uma casa no sítio Tira-Teima, onde reina o cavalo Preto. Além do sobrinho e da Fundação, só há mulheres no testamento. "Ele dizia que não deixaria nada para os homens porque homem fede muito", diz Paulo. "A loucura dele pelas mulheres não é folclore. Ganhar uma moça de 20 e poucos anos, mesmo já velho, era fácil.
Ele era danado", atesta a amiga Tatiana Memória, vice-presidente executiva da fundação, de 72 anos. Ela recebeu de Darcy o usufruto vitalício do coqueiral do sítio de Maricá. "Fiquei brava porque não entendo disso nem tenho dinheiro para manter o sítio. Ele fez uma carta tirando o maldito usufruto, mas não registrou no cartório", diz.O professor usava o cavalo para passear de charrete em Maricá - sempre ao lado de mulheres, claro. "Ele dizia que o cavalo jamais voltaria a ser escravo de ninguém", conta o caseiro Marcos Antônio da Costa. Marcos cuida do sítio desde 1989 e, por ser homem, ficou fora do testamento. "Mas eu herdei uma grande lição de vida. Ele me dizia que viver com profundidade vale muito mais do que qualquer imóvel", contenta-se.Maricá foi o cenário de uma das maiores travessuras de Darcy. Em 1995, ele enlouqueceu os médicos do Hospital Samaritano, no Rio, ao fugir da UTI. Depois de 21 dias de internação para se tratar do câncer, ele deixou o hospital para se esconder em sua casa em formato de oca indígena na praia de Maricá, projetada por Oscar Niemeyer. "No hospital só tinha gente querendo morrer, eu quero viver", justificou. Acabou vivendo mais dois anos, até ser vencido pela "bolinha maligna", como ele definiu o câncer que já lhe tirara um pulmão em 1974.
A casa da praia ficou para a cunhada Jaci, casada com Mário Ribeiro, único irmão do senador. A exigência: após a morte da cunhada, deve ser transferida para suas quatro filhas. Os quatro filhos homens não ficam nem com um tijolo. "Isso não tem valor legal porque os oito filhos são herdeiros", observa o sobrinho preferido. Darcy ainda tinha em Maricá um sobrado com quatro pequenos apartamentos. As herdeiras são quatro de suas melhores amigas: Theresa Teixeira, Maria de Nazareth Gama e Silva, Gisele Moreira e Irene Ferraz. Tatiana Memória garante que, entre as quatro, apenas uma foi namorada de Darcy, mas não revela qual.Theresa Teixeira, sua chefe de gabinete em Brasília, responde a processo por apropriação indébita por ter retirado R$ 146 mil da conta de Darcy, no dia de sua morte. Ela apresentou uma carta assinada pelo senador autorizando o saque, mas a carta está em perícia a pedido da Justiça. Mais uma confusão.Os bens mais valiosos de Darcy foram deixados para a fundação administrada por Tatiana Memória: um apartamento na praia de Copacabana, os livros, arquivos, obras de arte e o equivalente a R$ 470 mil depositados na Suíça, fruto da venda de seus livros na Europa e de um fundo de garantia que recebeu da OEA. Cerca de R$ 240 mil já foram usados por Tatiana para comprar a atual sede da Fundação Darcy Ribeiro, um casarão em Santa Teresa, no Rio.
O advogado Wilson Mirza, que acompanhou Darcy desde os tempos do exílio, é o testamenteiro, responsável por zelar pelo cumprimento das vontades do amigo. Ele se lembra da descontração que tomou conta do apartamento de Darcy quando ele ditou seu testamento. O clima era de velório e os amigos não escondiam a consternação pelo fato de, pela primeira vez, Darcy admitir a hipótese da morte. "Ele sentiu o peso e foi logo dizendo: 'Vocês não fiquem aí com essas caras fúnebres porque eu não vou morrer ainda, tenho de escrever um livro antes.' Era um homem muito diferente", recorda Mirza. Darcy só perderia a luta contra o câncer dois anos depois. Nesse período, escreveu não apenas um, mas quatro livros. Sobrou tempo para escrever um livro de poesia: Eros e Tanatos, pela Record. Se são poemas eróticos? "Eróticos demais. Eu quase não publiquei, mas os poetas que consultei me convenceram a publicar. Darcy virou poeta no finzinho da vida", diz Tatiana.
A fiel escudeira de Darcy no projeto dos Cieps espanta a idéia de que ele tinha medo da morte. O que o "fazedor de coisas" abominava, segundo Tatiana, era a idéia de não mais realizar, dizer adeus aos "fazimentos". E não mais poder divertir o mundo ao seu redor com lições bem-humoradas de amor à vida, como as frases que usava para explicar seus arroubos intelectuais. "Mais vale errar se arrebentando do que poupar-se para nada", dizia o poeta Darcy.